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segunda-feira, 28 de março de 2011

As redes sociais após a morte

Da Época

A vida (digital) depois da morte

O corpo vai, mas os perfis ficam: como isso altera o luto dos vivos e o que fazer para garantir que suas identidades na internet tenham o fim que você deseja

RENAN DISSENHA FAGUNDES

A atriz Cibele Dorsa, de 36 anos, morreu na madrugada de sábado (26). Uma hora depois, Carla Dorsa Gemelli postou um recado no Facebook de sua irmã: "Queridos amigos, Hj é o dia mais triste da minha vida, minha irmã faleceu às 2 da manhã! Sei que ela está com Jesus, mas a dor e a saudade são muito forte!!!" Não demorou para que o mural do perfil de Cibele na rede social se transformasse em um memorial à atriz. Centenas de pessoas – primeiro os amigos, mas depois também fãs e curiosos – deixaram os mais diversos recados na página. Muitos lamentaram a morte de Cibele e outros escreveram mensagens de pêsames para a família. Havia quem parecesse não entender o que tinha acontecido e alguns dos textos eram escritos para a atriz, como se ela pudesse ler e responder. O perfil de Cibele no Twitter, em que ela deixou uma espécie de carta de despedidas – um vídeo com fotos dela e de Gilberto Scarpa e uma mensagem dizendo "lutei até onde pude" – antes de pular da mesma janela que seu noivo tinha usado para se suicidar, ganhou seguidores após sua morte.

O caso de Cibele pode parecer excepcional – pela circunstâncias da morte e pela cobertura da imprensa –, mas serve de exemplo para uma questão que ganha cada vez mais importância: o que acontece com seu legado digital depois que você morre? É bastante provável que você, que está lendo esta reportagem, tenha uma identidade na internet – perfil no Twitter ou no Facebook, um blog. Mas o que será do seu eu digital quando você não estiver mais aqui para atualizá-lo? No Brasil, a taxa de mortalidade é de 6,36 mortes para cada mil habitantes. Há quase 76 milhões de usuários de internet aqui. A conta [sem levar em conta diversas características sociais, claro] dá mais de 480 mil usuários de internet mortos por ano. Usando a taxa de mortalidade global e estatísticas do Facebook, o jornalista americano Chris Mohney calculou que há mais de 5 milhões de mortos na rede social.

A questão não é nova, mas seus significados ficam mais profundos conforme a internet se torna cada vez mais social. Ainda na década de 1990, a web era feita de conexões entre documentos, pedaços de informações – textos ou imagens. Nessa primeira fase, a vida online de alguém não era assim tão diferente de um baú com vários escritos e correspondências guardados. A segunda web – chamada normalmente de web 2.0, mas também de web social – muda essa dinâmica: em vez de documentos, a internet agora conecta pessoas.

Uma das unidades básicas dessa web é o perfil. O perfil pode ser uma criação feita apenas para o mundo online – como os avatares do Second Life, os personagens do jogo World of Warcraft ou os diversos fakes do Orkut ou do Twitter – ou pode estar ligado a uma pessoa de verdade. Esse segundo tipo é cada vez mais comum, principalmente impulsionado pela ideia que Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, tem para sua rede social: Zuckerberg quer que cada perfil no Facebook corresponda a uma pessoa no planeta [ou bicho de estimação]. A lógica que impera por lá é mais ou menos essa, embora não de cópias fiéis do mundo real, mas de identidades digitais próximas daquelas das pessoas de verdade. No LinkedIn, rede social de perfis profissionais, as pessoas também têm um correspondente digital de uma parte de sua identidade real – no caso, a parte trabalhadora. Perfis no Twitter e no YouTube muitas vezes também têm relações com o mundo físico. Esses perfis todos têm uma particulariedade: eles continuam existindo quando a pessoa está offiline, seja porque está dormindo, viajando – ou porque morreu.

No artigo Viver e morrer no Orkut: os paradoxos da rematerialização do ciberespaço, Afonso de Albuquerque, professor de estudos de mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), escreve que "em inúmeros aspectos, os mortos orkutianos se parecem muito com os vivos". Embora Afonso afirme que diversas características desse texto, publicado em 2007, não possam ser aplicadas às redes com maior crescimento hoje – Facebook e Twitter –, é interessante destacar a explicação de por que os mortos do Orkut se parecessem com os vivos: "Suas fotografias frequentemente apresentam pessoas cheias de vida, flagradas em festas, viagens e na companhia de amigos. As listas de amigos, recados e testemunhais dão ao morto um lugar nas relações sociais. Os mortos orkutianos permanecem congelados em um eterno presente sem futuro". Esquecendo particularidades das redes sociais, pode-se dizer que os mortos da web 2.0 em geral ficam presos nessa mesma situação.

André* morreu em novembro de 2007, aos 14 anos. Seu perfil no Orkut nunca saiu do ar. A reação online nos dias que se seguiram a sua morte foi muito semelhante a que pode ser vista agora no mural do Facebook de Cibele: amigos e familiares entrararam lá para deixar recados, lamentar a morte, falar diretamente com André como se fosse possível uma comunicação. Mas o memorial não terminou aí: em 2008, 2009, 2010 e em 2011, as pessoas voltaram para deixar mensagens para André tanto na data de sua morte quanto (mais) no seu aniversário. Os comentários são simples, coisas como "ainda sinto sua falta", "saudades de você" e "Parabéns André". "No mundo do faz de conta, é como se estivésemos mandando a mensagem. É mais ou menos uma forma para dizermos o que não pode calar para o mundo", afirma Fátima*, mãe adotiva de André. "É muito bom por se tratar de um lugar que para sempre vai ser dele." Fátima compara as visitas ao perfil com idas ao cemitério. "Está na hora de visitarmos de forma diferente. Estamos em constante mudanças e acho legal a ideia de o túmulo ser assim", diz. "Chamaria de um lugar virtual onde ele já esteve e deixou um pouco de sua essência."

A permanência na internet de uma parte da identidade real da pessoa morta altera um pouco a forma como lidamos com a morte. As funcionalidades das redes sociais ganham outros significados: um espaço para troca de mensagens e links vira um espaço de homenagens póstumas e até de conversas metafísicas. Mesmo funcionalidades menores são reinventadas pela morte. No começo da década de 2000, antes das redes sociais, um colega de escola meu morreu com a mesma idade que André. Um tempo depois da comoção entre os amigos, as datas de morte e de nascimento daquele colega ficaram esquecidas. Para os amigos de André é diferente: redes sociais como o Orkut e o Facebook têm recursos para lembrar os amigos de alguém quando é seu aniversário. E todo ano, vendo esse recado sobre o aniversário de André, muitos que talvez não fossem se lembrar voltam lá para dizer que ainda sentem saudades dele.

A psicóloga Maria Cristina Sampaio de Toledo, que trabalha com cuidados paliativos no ambulatório médico da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), diz acreditar que essas mudanças no luto podem não ser o caminho ideal. Maria Cristina afirma que o luto pode variar muito dependendo das pessoas, do tipo de morte e da cultura, mas que o caminho mais comum é "entender que a pessoa partiu e redefinir a vida com a ausência do ente querido". O retorno a um perfil online poderia significar uma inabilidade de aceitar a perda. Para Maria Cristina, esses retornos também podem ter relação com a idade dos mortos. A maior parte dos usuários de internet são jovens, e a morte de jovens carrega um peso que é o fim dos planos de uma vida que não se realizou completamente, de coisas que não puderam acontecer. Maria Cristina também afirma que as pessoas que continuam acessando os perfis de amigos ou familiares que se foram podem acreditar ser um "guardião da memória da pessoa que morreu".

O americano Evan Carroll, autor ao lado de John Romano do livro Your Digital Afterlife [Sua pós-vida digital], afirma que essa situação é natural. "As redes sociais são cada vez reflexões mais ricas e precisas de nós como indivíduos. Quando uma pessoa morre, esses ecos podem ficar para trás. É natural que os sobreviventes se voltem para essas identidades quando sofrem com a perda de um ente querido", disse. A questão, para Carroll e Romano, também autores do siteThe Digital Beyond, é outra: o que você, que está vivo, pode fazer para garantir a permanência de sua memória virtual? O livro é um começo para quem pretende pensar o que será de suas identidades na web. O subtítulo resume bem: Quando o Flickr, o Facebook e o Twitter são suas propriedades, qual é o seu legado?

"Temos ouvido cada vez mais e mais histórias sobre pessoas que perderam dados valiosos tanto por falhas de hardware quanto por causa da morte de um ente querido", afirma Carroll. "Cada vez que isso acontece, as pessoas se tornam mais conscientes do problema." E o problema é importante, porque Carroll afirma que pegamos uma passagem só de ida para o mundo digital: tudo que antes era armazenado no meio físico ficam agora em computadores, sejam os emails que substituíram as cartas, fotos e vídeos, ou outras coisas que talvez nem existiriam sem a web (toda uma coleção de tweets, por exemplo). "A longo prazo, cuidar de seus bens digitais e planejar o seu destino vai ser tão importante quanto cuidar da disposição de bens físicos", afirma Carroll. Your Digital Afterlife ensina a tratar o legado na internet como um testamento no mundo físico. "O básico é criar um inventário de seus bens, incluindo como acessá-los e seus desejos. Então entregue a lista para a pessoa certa", diz Carroll. E a lista nem precisa ser de todas as suas contas, apenas as mais importantes.

Para quem está em uma situação mais complexa, ou quer comodidade, já há serviços disponíveis na internet para cuidar de seu testamento digital. Sites como o Entrustet, com seu slogan "passe as chaves para o seu legado digital", eLegacy Locker ("um repositório seguro para suas propriedades digitais") guardam listas de contas online dos usuários, com seus logins e senha, e passam a informação para um "herdeiro" depois que a pessoa morre. No DataInherit é possível atualizar seu testamento online por um aplicativo para iPhone. Jesse Davis, um dos fundadores do Entrustet, afirma no site da empresa que teve a ideia do serviço depois de ler sobre a história de Justin Ellsworth. Fuzileiro naval dos Estados Unidos, Ellsworth morreu no Iraque em 2004 e não deixou com ninguém a senha para seu email no Yahoo!. Quando a família quis acessar a conta, o Yahoo! se recusou. Foi preciso um processo na Justiça para que a empresa entregasse o controle do email para os familiares de Ellsworth.

Essas empresas, por outro lado, têm um componente mórbido. Você poderá receber emails periódicos para o servço confirmar que ainda está vivo. Preparar uma lista e decidir quem vai receber suas senhas também pode ser um trabalho um pouco depressivo. "Muitas pessoas acham que planejar a sua própria morte pode ser desagradável. As pessoas tendem a planejar apenas quando atingem certas metas na vida: casamento, filhos, aposentadoria", diz Carroll. "Um estudo recente constatou que apenas 30% dos americanos têm testamentos jurídicos. Outro aspecto mórbido da morte na internet é a recorrência de perfis de pessoas que já morreram em ferramentas de recomendação. O Facebook, depois que um usuário fica muito tempo sem interagir com a sua rede social, manda uma mensagem para a lista de amigos perguntando se não é a "hora de se reconectar com fulano". Muitas vezes não é possível.

"Atualmente, a internet não tem conhecimento da morte de um usuário. Hoje, uma conta poderia ficar na Web para sempre", diz Carroll. "Centenas de milhares de pessoas vão morrer neste ano sem que as maiores redes sociais e serviços fiquem sabendo." Até recentemente, as empresas de internet nem se preocupavam muito em ter uma política para lidar com a morte. O Twitter adotou uma em agosto de 2010, movido pela nova funcionalidade de recomendar perfis. O site se propõem a apagar a conta ou ajudar os familiares a salvarem um backup das mensagens enviadas por uma pessoa. É preciso mandar um link para um obituário ou para uma notícia sobre a morte da pessoa. Também com envio de obituário, o Facebook pode apagar uma conta. No Facebook familiares podem ainda pedir para que um perfilvire um memorial. Um perfil que se transforma em memorial pode ser acessado apenas por amigos e some das recomendações. As contas do Yahoo!, incluindo o Flickr, ainda são intransferíveis para familiares de uma pessoa morta.

Mesmo que você passe suas contas e senhas para alguém, outros problemas podem surgir para seu futuro digital. Serviços pagos, como uma conta profissional no Flickr, podem ser uma grande dor de cabeça para herdeiros. Há também problemas como spam e vandalismo digital: no mural de Cibele no Facebook, em meio aos amigos tristes e às despedidas, várias pessoas criticaram duramente a atriz pelo suicídio, fazendo até mesmo acusações sobre uso de drogas. O Orkut de André, entre um aniversário e outro, enche de mensagens automáticas sobre festas ou como desbloquear o álbum de fotos de alguém. E no fim, nada garante que seus desejos serão cumpridos. Antes de morrer, Franz Kafka pediu a seu amigo Max Brod que destruísse todos os seus livros que não haviam sido publicados. "Meu último pedido: tudo que deixo para trás ser queimado sem ser lido", escreveu Kafka. Brod não realizou o desejo de Kafka e publicou clássicos como O Processo e O Castelo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

112 formas diferentes de escrever o nome do ditador Líbio

  • O site do jornal americano The Christian Science Monitor encontrou uma forma inusitada de abordar a crise na Líbia. A publicação colocou no ar uma reportagem na qual debate qual é a grafia correta do nome do ditador da Líbia, que é chamado de Muammar Khadafi por ÉPOCA. O jornalista lembra um post antigo de um blog da ABC News que listou 112 formas diferentes de escrever o nome de Khadafi e explica o motivo de tanta confusão:


Qaddafi, Muammar

Al-Gathafi, Muammar

al-Qadhafi, Muammar

Al Qathafi, Mu'ammar

Al Qathafi, Muammar

El Gaddafi, Moamar

El Kadhafi, Moammar

El Kazzafi, Moamer

El Qathafi, Mu'Ammar

Gadafi, Muammar

Gaddafi, Moamar

Gadhafi, Mo'ammar

Gathafi, Muammar

Ghadafi, Muammar

Ghaddafi, Muammar

Ghaddafy, Muammar

Gheddafi, Muammar

Gheddafi, Muhammar

Kadaffi, Momar

Kad'afi, Mu`amar al- 20

Kaddafi, Muamar

Kaddafi, Muammar

Kadhafi, Moammar

Kadhafi, Mouammar

Kazzafi, Moammar

Khadafy, Moammar

Khaddafi, Muammar

Moamar al-Gaddafi

Moamar el Gaddafi

Moamar El Kadhafi

Moamar Gaddafi

Moamer El Kazzafi

Mo'ammar el-Gadhafi

Moammar El Kadhafi

Mo'ammar Gadhafi

Moammar Kadhafi

Moammar Khadafy

Moammar Qudhafi

Mu`amar al-Kad'afi

Mu'amar al-Kadafi

Muamar Al-Kaddafi

Muamar Kaddafi

Muamer Gadafi

Muammar Al-Gathafi

Muammar al-Khaddafi

Mu'ammar al-Qadafi

Mu'ammar al-Qaddafi

Muammar al-Qadhafi

Mu'ammar al-Qadhdhafi

Mu`ammar al-Qadhdhāfī 50

Mu'ammar Al Qathafi

Muammar Al Qathafi

Muammar Gadafi

Muammar Gaddafi

Muammar Ghadafi

Muammar Ghaddafi

Muammar Ghaddafy

Muammar Gheddafi

Muammar Kaddafi

Muammar Khaddafi

Mu'ammar Qadafi

Muammar Qaddafi

Muammar Qadhafi

Mu'ammar Qadhdhafi

Muammar Quathafi

Mulazim Awwal Mu'ammar Muhammad Abu Minyar al-Qadhafi

Qadafi, Mu'ammar

Qadhafi, Muammar

Qadhdhāfī, Mu`ammar

Qathafi, Mu'Ammar el 70

Quathafi, Muammar

Qudhafi, Moammar

Moamar AI Kadafi

Maummar Gaddafi

Moamar Gadhafi

Moamer Gaddafi

Moamer Kadhafi

Moamma Gaddafi

Moammar Gaddafi

Moammar Gadhafi

Moammar Ghadafi

Moammar Khadaffy

Moammar Khaddafi

Moammar el Gadhafi

Moammer Gaddafi

Mouammer al Gaddafi

Muamar Gaddafi

Muammar Al Ghaddafi

Muammar Al Qaddafi

Muammar Al Qaddafi

Muammar El Qaddafi

Muammar Gadaffi

Muammar Gadafy

Muammar Gaddhafi

Muammar Gadhafi

Muammar Ghadaffi

Muammar Qadthafi

Muammar al Gaddafi

Muammar el Gaddafy

Muammar el Gaddafi

Muammar el Qaddafi

Muammer Gadaffi

Muammer Gaddafi

Mummar Gaddafi

Omar Al Qathafi

Omar Mouammer Al Gaddafi

Omar Muammar Al Ghaddafi

Omar Muammar Al Qaddafi

Omar Muammar Al Qathafi

Omar Muammar Gaddafi

Omar Muammar Ghaddafi

Omar al Ghaddafi

Parte do problema é que não há uma autoridade aceita universalmente para transliterar nomes do árabe. Normalmente, os veículos jornalísticos usam qualquer forma que o sujeito prefira, mas este sujeito não decidiu por nenhuma forma particular para seu nome na ortografia romana.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A ciência do beijo

Entrevista

Em seu novo livro, 'The Science of Kiss', a cientista e jornalista Sheril Kirshenbaum explica por que o beijo faz todo sentido do ponto de vista biológico e por que os seres humanos gostam tanto de beijar

"Ninguém nunca me beijou como você", diz a esposa infeliz vivida por Deborah Kerr ao amante interpretado por Burt Lancaster, na célebre cena de A Um Passo da Eternidade. O arrebatamento ganha contornos dramáticos no filme de Fred Zinnemann. Já na vida real, é o resultado genuíno de uma complexa cadeia de reações biológicas cujo propósito, justamente, é nortear a decisão de investir ou não num relacionamento. "O beijo ativa todos os nossos sentidos para que forneçam pistas sobre a compatibilidade e o potencial a longo prazo do parceiro", diz ao site de VEJA a pesquisadora Sheril Kirshenbaum. Em seu novo livro, The Science of Kissing ("A Ciência do Beijo", sem previsão de lançamento no Brasil), Sheril explica a origem e a evolução do beijo, por que faz bem à saúde e como pode decidir com quem vamos passar o resto da vida. Leia trechos da entrevista.

Divulgação

A capa do livro 'The Science of Kiss', de Sheril Kirshenbaum

A capa do livro 'The Science of Kiss', de Sheril Kirshenbaum

Qual a origem do beijo? O registro mais antigo do beijo vem da Índia. São textos em sânscrito de 3.500 atrás. No entanto, considerando tantos comportamentos similares no reino animal, especialmente entre primatas, pode-se supor que os humanos, de alguma maneira, sempre se beijaram.

Por que beijamos? O beijo ativa todos os nossos sentidos - como o olfato, o paladar e o tato - para que forneçam pistas sobre a compatibilidade e o potencial a longo prazo do parceiro. Nosso corpo e cérebro nos ajudam a decidir se devemos investir no relacionamento. Ao mesmo tempo, as terminações nervosas existentes nos lábios fazem da experiência algo extremamente agradável. E é função dos hormônios e dos neurotransmissores promoverem o vínculo e a proximidade entre as duas pessoas.

O beijo é uma evolução biológica? Como fica a influência cultural? O ato de beijar é um exemplo maravilhoso de comportamento que combina inclinações naturais e aprendizado. Nós temos um instinto biológico muito forte que nos impulsiona a beijar outra pessoa, mas isso é também um comportamento aprendido e moldado pela cultura e pela própria experiência pessoal. Em regiões onde não existe a tradição de beijar, da maneira como a entendemos hoje, há comportamentos que podem ser considerados similares, tais como lamber, esfregar e até mesmo assoprar, sempre com o mesmo propósito.

Quais são os mecanismos químicos e biológicos envolvidos no ato de beijar? Quando o beijo “combina”, nossas bochechas ficam avermelhadas, nossa pulsação acelera, a respiração fica irregular e as pupilas dilatam - o que pode explicar por que fechamos os olhos. Beijar libera ainda o “hormônio do amor”, a ocitocina, que trabalha para manter a conexão entre duas pessoas. Portanto, beijar pode ajudar a manter o amor em relacionamentos longos. Também é associado ao beijo o aumento de dopamina, neurotransmissor responsável pelo desejo. Enquanto isso, a serotonina causa pensamentos obsessivos sobre o parceiro. Esse é o mesmo neurotransmissor envolvido em pessoas com TOC. Isso é apenas o começo. É interessante observar como esses hormônios e neurotransmissores são responsáveis por vários dos sintomas que nós associamos à paixão.

Como o cérebro reage ao beijo? Um beijo bom envia uma cascata de sinais para o cérebro, que nos fazem sentir bem, reforçando o comportamento, o que nos faz ter vontade de continuar o que estamos fazendo.

Beijar vicia? A dopamina é um neurotransmissor que atinge seu pico durante o beijo. É um tipo de droga natural, associada à recompensa, que nos faz sentir uma onda de euforia e desejo. Ela estimula os mesmo centros de prazer no cérebro que as drogas, nos fazendo querer mais e mais, como um vício.

Beijar é perigoso? Embora o beijo possa transmitir bactérias e vírus, é algo relativamente seguro. Existe um número muito maior de germes que podem ser transmitidos por um aperto de mão.

Qual o maior engano sobre o beijo? Provavelmente o ditado que diz que "um beijo é apenas um beijo". Na verdade, há muito mais coisas envolvidas.

O que faz um beijo ser memorável? De acordo com John Bohannon, psicólogo da Universidade de Butler, o primeiro beijo pode deixar uma memória muito viva. Ele descobriu que a maioria das pessoas consegue se lembrar detalhadamente da experiência. Isso pode ter alguma relação com os altos níveis de excitação dos nossos sentidos para reunir informações importantes sobre a atividade e a outra pessoa. É um momento muito poderoso e nos ajuda a decidir o que fazer em seguida.

Quais as diferenças biológicas de um beijo romântico e de um social? Os dois tipos de beijo transmitem uma sensação de confiança. Estamos deixando outra pessoa invadir nosso “espaço pessoal”. Entretanto, um beijo social evoluiu historicamente como um tipo de saudação, provavelmente por causa do jeito como nossos ancestrais usavam o nariz para agradecer ou demonstrar reconhecimento. Isso, em certo ponto, provavelmente passou a ser acompanhado de um selinho.

Divulgação

Sheril Kirshenbaum

A pesquisadora Sheril Kirshenbaum

Qual a diferença na maneira que homens e mulheres encaram o beijo? Existe uma grande diferença entre os gêneros em relação à atitude e às preferências do beijo. Mulheres tendem a descrever o beijo como uma maneira de medir o relacionamento e de descobrir os sinais que o beijo pode dar sobre o futuro. Homens com frequencia descrevem o beijo como um meio de alcançar um determinado fim, esperando por mais contato físico. Felizmente, beijar é prazeroso para ambos os sexos.

Quais os benefícios do beijo para a saúde? Uma vez que o beijo é um meio tão significativo para criar vínculos entre as pessoas, ele é benéfico para a mente e também para o corpo. Vínculos fortes estão ligados a melhores relacionamentos, uma melhor sensação de bem estar, atitudes mais otimistas, baixa pressão sanguínea e menos estresse.

Por que algumas culturas não adotaram o beijo na boca? Enquanto eu produzia meu livro, li alguns relatos de viajantes do século XIX sobre culturas que tradicionalmente não beijavam do como fazemos. Um beijo na boca deve ter parecido bem estranho a estas populações. Entretanto, se ampliarmos a definição de beijo, como Charles Darwin fez, incluindo gestos como assopros no rosto e lambidas, reparamos que há uma similaridade de comportamentos e uma biologia envolvida aparentemente universal.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

"Quanto maior o público, menor a complexidade do filme"

Juan Carlos Valdívia, diretor boliviano, fez um filme autoral e ganhou muitos prêmios estrangeiros. Ele gostaria que a América Latina passasse a exportar mais suas histórias, e não tanto suas misérias

LAURA LOPES
Mônica Wojciechowski
Valdívia ficou três anos em jejum de cinema. Retornou à ativa com um filme totalmente autoral

O diretor boliviano Juan Carlos Valdívia estava como que convalescente, doído e machucado depois de uma produção de sucesso, mas pela qual teve que fazer muitas concessões. American Visa, de 2005, trouxe a desilusão por que passa todo jovem diretor que almeja independência e autoridade sobre sua obra. "O filme acabou virando cinema de marketing, que está destruindo o cinema (de arte)", diz. Depois disso, ficou quase três anos num "inverno" cinematográfico, sem produzir ou assistir cinema. Eis que num momento de iluminação, resolveu que deveria escolher entre se renovar ou morrer como artista. "Decidi fazer um filme que só eu poderia fazer", afirma. Em seis meses, escreveu o roteiro, rodou e finalizou Zona Sur, longa que ganhou prêmio de melhor diretor e roteiro em Sundance na categoria cinema mundial, melhor ator, roteiro e prêmio especial do júri no festival de Guadalajara, e esteve na seleção oficial dos festivais de Tóquio, Miami, Berlim, Huelva (Venezuela) e Roma. Aqui no Brasil, o filme, finalizado há um ano e meio, foi exibido no Festival do Rio, em setembro, e no Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, em julho.

Zona Sur se passa praticamente só dentro da casa de uma família abastada em crise. A mãe, Carola, é divorciada e vive com seus três filhos, Andrés, Bernarda e Patricio, e dois empregados, Wilson e Marcelina – índios Aymara. Todas as cenas são de planos longos, ou seja, não há cortes dentro de uma mesma sequência: a câmera explora todos espaços do set, mostra os detalhes, foge dos personagens e volta a eles como se fosse um espectador curioso. Ela registra ao mesmo tempo em que explode na tela os símbolos da aristocracia de La Paz, que está em franca decadência.

Carola é uma mulher ocupada pelo trabalho, que aparentemente não dá muito retorno financeiro. Ela não paga o mordomo há seis meses – mesmo sendo ele a pessoa que realmente controla a casa – e acaba por se afundar em dívidas, até com o vendedor de produtos do campo. Durona e controladora, às vezes se revela amorosa e permissiva. Valdívia não toma partido do comportamento deste ou daquele personagem e, com esse afastamento, acha que sua crítica é ainda mais contundente.

"A câmera é circular para enfatizar que está sempre no mesmo lugar", afirma – assim como o círculo de percalços que recobre a família. Sua história não é uma "guilhotina" sobre a elite boliviana. Pelo contrário, como é aberta, incentiva a refletir. Além do uso incomum da câmera, Valdívia ousa no enredo. Nenhuma cena é, necessariamente, consequência de alguma anterior. Ele não trabalha com um enredo tradicional, mas expõe uma série de fatos que revelam o que se passa com a família. Os diálogos, e os silêncios, mostram o que aquelas pessoas estão pensando, seus medos, preconceitos, sentimentos e planos. "Quem disse que o cinema foi feito apenas para contar histórias?", ele questiona "A TV, a internet, tudo está contando história. O cinema tem muito mais possibilidades", ele diz. Para o diretor, a história é importante, mas como um veículo para outras coisas. No caso de seu último filme, ela é menos importante como enredo e mais importante como base para a exploração da fotografia e dos conflitos da instituição familiar.

A casa – a toda vazada, iluminada, com espelhos, vidros e muito branco – é como uma personagem do filme. "Quis retratar a decadência rodeada de branco, com os códigos aristocráticos, como conchas e pérolas", diz Valdívia. E as personagens do filme, todas amarradas pela matriarca Carola, parecem presas às paredes daquele imóvel suntuoso, e a uma vida de riquezas que não existe mais.

O filho mais novo, Andrés, é personagem autobiográfica. O menino é ativo, sempre está questionando e interferindo nas ações dos adultos. Assim como o diretor quando criança, pinta, vende suas pinturas aos amigos dos irmãos mais velhos e tem boas recordações de quando sua mãe tinha tempo para brincar com ele e o ensinou a "voar". O diretor é como o garoto, o único ali que se sente liberto da casa. Andrés passa boa parte do tempo sobre o telhado conversando com um amigo invisível. Esse olhar descolado do que se passa dentro do imóvel é a distância que o diretor precisa para criticar a família da elite boliviana, que é a sua e muitas outras de sua La Paz contemporânea.

Juan Carlos Valdívia veio a São Paulo para a Semana de Orientação da Academia Internacional de Cinema (AIC), que oferece palestras gratuitas até sexta-feira (clique para ver a programação). Ele contou que, no voo para a capital paulista, recebeu um telefonema triste – sua mãe havia morrido. "Ela me ensinou a voar e eu estava no ar quando recebi a notícia", ele diz. "Existem metáforas e imagens que a vida nos dá para tentarmos entender por que estamos aqui", afirma. Ele conversou com ÉPOCA no dia seguinte à palestra, na sede da AIC.
ÉPOCA – Zona Sur é um pouco autobiográfico, mas fala muito da atual situação pelo qual atravessa seu país. O que, além de alguns comportamentos de Andrés, fez parte da sua vida?
Juan Carlos Valdívia – O filme é uma espécie de Frankenstein (risos). A família tem um monte de pedaços, uma forma de recuperar minha memória. Eu conheço bem todos os personagens e situações, e a partir disso fiz algumas reinvenções. Eu não queria copiar fórmulas. Com o filme, vi que posso inventar, reinventar, inovar. E inovar falando de mim, da minha família e do meu país. Eu também quis romper com o cinema de denúncia, de crítica social, que eu chamo de cinema da "pornomiséria", que exporta pobreza e miséria. A crítica social não tem que focar somente nisso.


Arquivo
Em pé, da esq. para a dir.: Wilson (Pascual Loayza), Marcelina (Viviana Condori), Valdívia. Sentados: Bernarda (Mariana Vargas), Patricio (Juan Pablo Koria), Carola (Ninón del Castillo) e Andrés (Nicolás Fernández)
ÉPOCA – Este é um filme que inicia uma nova etapa da sua vida como diretor. E, ao mesmo tempo em que sua mãe foi retratada no filme, e de certa maneira homenageada, ela faleceu há poucos dias. O filme é como um ritual de passagem profissional e emocional para você?
Valdívia – Na verdade, eu terminei o filme há um ano e meio e minha mãe morreu no domingo (30). E não é uma homenagem... o filme tem a figura do oxímoro (paradoxo), porque é contraditório. Tem uma homenagem, mas critica. Aquela mansão é doce e envenenada. Foi uma decisão consciente dar ao filme esses sentidos contraditórios.

Há muitas famílias decadentes como essa, que vivem num país que está sofrendo uma transformação social e seria fácil criticar uma família de classe dominante. Ao mesmo tempo, estou criticando a minha própria família e fazendo um retrato de meu país. A câmera gira de uma maneira implacável e cruel. Ela reflete o que essa família passa.

ÉPOCA – Você não toma partido no filme, mantém uma distância das questões...
Valdívia – Há uma distância e a distância é sempre crítica.

ÉPOCA – Quanto tempo demorou para fazer o filme?
Valdívia – Seis meses. Fazer um filme é a expressão de um certo momento da vida. O homem muda, por isso gosto de fazer rápido meus filmes, porque (se demorar) eu mudo e quero mudar o filme. É importante respeitar o momento em que se cria.

ÉPOCA – Quando o filme vai estrear no Brasil? Você disse que tem alguns distribuidores interessados.
Valdívia – Não sou eu que estou tratando com os distribuidores. Mas o filme foi bem acolhido em todos os lugares em que foi exibido, e será lançado em vários países da América Latina – Peru, Uruguai, Argentina, México. Estamos (o cinema) precisando de novas propostas na América Latina e, quando há lago diferente, as pessoas abraçam. E é bom que estejamos em uma fase em que países pouco expressivos no cinema, como Bolívia, Chile e Peru, estejam produzindo bons filmes.
Arquivo
Andrés quer voar com sua mãe, e vive no telhado da casa carregando suas "asas"
ÉPOCA – Quais países você acha que têm uma indústria cinematográfica forte e com produções realmente importantes na América Latina?
Valdívia – México, Argentina e Brasil são os mais importantes, e Cuba, que é uma espécie de Meca do cinema por causa de suas escolas. O Brasil é meio isolado do resto...

ÉPOCA – Talvez por causa do idioma...
Valdívia – Sim, por causa do idioma, mas todos esses países têm coisas em comum.

ÉPOCA – Você critica muito a indústria do entretenimento americana...
Valdívia – Os filmes comerciais são cada vez maiores, mais caros e mais vazios. O 3-D é visto como a última Coca-Cola do deserto (risos). As coisas simples não nos comove mais e é perigoso perder a capacidade de ver e ouvir. A palavra é importante, mas estamos sendo invadidos por imagens, é um assalto aos nossos sentidos. Mas tem um público que procura algo mais contemplativo... Eu vivo de publicidade, sou prostituto profissional (risos). Há regras muito claras na publicidade e não posso converter meus filmes num comercial de TV, não posso seguir as mesmas regras. Eu precisava de um espaço na minha vida para um filme como Zona Sur. Agora eu não estou disposto a fazer concessões. É o primeiro filme que ficou exatamente do jeito que eu queria.

ÉPOCA – Como você enxerga o cinema latinoamericano hoje? Sobre o que ele fala e sobre o que ele deveria falar mais?
Valdívia – O cinema tem que ser completo. O público quer um cinema light e de entretenimento, por isso também tem que fazer esse tipo de filme. Mas são importantes as obras que têm valor artístico porque marcam horizontes, e é o que me interessa fazer. Temos um sistema muito cruel e muito difícil em que é preciso fazer muitas concessões e jogar as regras das distribuidoras que controlam o mercado. A mim não interessa isso, o que me interessa é criar. Por que eu vou querer um público tão amplo? Quanto maior o público, menor a complexidade do filme.

ÉPOCA – E o que responderia se fosse convidado a dirigir um filme nos EUA?
Valdívia – Tenho uma oferta de um produtor para dirigir um filme em inglês em países sulamericanos, o roteiro está pronto. Seria para fazer depois do meu próximo filme, que é uma parceria com o México. Este projeto (americano) é interessante porque é em inglês, mas independente, sobre um tema latino e eu terei autoridade sobre ele. Pode ser uma transição interessante a esse mundo (produções americanas). O importante é seguir crescendo, e estou com boas perspectivas.

ÉPOCA – Com quais outros países você tem vontade de trabalhar em parceria?
Valdívia – Sempre fiz um esforço muito grande para conseguir fazer meus filmes e pela primeira vez vejo uma luz, e um monte de possibilidades (risos). Eu tenho compromisso com a qualidade, isso é o que me interessa. Zona Sur abriu me abriu as portas e agora tenho mais facilidade. O que virá no futuro? Ainda não sei. Eu digo que o êxito não é ter sucesso ou dinheiro. O êxito é quando as coisas são fáceis, quando vêm de uma maneira orgânica e fácil.
ÉPOCA – Existe algum país que tenha uma indústria de cinema que possa servir de exemplo aos latinoamericanos?
Valdívia – A Índia, que é um país continental, tem uma indústria imensa, um cinema só deles. E, dentro, tem pequenas indústrias regionais, de documentários, filmes de arte... O sudeste asiático também, a Coreia está se saindo bem. A França é sempre uma referência, porque impõe resistência cultural (ao cinema estrangeiro) e encara o cinema como assunto de Estado.

Fazer cinema é um ato de resistência cultural. Essa resistência é muito importante para este lado do mundo. Americanos e europeus estão filmando na Bolívia. Não só nossos cenários, como nossas histórias interessam a eles. Um filme como Avatar, por exemplo, deveria ter sido feito aqui (na América Latina). Para os Estados Unidos, aquela história é uma fábula, para nós é real. Tem todo um mundo indígena aqui. Nunca conseguimos fugir desse colonialismo, por isso temos que contar a nossa história.

ÉPOCA – Porque se o americano conta a nossa história, será a visão dele, e não nossa...
Valdívia – E você sabe como é a visão deles... (risos)

Veja trailer do Filme : http://www.youtube.com/watch?v=vBm3q9d_GMI