Por Danny O’Brien em 3/5/2011 | |
| Em seu trabalho informativo nos países mais problemáticos, este ano os jornalistas produziram uma mudança radical no uso da Internet e de outras ferramentas digitais. Blogs, compartilhamento de vídeos, mensagens de texto e coberturas ao vivo com telefones celulares mostraram ao mundo imagens das revoltas em massa na praça central do Cairo e na principal avenida da Tunísia. Mas a tecnologia utilizada para a cobertura informativa foi igualada, de certa forma, pelas ferramentas usadas para suprimir a informação. Muitas das técnicas dos opressores mostram uma crescente sofisticação, desde os correios eletrônicos desenhados pelo governo chinês para apoderar-se dos computadores pessoais de jornalistas, até os cuidadosamente articulados ataques cibernéticos a sites de notícias em Belarus. Além disso, permanecem velhas ferramentas de repressão que são tão antigas quanto à própria imprensa, incluindo a prisão de repórteres que publicam na Internet na Síria e o uso de violência contra blogueiros na Rússia. Para comemorar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, em 3 de maio, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) expõe as 10 estratégias mais usadas para a censura à Internet em todo o mundo, e os países que tomaram a dianteira em seu uso. O mais surpreendente sobre estes Opressores da Internet não é a sua identidade – já que são países com notórios antecedentes de repressão –, mas o quão rápido adaptaram velhas técnicas ao mundo da Internet. Nas nações mencionadas anteriormente – Egito e Tunísia – os regimes mudaram, mas os sucessores não dissolveram definitivamente as práticas repressivas do passado. As táticas de outras nações – como Irã, que emprega sofisticadas ferramentas para destruir a tecnologia que evita a censura, e a Etiópia, que exerce monopólio sobre a Internet – são observadas e imitadas por regimes repressivos no mundo. A seguir, as 10 ferramentas mais usadas para a censura na Internet. *** BLOQUEIO DA WEB País em destaque: Irã Muitos países censuram fontes de notícias online usando provedores de Internet locais e canais internacionais para configurar listas negras de sites da rede, e impedir o uso de certas palavras-chave pelos cidadãos. Desde a concorrida eleição presidencial de 2009, no entanto, o Irã aumentou dramaticamente a sofisticação do bloqueio à web, assim como seus esforços para destruir ferramentas que permitam aos jornalistas acessar ou criar conteúdo online. Em janeiro de 2011, os criadores do Tor, uma ferramenta para evadir a privacidade e a censura, detectaram que os organismos de censura do país estavam usando novas e altamente avançadas técnicas para identificar e desmantelar programas de computação contra a censura. Em outubro, o blogueiro Hossein Ronaghi Maleki foi sentenciado a 15 anos de prisão por supostamente desenvolver um programa contra a filtragem na Internet, e capacitar online outros blogueiros iranianos. O tratamento do governo aos repórteres está entre os piores do mundo. Irã e China lideram a lista de 2010 do CPJ sobre os piores carcereiros da imprensa, com um registro total de 34 jornalistas presos por seu trabalho. Pelo investimento em tecnologias para bloquear a web, e a ativa perseguição àqueles que conseguem burlar tais restrições, o Irã está na dianteira em nível mundial. Táticas em prática >> Uma série de métodos repressivos >> Os piores carcereiros do mundo *** CENSURA DE PRECISÃO País em destaque: Belarus A permanente filtragem de populares sites da rede leva, em geral, os usuários a encontrar formas de contornar o censor. Em consequência, muitos regimes repressivos atacam sites da Internet somente em momentos estrategicamente vitais. Em Belarus, o meio de comunicação opositor online Charter 97previu que seu site seria desmantelado durante a eleição presidencial de dezembro. E foi: no dia da eleição, o site foi derrubado por um ataque conhecido como negação de serviço (DOS, por sua sigla em inglês). O ataque DOS impede que um site funcione normalmente mediante uma sobrecarga do servidor com solicitações de comunicação externas. De acordo com os informes locais, os usuários do ISP bielorrusso que tentavam visitar o Charter 97 foram redirecionados para um site falso criado por um desconhecido. A eleição, realizada sem o escrutínio de meios de comunicação críticos como o Charter 97, foi ofuscada por práticas pouco transparentes para a contagem de votos, segundo observadores internacionais. As medidas tecnológicas não foram o único ataque contra o Charter 97: os escritórios do site foram invadidos no início das eleições, e seus editores foram espancados, detidos e ameaçados. Em setembro de 2010, o fundador do site, Aleh Byabenin, foi encontrado enforcado em circunstâncias suspeitas. Táticas em prática >> Bloqueio de sites por uma eleição >> Jornalistas online são alvo de ataques *** ACESSO NEGADO País em destaque: Cuba Avançados ataques tecnológicos contra jornalistas da Internet não são necessários se o acesso à rede é quase inexistente. Em Cuba, as políticas do governo deixaram a infraestrutura local de internet severamente limitada. Apenas uma pequena fração da população tem permissão para o uso de Internet em suas casas, enquanto uma ampla maioria deve utilizar os pontos de acesso controlados pelo governo mediante o registro de identidade, intensa vigilância e restrições de acesso a sites que não sejam de origem cubana. Para escrever ou ler notícias independentes, jornalistas online vão a cybercafés e utilizam contas oficiais de Internet vendidas no mercado negro. Os que conseguem burlar os obstáculos enfrentam outros problemas. Conhecidos blogueiros como Yoani Sánchez têm sido desacreditados em um meio de comunicação acessível a todos os cubanos: a televisão estatal. Cuba e Venezuela recentemente anunciaram a construção de um cabo de fibra ótica entre os dois países que promete incrementar a conectividade internacional de Cuba. Mas não está claro se o público em geral se beneficiará da melhora da conectividade em um futuro próximo. Táticas em prática >> Blogueiros enfrentam grandes obstáculos >> Sánchez chamada de “cyber-mercenária” *** CONTROLE DA INFRAESTRUTURA País em destaque: Etiópia Os sistemas de telecomunicações em muitos países estão fortemente ligados ao governo, o que concede uma poderosa forma de controlar os novos meios de comunicação. Na Etiópia, a companhia estatal de telecomunicações tem o monopólio sobre o acesso à Internet e a linhas telefônicas fixas ou celulares. Apesar de um acordo de administração e reposicionamento com a Telecom França em 2010, o governo ainda é proprietário e dirige a Ethio Telecom, permitindo que censure quando e onde ache necessário. A OpenNet Iniciative, projeto acadêmico global que monitora a filtragem e vigilância na Internet, afirmou que a Etiópia realiza uma filtragem “substancial” de notícias sobre política. Isto se compara à contínua investida da Etiópia contra jornalistas que trabalham fora da rede, quatro dos quais estão na prisão por seu trabalho, segundo antecedentes documentados pelo CPJ. O controle do governo etíope não se estende apenas às linhas de telefone e acesso à Internet. O país também investiu em ampla tecnologia para o bloqueio de satélites, visando impedir que os cidadãos recebam notícias de fontes estrangeiras, como os serviços em idioma amárico da emissora Voz da América – patrocinada pelo governo dos Estados Unidos – e a televisão pública alemã Deutsche Welle. Táticas em prática >> Supressão de notícias sobre as revoltas no Oriente Médio >> Controle sobre todos os meios de comunicação *** ATAQUES A SITES ADMINISTRADOS NO EXÍLIO País em destaque: Mianmar Para jornalistas que foram expulsos de seus próprios países, a Internet é um salvo-conduto que lhes permite continuar informando e opinando sobre sua terra natal. Mas os sites de notícias administrados do exílio também enfrentam censura e obstrução, muitas vezes perpetrados pelos governos de seus países de origem ou seus representantes. Sites no exílio que cobrem notícias em Mianmar enfrentam constantes ataques de negação do serviço. O meio de informação Irrawaddy na Tailândia, a agência de notícias Mizzima na Índia, e a Voz Democrática de Mianmar na Noruega, têm sofrido ofensivas que tem deixado seus sites inutilizáveis ou mais lentos. Os ataques são frequentemente sincronizados com eventos políticos delicados, como o aniversário da Revolução Açafrão, um protesto contra o governo liderado por monges em 2007 que foi violentamente debelado. As autoridades acompanharam seus ataques tecnológicos com brutal repressão. Sites administrados do exílio dependem de jornalistas que estão disfarçados no país, que enviam seus informes de forma sigilosa. Este trabalho secreto é acompanhado de um risco extremo: ao menos cinco jornalistas da Voz Democrática de Mianmar estavam cumprindo longas sentenças de prisão quando o CPJ realizou seu censo anual de jornalistas encarcerados no mundo, em dezembro de 2010. Táticas em prática >> Ataques cibernéticos atingem sites no exílio >> Repressão precede as eleições *** ATAQUES COM MALWARE País em destaque: China Programas de computação que provocam danos (conhecidos também por seu nome em inglês, Malwere) podem ser escondidos em correios eletrônicos aparentemente legítimos e enviados às contas privadas de jornalistas com um convincente, porém falso, cabeçalho. Caso seja aberto pelo repórter, o programa se instala no computador pessoal e pode ser usado de forma remota para espionar as outras comunicações do repórter, roubar seus documentos confidenciais e, inclusive, comandar o computador para que realize ataques online contra outros alvos. Jornalistas que trabalham na e sobre a China têm sido vítimas destes ataques, conhecidos como “pesca com arpão” (spear-phishing) em um padrão de conduta que indica claramente que os alvos foram escolhidos por seu trabalho. Os ataques coincidiram com a entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2010 ao escritor e defensor dos direitos humanos preso Liu Xiabo, e a supressão oficial de notícias que descrevem as revoltas no Oriente Médio. Peritos em segurança para computadores, como Metalab Asia e SecDev, averiguaram que tais programas de computador dirigiam-se especialmente a repórteres, dissidentes e organizações não governamentais. Táticas em prática >> Um falso convite para o Nobel >> Apoderar-se de contas de correio eletrônico *** CRIMES CIBERNÉTICOS DO ESTADO País em destaque: Tunísia sob Ben Ali A censura de correios eletrônicos e redes sociais foi generalizada na Tunísia sob as ordens de Zine el-Abidine Bem Ali, como tem ocorrido em numerosos Estados repressivos. Mas, em 2010, a agência tunisiana de Internet levou seus esforços a um passo adiante, redirecionando os usuários tunisianos a páginas falsas criadas pelo governo para sites como Google, Yahoo e Facebook. Destas páginas, as autoridades roubaram nomes e senhas de usuários. Quando jornalistas online tunisianos começaram a enviar suas notícias sobre a revolta, o Estado usou estes dados para apagar o material. O uso de páginas falsas, uma tática comum de hackers criminosos, está sendo adotada por agentes e apoiadores de regimes repressivos. Enquanto as práticas de crimes cibernéticos parecem ter sido abandonadas com o colapso do governo de Ben Ali, em janeiro, o novo governo não renunciou totalmente ao controle da Internet. Nas semanas que se seguiram, a administração anunciou que continuaria bloqueando sites da Internet que sejam “contra a decência, contenham elementos de violência, ou incitem ao ódio”. Táticas em prática *** PODEROSOS INTERROMPEDORES DA INTERNET País em destaque: Egito sob Mubarak Desesperadamente apegado ao poder, o presidente Hosni Mubarak literalmente fechou o serviço de Internet no Egito em janeiro de 2011, impedindo os jornalistas online de informar ao mundo, e os usuários egípcios de acessar fontes de notícias na rede. O Egito não foi o primeiro a cortar sua conexão à Internet para restringir a cobertura de notícias: o acesso à Internet foi cortado em Mianmar durante uma revolta de 2007, enquanto a região chinesa de Xinjang o teve bem limitado, ou negado o acesso durante um conflito étnico em 2010. O desintegrado governo de Mubarak não pode sustentar sua proibição por muito tempo: o acesso à Internet voltou aproximadamente uma semana depois. Mas a tática de desacelerar ou interromper o acesso à rede tem sido copiada desde aquela época por governos como Líbia ou Bahrein, que também enfrentam revoltas populares. Apesar da queda do regime de Mubarak, o governo militar de transição mostrou suas próprias tendências repressivas. Em abril, um blogueiro que escreve sobre temas políticos foi sentenciado a três anos de prisão por insultar as autoridades. Táticas em prática >> Egito desaparece da Internet *** DETENÇÃO DE BLOGUEIROS País em destaque: Síria Apesar dos ataques generalizados com avançada tecnologia contra jornalistas da web, as detenções arbitrárias continuam sendo a forma mais fácil de interromper os novos meios de comunicação. Blogueiros e repórteres de Internet constituem cerca da metade da lista de jornalistas presos elaborada pelo CPJ em 2010. A Síria continua como um dos locais mais perigosos do mundo para manter um blog pelos repetidos casos de curtos e longos períodos de detenção. Em uma decisão a portas fechadas, em fevereiro, um tribunal sírio sentenciou a blogueira Tal al-Mallohi a cinco anos de prisão. O blog de al-Mallohi abordava os direitos palestinos, as frustrações dos cidadãos árabes com seus governos e o que ela percebia como um estancamento do mundo árabe. Em março, o jornalista online Khaled Elekhetyar foi detido por uma semana, enquanto o veterano blogueiro Ahmad Abu al-Khair foi detido pela segunda vez em dois meses. Táticas em prática >> Um blogueiro se converte em espião >>A detenção entre outras ferramentas *** VIOLÊNCIA CONTRA JORNALISTAS DE INTERNET País em destaque: Rússia Em países com altos índices de violência contra a imprensa, os jornalistas da rede se converteram no mais recente alvo de ataques. Na Rússia, uma brutal agressão em novembro de 2010 deixou o proeminente repórter de finanças e blogueiro Oleg Kashin tão ferido que precisou ser hospitalizado e permaneceu certo tema em coma induzido. Ninguém foi preso pelo ataque ocorrido em Moscou, o que reflete os fracos antecedentes da Rússia na resolução de ataques contra a imprensa. A agressão contra Kashin foi o mais recente de uma série de ataques contra jornalistas da web que incluem o realizado em 2009 contra Mikhail Afanasyev, editor de uma revista online na Sibéria, e o assassinato de Magomed Yebloyev, proprietário de um site de Internet na Ingushetia, em 2008. | |
sábado, 7 de maio de 2011
As 10 ferramentas dos opressores da internet
sexta-feira, 6 de maio de 2011
A decisão histórica do STF
Por Luciano Martins Costa em 6/5/2011 | |
| A evidente manchete em toda imprensa nacional, nas edições de sexta-feira (6/5), é a decisão do Supremo Tribunal Federal que reconhece as relações homoafetivas como uma nova espécie de família. Os jornais foram buscar todo tipo de opinião, desde juristas a representantes de crenças religiosas, para debater a extensão de direitos civis a parceiros do mesmo sexo que vivem em concubinato. A partir da votação unânime do Supremo, parceiros de mesmo sexo que vivem juntos passam a ter direitos familiares iguais aos dos casais heterossexuais, como o de adotar filhos legalmente, receber pensão alimentícia, herança em caso de morte do companheiro ou companheira, partilhar plano de saúde e a declaração do Imposto de Renda. De maneira geral, a imprensa tratou a notícia do ponto de vista mais progressista, evitando contemporizações com manifestações retrógradas como a que celebrizou recentemente o deputado Jair Bolsonaro. Mas a própria decisão da Suprema Corte impõe aos jornalistas alguns desafios inéditos. A começar pela nomenclatura. Omissão legislativa Pode-se, por exemplo, usar a palavra concubinato para definir a situação legal de duas pessoas do mesmo sexo que vivem juntas? É correto dizer, como fazem os jornais, "casal homossexual"? Ou seria mais correto chamar de "dupla"? Como conciliar os conceitos de orientação sexual e compleição sexual dos indivíduos? Varrendo-se para um lado as inevitáveis manifestações dos representantes eclesiásticos, que nunca vão aceitar a separação entre igreja e Estado, é interessante observar como a decisão histórica foi recebida por diferentes jornais. O Globo foi o que deu o material mais extenso, distribuindo as reportagens ao longo de quatro páginas. Por outro lado, são claras as distinções entre as coberturas do Estadão e da Folha de S.Paulo, esta claramente mais festiva e colorida. Também não faltaram referências ao fato de que foi preciso o Judiciário se manifestar em tema sobre o qual o Legislativo vem se omitindo há anos. Mais um round A decisão histórica do STF coloca o Brasil em pé de igualdade com as dezesseis nações do mundo que já tomaram posição sobre a igualdade de direitos independentemente de orientação sexual. Mas também escancara a desigualdade de opiniões que marca a sociedade brasileira em torno de questões básicas como os direitos civis. Nessa disputa, o Brasil contemporâneo ganhou um round, mas o conservadorismo ainda rosna em instituições e personalidades de muito prestígio junto à imprensa. | |
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Escritor de imagens e sombras
Por Sérgio Augusto em 3/5/2011 | |
| Reza a lenda que Saul Steinberg (1914-2003) ou tentou em vão arrumar emprego no jornal O Globo ou chegou a colaborar com o diário carioca mas não agradou e foi demitido. Até prova em contrário, é lenda. Ao que eu saiba, o genial humorista e artista gráfico romeno só veio ao Brasil para uma exposição de sua obra no Museu de Arte de São Paulo, em 1950. De qualquer modo, se não foi exatamente aqui que Saul Steinberg iniciou sua carreira jornalística no continente americano, foi para uma aventura editorial carioca que desenhou sua primeira capa de revista, justamente a do número de lançamento de Sombra, que chegou às bancas em dezembro de 1940, cinco anos antes de sua primeira capa para a revista The New Yorker, veículo que o consagrou mundialmente. Uma pessoa de perfil em primeiro plano a saborear um sorvete, tendo ao fundo um homem a cochilar debaixo de vários guarda-sóis. Rio, verão, preguiça, sombra & água fresca – mesmo à distância, Steinberg pegou bem o espírito da coisa. A capa foi um sucesso. Panfletos desenhados Publicação bimensal para grã-finos da zona sul carioca, graficamente ousada e com colaboradores de alto coturno, como Stefan Zweig, Mário de Andrade e Augusto Frederico Schmidt, Sombra só não revelou o traço de Steinberg deste lado do Atlântico porque desde o ano anterior seus desenhos já circulavam em revistas argentinas, importadas pelos irmãos Victor e Cesare Civita, futuros fundadores da Editora Abril, primeiro em Buenos Aires, depois em São Paulo. Na época, o desenhista ainda morava na Itália, de onde só conseguiria fugir da perseguição fascista aos judeus em 1941. Como outros romenos fora de série (Tzara, Brancusi, Ionesco, Eliade, Cioran), Steinberg viveu e se impôs culturalmente no exílio. Romênia? “Puro dada”, respondia, invocando Tzara, inventor do dadaísmo, abstendo-se de entrar em detalhes. Queria ser escritor, mas desistiu por causa da língua: “Ninguém lê romeno”. Os outros foram para Paris, viver e escrever em francês; ele preferiu a Itália. Do pai impressor, encadernador e fabricante de caixas de papelão em Bucareste herdou o fascínio por papel, rabiscos, marcas e carimbos. Encaminhado para a engenharia, diplomou-se numa universidade milanesa, mas nem chegou a exercer a profissão. Em Milão, onde viveu oito anos, descobriu sua real vocação, bolando cartuns para a revista humorística Bertoldo, e sentiu na pele a repressão, relembrada em minúcias e com humor no livro Reflexos e Sombras, que Samuel Titan Jr. traduziu para o Instituto Moreira Salles e servirá de catálogo de uma exposição do artista (leia abaixo). Fruto de conversas gravadas pelo também desenhista e escritor italiano Aldo Buzzi, na década de 1970, Reflexos e Sombras teve seu título inspirado numa série de desenhos de “sombras e imagens refletidas”, que Steinberg publicou na New Yorker em 1977. É um livro de memórias, desde a infância na Romênia (por ele comparada à de um negro no Mississippi) à consagração na América, acrescidas de observações e reflexões sobre o ofício de cartunista, o mundo artístico e o mercado de arte. Na primeira tentativa de desembarcar em Manhattan, Steinberg foi barrado. A cota de imigrantes estava provisoriamente esgotada e ele se instalou por uns tempos em Ciudad Trujillo, atual Santo Domingo, na República Dominicana, onde aproveitou para aprender inglês, lendo Huckleberry Finn, de Mark Twain. De lá enviou desenhos para a New Yorker e, por intermédio de seu editor, Harold Ross, conseguiu o tão esperado visto. Naturalizado americano em 1943, serviu no setor de inteligência da Marinha, desenhando panfletos antinazistas para fomentar a resistência alemã. Ainda batia continência quando produziu suas primeiras “reportagens gráficas” (sobre a Índia, China e Norte da África) para a New Yorker. Searas distintas Sua paixão pela América foi fulminante; em particular por Nova York, com seus arranha-céus art déco e seus táxis que mais pareciam um juke-box sobre rodas, tão multicoloridos eram na década de 1940. Sua criação mais conhecida – o mundo visto a partir da Nona Avenida de Manhattan –, capa da New Yorker e depois pôster parodiado e copiado no mundo inteiro, sintetiza à perfeição o seu encanto pelos Estados Unidos, que procurou conhecer de perto, percorrendo o interior do país, para apreciar os caipiras (“a burguesia das cidades, essa está em toda parte, e é sempre igual”) e enriquecer seu acervo iconográfico. Paradas patrióticas, caubóis, peles vermelhas, bruxas de Halloween, estações de trem, quadrinhos, o coelho da Páscoa, o peru do Dia de Ação de Graças, Tio Sam, Mickey, Lincoln, a Estátua da Liberdade – foi em boa parte brincando, respeitosamente, com esses emblemas da cultura americana que Steinberg desenvolveu sua singular sintaxe visual. “A América parece ter sido inventada para ele”, disse o grande crítico de arte Harold Rosenberg, o primeiro e mais poderoso padrinho de Steinberg na costa leste – e também o primeiro a defini-lo como um “escritor de imagens, um arquiteto da fala e do som, um desenhista de reflexões filosóficas”. Aforista do traço e reificador cômico do alfabeto, da palavra e da gramática, que de uma simples linha tanto podia extrair uma corda de roupa como um horizonte, uma ponte ferroviária ou uma mesa, seu grafismo lacônico, alternadamente figurativo e abstrato, irônico e satírico, grotesco e cubista, meio Grosz, meio Klee, meio Miró, arrebatou todos os grandes artistas plásticos do seu tempo e uma legião de críticos, historiadores e intelectuais do porte de E. H. Gombrich (para quem Steinberg conhecia melhor do que ninguém a filosofia da representação), John Hollander, Italo Calvino, Michel Butor, John Updike e Arthur C. Danto. Referência e mestre de André François, Tom Ungerer, Millôr, Jaguar e toda a geração do Pasquim, Steinberg influenciou até artistas de outras searas, como o escritor francês Georges Perec, que teve o estalo de A Vida – Modo de Usar ao ver um desenho (Art of Living) do cartunista, mostrando simultaneamente tudo o que sucede no interior de um prédio de apartamentos. Se tivesse escolhido o Brasil para viver, só não estaria na revista Piauí desde o primeiro número porque morreu três anos antes de ela ser lançada. | |
terça-feira, 3 de maio de 2011
Rapidez digital e tradição jornalística
Por Sergio da Motta e Albuquerque em 3/5/2011 | |
| O Twitter foi o grande "vencedor" na cobertura da mídia sobre a morte de Osama bin Laden. A notícia vazou pela rede social (mesmo sem confirmação) no domingo (1/5) e chegou ao público antes das publicações da mídia tradicional. No dia seguinte, outro ponto para o Twitter: já havia sido publicado em quase todo mundo que a primeira nota no microblog veio do paquistanês Sohaib Athar, um consultor de informática de 33 anos, que informou voo anormal de helicóptero, seguido de explosão, em Abbottabad (Paquistão), conforme a notícia publicada no Último Segundo no mesmo dia. O técnico paquistanês, entretanto, não sabia que se tratava da morte de Osama bin Laden. Mas informar antes (e sem confirmação) não quer dizer informar melhor. A informação do paquistanês foi inconsciente. E o "vazamento" da informação da morte de Bin Laden não passaria de mais uma nota curta do Twitter, se não tivesse sido antes capturada por um repórter do New York Times. Em outras palavras, a notícia vazou para as mãos de um repórter especializado em mídia digital: este foi o grande diferencial na cobertura de mídia daquela noite, e que favoreceu o jornal de Nova York. Naquele momento, o New York Times tinha o homem certo, na hora certa: um jornalista viciado em Twitter... Um sujeito que reclama quando "perde" 20 minutos fora do microblog. O periódico nova-iorquino, então, com essa vantagem nas mãos, fez uma ágil e excelente cobertura do evento, sem esquecer em nenhum momento o papel fundamental que o Twitter teve no tenso desenrolar da cobertura da mídia sobre a morte do terrorista. O anúncio oficial No dia primeiro de maio, às 10h49, horário do leste dos Estados Unidos, o Huffington Post noticiou a morte de Bin Laden. The New York Times postou sua notícia ("Como o anúncio de Bin Laden Vazou" – "How The Osama Bin Laden Announcement Leaked Out") um pouco mais tarde, às 11h28, mas o fez de forma muito mais completa, estabelecendo a cronologia inicial dos primeiros momentos da cobertura, incluindo aí as informações que vieram pela rede social, desde os primeiros tweets entre membros da comunicação social do governo americano até a cobertura nacional das grandes redes de TV americanas. Vejamos mais de perto a evolução dos acontecimentos, segundo a ordem temporal do New York Times: ** "O anúncio curto veio logo depois das 21h45, de Dan Pfeiffer, o diretor de Comunicações da Casa Branca. ‘POTUS (codinome do presidente dos Estados Unidos) vai falar à nação hoje à noite as 10h30, hora local’, ele escreveu no Twitter, compartilhando a mesma mensagem transmitida à equipe de imprensa da Casa Branca; ** "De acordo com Brian Williams, o âncora do NBC Nightly News, alguns jornalistas receberam e-mails com apenas três palavras: ‘Go to work’ (Vá trabalhar); ** "Âncoras e editores de jornais não sabiam com certeza que o presidente estaria comunicando a nação a morte do homem mais odiado na América. Mas repórteres de Washington intuíram rapidamente que poderia ser sobre Osama bin Laden; ** "A especulação não foi ao ar imediatamente, mas às 10h25 surgiu uma nota no Twitter que trazia bastante confiabilidade: fora postada por Keith Urbahn, ex-chefe de pessoal do ex-secretário de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, e dizia: ‘Fui informado por pessoa de reputação que eles mataram Osama bin Laden’. Logo depois, Urbahn acrescentou: ‘Não sei se é verdade, mas vamos rezar para que seja’. O ex-funcionário de Rumsfeld informou, mas não confirmou a notícia. É importante que isso fique claro, aqui; ** "‘Dentro de minutos’, continuou Brian Stelter, o autor da matéria, ‘fontes anônimas do Pentágono e da Casa Branca começaram a contar aos repórteres a mesma informação. ABC, CBS e NBC interromperam a programação pelo país quase ao mesmo tempo, às 10h45.’ O presidente Obama anunciou, então, oficialmente, a morte do odiado inimigo para toda a nação." Falsa oposição A esta altura dos acontecimentos, já podíamos ver, nas redes pagas CNN e BBC, aglomerações de populares comemorando o fato (em frente à Casa Branca) com um minicarnaval de bandeiras, hinos e outras manifestações de satisfação do povo americano. Tudo havia sido confirmado: o inimigo público número 1 dos Estados Unidos estava realmente morto. Certa vez, o jornalista brasileiro Ruy Castro afirmou que "o Twitter não pode produzir conteúdo como faz um periódico convencional. Não pode aprofundar temas, fazer investigações e pesquisas, produzir editoriais ou publicar artigos mais longos, tantas e tantas vezes necessários". Foi uma observação relevante e que agora mostra seu valor. Pois se o Twitter saiu na frente na informação da morte de Bin Laden, o New York Times, além de localizar o tweet original, que trouxe credibilidade à então especulação sobre a morte do terrorista, apresentou uma cobertura que, por razões óbvias, não pode ser feita no Twitter. Ele não foi pensado para isso. Não se trata de estabelecer uma falsa oposição maniqueísta nova mídia vs. imprensa tradicional. O próprio Stelter (que é repórter de TV e mídia digital do New York Times) faz intenso uso do microblog. Foi lá que ele localizou o tweet original de Keith Urbahn. Seu trabalho, combinando a rapidez do Twitter com a capacidade de aprofundamento do jornal, deixou bem claro a nova gênese da formação e divulgação da notícia no mundo contemporâneo. E a cobertura do New York Times provou que há espaço bastante para a convivência entre a mídia digital imediata e extensa e a cobertura aprofundada e intensa dos jornais tradicionais. | |
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A chacina e o pânico da mídia
Por Raquel Paiva e Muniz Sodré em 13/4/2011 | |
| Em seguida à tragédia da escola em Realengo, o advérbio "talvez" tornou-se o protagonista das narrativas jornalísticas sobre o acontecimento. Como na realidade são muito obscuras as causas reais do que se passou, a mídia tenta aplacar a angústia da motivação vazia com um sem-número de explicações oriundas dos discursos competentes (psiquiatras, psicanalistas, sociólogos, articulistas etc.) que, apesar de razoáveis construções argumentativas, redundam inevitavelmente no "talvez". Acreditamos que não poderia ser de outra maneira: a passagem ao ato do serial killer – já muito pesquisado em seu original, o modelo norte-americano – é aquilo que os lógico-matemáticos chamam de "indecidível" quando se deparam com determinados problemas de computabilidade sem saída. A partir desse vazio, a mídia resvala inadvertida ou deliberadamente para a instilação do pânico social. Na tentativa de exaurir o assunto antes que se esgote o ciclo (geralmente curto) de atenção pública inerente a um noticiário, os jornais esmiúçam detalhes, entrevistam vizinhos e autoridades, reconstroem topograficamente o itinerário da chacina. As revistas semanais carregam nas tintas retóricas do texto, à beira da sub-"literatura" cinematográfica. Na capa da Veja, o título "O monstro mora ao lado" é o pastiche aterrorizante de alguns blockbusters à disposição dos consumidores nas locadoras de cedês. Pânico – e não medo – é o termo correto para o fenômeno. Embora seja preferencialmente utilizado nas situações descritas como "catastróficas" (terremotos, inundações, incêndios etc.) ou no "estouro da boiada humana" dentro de espaços fechados, ele se espraia, entretanto, por modalidades diversas caracterizadas por intenso terror subjetivo e por temor contagiante de perigo. Não se define, pois, por um estado emocional específico, e sim por uma desestruturação de conduta, que tanto pode ser irruptiva (como quando se tenta escapar de um prédio que desaba) ou latente. Resposta de marketing O medo é outra coisa: desde O Leviatã (de Thomas Hobbes), é aquilo que mantém o vínculo pacífico e virtuoso dos homens, de tal maneira que o governante "deve dispor das forças necessárias para suscitar o terror que leve a vontade dos indivíduos à conformidade e à concórdia". Esse é o ponto de partida para a construção do Estado em Hobbes, como nos faz ver o politólogo Carl Schmitt, já no século 20: "O terror do estado de natureza empurra os indivíduos, cheios de medo a juntar-se". Estaria, portanto, como força agregadora, no próprio vínculo comunitário: "Longe de ser sem objeto, esse medo é o próprio objeto do desejo que funda o grupo e o confunde" (Daniel Sibony, psicanalista francês). A ruptura do vínculo, por outro lado, é ocasionada pelo pânico, especialmente nos instantes ou nos pontos muito sensíveis do corpo social ou quaisquer outras metáforas que liguem o socius a uma idéia de organicidade. Nesses momentos ou nesses lugares, os comportamentos mais bem organizados podem dar lugar à catástrofe do afeto ou a atos sem qualquer sentido coesivo. Estranhamente, um desses lugares preferenciais para a chacina perpetrada por matadores ensandecidos é a escola. Não como regra absoluta, já que a crônica conhecida do fenômeno lista casos em que o atirador mirou a multidão na rua ou mesmo num cinema, como já aconteceu em São Paulo. Mas o recinto escolar se sobressai tanto em número quanto em narrativas muito conhecidas, a exemplo do filme de Michael Moore sobre o massacre em Columbine (EUA). Por que a escola? Pode-se inicialmente pensar em jovens vítimas indefesas congregadas num espaço circunscrito. São muitos, porém, outros espaços dessa natureza que, embora repletos de adultos, não os isenta da condição de sujeitos indefesos frente a um homicida que empunha modernas armas automáticas. Não há, assim, como deixar de pensar na idéia de "santuarização" dos estabelecimentos escolares – em que se priorizam medidas de segurança física – presente em alguns países do dito Primeiro Mundo, a exemplo da França. Em maio de 2009, durante uma reunião com "os principais atores da segurança pública, da Justiça e da Educação nacional", o presidente Sarkozy propôs uma série de providências no sentido de que os estabelecimentos mais "sensíveis" fossem objeto de um "diagnóstico de segurança, a partir do qual serão adotadas todas as medidas necessárias", desde a instalação de portões até dispositivos de videovigilância. Não é apenas isso: as medidas se diversificam ao ponto de habilitar o professor a abrir pastas e mochilas para impedir a entrada de armas, a formar "equipes móveis de guardas", a ter ligação direta com a delegacia de polícia. Tratando-se de Sarkozy, essa transformação da escola num "santuário" militar é uma resposta de marketing (segundo ele mesmo, uma reação de "bom senso") ao que a mídia francesa chama de "deterioração" do clima nos estabelecimentos de ensino. Mas é um fato – que vem recrudescendo desde meados do século 20 e que suscitou alguns filmes norte-americanos sobre o assunto – que a violência na escola se tornou um problema social em ascensão. Opção dos editores O bullying, tema agora recorrente na mídia brasileira, é fenômeno muito antigo, que aumenta na razão inversa do decréscimo de autoridade dos professores. Autoridade não é poder coercitivo, mas o crédito disciplinar advindo de um reconhecimento que Estado e sociedade atribuem à docência. A crise dessa autoridade equivale à crise da educação enquanto processo de socialização dos jovens na direção de uma cidadania reflexiva e criativa. Na escola que apenas "informa" – tendência crescente na privatização do ensino, onde estudante é redefinido como "cliente" – a educação cede o lugar a uma ambígua "instrução", sem qualquer ideal republicano. Como essa instrução é efetiva junto aos filhos das classes abastadas e tende a "guetificar-se" em face de um mundo externo potencialmente "duro", não se pergunta sobre crise de autoridade ou sobre violência latente. A violência se torna de fato irruptiva e endêmica, segundo algumas pesquisas de caráter científico, nas escolas situadas em zonas "desfavorecidas", onde é grande a amplitude das desigualdades sociais. A violência escolar é, assim, também um fenômeno da exclusão social. Nos países de Primeiro Mundo, isso ocorre principalmente em bairros muito pobres ou em guetos de imigrantes. Num país como o Brasil, a periferia urbana pode ser um lugar no mínimo angustiante tanto para o professor quanto para o próprio aluno, entregues que estão à ausência de verdadeiros projetos político-pedagógicos e à presença dos números de universalização do acesso à escola, no fundo, slogans para "inglês" (OCDE, Banco Mundial et caterva) ver. No nível singularizado do fato, a chacina de Realengo tem certamente algo de viral, enquanto modalidade de um contágio mental (ao mesmo tempo patológico e informativo, já que o modelo midiático do terrorista e do serial killer americano colou-se à doença individualizada de um miserável psíquico), mas por isso mesmo é sem objeto e sem causa, no sentido de previsibilidade social dos fenômenos. Apenas repercutir midiaticamente a superfície narrativa da tragédia é entregar-se à atração do pânico latente e perder a ocasião de refletir sobre o porquê desse excesso de violência ou de crueldade contra o lugar, a escola, sobre a qual os antigos ideais educativos depositaram esperanças enquanto comunidade-máter da socialização republicana. Agarrar-se às metáforas da pura monstruosidade do assassino é a hipocrisia neoliberal dos editores. | |
sábado, 9 de abril de 2011
Deixar a vida para entrar no espetáculo
Por Eugênio Bucci em 9/4/2011 | |
| Psicanalistas, psicólogos e criminologistas vêm apontando traços comuns no perfil desses sujeitos que, de repente – e de uma vez –, descarregam suas armas contra adolescentes dentro da escola. Os assassinos são sempre do sexo masculino. São retraídos. São jovens. São suicidas. Os hábitos também são comuns. No período anterior ao crime – que pode se estender por meses ou mesmo por anos –, eles mantêm, em geral, uma rotina reclusa, sobre a qual não gostam de conversar. Freqüentam sites sobre armas e também sobre fundamentalismos, religiosos ou políticos. Procuram se adestrar em práticas militares. Depois, quando é tarde demais, descobre-se que deixavam pistas, algumas até conscientemente, indicando tendências destrutivas. Acontece que essas pistas não eram notadas. Aí, dizem alguns psicólogos, estaria o gatilho de tudo: eles não eram notados. Eles não conseguiam ser notados. Nesse ponto, a análise dos perfis psicológicos, que é da competência dos psicanalistas e criminologistas, encontra nexo com o estudo das linguagens e da comunicação social. Se é verdade que o gesto monstruoso tem ao menos parte de sua origem no impulso agora incontrolável de se fazer notar – o que é matéria para os psicanalistas –, o lugar em que esse gesto procura se instalar, para que seu autor seja finalmente olhado, é a manchete de jornal – e isso é objeto dos estudos da comunicação. Esse tipo de homicida teria sua gênese, como todos os outros, no perfil psicológico, mas o seu gesto final seria da ordem do espetáculo. Por isso, é possível que parte da compreensão desses crimes ainda venha a ser completada pelos estudos da mídia, uma vez que, nesse caso, o desejo de matar se confunde com o desejo de platéia. Na civilização da imagem – que é a nossa –, a invisibilidade pode ser um inferno em vida. Não ser visto, ou, mais que isso, não conseguir ser ao menos visível, equivale a não existir. Um adolescente perseguido pelo fantasma da invisibilidade talvez se sinta como se, olhando-se num grande espelho, ao lado dos colegas, não conseguisse ver refletida a sua própria imagem ao lado das imagens dos outros. Num tempo em que todas as representações só existem quando passam pelas imagens – imagens reconhecíveis e valorizadas pela comunidade a que se pertence –, livrar-se da invisibilidade é uma questão de vida ou morte. O terrorismo em causa própria É óbvio que são muitos os criminosos que, pela violência, buscam uma revanche. Aqui, no entanto, existe uma particularidade mórbida: o vetor desse acerto de contas é, invariavelmente, a chamada "mídia". Esses rapazes que matam seus pares aos montes e, assim, tentam trocar a insignificância pelo superestrelato, que dá picos de audiência e bate recordes de vendagem nas bancas, não estariam saciados e não se sentiriam vingados se cometessem suas atrocidades no escuro, longe das platéias. De escuridão e invisibilidade, já basta sua biografia. Em seu apogeu de sangue, o fundamental é ser vistos. As mortes são um atalho – necessário, por certo, mas não passam de um atalho – para a fama total. Assim, seu acerto de contas não dispensa os holofotes. A constatação é perturbadora. Por tudo o que se pode observar nesses crimes, os homicídios só acontecem porque seus autores desejam ser olhados – e, se é que alguma certeza pulsa nos descaminhos do desejo, eles têm a certeza de que serão olhados. Eles não calculam, racionalmente, o crime indescritível como se ele fosse uma estratégia. Bem ao contrário, eles internalizaram, inconscientemente, a lógica da visibilidade midiática como se esta fosse a única lógica possível da existência. Com suas atrocidades, esses pobres meninos monstruosos suplicam uma esmola ao imenso olhar que transborda pelo mundo. Por isso, eles se dirigem à mídia na hora de matar. É com ela que negociam. É com ela que conversam, seja por meio de uma carta-testamento ou de um vídeo que em seguida vai parar no YouTube. Sim, eles sabem que serão olhados, mas não sabem que matam por isso. Não obstante, as crianças que morreram numa escola do Realengo, no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril de 2011, morreram por isso e para isso. Suas vidas foram o atalho para o assassino carente de olhar. Morreram como se fizessem uma abertura de um grande show, cujo clímax é o suicídio de seu algoz. Nesse ritual, o assassino firma um pacto: em troca da fama que sempre quis ter, ele mata e também se mata. Eis o que vai redimi-lo. Não há vida depois da morte: há o espetáculo e isso lhe basta. Ele é o terrorista em causa própria. Sim, um terrorista, pois o terror que inspira não se esgota com ele: depois dele, virão outros. O medo aumenta. A forma vazia da morte múltipla Falei há pouco de um nexo entre o psiquismo desses rapazes e as representações imaginárias nos meios de comunicação. Esse nexo nos ajuda a entender o que ainda desconcerta analistas que não vêem nesses crimes uma dimensão específica que eles têm: a dimensão de um ato de propaganda, que procura tomar de assalto o olhar do mundo. Esse tipo de crime é concebido e encenado como atentado midiático – e isso é o que ele tem de mais central. O seu formato é padronizado, ou, para sermos exatos, industrialmente padronizado. Assim como há gêneros de filme, todos eles industrialmente padronizados, assim como também foram industrialmente padronizados os gêneros de orientação sexual, os gestuais e estereótipos religiosos, de estilos musicais, as manifestações políticas, esse tipo de assassinato de múltiplas vítimas simultâneas se articula como linguagem midiática. Tanto é assim que essa modalidade de crime obedece a um protocolo em sua forma: os disparos são rápidos e se prolongam até que venha a resistência, trazendo consigo o olhar da sociedade alarmada. Além da forma, porém, não há mais nada. Essa modalidade de crime não tem conteúdo nenhum. Ele é uma forma vazia, que se alastra pelo mundo na mesma onda em que a indústria do entretenimento abraça os continentes. É aparência vazia. Tem o formato e o ritmo milimetricamente delineados pelo espetáculo – e não tem sentido. Visto pela psicologia, o seu protagonista mata os semelhantes para matar seus próprios demônios, que cortaram seu acesso à razão. Visto como um fenômeno de comunicação, porém, ele assume outra figura. Ele irrompe na cena porque matou e também porque se matou. Ou, então, ele matou e se matou para, finalmente, aparecer. Ele morreu para existir naquela instância de representação que o ignorava. E isso é tudo. Gostava de música americana Alguém então perguntaria: mas então esse é um formato de crime tipicamente americano? A resposta seria sim, ele é americano na mesma medida em que o rock é americano, em que o filme de ação é americano, em que o paradigma de juventude da nossa era é um pouco inglês, um pouco francês, vá lá, mas é fundamentalmente americano, assim como a democracia de massas é tipicamente americana. Ele é americano assim como as narrativas que nos amarram são predominantemente americanas. Ele é americano, por certo, mas não isso não significa que ele seja culpa dos americanos, por favor. A tendência de que essa modalidade de crime se banalize está definitivamente instalada. No curso da banalização, ela irá se diluir como forma até perder o interesse. Antes disso, no entanto, os jornalistas terão de se ocupar, ainda outras vezes, e sempre tragicamente, de horrores análogos. É possível que eles se indaguem, às vezes, se devem dedicar tanto destaque a essas coberturas. É possível que se questionem: será que tanta manchete, tanta capa de revista, tanto horário nobre, será que tudo isso não vai encorajar outros criminosos com o mesmo perfil? Será que outros, que também se torturam ao não ver sua imagem refletida no brilho do olhar das meninas da escola, não vão empunhar uma metralhadora para pleitear seu lugar de destaque na galeria infame que nós mesmos, jornalistas, ajudamos a fabricar? Se é dever da imprensa noticiar os males que se fazem às escondidas, da corrupção ao genocídio, é dever dela amplificar as matanças que só foram perpetradas porque desejavam a atenção dos holofotes? Mesmo assim, o jornalismo continuará a noticiar o que se vê impelido a noticiar, e virão outros para a mesma galeria. Não há o que o jornalista possa fazer. Ou há pouco, muito pouco: omitir um nome aqui, atenuar a dramaticidade ali, tudo isso é pouco. No mais, não cabe ao jornalismo resolver esse problema. Aliás, o jornalismo não dispõe de mandato – nem da ontologia, nem da epistemologia – que lhe permita equacionar tamanho problema. Esse problema apenas passa pelo jornalismo, mas não começa nem se resolve no jornalismo. Ele ultrapassa o campo exíguo da imprensa e mergulha nos subterrâneos de uma sociedade que não se cansa de perguntar se há felicidade do outro lado do muro do ideal do bem, que aprendeu a idolatrar a força dos que dizem viver além da lei, que acredita que a dimensão mais sublime da ética está nos grunhidos de Marlon Brando como capo mafioso, que entende a vida como se a vida fosse um filme, no qual é melhor ter o papel de bandido do que não ter papel nenhum. Se a fama vale mais do que a alma e do que a vida, por que não dissecar e expor os interstícios da personalidade dos que matam para virar notícia póstuma? O que pode haver de mais intrigante, fascinante e repulsivo que isso? Assim, as estrelas do mal são notícia. Os que sacrificam os nossos inocentes são a nossa esfinge: não temos como ignorá-los; não temos como não noticiá-los. Mas teremos como superá-los? Iremos escapar deles? A celebridade do que existe de mais vil O jornalismo não dispõe de argumentos para se recusar a dizer o nome desses criminosos todos. Não tem como não dar a foto. Não pode sonegar às pessoas o que as pessoas querem saber. E têm o direito de saber. Agora: que é perturbador, é muito perturbador. Um sujeito vai lá, mata uma porção de crianças, e ainda ganha de presente a fama adorada, e vazia, pela qual matou – e morreu. E sabemos todos que virão outros. | |
terça-feira, 29 de março de 2011
TELEFONIA vs. RADIODIFUSÃO - A guerra anunciada
Por Venício A. de Lima em 29/3/2011 | |
| Salvo por uma matéria traduzida da The Economist, publicada na Carta Capital nº 639, a grande mídia brasileira optou por não noticiar a briga de gigantes deflagrada no México, nos últimos dias. E por que interessaria ao público brasileiro o que ocorre no México? Quando nada, um dos gigantes envolvidos é sócio (alguns dizem, majoritário) da maior operadora de televisão paga do Brasil: a NET, ligada às Organizações Globo. Ademais, o que está acontecendo ao norte do Equador pode perfeitamente vir a acontecer também ao sul, vale dizer, aqui mesmo entre nós. Monopólio vs. monopólio As operações de telefonia e televisão no México são praticamente monopolizadas por dois grandes grupos. Cerca de 80% das linhas de telefonia fixa estão conectadas à Telmex – a mesma empresa que é sócia da NET – e 70% do mercado de telefonia móvel (celular) são controlados pela Telcel, outra empresa do mesmo grupo – ambas de Carlos Slim, o homem mais rico do planeta. Por outro lado, o grupo Televisa, do empresário Emilio Azcárraga, controla cerca de 70% da audiência da televisão aberta. O que sobra, em boa parte, está sob controle da TV Azteca, comandada por Ricardo Salinas, outro magnata mexicano. Os grupos conviviam em relativa harmonia, cada um com seu respectivo "mercado". Agora, diante da convergência tecnológica, resolveram se enfrentar abertamente. Um grupo de 25 empresas de telecomunicações, incluídas a Cablevisión (propriedade do Grupo Televisa) e Iusacell (do Grupo Salinas, da TV Azteca), entrou com uma ação na Comissão Federal de Competição (Cofeco, equivalente ao nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica – Cade, do Ministério da Justiça) contra o alto custo das tarifas de interconexão cobradas pela Telcel. Ao mesmo tempo, a Telmex apresentou quatro denúncias contra a Televisa, a Televisión Azteca, a Cablesivion, a Megacable, a Cablemas, a Television Internacional e a Yoo por "práticas de monopólio e correlatos". As ações legais vieram acompanhadas de anúncios de página inteira nos jornais parceiros da Televisa denunciando o "monopólio caro e ruim" da indústria de telecomunicações, enquanto Carlos Slim retirava os anúncios de suas empresas – cerca de 70 milhões de dólares anuais – dos canais da Televisa. Em represália e solidariedade à Televisa, a TV Azteca passou a recusar os anúncios do Grupo Telmex. Disputa de mercado O que está em jogo, por óbvio, é o controle do mercado convergente de telefonia e televisão. Como explica didaticamente a matéria da The Economist: "A tecnologia transformou os negócios de telefonia e televisão em um único mercado: a televisão hoje inclui telefone e internet em seu serviço de TV a cabo, e quer adicionar telefones celulares. Salinas, que também controla uma empresa de celulares, a Iusacell, lançou um pacote semelhante em 2010. Slim deseja usar seus cabos de telefonia para distribuir TV paga (setor em que se tornou o maior ator no resto da América Latina), mas o governo não quer permitir. "Agora os bilionários pedem o tipo de reforma da concorrência de que suas respectivas indústrias precisavam há muito tempo. Os magnatas da TV querem que Slim reduza o valor cobrado quando, um telefone rival liga para um celular Telcel (a agência reguladora das teles do México lhe disse para reduzir algumas taxas). A atual tarifa de interconexão é 43,5% acima da média da maioria dos países ricos da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Isso torna impossível que outras operadoras ofereçam tarifas competitivas. A Comissão Federal de Concorrência (CFC) do México diz que os consumidores se beneficiariam de 6 bilhões de dólares por ano se as taxas de conexão se equiparassem à média da OCDE. A CFC recomenda deixar Slim concorrer na televisão quando tiver relaxado seu poder no setor de telefonia. Se a Telmex entrasse no mercado de tevê paga, o aumento da concorrência colocaria os preços ao alcance de mais 3,8 milhões de residências, admite a CFC." E no Brasil? A situação brasileira é diferente da mexicana, mas a briga entre teles e radiodifusores tradicionais ocorre também aqui. O locus dessa disputa, desde 2007, tem sido o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e "abre o setor de TV por assinatura para as teles, cria a separação de mercado entre produtores de conteúdo e empresas de distribuição e ainda cria cotas de programação nacional nos pacotes de canais pagos", além de revogar a Lei do Cabo de 1995. Na sua versão atual o projeto – PLC 116 do Senado Federal – é o resultado da articulação inicial de três propostas representando grupos e interesses distintos: o PL 29/2007 representa as empresas de telefonia; o PL 70/2007 representa os radiodifusores; e o PL 323/2007 situa-se em posição intermediária entre os interesses dos dois setores. Aprovado em junho de 2010 na Câmara dos Deputados, até hoje tramita no Senado Federal. Será que teremos aqui uma versão explícita da briga entre teles e radiodifusores como ocorre no México? A ver. | |
sábado, 26 de março de 2011
A batalha pelo pagamento de notícias online faz novas vítimas
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| Steven Brill, o norte-americano que há dois anos prometeu encontrar a fórmula mágica para garantir a sobrevivência financeira da imprensa online, jogou a toalha. Ele vendeu esta semana o projeto Press + para a RR Donnelley, uma das mais importantes empresas gráficas do mundo, com negócios também aqui no Brasil. Brill não conseguiu encontrar uma receita para os jornais, mas descobriu uma forma de engordar a sua própria fortuna pessoal, numa transação cujos detalhes ainda não foram totalmente divulgados. A Press + foi criada para oferecer aos jornais e revistas apoio na busca da sustentabilidade financeira. É o primeiro grande fracasso de um empresário que depois de conseguir fama com negócios considerados impossíveis resolveu apostar na salvação da imprensa online. Nesta mesma semana, o The New York Times continuou nas manchetes da imprensa norte-americana, desta vez não como protagonista de grandes feitos jornalísticos, mas na inglória posição de caçador de crackers — programadores especializados em quebrar barreiras eletrônicas de acesso à conteúdos online. Jeff Bercovici, da revista Forbes, ironizou as agruras do NYT afirmando que o jornal logo terá que contratar mais advogados e monitores da web do que repórteres. Tudo isso a propósito da provável batalha legal entre o Times e os autores do twitter @freeNYTimes, onde quase todos os textos da edição online do jornal estão disponíveis gratuitamente. A cobrança do acesso às noticias online do NYT já está em vigor para leitores canadenses e deve valer para os norte-americanos a partir de segunda-feira (28/3). A leitura de até 20 notícias é grátis, mas passado este limite o usuário deve fazer uma assinatura, pagando preços que variam de 15 a 35 dólares mensais. A polêmica em torno do precedente aberto pelo @freeNYTimes desviou o foco da discussão. O complexo problema de cobrar ou não pelo acesso às notícias online acabou sendo ofuscado pela questão ainda mais delicada da liberdade de fluxo de informações na web. A proibição do canal de postagens, pedida pelo The New York Times, encontrou resistências no Twitter e despertou a ira dos gurus da internet livre. O que era para ser um problema financeiro entre uma empresa e seus clientes, está se transformando numa batalha ideológica em ambiente virtual. Para o NYT isso é um péssimo negócio porque provocará danos à imagem pública do jornal, o mais acessado site de notícias em toda a internet. O fracasso do projeto Press+ torna ainda mais dramática a busca de saídas para o dilema da sustentabilidade financeira de empreendimentos jornalísticos na internet. A experiência do The New York Times é uma aposta numa possibilidade. O jornal enterrou cerca de 40 milhões de dólares no desenvolvimento do projeto de cobrança de acesso, sem saber se teria retorno garantido. Outra grande empresa jornalística mundial, o conglomerado News Corp, do milionário Rupert Murdoch, decidiu apostar no iPad como plataforma para cobrar por notícias. O grupo criou uma publicação online chamada The Daily, que só pode ser acessada por assinantes usuários do iPad. O sistema ainda está na fase de provas, mas alguns leitores têm se queixado da qualidade jornalística da publicação online, afirmando que ela ainda não substitui a leitura dos jornais noticiosos impressos. | ||||||
JORNALISMO ESPORTIVO
Desafios e propostas Por Luciano Victor Barros Maluly em 22/3/2011 | |
| Disponibilizar notícias sobre esportes é uma prática comum no jornalismo brasileiro. A tradição é reconquistar o público a cada detalhe, como as novidades sobre a performance dos atletas, as armadilhas dos treinadores, o interesse dos torcedores e outras influências externas que interferem na disputa, como as suspensões por doping. A cobertura dos eventos adquire um contorno além da expectativa do público que, cada vez mais, fica atraído pelas transmissões, principalmente no rádio e na televisão. Da ênfase sobre os resultados de uma disputa esportiva advém a ansiedade imediata do torcedor, como as observadas durante as rodadas dos campeonatos de futebol aos domingos. As informações complementares sobre o mesmo torneio conduzem os noticiários durante a semana, interferindo diretamente no cotidiano da população. O tempo da competição é determinado pela multiplicidade da pautas sobre o mesmo conteúdo, massificando a maneira de pensar dos apaixonados por (certos) esportes. O torcedor fica atento ao universo da mídia. A proposta é a integração pela notícia. Neste caso, as informações precisam ser fresquinhas, justamente, para alimentar o indivíduo que "sabe das coisas e acerta o resultado". O sujeito está super informado e se destaca onde quer que esteja, no botequim ou no trabalho. O torcedor manja (é craque) sobre os esportes (da mídia). É o personagem central quando os jornalistas e os colegas falam a sua (e a mesma) língua. Paixão do torcedor vai além do futebol O jornalismo age diretamente na memória e na atenção das pessoas, seja pelos jornais impressos, televisão, rádio, internet e outras mídias. Ao criar possíveis mundos esportivos emergem desejos de satisfação, propiciando ao indivíduo participar, incorporar e reproduzir pensamentos e condutas. Porém, esses novos universos se repetem, variações são previstas e alimentam uma possível identidade por determinado esporte. Neste universo, a propaganda de vários produtos e empresas, ligados ou não ao esporte, favorece o consumo de determinados eventos, fortalecendo uma linguagem comum. Enquanto isso, os críticos observam o noticiário esportivo como um espaço destinado à superficialidade, conduzido por um grupo de comunicadores que prefere ‘perder tempo’ com informações e análises sobre os resultados das competições, em vez de discutir os problemas do esporte, com o mesmo engajamento do debate em torno do acesso à educação, saúde, segurança e monopólio dos meios de comunicação. Talvez os analistas da mídia estejam certos quanto ao extenso espaço ocupado pela tagarelice de uns ditos especialistas que andam pelos canais de televisão e rádio ou mesmo dos colunistas que se esqueceram da crônica em favor do achismo. Neste ponto, fica a lembrança do passado romântico do esporte (quase) amador ou (semi) profissional, ou seja, a influência em meninos e meninas (nascidos até os anos 70) que queriam ser atletas. O principal não era o dinheiro, mas a fantasia de entrar em campo e ser ovacionado. O lema era vencer e convencer pelo talento. Dos chamados cronistas esportivos surgem também bons recados para os (futuros) jornalistas. É possível fazer um texto solto, recontar (e modificar) a história pelos detalhes, como os observados nos movimentos e habilidades, e não apenas descrever o resultado. Se a pessoa já assistiu ao jogo pela televisão, a mídia continua a partida em terceira dimensão. Pelo repórter, é possível estender a conversa ou a alegria do dia anterior. No ponto de encontro com os amigos, o sujeito procura os detalhes sobre aquilo em que não prestou atenção, porque estava distraído com outros afazeres,como os comes, bebes e bate-papos. Agora o torcedor ficou mandão e passou de técnico a comentarista, com a própria mídia incentivando o achismo durante as análises (não que alguns narradores e/ou comentaristas também não o façam desta maneira). Quer falar e produzir. Sua paixão já vai além do futebol. Ficou especialista em outras modalidades, assim como já também pensa em divulgar a atividade física, reproduzindo a pauta do comportamento saudável. Deseja, com isso, melhorar a saúde, ou melhor, a vida da população. A superficialidade da cobertura de outras modalidades A esperança para os diversos personagens do esporte é que o Brasil consiga virar uma potência esportiva com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, esta na cidade do Rio de Janeiro. Para muitos, mega-eventos são a oportunidade de transformar o esporte como meio de ascensão e sobrevivência para milhões de brasileiros que estão na linha da pobreza ou, no caso dos esportistas amadores, desmotivados pela falta de apoio, enquanto para outros é apenas mais uma preocupação quanto aos gastos ou desvios do dinheiro público, como já é comum por estas terras. Os jornalistas estão envolvidos na dura tarefa de cobrir os eventos e, ao mesmo tempo, estarem atentos e desconfiados quanto à questão dos investimentos em infra-estrutura, que envolve desde o desenvolvimento das várias modalidades, em especial as pouco conhecidas como o hóquei sobre grama e o badminton, até a questão política, de saber quem serão os integrantes das comissões fiscalizadoras. A ideia é partir da lisura, da transparência da notícia sobre o mundo esportivo, com pautas que vão desde a ligação de políticos com empresários até a denúncia de projetos oportunistas de investimentos no esporte. Diante deste universo de afazeres, surge também a obrigação do aperfeiçoamento no modo de conduzir a notícia. Se o modelo atual está relacionado ao ufanismo compreendido pela cobertura caseira, daqui para frente os noticiários e as transmissões serão fundamentados pela clareza. Não é mais permitido encobrir ou omitir certas informações, já que o público tornou-se universal. O jornalista brasileiro fala agora para o mundo. É a vitrine e a referência para milhões de comunicadores. Neste momento, a fonte universal é a imprensa brasileira especializada em esportes. Cabe ao jornalista estar preparado para um novo desafio: ampliar as notícias muito além do futebol e eliminar a atual superficialidade diante da cobertura de outras modalidades. As lições do futebol As regras das diversas modalidades esportivas olímpicas são as primeiras a serem compreendidas. Se possível, é interessante até praticar, mesmo de forma amadora. Desta maneira, o repórter tem contato com a dinâmica do esporte, podendo assim analisar um lance durante a competição. A referência já existe há muito tempo no futebol, já que muitos dos comentaristas jogaram peladas nas ruas, nas areias, nos terrões ou nos diversos campos deste país. A maioria não foi profissional, mas compreende a filosofia do jogo. Das peladas surgiram os cronistas esportivos, homens que relembram os grandes ídolos como meio de recontar a trajetória de cada um. Quantas vezes, o jornalista caminha na rua, principalmente nas cidades do interior, e fica paralisado ao se deparar com determinado sujeito. O cara está distante, e logo pensa: "Esse era craque. Jogava pra caramba. Tinha uma esquerda fantástica. Quanta lembrança." "Fala menino", grita o boleiro. "Prazer em revê-lo", emociona-se o cronista, que não vê a hora de colocar no papel que o ponta-esquerda da esquina jogava muito mais que o agora chamado atacante da seleção. Logo surge a reflexão de que hoje se produz e se anula o craque rapidamente. Um novo advento no jornalismo esportivo é observado, ou seja, o esquecimento mesmo quando o atleta ainda está em atividade. A fábrica de jornalistas (ou cronistas) é obra dos milhões de brasileirinhos e brasileirinhas que disputaram partidas emocionantes em qualquer pequeno campo deste país. Assim também é a revelação de que o Brasil também possui grandes jornalistas que podem cobrir outras modalidades. Os jornais necessitam de muito mais e é possível começar agora. E não venham com essa de que está velho para praticar alguma modalidade. Esporte e imaginação são para a vida toda. A interpretação da performance É difícil retornar ao exercício como jogar uma partidinha, correr, nadar, mas é possível, principalmente, para algumas modalidades esportivas que qualquer garoto(a) praticou na escola e nas ruas. O voleibol, o basquetebol, o handebol são modalidades ensinadas nas escolas públicas e privadas. Já o atletismo, o ciclismo, o levantamento de peso, o beisebol e o softbol, a natação, incluindo nado sincronizado e saltos ornamentais, integram o cotidiano das pessoas. Como esquecer as caminhadas e corridas a pé ou de bicicleta pelas ruas e clubes, o pesinho em casa e na academia, jogar taco na rua, nadar, saltar e brincar nos rios, mares e piscinas. A inclusão das lutas, como a greco-romana, livre, boxe, judô, taekwondo também é fácil porque desafios, muitas vezes, acontecem até sem querer, quando ocorre uma briga, ou na brincadeira de quem é mais forte. Nestas lutas existe sempre um cuidado consigo e com o outro durante o treinamento e mesmo durante a competição. As artes marciais, cada uma a sua maneira, ainda pregam o respeito no lugar de treino e ao adversário. Os barcos também fazem parte do dia-a-dia dos aficionados por água, que gostam de um passeio, de uma boa pescaria ou mesmo de explorar ou desafiar uma corredeira ou locais de velocidade, assim como os praticantes do remo, da canoagem e da vela. A raquete é um instrumento característico de brincadeiras baratas. O pingue-pongue é o tênis de mesa, lembrado nos desafios entre pais e filhos, assim como jogar tênis na garagem. E logo surge a curiosidade da peteca pequena, em que surge o badminton. Da vertente do aprendizado do futebol, renascem as semelhanças com o rúgbi e com o hóquei sobre grama, deste com a inclusão do taco, numa bela mixagem com o beisebol. Da mesma forma, jogar bolinha de tênis com um taco, pode também trazer semelhanças com o golfe. A memória de quem participou, mesmo como torcedor, recupera fragmentos para a leitura de modalidades cujas regras são compreendidas superficialmente no primeiro contato. Após algumas horas de leitura, o regulamento integra o cardápio de informações a ser oferecido na notícia. A pesquisa completa, a cobertura com detalhes sobre os atletas e os principais eventos da modalidade. O público é instigado da mesma forma, porque revela situações, recupera e reformula a memória. A sintonia entre jornalistas e público conduz a um ato de comunicar pela proximidade do cotidiano vivido no esporte. As regras são importantes, assim como as informações que revelam a trajetória do atleta. Se o esportista chegou até o evento, já é uma grande façanha e todos merecem um tratamento especial, não só os competidores com chance de conquistar uma medalha olímpica ou uma boa colocação. Geralmente, durante as transmissões e noticiários, os atletas, em especial os de outra nacionalidade, tem o nome e as conquistas exaltadas, com a performance na hora da disputa sendo analisada por especialistas (geralmente, um ex-atleta). O "tempo" atingido em modalidades como o atletismo, a natação, o hipismo e muitos esportes de inverno é sempre destacado, com os especialistas ou convidados auxiliando na interpretação da performance dos esportistas. O despertar para a prática desportiva As explicações sobre as dificuldades (obstáculos) são demonstradas como forma de valorizar os competidores. Neste contexto surge um problema que dificulta a interpretação, quando o jornalista esquece de revelar a trajetória dos atletas, desde o início na modalidade, o desenvolvimento, os métodos de treinamentos, as principais virtudes e defeitos. Pouco é possível saber sobre aquele esportista, além das informações básicas. O jornalismo, como ferramenta de transformação do esporte, passa, então, pela ampliação e aprofundamento da notícia. As informações sobre a preparação dos atletas determinam os detalhes que orientam na compreensão da disputa e também estimulam a prática da modalidade. Além das regras, é fundamental revelar dados sobre a carreira do atleta, como os caminhos trilhados para chegar ao alto rendimento. O despertar para a prática desportiva renasce, muitas vezes, pela semelhança entre atleta e público. Um competidor que surge mais velho para determinada modalidade pode estimular a pessoa da mesma idade, assim como é possível a identificação pelo local de nascimento e/ou treinamento, que podem ser propícios para a prática de um determinado esporte, ou seja, um local com parques e ciclovias estimula, respectivamente, o atletismo e o ciclismo, da mesma forma que a disponibilidade de quadras e campos para esportes coletivos, como o basquetebol, o voleibol, o handebol, no primeiro caso, e o futebol e o rúgbi, no segundo. Banco de dados Cabe ao jornalista conhecer e revelar os detalhes da carreira de uma boa parte dos competidores, não apenas por meio das informações básicas (nome, país e resultados), mas também pelas complementares (trajetória e condições de treinamento). Para o público fica mais fácil a compreensão da dinâmica em torno da disputa, assim como para o início de uma possível atividade física por meio daquela modalidade. A pesquisa se torna ponto crucial para a produção de notícias, com as informações dos atletas sendo coletadas, sintetizadas e armazenadas no banco de dados, que serão disponibilizados ao jornalista. Se possível, também é essencial cada profissional possuir o próprio arquivo, justamente para diferenciar a cobertura dentro do mesmo veículo. As tecnologias atuais facilitam a coleta e armazenamento dos dados, tanto os básicos quanto os complementares. Caso as informações conseguidas sejam insuficientes, a solução é encontrar e manter contato com fontes ligadas ao esporte, ou seja, pessoas com acesso ou, pelo menos, que possuam alguma relação com os competidores e as modalidades desconhecidas. O jornalista necessita ir além dessas fontes, conhecendo a modalidade a fundo. A atenção na reportagem é para com o leigo que, ao iniciar o esporte, percebe detalhes e dificuldades que os esportistas, muitas vezes, já esqueceram por estarem por demais acostumados com a rotina de treinos e competições. Assim, esportes, mesmo sem tradição, conquistariam espaço na mídia. Os esportes de inverno servem de exemplo porque são pouco praticados no Brasil, com os treinamentos e competições sendo realizadas em países vizinhos, como Chile e Argentina, ou mesmo nos outros centros, como América do Norte, Europa e Ásia. Porém, as competições são transmitidas nos principais canais de televisão, com as notícias sendo divulgadas nos principais jornais impressos, rádios e pela internet. Um grande público se interessa pelas competições, mesmo com a pouca participação dos atletas locais. Transmite-se a competição, mas pouco se conhece sobre a trajetória dos atletas de outros países, com apenas algumas celebridades do esporte sendo exaltadas, na maioria norte-americanos, justamente pela massificação e controle que as grandes redes desse país exercem sobre a mídia brasileira. A trajetória de determinados atletas e competições, como os do Curling, esporte com algumas semelhanças com o jogo de bocha, que é muito praticado no Brasil, poderia conduzir um aumento no número de praticantes, assim como dos locais para a prática da modalidade. As atividades do curling seriam uma novidade e uma diversão, como o boliche e a malha em algumas cidades brasileiras. Com isso e em breve, o Brasil disputaria competições de importância como as olimpíadas e poderia, inclusive, sediar torneios internacionais. Assessoria de imprensa O contexto para o desenvolvimento do jornalismo esportivo no Brasil passa pelo trabalho das assessorias de imprensa, que são essenciais para determinar um ponto de referência durante a cobertura esportiva, em especial para a familiarização para com as modalidades desconhecidas. A estratégia aproxima e diminui as dificuldades que os repórteres encontram no processo para a construção da matéria. As assessorias auxiliam no trabalho de reportagem quando revelam aspectos que, em princípio, tomaria muito tempo do jornalista. Disponibilizar dados sobre os atletas, comissões técnicas, torneios, equipes, locais de treinamento, praças esportivas são determinantes para a apresentação do trabalho da assessoria, principalmente pela internet e outras mídias digitais. O fundamental está presente nos boletins, com atualizações periódicas. Fatos e ídolos são apresentados como integrantes de uma história, contextualizando a matéria pela apresentação da filosofia do esporte. As artes marciais compreendem tradições que modificam a ideia de uma simples luta e assim por diante. A assessoria de imprensa alimenta o jornalista por meio das informações básicas que o conduzem ao contato com as fontes e os locais de prática desportiva. O resto depende do esforço do repórter. Acompanhar as competições e treinamentos e, se possível, como já dissemos, até praticar, é trabalho do jornalista, que assim não depende exclusivamente das assessorias. Cozinhar matérias por meio de textos prontos e entrevistas pelo telefone é uma prática comum, mas perigosa e que descaracteriza o trabalho de reportagem. A presença no local de treinamento e de competição conduz ao aprendizado e ao contato com os esportistas, além de valorizar o profissional e o jornal para quem trabalha. Credibilidade conquistada para futuras coberturas; confiança garantida pelo público-praticante. O trabalho de reportagem também está presente nas assessorias de imprensa. Se no primeiro momento, as informações disponibilizadas revelam o contexto da modalidade, a atualização da informação é realizada pela cobertura periódica dos assessores. O profissional que trabalha em clubes, federações e confederações vai além das informações sobre os resultados dos atletas e das equipes. A ampliação da notícia é fundamentada pelo acompanhamento dos fatos, revelando novos dados por outras narrativas, incrementadas por estatísticas sobre a performance dos atletas e dos clubes, que auxiliam não só os jornalistas durante e após a cobertura, mas também o público que, ao acompanhar as informações divulgadas, já visualiza um debate além das informações dos jornais. As notícias disponibilizadas pelas assessorias são determinantes para confrontar o conteúdo das notícias divulgadas durante a preparação até a competição. O lema "treino é treino; jogo é jogo" demonstra o quanto o jornalista é responsável pela cobertura contínua, que vai desde o acompanhamento dos treinamentos até o resultado final. Se depender apenas das informações fornecidas pela assessoria de imprensa, o jornalista está fadado a ser apenas um apresentador (ou reprodutor) de resultados, sem fornecer noticias que, possivelmente, auxiliariam o público na interpretação do resultado final. Caminhos para os noticiários Quais os princípios que regem o jornalismo esportivo brasileiro? Ser um mero divulgador de competições cheias de grana, que são promovidas pelas emissoras de televisão, como a Fórmula 1 e os campeonatos de futebol dominados por alguns clubes do futebol dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande Sul, ou ser um espaço de debate sobre a política esportiva, que visa desenvolver o desporto e, com isso, a atividade física no Brasil? A primeira resposta é certa e óbvia, porque é mais fácil reproduzir o atual modelo de cobertura que reincorpora a função de setorista. Assim o jornalista frequenta sempre o mesmo local, reconduzindo a mesma pauta, como é observado, principalmente, no telejornalismo. Correr atrás de notícias complexas, como de modalidades pouco conhecidas, que envolvam desafios, como procurar fontes desconhecidas, acompanhar treinamentos e torneios de "amadores", com pouco público, geralmente familiares, atletas das categorias menores e ainda uns poucos fãs, é uma tarefa árdua para os repórteres, ou seja, um desafio para os jornalistas que precisam e podem auxiliar na transformação do atual quadro de descrédito e desmoralização do esporte brasileiro. Negar um padrão é uma tarefa árdua, que envolve, antes de mais nada, um trabalho sobre o próprio jornalista. Não adianta querer transformar o jornalismo e o modo de relatar a notícia, se essa mudança não acontece primeiramente consigo mesmo. Dizer não e procurar alternativas é uma luta sofrida, mas qualquer ato de recriação ou inovação é difícil, senão o comunicador continuará apenas a reproduzir. Não é fácil conviver com pessoas que vivem reclamando da falta de incentivo e de organização, mas que não param de treinar, mesmo com tantas dificuldades. É uma pauta fácil e atraente para, de vez em quando, falar de miséria e luta como sentido de superação. Tema que sempre atrai e quebra o ritmo dos noticiários. São matérias montadas com a pompa de especiais. Neste sentido, o modo de pensar o desporto está contra uma das características básicas do jornalismo que é a periodicidade. Fala-se uma vez e depois o assunto fica esquecido, até algum repórter relembrar dos coitadinhos do esporte brasileiro. Se os grandes clubes de futebol ocupam um espaço diário nos noticiários, então por que as outras modalidades aparecem esporadicamente? Ou o jornalista está acostumado e deseja pouco trabalho ou existe um enorme campo de trabalho a ser explorado tanto pelos profissionais quanto pelas empresas jornalísticas. Se cada jornal preenchesse um determinado espaço com notícias sobre algumas modalidades além das tradicionais como futebol, basquete, vôlei, tênis, automobilismo, haveria uma gama diversificada de conteúdos, com os periódicos atraindo diferentes públicos, aumentando e dividindo a arrecadação. A padronização dos noticiários massacra e mantém a cultura jornalística para a promoção de grandes eventos. A aproximação com as celebridades do esporte leva o comunicador ao sentimento de ser sujeito da mídia. Jogadores de futebol, entre outros esportistas vencedores, são tratados como personalidades, por meio de fofocas como nas conversas de vizinho. A vigília é constante, com qualquer detalhe sendo motivo para pauta. Tempo perdido em meio às páginas dos jornais e aos valiosos minutos concedidos no rádio, na televisão e na internet. Enquanto isso, migalhas de informação são destinadas aos atletas de outras modalidades, lembrados somente quando representam o país nos mesmos grandes eventos, como os Jogos Olímpicos, Jogos Pan-americanos e, caso conquistem alguma colocação de destaque, em alguns mundiais. A ausência de uma ampla cobertura esportiva determina que ainda existe um grande vácuo no jornalismo especializado a ser ocupado pelos profissionais de comunicação. Com o aperfeiçoamento em modalidades sem apelo midiático, o jornalista tem a seu favor a possibilidade de disponibilizar notícias e ainda servir como fonte para os meios tradicionais que se ocupam apenas dos esportes tradicionais e com grandes patrocinadores como é o caso do futebol, do automobilismo, do tênis, do voleibol e do basquetebol. O mercado de trabalho está aberto, principalmente agora com os Jogos Olímpicos no Brasil, mas também passível de continuar estático, caso os jornalistas permaneçam a plagiar modelos. As redações necessitam também de um diferencial caso não desejem ser engolidas pelas agências internacionais durante a cobertura olímpica. A ampliação do conteúdo passa pela diversificação da pauta e, com isso, das linhas editoriais. Novos conceitos necessitam ser aplicados com um conjunto de medidas que possibilite, a cada veículo, a responsabilidade pelo acompanhamento de outros esportes, desde treinamentos até as competições. Existem caminhos para os noticiários, como a especialização em determinado esporte ou o agendamento das modalidades. No primeiro caso, a cobertura diária incluiria um esporte (para ou não) olímpico, incluindo as categorias de base e, no segundo, as modalidades seriam distribuídas conforme a edição do jornal. Ampliar o repertório de discussões e gostos Os aparelhos em audiovisual, como câmeras e gravadores, estão cada vez mais acessíveis ao público. São ferramentas baratas, fáceis de achar e de simples manuseio. Desta forma, as gravações amadoras constituem um universo paralelo às grandes redes que dominam a cobertura esportiva. Muitas informações e transmissões esportivas são agora disponibilizadas por seus produtores por meio, principalmente, das redes digitais. Porém, outras manifestações ficam limitadas ao setor privado, devido ao preconceito para com a qualidade das produções consideradas paralelas. O acesso à tecnologia já é uma realidade, mas o conhecimento continua restrito ao universo profissionalizante da academia e dos meios de comunicação. O desafio é proporcionar uma aproximação com esses produtores, ampliando os canais de educomunicação, o que possibilitaria o reaproveitamento deste material e, assim, a valorização da produção considerada amadora. Se existe a popularização da tecnologia, então por que não substituir o atual espaço ocupado pelas reprises, mesas-redondas e noticiários padronizados pelos novos conteúdos? A fórmula é a integração entre comunicadores, esportistas e dirigentes por meio das confederações e federações, instituições representativas, as escolas e os veículos de comunicação, entre outras entidades públicas e privadas que estão diretamente ligadas ao fomento do desporto. Neste ponto, o papel do Comitê Olímpico Brasileiro como intermediário é fundamental para que ocorra uma troca e, ao mesmo, uma aliança pelo desenvolvimento do desporto. O principal objetivo é a massificação (pluralidade) do desporto pela presença constante das diversas modalidades esportivas na programação dos canais de rádio e televisão, nos jornais e revistas impressas e nos portais de Internet, entre outros meios, quebrando assim o atual monopólio dos interesses representativos do futebol e algumas outras atividades, como a Fórmula 1, fomentadas por alguns canais de televisão que dominam a transmissão esportiva no Brasil. É essencial possibilitar ao público a identificação com diferentes esportes, ampliando o repertório de discussões e de gostos, não transformando em anormal o indivíduo prefere outras modalidades, muitas vezes visto como alguém rejeitado por estar fora dos eventos preferidos da mídia, principalmente o futebol. Os comunicadores esportivos A difícil tarefa dos comunicadores esportivos passa pela mudança de comportamento e pensamento sobre o universo esportivo. É inadmissível ocupar o espaço da programação com notícias superficiais, com repetições e firulas sobre celebridades esportivas momentâneas, enquanto diversas modalidades lutam por poucos segundos de exposição. O primeiro ponto é a divisão e abertura da programação e dos cadernos de esporte para a exibição de informações sobre os diversos esportes, assim como para a transmissão dos mais variados eventos. Os horários vazios nas rádios e televisões, como as madrugadas de segunda a sexta-feira, assim como as notas nos jornais impressos, são vácuos que podem ser ocupados para a divulgação de outros esportes. Caso o primeiro passo foi conquistado, é importante desenvolver parcerias entre comunicadores e esportistas, incluindo dirigentes e outros interessados, com o intuito de viabilizar projetos de baixo custo e manutenção da qualidade. O trabalho em conjunto é fundamental, sendo possível assim uma transmissão segura e de credibilidade. A atual parceria já é observada, parcialmente, na televisão, em especial durante as coberturas dos Jogos Olímpicos e Pan-americanos, quando da participação de (ex) atletas, que enriquecem a transmissão ao esclarecer dúvidas e acrescentar novas informações sobre a (desconhecida) modalidade. A fórmula é interessante e pode ser seguida, mas também é possível dinamizar o processo cedendo autonomia aos esportistas. A diferença é tornar este colaborador um agente responsável pela transmissão. Se de um lado é uma oportunidade de emprego, por outro é uma forma de popularizar o acesso às técnicas de captação, seleção e transmissão. Ao criar projetos independentes ou para desenvolver as parcerias entre os veículos de comunicação e as entidades desportivas, surgirão novas oportunidades de trabalho para os jornalistas, radialistas, cineastas, entre outros comunicadores, assim como para profissionais de educação física e desporto. No mesmo âmbito, surgem desafios para os que já estão envolvidos no esporte. Os assessores de imprensa das confederações, federações e clubes são agora agentes facilitadores tanto na transmissão das competições, assim como na assistência aos demais colaboradores. A vivência na modalidade possibilita também o contato periódico com os esportistas, diminuindo as dificuldades que geralmente os jornalistas possuem na cobertura de modalidades sem apelo informativo. O esportista não é mais a fonte, mais um parceiro. No caso do jornalismo, a presença do repórter é fundamental, mas, caso seja impossível, é fundamental disponibilizar um espaço para a transmissão das notícias e mesmo da íntegra dos eventos esportivos. O jornalista se torna o mediador que facilita a entrada de conteúdos antes inacessíveis. Para isso, além dos assessores de imprensa, os demais esportistas começam a integrar o processo, alimentando os noticiários. Um plano de metas remete ao compromisso de disponibilizar espaços para os chamados comunicadores esportivos. São agentes, geralmente independentes, que captam e disponibilizam o conteúdo especializado de cada modalidade. Credenciam-se como alternativos para o desenvolvimento do desporto junto às grandes redes e às entidades oficiais. Quando excluídos, constroem seus canais em paralelo, mas quando aceitos, são colegas indispensáveis para a inclusão de outras modalidades sem possibilidade de cobertura. Considerações finais Dinamizar as manifestações esportivas nos noticiários e transmissões é uma meta teoricamente simples, porque é só dividir e mesclar o conteúdo dos jornais e dos quadros de programação das televisões e rádios, com o mesmo acontecendo na Internet e por meio de outras mídias. O problema é quebrar a avareza de ideias que é observada no jornalismo esportivo, que prefere mascarar o problema da ausência de cobertura esportiva pela inovação dos formatos. Jovens comunicadores são colocados para atrair os adolescentes pelo humor, com uma pitada de mau-gosto, tirando sarro dos atletas por causa da aparência ou um erro durante a competição, fortalecendo estereótipos e preconceitos. Aos heróis, surgem os puxa-sacos, cheios de manhas no linguajar. Aos experientes comunicadores sobram as críticas por levar o assunto a sério, comentando as falhas e as virtudes de uma vitória ou de uma derrota. Como sempre, a tônica é o futebol, com algumas informações sobre resultados de outros esportes. Iguais no conteúdo e diferentes no formato. Perde-se tempo com os futebolistas dos grandes clubes, enquanto as demais modalidades gritam por uma pequena parcela de atenção. Repetir esta retórica foi preciso neste texto e será sempre necessária, porque o jornalista brasileiro precisa acompanhar, estudar e, se possível, até praticar outros esportes. A Olimpíada na Brasil está próxima e o jornalismo necessita de profissionais especializados em golfe, remo, tênis de mesa, ciclismo e tantas outras modalidades (para e não) olímpicas. O público também necessita de opções na grade de programação. Versatilidade é o segredo também diante dos patrocinadores que observam na novidade as possibilidades de investimento, inclusive pelas leis de incentivo fiscal. Desta crítica pela ausência de criatividade e de democratização no jornalismo esportivo renasce a esperança pela transformação do esporte no Brasil. Os valores como a superação e o limite, além dos sinônimos de lazer e saúde, contagiam o público, que percebe naquele instante uma condição que transforma a realidade em coisa boa. O esporte faz bem às pessoas, sem limite de idade. Acompanhar o esporte pela mídia também é interessante, porque, além do resultado, surgem heróis para um Brasil esquecido, sem praças esportivas, inclusive para o futebol, neste caso repetindo os comentaristas que dizem: "Cadê os campinhos de terra?" Os desafios passam ainda pela defesa e continuidade das bandeiras que sempre ressurgem no jornalismo brasileiro, como as observadas no conflito entre os defensores do futebol-arte e os do futebol-força. A magia deste debate revela os princípios do esporte como manifestação cultural, sendo indispensável para o combate à violência. O mesmo acontece com as narrações esportivas com origem no rádio, que exaltam a plasticidade pela emoção e alegria popular. Clamamos aqui pela mudança de mentalidade, não só dos políticos, mas também dos jornalistas. Reestruturar o atual modelo é possível com a integração com esportistas, considerando aqui também os cartolas. A proposta é conversar com os interessados em viabilizar projetos de comunicação esportiva. Um das propostas é permitir a rede aberta, com canais ampliados para além das grandes coberturas em rede nacional e internacional. Neste caso, é possível ainda planejar estratégias também para investimentos localizados para modalidades e competições. Os esportes aquáticos (de mar), como o surfe e o bodyboard, entram na lista de especificidades, assim como os esportes de gelo, de montanha, de ar e outros. Em Piraju, no interior de São Paulo, a prática da canoagem foi estimulada por um projeto que permitiu o contato da população com os atletas da seleção brasileira, que moravam, treinavam e competiam na região, banhada pelo Rio Paranapanema. Agora a cidade possui vários praticantes, inclusive com equipes e representantes na equipe nacional. A canoagem ocupa um importante espaço na mídia local, que é considerada uma importante fonte de informação sobre a canoagem. Já no caso dos torneios esportivos em geral, as filiais ou sucursais, assim como os veículos locais, principalmente de rádio, conduzem a cobertura, muitas em parceira. Se cada modalidade possui uma característica, o jornalista pautado para o evento observa as diferenças, preparando, junto com os dirigentes e os profissionais de educação física e esportes locais, a melhor maneira de conduzir a informação. As universidades e faculdades também são determinantes para o processo de ampliação da política de comunicação esportiva no Brasil. O modelo de fomento científico, com o financiamento de bolsas para pós-graduação em mestrado e doutorado, é um exemplo a ser utilizado no esporte universitário, propondo aos atletas de alto rendimento que realizem pesquisas junto à preparação. O mesmo acontece com os mais jovens, que seriam financiados por meio de projetos de iniciação científica em graduação e pela bolsa-escola para o ensino fundamental e médio. Os canais educativos de comunicação, como o canal universitário de televisão, os jornais-laboratório dos cursos de jornalismo e os jornais-escola, seriam os promotores das competições e das coberturas [fontes: Cláudio Roberto Rodrigues (jornal O Observador e site www.observadorpiraju.com.br)]. As grandes redes precisam ainda reavaliar a condução interna do processo de comunicação. Com a avalanche digital, a abertura da grade é essencial e, como efeito, surge a necessidade de implantação de novos conteúdos. A quebra do monopólio do futebol, com a substituição por uma plataforma esportiva, seja talvez uma das soluções para ampliação das pautas e, assim, para o equilíbrio das linhas editorais nesta área. As parcerias com agentes esportivos, em especial para a captação da imagem e som, consolidam uma nova ordem que determina o jornalista esportivo como condutor e mediador de relatos representativos. Inicia-se assim a narrativa plural, com a interferência direta das fontes, fundamentada, neste caso, pelos envolvidos (in) diretamente com esporte, sejam atletas, torcedores, preparadores físicos, torcedores e dirigentes. A transformação da comunicação esportiva passa pela mudança de comportamento dos jornalistas, assim como dos demais profissionais de comunicação. Os noticiários estão pautados pela promoção de eventos, sendo limitado, ou quase nulo, o debate em torno da política esportiva no Brasil. As reportagens sobre a trajetória e situação dos atletas, dos clubes, das confederações, quando aparecem, são permeadas pelo sensacionalismo, com apelo sobre o descaso e a dificuldade financeira. As atuais estratégias pós e pré-jogo, como as mesas-redondas, possibilitariam a discussão em torno dos problemas do esporte, sendo um espaço de extensão do noticiário. Por fim, deste artigo surge uma lição: não faltam propostas, mas o jogo já começou. | |