quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Morreu Maria Schneider, protagonista de "Último Tango em Paris"

A atriz Maria Schneider, protagonista com Marlon Brando do filme "Último Tango em Paris", que provocou escândalo na década de 70, morreu nesta quinta-feira em Paris aos 58 anos em consequência de uma longa doença, informou a família.

"Maria morreu esta manhã em Paris após uma longa doença", declarou um parente da atriz, que tinha 19 anos quando protagonizou o filme dirigido pelo cineasta italiano Bernardo Bertolucci, que estreou em 1972.

Segundo o jornal "Le Parisien", a atriz estava com câncer e morreu em uma clínica de Paris. Ela será enterrada no famoso cemitério Père-Lachaise, na capital francesa.

Schneider atuou em mais de 50 filmes em sua carreira. Seu último trabalho foi no filme "Cliente", de 2008. Além de protagonizar "Último Tango em Paris" ela também trabalhou com o diretor Michelangelo Antonioni em 1975 em "Profissão: Repórter".


Divulgação/MGM
Maria Schneider aos 19 anos em cena do polêmico filme "O Último Tango em Paris"
Maria Schneider aos 19 anos em cena do polêmico filme "Último Tango em Paris"

A internet usada para fazer o mal

Por Scott Shane em 3/2/2011
Reproduzido do Estado de S.Paulo / The New York Times, 2/2/2011, tradução Celso M. Paciornik

O medo é a ferramenta tradicional para o ditador manter o povo sob controle. Mas, ao cortar os serviços de internet e de comunicações sem fio no Egito, no fim da semana passado, após enormes protestos de rua, o presidente Hosni Mubarak traiu seu próprio medo – o de que Facebook, Twitter, laptops e telefones inteligentes pudessem fortalecer seus oponentes, expor suas fraquezas ao mundo e derrubar seu regime.

Mubarak tinha motivos para estar alarmado. Sob muitos aspectos, o novo arsenal de redes de relacionamento social ajudou a acelerar a revolução na Tunísia, que impeliu o presidente Zine El Abidine Ben Ali, que estava havia 23 anos no poder, a partir para o exílio inglório e acendeu uma conflagração que se espalhou pelo mundo árabe numa velocidade alucinante.

Foi um símbolo apropriado disso o fato de um blogueiro dissidente com milhares de seguidores no Twitter, Slim Amamou, ter sido catapultado em questão de dias das câmaras de interrogatório do regime de Ben Ali ao cargo de ministro da Juventude e dos Esportes do novo governo. Foi um marco da incerteza em Túnis o fato de ele ter saído do governo na quinta-feira (27/2).

O levante na Tunísia oferece o mais recente estímulo de uma ideia confortadora: que as mesmas ferramentas da internet que tantos americanos usam para se comunicar com colegas universitários e postar pensamentos fugazes têm um papel muito mais nobre como flagelo do despotismo. Afinal, apenas 18 meses atrás, essas mesmas tecnologias foram saudadas como um fator na Revolução Verde do Irã, os eletrizantes protestos de rua que se seguiram à contestada eleição presidencial.

No entanto, desde que a revolta fracassou, o Irã tornou-se uma história edificante. A polícia iraniana tratou de seguir zelosamente as pistas eletrônicas deixadas por ativistas, o que a ajudou a executar milhares de prisões na repressão que se seguiu. O governo chegou a "terceirizar" sua caçada aos inimigos, postando na web as fotos de manifestantes não identificados e convidando os iranianos a identificá-los.

"O governo iraniano tornou-se muito mais propenso ao uso da internet para perseguir ativistas", disse Faraz Sanei, que monitora o Irã para a ONG Human Rights Watch. "A Guarda Revolucionária, poderosa força política e econômica que protege o regime dos aiatolás, criou um centro de vigilância online e acredita-se que esteja por trás de um ‘ciberexército’ de hackers que pode ser lançado contra os adversários", disse ele.

Ferramentas

Regimes repressivos de todo o mundo podem ter ficado atrás de seus adversários, nos últimos anos, no aproveitamento de novas tecnologias – o que não é inesperado quando autocratas envelhecidos enfrentam oponentes mais jovens e mais antenados. No entanto, em Minsk, Moscou, Teerã e Pequim, os governos começaram a escalar a íngreme curva ascendente e a usar as novas ferramentas da internet para seus próprios fins antidemocráticos.

A tendência provocou um debate sobre se está errada a sabedoria convencional de que a internet e as redes sociais inclinam a balança de poder em favor da democracia. Um novo livro, The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom ("A ilusão da internet: o lado escuro da liberdade na internet", em tradução livre), de um jovem pesquisador americano de origem bielo-russa, Evgeny Morozov, descreve exemplos e mais exemplos de ditadores que encontraram modos de usar a nova mídia em seu proveito.

Afinal, os muitos fatores que deram tamanho sucesso comercial ao Facebook e sites similares interessam a uma polícia secreta. As postagens em redes sociais e Twitter de um dissidente são um guia cômodo para suas visões políticas, sua carreira, seus hábitos pessoais e sua rede de aliados, amigos e familiares com ideias semelhantes. Um policial surfando na web pode compilar um dossiê sobre um adversário do regime sem os trabalhos de vigilância de rua e grampos telefônicos requeridos no mundo pré-internet.

Se o Egito de Mubarak recorreu ao instrumento bruto tradicional contra dissensões em uma crise – cortar por completo as comunicações –, outros países mostraram maior sofisticação. "Na Bielo-Rússia, agentes da KGB, a polícia secreta que preservou seu nome da era soviética, citam rotineiramente comentários de ativistas no Facebook e de outros sites durante os interrogatórios", disse Alexander Lukashuk, diretor do serviço Radio Free Europe/Radio Liberty, da Bielo-Rússia.

Lukashuk relatou que, no mês passado, investigadores que apareceram no apartamento de uma fotojornalista bielo-russa zombaram dela. Eles disseram que, por ela ter declarado na internet que eles realizavam suas buscas à noite, eles resolveram vir de manhã.

"Na Síria, o Facebook é agora uma grande base de dados para o governo", disse Ahed al-Hindi, ativista sírio que foi preso em um cibercafé de Damasco, em 2006, e saiu do país depois de ser solto. Hindi, hoje na ONG CyberDissidents, com sede nos EUA, disse acreditar que o Facebook está fazendo mais bem do que mal, ajudando ativistas a formarem organizações virtuais que jamais poderiam sobreviver se eles tivessem de se reunir pessoalmente. "No entanto, os usuários precisam estar cientes de que estão falando tanto com seus opressores como com seus amigos", disse ele.

Widney Brown, diretor da Anistia Internacional, disse que os serviços de relacionamento, como a maioria das tecnologias, são neutros. "Não há nada de determinístico nessas ferramentas – na imprensa de Gutenberg, nos aparelhos de fax ou no Facebook", disse Brown. "Eles podem ser usados para promover os direitos humanos ou para solapá-los."

Esse é o ponto defendido por Morozov, de 26 anos, um pesquisador visitante da Universidade Stanford. Em The Net Delusion, ele oferece uma resposta aos "ciberutópicos" que supõem que a internet, inevitavelmente, alimenta a democracia. Ele cunhou o termo "spinternet" (de "spin", virada) para captar a manipulação da web por governos que estão começando a dominar seu uso.

Recomendações

Na China, disse Morozov, milhares de comentaristas são treinados e pagos. Daí o apelido de o "Partido dos 50 Centavos", para postarem comentários a favor do governo e afastarem as críticas online feitas ao Partido Comunista.

Na Venezuela, o presidente Hugo Chávez, após inicialmente denunciar comentários hostis no Twitter como "terrorismo", criou sua própria conta no Twitter – uma mistura divertida de política e autopromoção que tem hoje 1,2 milhão de seguidores.

Na Rússia, observou Morozov, o primeiro-ministro Vladimir Putin conseguiu cooptar vários empreendedores destacados em novas mídias, entre os quais Konstantin Rikov, cujos muitos sites agora se inclinam fortemente em seu favor e cujo documentário anti-Geórgia tornou-se viral na internet.

Morozov reconhece que as redes sociais "decididamente ajudam os manifestantes a se mobilizarem". "No entanto, estarão tornando os protestos mais prováveis? Não creio", disse. No Egito, ao que parece, pelo menos alguns ativistas compartilham da cautela de Morozov sobre a natureza da nova mídia.

Um folheto anônimo de 26 páginas que circulou no Cairo com recomendações práticas aos manifestantes, na semana passada, segundo noticiou o jornal The Guardian, instruía ativistas a passá-lo adiante por e-mail e fotocópia, mas não por Facebook ou Twitter, porque esses sites estavam sendo monitorados pelo governo.

Mubarak, concluindo que era tarde demais para um mero monitoramento, desconectou o país totalmente da internet. Foi uma medida desesperada de um autocrata que não aprendeu a usar a ferramenta que seus adversários adotaram.

"Quanto maior o público, menor a complexidade do filme"

Juan Carlos Valdívia, diretor boliviano, fez um filme autoral e ganhou muitos prêmios estrangeiros. Ele gostaria que a América Latina passasse a exportar mais suas histórias, e não tanto suas misérias

LAURA LOPES
Mônica Wojciechowski
Valdívia ficou três anos em jejum de cinema. Retornou à ativa com um filme totalmente autoral

O diretor boliviano Juan Carlos Valdívia estava como que convalescente, doído e machucado depois de uma produção de sucesso, mas pela qual teve que fazer muitas concessões. American Visa, de 2005, trouxe a desilusão por que passa todo jovem diretor que almeja independência e autoridade sobre sua obra. "O filme acabou virando cinema de marketing, que está destruindo o cinema (de arte)", diz. Depois disso, ficou quase três anos num "inverno" cinematográfico, sem produzir ou assistir cinema. Eis que num momento de iluminação, resolveu que deveria escolher entre se renovar ou morrer como artista. "Decidi fazer um filme que só eu poderia fazer", afirma. Em seis meses, escreveu o roteiro, rodou e finalizou Zona Sur, longa que ganhou prêmio de melhor diretor e roteiro em Sundance na categoria cinema mundial, melhor ator, roteiro e prêmio especial do júri no festival de Guadalajara, e esteve na seleção oficial dos festivais de Tóquio, Miami, Berlim, Huelva (Venezuela) e Roma. Aqui no Brasil, o filme, finalizado há um ano e meio, foi exibido no Festival do Rio, em setembro, e no Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, em julho.

Zona Sur se passa praticamente só dentro da casa de uma família abastada em crise. A mãe, Carola, é divorciada e vive com seus três filhos, Andrés, Bernarda e Patricio, e dois empregados, Wilson e Marcelina – índios Aymara. Todas as cenas são de planos longos, ou seja, não há cortes dentro de uma mesma sequência: a câmera explora todos espaços do set, mostra os detalhes, foge dos personagens e volta a eles como se fosse um espectador curioso. Ela registra ao mesmo tempo em que explode na tela os símbolos da aristocracia de La Paz, que está em franca decadência.

Carola é uma mulher ocupada pelo trabalho, que aparentemente não dá muito retorno financeiro. Ela não paga o mordomo há seis meses – mesmo sendo ele a pessoa que realmente controla a casa – e acaba por se afundar em dívidas, até com o vendedor de produtos do campo. Durona e controladora, às vezes se revela amorosa e permissiva. Valdívia não toma partido do comportamento deste ou daquele personagem e, com esse afastamento, acha que sua crítica é ainda mais contundente.

"A câmera é circular para enfatizar que está sempre no mesmo lugar", afirma – assim como o círculo de percalços que recobre a família. Sua história não é uma "guilhotina" sobre a elite boliviana. Pelo contrário, como é aberta, incentiva a refletir. Além do uso incomum da câmera, Valdívia ousa no enredo. Nenhuma cena é, necessariamente, consequência de alguma anterior. Ele não trabalha com um enredo tradicional, mas expõe uma série de fatos que revelam o que se passa com a família. Os diálogos, e os silêncios, mostram o que aquelas pessoas estão pensando, seus medos, preconceitos, sentimentos e planos. "Quem disse que o cinema foi feito apenas para contar histórias?", ele questiona "A TV, a internet, tudo está contando história. O cinema tem muito mais possibilidades", ele diz. Para o diretor, a história é importante, mas como um veículo para outras coisas. No caso de seu último filme, ela é menos importante como enredo e mais importante como base para a exploração da fotografia e dos conflitos da instituição familiar.

A casa – a toda vazada, iluminada, com espelhos, vidros e muito branco – é como uma personagem do filme. "Quis retratar a decadência rodeada de branco, com os códigos aristocráticos, como conchas e pérolas", diz Valdívia. E as personagens do filme, todas amarradas pela matriarca Carola, parecem presas às paredes daquele imóvel suntuoso, e a uma vida de riquezas que não existe mais.

O filho mais novo, Andrés, é personagem autobiográfica. O menino é ativo, sempre está questionando e interferindo nas ações dos adultos. Assim como o diretor quando criança, pinta, vende suas pinturas aos amigos dos irmãos mais velhos e tem boas recordações de quando sua mãe tinha tempo para brincar com ele e o ensinou a "voar". O diretor é como o garoto, o único ali que se sente liberto da casa. Andrés passa boa parte do tempo sobre o telhado conversando com um amigo invisível. Esse olhar descolado do que se passa dentro do imóvel é a distância que o diretor precisa para criticar a família da elite boliviana, que é a sua e muitas outras de sua La Paz contemporânea.

Juan Carlos Valdívia veio a São Paulo para a Semana de Orientação da Academia Internacional de Cinema (AIC), que oferece palestras gratuitas até sexta-feira (clique para ver a programação). Ele contou que, no voo para a capital paulista, recebeu um telefonema triste – sua mãe havia morrido. "Ela me ensinou a voar e eu estava no ar quando recebi a notícia", ele diz. "Existem metáforas e imagens que a vida nos dá para tentarmos entender por que estamos aqui", afirma. Ele conversou com ÉPOCA no dia seguinte à palestra, na sede da AIC.
ÉPOCA – Zona Sur é um pouco autobiográfico, mas fala muito da atual situação pelo qual atravessa seu país. O que, além de alguns comportamentos de Andrés, fez parte da sua vida?
Juan Carlos Valdívia – O filme é uma espécie de Frankenstein (risos). A família tem um monte de pedaços, uma forma de recuperar minha memória. Eu conheço bem todos os personagens e situações, e a partir disso fiz algumas reinvenções. Eu não queria copiar fórmulas. Com o filme, vi que posso inventar, reinventar, inovar. E inovar falando de mim, da minha família e do meu país. Eu também quis romper com o cinema de denúncia, de crítica social, que eu chamo de cinema da "pornomiséria", que exporta pobreza e miséria. A crítica social não tem que focar somente nisso.


Arquivo
Em pé, da esq. para a dir.: Wilson (Pascual Loayza), Marcelina (Viviana Condori), Valdívia. Sentados: Bernarda (Mariana Vargas), Patricio (Juan Pablo Koria), Carola (Ninón del Castillo) e Andrés (Nicolás Fernández)
ÉPOCA – Este é um filme que inicia uma nova etapa da sua vida como diretor. E, ao mesmo tempo em que sua mãe foi retratada no filme, e de certa maneira homenageada, ela faleceu há poucos dias. O filme é como um ritual de passagem profissional e emocional para você?
Valdívia – Na verdade, eu terminei o filme há um ano e meio e minha mãe morreu no domingo (30). E não é uma homenagem... o filme tem a figura do oxímoro (paradoxo), porque é contraditório. Tem uma homenagem, mas critica. Aquela mansão é doce e envenenada. Foi uma decisão consciente dar ao filme esses sentidos contraditórios.

Há muitas famílias decadentes como essa, que vivem num país que está sofrendo uma transformação social e seria fácil criticar uma família de classe dominante. Ao mesmo tempo, estou criticando a minha própria família e fazendo um retrato de meu país. A câmera gira de uma maneira implacável e cruel. Ela reflete o que essa família passa.

ÉPOCA – Você não toma partido no filme, mantém uma distância das questões...
Valdívia – Há uma distância e a distância é sempre crítica.

ÉPOCA – Quanto tempo demorou para fazer o filme?
Valdívia – Seis meses. Fazer um filme é a expressão de um certo momento da vida. O homem muda, por isso gosto de fazer rápido meus filmes, porque (se demorar) eu mudo e quero mudar o filme. É importante respeitar o momento em que se cria.

ÉPOCA – Quando o filme vai estrear no Brasil? Você disse que tem alguns distribuidores interessados.
Valdívia – Não sou eu que estou tratando com os distribuidores. Mas o filme foi bem acolhido em todos os lugares em que foi exibido, e será lançado em vários países da América Latina – Peru, Uruguai, Argentina, México. Estamos (o cinema) precisando de novas propostas na América Latina e, quando há lago diferente, as pessoas abraçam. E é bom que estejamos em uma fase em que países pouco expressivos no cinema, como Bolívia, Chile e Peru, estejam produzindo bons filmes.
Arquivo
Andrés quer voar com sua mãe, e vive no telhado da casa carregando suas "asas"
ÉPOCA – Quais países você acha que têm uma indústria cinematográfica forte e com produções realmente importantes na América Latina?
Valdívia – México, Argentina e Brasil são os mais importantes, e Cuba, que é uma espécie de Meca do cinema por causa de suas escolas. O Brasil é meio isolado do resto...

ÉPOCA – Talvez por causa do idioma...
Valdívia – Sim, por causa do idioma, mas todos esses países têm coisas em comum.

ÉPOCA – Você critica muito a indústria do entretenimento americana...
Valdívia – Os filmes comerciais são cada vez maiores, mais caros e mais vazios. O 3-D é visto como a última Coca-Cola do deserto (risos). As coisas simples não nos comove mais e é perigoso perder a capacidade de ver e ouvir. A palavra é importante, mas estamos sendo invadidos por imagens, é um assalto aos nossos sentidos. Mas tem um público que procura algo mais contemplativo... Eu vivo de publicidade, sou prostituto profissional (risos). Há regras muito claras na publicidade e não posso converter meus filmes num comercial de TV, não posso seguir as mesmas regras. Eu precisava de um espaço na minha vida para um filme como Zona Sur. Agora eu não estou disposto a fazer concessões. É o primeiro filme que ficou exatamente do jeito que eu queria.

ÉPOCA – Como você enxerga o cinema latinoamericano hoje? Sobre o que ele fala e sobre o que ele deveria falar mais?
Valdívia – O cinema tem que ser completo. O público quer um cinema light e de entretenimento, por isso também tem que fazer esse tipo de filme. Mas são importantes as obras que têm valor artístico porque marcam horizontes, e é o que me interessa fazer. Temos um sistema muito cruel e muito difícil em que é preciso fazer muitas concessões e jogar as regras das distribuidoras que controlam o mercado. A mim não interessa isso, o que me interessa é criar. Por que eu vou querer um público tão amplo? Quanto maior o público, menor a complexidade do filme.

ÉPOCA – E o que responderia se fosse convidado a dirigir um filme nos EUA?
Valdívia – Tenho uma oferta de um produtor para dirigir um filme em inglês em países sulamericanos, o roteiro está pronto. Seria para fazer depois do meu próximo filme, que é uma parceria com o México. Este projeto (americano) é interessante porque é em inglês, mas independente, sobre um tema latino e eu terei autoridade sobre ele. Pode ser uma transição interessante a esse mundo (produções americanas). O importante é seguir crescendo, e estou com boas perspectivas.

ÉPOCA – Com quais outros países você tem vontade de trabalhar em parceria?
Valdívia – Sempre fiz um esforço muito grande para conseguir fazer meus filmes e pela primeira vez vejo uma luz, e um monte de possibilidades (risos). Eu tenho compromisso com a qualidade, isso é o que me interessa. Zona Sur abriu me abriu as portas e agora tenho mais facilidade. O que virá no futuro? Ainda não sei. Eu digo que o êxito não é ter sucesso ou dinheiro. O êxito é quando as coisas são fáceis, quando vêm de uma maneira orgânica e fácil.
ÉPOCA – Existe algum país que tenha uma indústria de cinema que possa servir de exemplo aos latinoamericanos?
Valdívia – A Índia, que é um país continental, tem uma indústria imensa, um cinema só deles. E, dentro, tem pequenas indústrias regionais, de documentários, filmes de arte... O sudeste asiático também, a Coreia está se saindo bem. A França é sempre uma referência, porque impõe resistência cultural (ao cinema estrangeiro) e encara o cinema como assunto de Estado.

Fazer cinema é um ato de resistência cultural. Essa resistência é muito importante para este lado do mundo. Americanos e europeus estão filmando na Bolívia. Não só nossos cenários, como nossas histórias interessam a eles. Um filme como Avatar, por exemplo, deveria ter sido feito aqui (na América Latina). Para os Estados Unidos, aquela história é uma fábula, para nós é real. Tem todo um mundo indígena aqui. Nunca conseguimos fugir desse colonialismo, por isso temos que contar a nossa história.

ÉPOCA – Porque se o americano conta a nossa história, será a visão dele, e não nossa...
Valdívia – E você sabe como é a visão deles... (risos)

Veja trailer do Filme : http://www.youtube.com/watch?v=vBm3q9d_GMI

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A crise egípcia abre o debate sobre o “botão vermelho” na internet

No dia 28 de janeiro, uma sexta-feira, o governo egípcio cortou o acesso de 80 milhões de pessoas à internet numa tentativa de sufocar a reprodução viral de mensagens de apoio à rebelião popular contra o presidente Hosni Mubarak, há 30 anos no poder.

Foi um novo caso de bloqueio da internet por motivos políticos. O primeiro foi em 2009, quando a China proibiu o acesso à internet e à telefonia móvel na província de Xinjiang, no noroeste do país, durante protestos antigovernamentais.

Também em 2009, o governo do Irã bloqueou o acesso à internet em determinadas regiões do país para conter protestos populares. Mas a medida não chegou a afetar as comunicações telefônicas e nem o funcionamento do sistema bancário e financeiro.

O caso egípcio é muito mais grave do que o chinês e o iraniano porque teve alcance nacional e coloca uma inquietante dúvida para os dois bilhões de usuários da internet no mundo inteiro: até que ponto governos ameaçados pelo descontentamento popular podem recorrer ao mesmo expediente do presidente Mubarak?

A resposta é, infelizmente, podem sim. Os governos podem usar a força para impedir que as pessoas usem a internet e a telefonia móvel para divulgar mensagens políticas ou convocar manifestações por meio de mensagens instantâneas. As autoridades podem cortar as linhas mestras (backbones) impedindo o contato internacional e regional, mas a comunicação local, por meio de intranets, continua possível.

A internet e a telefonia móvel se tornaram ferramentas políticas altamente eficientes e estão viabilizando um novo fenômeno político: o das explosões de descontentamento popular, como acaba de acontecer também na Tunísia, onde um regime do presidente Zine El Abidine Ben Ali foi derrubado em dezembro passado após uma onda de protestos populares contra a falta de democracia no país.

A facilidade de comunicação interpessoal, por meio de dispositivos eletrônicos leva as pessoas a compartilhar cada vez mais as suas frustrações políticas, criando condições para o surgimento de explosões de descontentamento que fogem inteiramente aos padrões políticos convencionais, o que tem deixado as autoridades desnorteadas.

Em janeiro de 2001, milhares de filipinos protagonizaram o primeiro grande protesto político viabilizado pelas novas tecnologias. Eles usaram torpedos, via celular, para convocar um protesto numa avenida central da capital Manila usando a frase "GO 2EDSA. Wear Black" (traduzindo: "Vá para a Avenida Epifanio de los Santos. Vista-se de preto"). O presidente Joseph Estrada renunciou e inaugurou a lista de governantes vitimados pela telefonia celular e pela internet.

Tanto no caso da Tunísia como no do Egito, a imprensa local acabou atropelada pelos acontecimentos porque não descobriu a tempo como as pessoas estavam se comunicando e nem prestou atenção ao crescimento do descontentamento popular, alimentado pela troca de informações via web e torpedos.

O bloqueio da internet e da telefonia celular são medidas de alcance parcial porque não podem ser mantidas durante muito tempo. Sem acesso à rede mundial de computadores e sem poder usar os telefones móveis, a economia acaba sofrendo as conseqüências e o isolamento internacional do país afeta também áreas vitais, como comércio exterior e segurança.

É possível bloquear apenas o acesso à redes sociais como Facebook ou Twitter, como aconteceu nos primeiros dias da revolta egípcia e no caso iraniano. Mas nesse caso os usuários podem recorrer a servidores internacionais ou à ajuda de hackers para violar as proibições de acesso.

Apesar de tudo isso, em países como Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética, China e Alemanha discutem-se as iniciativas para implantar o chamado botão vermelho, por meio do qual os respectivos governantes podem com uma única ação derrubar toda a rede nacional de internet. Esta ação é mais fácil em países com uma estrutura centralizada e onde o governo tem o monopólio dos backbones.

Nos Estados Unidos, o senador Joe Lieberman, independente, está promovendo um projeto chamado "Protecting Cyberspace as a National Asset Act" (Lei de Proteção do Espaço Cibernético como um Bem Nacional) que prevê, entre outras medidas, a implantação de um sistema similar ao do botão vermelho.

A magnitude dos problemas envolvidos em crises como a do Egito mostra que a internet passou a ocupar o papel estratégico que antes era exercido pelos jornais, rádio e televisão quando o descontentamento popular torna-se incontrolável. A grande diferença é que a imprensa apenas publica os fatos, enquanto a internet, além de divulgá-los, também os organiza e promove.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A rede social de desempregados

Por Tatiana de Mello Dias

Está desempregado? Existe uma rede social para você: o Parobook. Em vez das atualizações de status com frases de efeitos, filmes ou reclamações, o Parobook tem pedidos de emprego em várias áreas. O nome vem de “parados” (desempregados em espanhol).

O site é novíssimo mas, segundo o El País, já faz sucesso. A cada minuto sete novos usuários são registrados.

A aparência é igual a do Facebook, exceto pela cor. Além disso, a rede social permite saber quem visitou o perfil. Os criadores planejam novidades, como criar áreas para incluir, por exemplo, o currículo nos perfis.

A ideia, segundo os criadores, não é competir com o LinkedIn — mas, sim, fazer com que “os desempregados não se sintam sozinhos na luta”.

Google coloca 17 museus na internet usando tecnologia do Street View

Kleyson Barbosa 1 de fevereiro de 2011

O Google lançou hoje, 1/02, o Google Art Project, um site que permite que o internauta visite 17 museus de todo o mundo. Usando a tecnologia do Street View, a empresa capturou imagens que recriam as obras e o ambiente dos espaços.

A iniciativa resulta de uma parceria entre a Google e 17 museus localizados em 11 cidades de nove países, como a National Gallery de Londres, o Museum of Modern Art, de Nova York e o Museo Reina Sofia, de Madrid.

Além das mais de mil obras disponíveis para visualização, o projeto disponibiliza também 17 obras em super resolução. Os visitantes do site podem ver detalhes das pinturas muitas vezes até difíceis de seren observados a olho nu. O site também permite que cada cibernauta crie a sua coleção de arte virtual pessoal e compartilhe com outras pessoas.

Veja vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=GThNZH5Q1yY


Pesquisa mira 'carne de laboratório'

No edifício de ciências básicas da Universidade de Medicina da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, o pesquisador Ph.D Vladimir Mironov tem trabalhado por uma década no desenvolvimento de uma carne de laboratório

Especialista em biologia de desenvolvimento e engenharia de tecidos, Mironov, de 56 anos, é um dos poucos cientistas do mundo envolvidos na produção de carne por meio de cultura. Um produto, acredita, que poderia resolver a crise global de alimentos derivada da escassez de terras para produção de carnes à moda antiga.

Pesquisas com carne "in vitro" ou por meio do processo de cultura já estão em andamento na Holanda, mas nos EUA são uma ciência ainda em busca de financiamento e demanda, diz Mironov.

O novo Instituto Nacional para Alimentos e Agricultura, que faz parte do USDA, não irá financiá-lo. Nem o Instituto Nacional de Saúde. "É uma clássica tecnologia que divide opiniões", explica. "Trazer qualquer nova tecnologia ao mercado custa, em média, US$ 1 bilhão. E nós não temos sequer US$ 1 milhão", lamenta.

Diretor do Centro de Biofabricação em Tecidos Avançados do Departamento de Medicina Regenerativa e Biologia Celular, Mironov agora conduz pesquisas basicamente sobre engenharia de tecidos ou sobre o crescimento de órgãos humanos. "Existe o fator 'eca' quando as pessoas descobrem que a carne está sendo criada em laboratório. Elas não gostam de associar tecnologia a alimentos", diz Nicholas Genovese, de 32 anos, um professor visitante da área de biologia celular. "Mas há muitos produtos que comemos hoje considerados naturais, mas que são produzidos da mesma forma". Ele enumera: iogurte, vinho e cerveja. "Mas a sociedade aceitou esses produtos".

Mironov imagina o mundo onde biorreatores do tamanho de uma máquina de café estejam em supermercados fazendo o que ele denominou de "charlem" - Charleston engineered meat, ou carne criada em Charleston.

"Será funcional. Como você gostaria essa carne? Com um pouco de gordura, de suíno ou carneiro? Fazemos o que quiser".

Mironov pegou mioblastos - células embrionárias que se convertem em tecido muscular - de perus e os passou por um banho de nutrientes de soro bovino em uma estrutura de quitosana (polímero comum encontrado na natureza) para desenvolver tecido da musculatura esquelética animal. Mas como garantir a qualidade suculenta e encorpada?

Genovese disse que os cientistas querem adicionar gordura. E também um sistema vascular de modo que o interior das células possa receber oxigênio e permitir o crescimento de um bife - e não apenas tiras de músculo.

A carne produzida pelo método de cultura poderia eventualmente se tornar mais barata que a carne convencional, altamente subsidiada, disse Genovese. E se a sociedade aceitá-la, o futuro terá benefícios.

Segundo o cientista, 30% da área da Terra está associada à produção de proteínas animais em fazendas. "Se iniciarmos as explorações interplanetárias, as pessoas necessitarão produzir alimentos no espaço. Mas você não pode levar uma vaca pra lá", diz. "Precisamos olhar para essas ideias se quisermos o progresso. Caso contrário, ficaremos estagnados. Quem, 15 anos atrás, poderia imaginar o iPhone?"

(Harriet McLeod, da Reuters)

(Valor Econômico, 1/2)