segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Entrevista com Sofia Coppola

Diretora e roteirista fala sobre seu mais novo filme - e um pouco sobre Encontros e Desencontros

Durante a última década, Sofia Coppola construiu uma reputação como roteirista e diretora de Virgens Suicidas, Encontros e Desencontros e Maria Antonieta. Embora cada um destes filmes cubra assuntos e gêneros bem distintos entre si, eles estão todos unidos pelo estilo único de Sofia. Agora, ela está de volta com seu novo filme, Um Lugar Qualquer (Somewhere), que é sobre a relação entre um ator de primeira linha que está se perdendo em uma vida de excessos, e sua filha de 11 anos. Em uma conversa com o nosso correspondente em Los Angeles, Steve Weintraub, editor do site parceiro Collider, ela falou sobre a cena final de Encontros e Desencontros e seu processo de criação. Veja:

Na verdade, eu sou um grande fã do seu trabalho.

Sofia Coppola: Obrigada.

Antes de falarmos deste novo filme, eu quero ter certeza que não vamos estourar seu tempo, mas tenho que perguntar sobre Encontros e Desencontros. É algo que, como fã representando outras pessoas, espero que não tenham perguntado ainda. Fizeram uma edição por conta própria do final. O que você achou do resultado?

Sabe, eu nunca vi essa versão, só ouvi falar das pessoas querendo descobrir o que ele fala. É engraçado, porque quando eu escrevi nunca pensei que seria algo tão relevante e que as pessoas comentariam.

Porque tem um cara que aumentou o volume daquela cena... e mesmo assim tem muitas controvérsias se aquele é o diálogo verdadeiro ou se alguém inventou. Vocês gravaram aquele áudio e então abaixaram ou?...

Bom, tem algumas versões. Mas quero deixar para lá, não quero investigar sobre isso.

Não tocarei mais no assunto. Passando para o seu excelente novo filme...

Obrigada.

Você filmou no Chateau Marmont. Eu já estive lá e diria que é um hotel para poucas pessoas. Foi dificil tentar convencê-los a deixar você fazer um filme lá?

É, eles não permitem muitas filmagens, mas eu sentia que era lá que tínhamos que filmar porque era o lugar onde um cara desses viveria. Por sorte eu conhecia o gerente e o dono há muitos anos, então quando eu mandei o roteiro eles me deixaram filmar lá porque sentiram que era um retrato fiel do lugar. Fiquei feliz por filmarmos no lugar de verdade.

Quando você está escrevendo um roteiro, você já tem atores em mente? Ou quem sabe para este projeto você já tinha essas pessoas em mente?

Eu já tinha o Stephen em mente, eu acho que ajuda pensar em um ator. Então eu pensava nele. Mas eu não conhecia a Elle até iniciarmos a produção. Mas eu tinha a filha de um amigo na cabeça que foi como um molde para Cleo.

Eu estou bem curioso: você é do tipo de cineasta que tem uns quatro roteiros esperando na sua mesa? Ou você é do tipo que faz um projeto por vez, se foca bastante e é só isso que você faz?

É, normalmente eu faço um de cada vez. Às vezes escrevo mais de uma coisa... Eu escrevi Encontros e Desencontros e este filme ao mesmo tempo, e ficava me alternando entre eles. Mas quando decido em que vou trabalhar eu me foco apenas naquilo.

E a pergunta importante é: quantos Johnny Marco você conhece?

Eu conheço vários caras que juntando formam o Johnny Marco em sua forma única. Ele é baseado em umas doze pessoas.

E mais uma coisa: seus filmes têm uma energia única, uma edição e atmosfera ímpares. Quanto disso está no roteiro e quanto você cria no set?

Eu tenho uma ideia de como será quando eu sento para escrever. Então tudo está mais ou menos planejado no roteiro e se aproxima de como fizemos o filme.

E isso me leva a perguntar das cenas excluídas. Quando você monta seu filme eu imagino o quão desafiador é colocar tudo junto e dar um ritmo. Muita coisa acabou sendo deixada de lado?

Não, neste filme não. O roteiro era bem sucinto, usamos a maior parte dele. Na ilha de edição buscamos apenas o ritmo, o timing, sabe? Tentamos balancear o quanto podíamos segurar uma coisa até fixar sem ficar exagerado.

E quanto às sessões teste? Você faz muitas exibições ou?...

Não, as pessoas tendem a comparar os filmes a outros mais tradicionais. Eu acabo mostrando para alguns amigos, mas não faço testes.

Tenho que perguntar: Em que você está trabalhando agora? Queria muito saber disso.

Obrigada. Eu estou focando neste filme, estou muito empolgada com o lançamento e então tirarei uma folga e voltarei a escrever. Não sei ao certo o que farei a seguir.

Normalmente tem um espaço longo de tempo entre seus filmes e estou curioso para saber se será longo ou se você acha que vai ser rápido?

Quero voltar a escrever. Na última vez eu tive um bebê então tirei o ano para ficar com ela. Então foi um espaço maior. Quero voltar a trabalhar, mas eu levo um tempo para me organizar.

Legal. Tenho que encerrar, mas foi um prazer te conhecer.

Obrigada.

Muito obrigado.

Um Lugar Qualquer estreia nesta sexta, 28 de janeiro

Banda larga móvel deslancha no país

Autor(es): Talita Moreira | De São Paulo
Valor Econômico - 24/01/2011

Telefonia : Crescimento está associado à popularização dos aparelhos de celular que captam as redes de 3G.

Passar horas diante do computador é um comportamento típico dos adolescentes e motivo de dor de cabeça para muitos pais, que se incomodam com o tempo que os filhos gastam enfurnados no quarto e com o tipo de conteúdo acessado por eles.

Para esses pais preocupados, há uma notícia boa e uma ruim. A boa é que os filhos já têm razões convincentes para sair mais de casa. A ruim é que, gostem ou não, a internet vai junto com eles.

A banda larga móvel está em franca expansão no Brasil - para alegria dos jovens internautas, mas também de profissionais e de qualquer pessoa que precise (ou queira) estar conectado o tempo todo, de qualquer lugar.

O país encerrou o último ano com 20,7 milhões de linhas capazes de se conectar à internet em banda larga por meio das redes de telefonia móvel, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). O número ainda é pequeno - representa um décimo do total de celulares habilitados no mercado brasileiro - e não se pode afirmar que todas essas linhas sejam efetivamente usadas para o acesso à web. Entretanto, a cifra aumentou nada menos que 138% em relação ao fim de 2009 - o suficiente para provocar mudanças na estratégia das operadoras.

Os aparelhos de celular 3G foram os responsáveis por esse salto. Novos modelos e ofertas ajudaram a popularizar os telefones aptos a essa tecnologia, que permite o acesso à internet móvel em alta velocidade.

"Está explodindo o uso da internet no celular entre os brasileiros", afirma o diretor de marketing da TIM, Rogério Takayanagi. "Há uma mudança de hábito: as pessoas começam a querer se conectar o tempo todo."

Principalmente nas grandes cidades brasileiras, é cada vez mais comum ver pessoas usando o telefone móvel para mandar e-mails e navegar em redes sociais. "Os brasileiros estão aprendendo a usar a internet pelo celular e as redes sociais ajudaram muito nisso", avalia a gerente de serviços de valor agregado da Claro, Adriana Mattoso.

Atentas a isso, as operadoras têm apostado na oferta de aparelhos que já vêm carregados com aplicativos que dão acesso direto a redes como Facebook, Orkut, Twitter e MSN Messenger. Com os ícones desses serviços disponíveis já na tela inicial dos celulares, o acesso é mais imediato - mesmo por clientes que não assinam pacotes de serviços de dados.

Para cativar esse público que começa a se familiarizar com a tecnologia, TIM e Claro lançaram, no ano passado, uma modalidade de plano que dá acesso ilimitado à web e cobra por dia. Takayanagi, da TIM, não revela números, mas diz que os usuários do plano mais que triplicaram em poucos meses. As companhias também estudam novas formas de acesso pré-pago à internet móvel - numa tentativa de reproduzir nesse serviço o modelo que impulsionou a telefonia celular no país.

As vendas mensais de celulares 3G praticamente dobraram entre novembro de 2009 e igual mês do ano passado, segundo relatório da empresa de pesquisas GFK. O barateamento dos aparelhos contribuiu para isso. O preço médio dos chamados smartphones - telefones com recursos avançados para navegação - baixou 34% e agora está na casa dos R$ 900. Ainda são produtos caros, mas a tendência é que o valor continue em queda. Alguns modelos mais simples de aparelhos 3G já podem ser encontrados por cerca de R$ 250.

Para dar um empurrão extra nesse fenômeno, as operadoras estão concedendo incentivos financeiros à venda de aparelhos de terceira geração. As teles sabem que o preço dos celulares ainda é uma grande barreira ao acesso à banda larga móvel.

A Oi, por exemplo, oferece crédito ao assinante de pacotes de dados para que ele financie a compra de seu smartphone. O valor é abatido da conta mensal.

"Apostamos muito nos smartphones", afirma Jaqueline Lee, diretora de marketing da Qualcomm, fabricante de chipsets para celulares. A expectativa da companhia é que o total de assinantes de planos 3G no Brasil aumente 567% de 2009 a 2014.

O mercado mudou de rumo. Quando as primeiras redes de terceira geração surgiram no país, em 2008, o foco das operadoras não eram as conexões via celular. Naquele momento, o grande interesse era a oferta de conexões de internet pelo computador. Algumas empresas, inclusive, posicionaram seus pacotes como alternativas ao serviço de banda larga prestado pelas companhias de telefonia fixa. Por isso, todas as teles apostaram nos minimodens - aqueles aparelhinhos USB que, plugados num computador, conectam-se às redes móveis.

Mas, se no fim de 2009 os modens representavam mais da metade das conexões de banda larga móvel, agora somam 30% do total de terminais habilitados a captar as redes de dados. O cálculo foi feito a partir de informações divulgadas pela Anatel.

Passado o entusiasmo inicial, as teles se viram obrigadas a reduzir suas apostas nos modens, pois o acesso à internet via computador consome muita banda, o que causava lentidão nas novas redes e gerava insatisfação entre os usuários.

sábado, 22 de janeiro de 2011

WIKIPÉDIA, O idealismo não remunerado


Por Timothy Garton Ash em 18/1/2011

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 16/1/2011, tradução de Terezinha Martino; título original "Wikipédia, idealismo não remunerado"

A Wikipédia completou dez anos ontem [sábado, 15/1]. É o quinto website mais visitado na internet. Mensalmente, cerca de 400 milhões de pessoas utilizam seus dados. Aposto que muitos leitores desta coluna estão entre elas. Você quer checar alguma coisa, entra no Google e, então, com mais frequência ou não, escolhe o link Wikipédia como o melhor caminho para sua pesquisa.

O que é extraordinário nessa enciclopédia livre, que contém hoje mais de 17 milhões de artigos em mais de 270 línguas, é que ela é quase que inteiramente escrita, editada e autorregulamentada por voluntários não pagos. Todos os outros websites também muito visitados são empreendimentos multibilionários. O Facebook, com 100 milhões a mais de usuários, está avaliado em US$ 50 bilhões.

Visite o Google no Vale do Silício e vai se encontrar num vasto complexo de edifícios de escritórios modernos, como a capital de uma superpotência. Ali pode existir ainda algumas peças divertidas de Lego no saguão, mas você terá de assinar um acordo de confidencialidade para passar pela porta de entrada. A linguagem dos executivos do Google gira estranhamente entre a de um secretário-geral da ONU e a de um vendedor de carros. Num momento falam de direitos humanos universais para, em seguida, discutirem o "lançamento de um novo produto".

A Wikipédia, ao contrário, é supervisionada por uma fundação não lucrativa. A Fundação Wikimedia ocupa um andar de um prédio comercial anônimo no centro de San Francisco . Você precisa bater forte na porta para alguém vir abrir. Dentro, a sensação que se tem é exatamente do que ela é: uma modesta organização não governamental internacional.

Fatos verificáveis

Se o principal arquiteto da Wikipédia, Jimmy Wales, tivesse escolhido comercializar a empresa, hoje estaria bilionário – como Mark Zuckerberg, do Facebook. Colocar a Wikipédia sob a égide de uma organização não lucrativa foi, disse-me Jimmy, ao mesmo tempo a mais estúpida e a mais inteligente ideia que teve. Mais do que qualquer outro importante site global, a Wikipédia exala o idealismo utópico dos heróis da internet nos seus primeiros dias. Os "wikipédios", como eles se chamam, são homens e mulheres com uma missão. E essa missão está resumida na seguinte frase, que poderia ter sido de John Lennon, mas foi dita pelo homem que todos chamam de Jimmy: "Imagine um mundo em que todas as pessoas do planeta têm livre acesso à soma de todo conhecimento humano".

Achar que este objetivo utópico poderia ser atingido por uma rede mundial de voluntários, trabalhando sem ganhar nada, editando todos os assuntos, com as palavras que digitam se tornando visíveis para o mundo todo, era, naturalmente, uma ideia completamente maluca. Mas este exército maluco avançou extraordinariamente em apenas dez anos.

A Wikipédia ainda tem grandes deficiências. Os artigos variam muito, em termos de qualidade, de um tema para outro e de língua para língua.

Muitos dos artigos sobre personalidades são irregulares e desproporcionais. E isso ocorre porque depende muito de que um ou dois wikipédios sejam genuinamente conhecedores daquele assunto e língua particulares. Eles podem ser surpreendentemente bons em pontos obscuros da cultura popular, e muito fracos em algumas áreas de interesse dominante. Nas versões mais antigas (em inglês e alemão, por exemplo) as comunidades editoriais voluntárias, apoiadas por uma pequena equipe da fundação, melhoraram muito os padrões de confiabilidade e capacidade de comprovação, especialmente insistindo nas notas de rodapé com links para as fontes.

Sei que você ainda deve sempre checar a informação encontrada ali antes de citá-la em algum contexto. Um artigo na New Yorker sobre a enciclopédia fez uma distinção interessante entre conhecimento útil e conhecimento confiável. Um dos maiores desafios da Wikipédia na próxima década é reduzir o máximo possível esse fosso que separa o útil e o confiável.

Outro grande desafio é levar este empreendimento para além do Ocidente pós-iluminista, onde nasceu e continua, na maior parte, alojado. Um especialista disse-me que 80% de tudo o que é editado pela Wikipédia provém do mundo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico da ONU. A meta da fundação é chegar a 680 milhões de usuários em 2015 e espera que grande parte desse crescimento seja em lugares como Índia, Brasil e Oriente Médio.

Mas o enigma não é porque o site ainda tem claras deficiências, mas porque ele tem funcionado tão bem. Os wikipédios dão várias explicações para isso. A Wikipédia chegou relativamente cedo, quando não existia esse número incontável de sites para os usuários da internet passarem o tempo. Uma enciclopédia trata (principalmente) de fatos verificáveis, em vez de trazer meras opiniões – comuns na blogosfera. E, sobretudo, ela teve sorte com suas comunidades de editores colaboradores. Diante da escala do projeto, a equipe de editores regulares é muito pequena.

Colaboração

Cerca de 100 mil pessoas colaboram em mais de 5 edições no mês, mas as grandes Wikipédias, mais antigas, como aquelas em inglês, alemão, francês ou polonês, são apoiadas por um grupo minúsculo de talvez 15 mil pessoas, cada uma oferecendo mais de 100 colaborações por mês. Na maior parte são jovens, solteiros e muito instruídos.

Como muitos dos sites globais conhecidos, a Wikipédia tem a vantagem de estar sediada no que o seu conselheiro Mike Godwin descreve como "o oásis da liberdade de expressão chamado EUA". Todas as enciclopédias em línguas diferentes, não importa onde seus editores vivem e trabalham, são fisicamente hospedadas nos servidores da fundação nos EUA. E têm as proteções legais oferecidas pelas leis americanas de liberdade de expressão.

Civilidade é um dos cinco pilares da Wikipédia. Desde o início, Jimmy diz que deve ser possível combinar honestidade com boas maneiras. Indivíduos mal-educados são contatados e o problema é debatido com eles. Depois, eles são advertidos antes de, caso persistam, serem banidos. Se uma comunidade de uma língua for além da conta, a fundação tem poder para eliminar seus disparates do servidor. (A Wikipédia é uma marca protegida legalmente, enquanto que os Wiki alguma coisa não o são; é o caso do WikiLeaks, que não tem nada a ver com a Wikipédia nem é um wiki).

Não sabemos se o ataque a tiros em Tucson, Arizona, foi diretamente um produto da incivilidade corrosiva do discurso político americano, como ouvimos nas entrevistas de rádio e TV. Um louco pode ser simplesmente louco. Mas essa virulência política diária que observamos nos EUA é um fato inegável.

Diante desse pano de fundo deprimente, é bom comemorar uma invenção americana que, apesar de todas as suas falhas, tenta difundir pelo mundo uma combinação de idealismo não remunerado, conhecimento e uma obstinada civilidade.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Já ouviu falar da Geração Z?

Por Márion Strecker em 18/1/2011

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 13/1/2011; intertítulos do OI

Os nativos digitais, aqueles que nasceram a partir dos anos 1990 e não concebem o mundo sem celular nem internet, são estimados em 1,6 bilhão de pessoas, número que cresce a cada dia. Numa pesquisa mostrada por Katherine Savitt durante o último Web 2.0 Summit, em San Francisco, Califórnia, em novembro, 71% das pessoas dessa faixa etária reportaram uso simultâneo de celular com internet e/ou televisão. E 69% disseram manter três ou mais janelas ativas do navegador durante uma sessão de internet.

Por conta das tarefas múltiplas, os jovens e ultra-jovens são às vezes tachados de DDA, ou seja, portadores de Distúrbio de Déficit de Atenção. Mas será que trocar mensagens tipo SMS enquanto assistem a programas na TV não é algo como conversar no sofá?

Desde os anos 60, sabe-se que o sistema nervoso se modifica quando o organismo é exposto a muitos estímulos. Neuroplasticidade é o nome que se dá à capacidade que os neurônios têm de formar novas conexões a cada momento. Será que o cérebro da Geração Z não evolui de maneira diferente da dos mais velhos? Será que essa geração não tem uma capacidade sem precedentes de coletar e processar informações?

Geração que compartilha

Outro fato marcante da Geração Z é um novo conceito do que seja fraude. Baixar músicas sem pagar, por exemplo, essa geração não considera fraude, mas sim, algo normalíssimo, até porque há muitos sites que oferecem músicas grátis. Os jovens acham que não é da sua conta verificar se esses sites fazem isso legal ou ilegalmente. A Geração Z compra filmes e softwares piratas sem peso na consciência, mesmo que seus educadores desestimulem a prática. Burlar jogos ou até ajudar a derrubar servidores de empresas com as quais se irritam, como ocorreu recentemente no caso do WikiLeaks, pode dar prestígio ao fraudador, que pode ser visto como pessoa mais esperta ou inteligente do que a média.

Uma das teorias em voga é que a "gameficação" é um grande mercado para a Geração Z, pois há expectativa dos jovens de que a vida deveria seguir o espírito dos videogames. Com isso, as empresas precisariam "gameficar" produtos e serviços. Mesmo criando produtos atraentes, é bom ter em mente que dificilmente algo será tão engajador a ponto de concentrar 100% da atenção de um membro da Geração Z.

Assistir a filmes ou programas sob demanda, na hora e no equipamento que quiser, é normal. Nada de ficar acordado até mais tarde ou mudar outro compromisso só para ver TV com hora marcada. Nem mesmo perder tempo programando gravação, coisa que seus pais fariam ou gostariam de fazer. Até porque essa geração parece muito mais afeita a criar e compartilhar seus textos, fotos e vídeos na internet do que todas as gerações precedentes. 93% dos jovens internautas fazem isso, diz a pesquisa.

Posicionamento de marca

Além de criar e publicar, há o espírito curador. O hábito de sair navegando e selecionar o que se vê, lê ou ouve. Validam o que gostam comentando ou compartilhando o conteúdo de terceiros, profissionais ou amadores. Essa é a forma normal de expressão nas redes sociais.

Seguindo a pesquisa mostrada no Web 2.0 Summit, 62% dos membros dessa geração disseram ter 250 ou mais amigos em redes sociais. Aparentemente menos afeitos à propaganda, 73% dizem que a melhor maneira de descobrir novos produtos é por meio de amigos. Também buscam contato direto com empresas e marcas pela internet e põem com facilidade a boca no trombone, fazendo reclamações públicas iradas. Por outro lado, podem se transformar em marqueteiros apaixonados por produtos, se estes forem inspiradores para eles. A Geração Z, por conta do seu comportamento, parece ter grande potencial de influenciar as gerações anteriores.

Uma teoria que se discute agora é se ainda vale a pena colocar muito esforço para manter estrito controle no posicionamento de uma marca. Hoje uma estratégia de comunicação mais interessante pode ser simplesmente permitir que sua empresa ou seus produtos possam entrar na curadoria da Geração Z. Que tal pensar nisso?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Internet, o fim da inocência

Por Fernando Duarte em 18/1/2011

Reproduzido de O Globo, 17/1/2010; título original "O fim da inocência"

Se a primeira metade da década passada foi marcada pela expectativa de que a internet revolucionaria a vida cotidiana, os últimos anos testemunharam o crescimento de uma corrente cibercética, cujo principal argumento é o de que a rede, por si só, não fará milagres em termos de mobilização de usuários. Um dos nomes mais conhecidos dessa corrente é o do bielorrusso Evgeny Morozov, autor de The net delusion ("A ilusão da rede", numa tradução livre), livro lançado na Europa e nos EUA no início do mês.

Morozov, professor da Universidade de Stanford e blogueiro especializado em discussões sobre os efeitos da internet, critica o que chama de visão idealizada da internet como instrumento de ativismo político, guardando munição especialmente para as teorias de que acesso à tecnologia serve como arma conta regimes opressores. Na semana em que o governo da Tunísia caiu num levante popular em que o uso de redes sociais foi frequente, o argumento de Morozov é que "a internet não faz mágica". Em entrevista ao Globo, o acadêmico queixa-se especificamente da postura de autoridades como a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, em relação ao WikiLeaks: "Não é por receber mais informações que as pessoas vão querer derrubar governos".

***

O senhor não acredita no potencial democratizante da internet?

Evgeny Morozov – Não é isso. Há definitivamente potencial na rede para apoiar mudanças, sobretudo pela facilitação da comunicação entre indivíduos. Meu problema é com toda a ideologia por trás disso. A internet não faz mágica. Não podemos simplesmente assumir que acesso à tecnologia vai simplesmente transformar sociedades, pois sociedades diferem entre si. Algumas, por exemplo, são mais guiadas por princípios nacionalistas e religiosos, que simplesmente podem ser amplificados pela rede.

Há críticas especiais à postura do governo americano em seu livro. Por quê?

E.M. – Refiro-me especificamente a um discurso da secretária de Estado, Hillary Clinton, sob o tema "Liberdade da internet", em que se falou em como a tecnologia digital permitiria a luta contra a opressão, entre outras coisas. É errado e pode ser encaixado na mesma categoria da ideia de que o acesso a programas de TV ocidentais iriam fomentar a queda do comunismo – a Alemanha Oriental durante muito tempo desfrutou do privilégio sem que nada mudasse.

Nem todo mundo quer democracia, é o seu argumento...

E.M. – Sim, e a Rússia é um grande exemplo. Continua sendo um país autoritário mesmo depois da fragmentação da URSS. É um caso de que a internet muitas vezes pode servir apenas como um instrumento de entretenimento, não necessariamente de politização, ou não teríamos tanta gente assistindo a vídeos bizarros no YouTube, apostando em cassinos ou buscando pornografia. A URSS quebrou porque a vida era chata... Eu estava lá! As pessoas queriam calças jeans e gadgets muito mais do que qualquer outra coisa (risos).

Mas o que dizer de casos como o Twitter no Irã, quando o microblog ajudou nos protestos contra a fraude na eleição presidencial?

E.M. – É parte da ingenuidade. O Twitter tinha apenas 20 mil usuários na época do pleito. Imaginar que isso poderia reverter o status político-religioso é tão lúdico quanto pensar que o Iraque automaticamente seria democrático após a derrubada de Saddam Hussein. Não é apenas por receber mais informações que as pessoas vão querer derrubar governos.

O senhor também argumenta que a rede não é invulnerável à censura. O quão possível é este controle?

E.M. – Na China, por exemplo, o governo consegue controlar cada vez mais a internet e cercear conteúdo. Regimes autoritários estão ficando bons nisso. O que não quer dizer que o jogo não tenha mudado para os ativistas. A internet facilita a propagação de ideias, por aumentar o alcance ao menos tempo em que diminui os custos de divulgação e mobilização. O que me incomoda é o volume de expectativas. Mudanças não vão acontecer da noite para o dia.

O que está faltando?

E.M. – A internet ainda precisa motivar mais a esfera pública, fazer com que mais pessoas se sintam motivadas a participar do debate político. Ajudar a formar um novo tipo de cidadão.

Como o senhor vê o efeito Wikileaks, site que tem vazado documentos importantes e incomodado o governo de muitos países?

E.M. – Interessante sob vários aspectos. Em termos tecnológicos, há a vantagem tecnológica de codificação das informações para impedir sua interceptação. Mas o que me chama mais a atenção é o fato de o site ainda precisar de métodos tradicionais de divulgação: o Wikileaks ainda depende da projeção dada pela mídia. Julian Assange não seria tão famoso sem os jornais, que, na verdade, fazem parte do trabalho do site. É tão irônico como ver gurus da internet falando sobre o poder de blogs e redes sociais usando livros...

Mas os hackers não são um exemplo do que se pode chamar de potencial subversivo da rede?

E.M. – Hackers podem ser bastante perigosos, mas em termos de organização ainda me parecem muito isolados para serem considerados uma força significativa de desobediência civil.

***

O discurso é bonito, mas pode ser vazio

Nelson Vasconcelos

No recém-lançado livro The Net Delusion, Evgeny Morozov deixa claro que temos que ser um pouco menos inocentes ao analisar o suposto poder democratizador da internet. A popularização da rede, afinal, estaria longe de significar que os interneteiros são seres politicamente conscientes, socialmente participativos, culturalmente exemplares. Tirando raros momentos de exceção, não é bem isso o que acontece.

O problema é que a internet é apenas um meio para trafegar dados – ou, para usar uma velha imagem, é uma "estrada" de informação. A diferença é que faz isso usando a mão dupla. Quem manda mesmo é o conteúdo que é trafegado pela rede. E ele é criado cada vez menos pelas empresas que aparentemente controlam a estrada, e mais pelas pessoas que a usam no dia a dia.

Daí a bronca de Morozov. Ele briga contra o discurso de que a internet seria, por si só, a solução contra a burrificação galopante do planeta. Não é. Vender a internet como panaceia é uma conversa bonita, belo discurso político, mas potencialmente vazia. A rede amplia o que há de bom – mas também a mediocridade.

Por isso temos que ser menos inocentes ao beatificar a internet e correr atrás da construção de bom conteúdo. Seja lá o que isso signifique, sem juízo de valor.

A geração que criou um mundo

Por Letícia Nunes em 18/1/2011

Quanto tempo dura uma geração nestes dias, questiona a escritora inglesa Zadie Smith em artigo na New York Review of Books ["Generation why?", 25/11/2010] sobre o filme A Rede Social, que conta a história da criação do Facebook. Zadie faz a pergunta para dizer como se sente distante de Mark Zuckerberg, fundador da popular rede social, mesmo que a diferença de idade entre os dois seja de apenas nove anos.

A partir do longa, a escritora analisa a chamada Geração 2.0 – da qual afirma não fazer parte por opção. Segundo ela, são jovens que "passaram uma década sendo repreendidos por não fazer as pinturas, romances, músicas ou políticas certas. No fim das contas, os mais brilhantes jovens 2.0 estavam fazendo algo extraordinário. Estavam criando um mundo".

Mente brilhante

Mark Zuckerberg, nascido em 1984, é uma destas mentes brilhantes. Em 2004, com apenas 20 anos de idade, criou o Facebook como uma rede virtual para conectar os alunos de Harvard, onde estudava. Hoje, o site onde internautas do mundo inteiro trocam informações e imagens conta com mais de 500 milhões de participantes. O percurso não foi dos mais calmos – Zuckerberg foi processado por outros três alunos de Harvard que alegam ser os verdadeiros criadores do Facebook; e por seu ex-melhor amigo, a quem botou para escanteio quando o site começava a ter crescimento significativo.

Zadie define o Zuckerberg apresentado no filme como um nerd de computador e um autista social. Ele é péssimo para lidar com pessoas reais em situações reais, ao mesmo tempo em que constrói um sistema para aproximar as pessoas via internet. O Facebook cresce com a ajuda de outro gênio da geração 2.0: Sean Parker, criador da rede de compartilhamento de músicas Napster. Ao longo do filme, Parker guia as ações de Zuckerberg mostrando-lhe o lado bom do sucesso. "Um milhão de dólares não é legal. Sabe o que é legal? Um bilhão de dólares", ensina ele em uma cena em que os dois tomam drinques em uma boate acompanhados de modelos da Victoria Secret.

O que quer Zuckerberg?

Mas qual a verdadeira motivação de Zuckerberg? Quando ainda era adolescente, ele se negou a vender para a Microsoft um aplicativo para MP3 que havia criado. Ao contrário, liberou o programa de graça na rede. Por aí vê-se que dinheiro está longe de ser o que explica suas atitudes – consideradas egoístas – durante a criação do Facebook. Os três alunos de Harvard que posteriormente o processaram por plágio o haviam chamado para criar uma rede social na universidade. A ideia era boa, ele aceitou – e passou a desenvolver sozinho o Facebook. O brasileiro Eduardo Saverin, seu melhor amigo, que investiu os primeiros dólares da empresa, acabou excluído aos poucos do site depois que Zuckerberg passou a trabalhar com Sean Parker. No fim, foram feitos acordos milionários com todos os envolvidos. "Pague. A esta altura do campeonato trata-se de uma multa de trânsito", diz o advogado em uma cena do filme.

Se a questão não é dinheiro, então deve ser problema de coração partido. Zuckerberg – autista social, lembre-se – leva um fora da namorada. Infeliz da vida, passa a madrugada falando mal dela pela internet. No fim do longa, o personagem pede que a ex-namorada o aceite como amigo no Facebook. Mas a justificativa de problemas com mulheres também é falha, já que a ex-namorada da telona nunca existiu. Zuckerberg tem a mesma namorada – hoje estudante de medicina – desde antes da criação da rede social.

Vida real

Zadie diz que a falta de explicações plausíveis faz do Zuckerberg em A Rede Social um "verdadeiro mistério americano". O Mark Zuckerberg da "vida real", pondera a escritora, é bem diferente.

"Em um perfil de Zuckerberg na New Yorker é revelado que sua página no Facebook lista entre seus interesses "minimalismo", "revoluções" e "eliminando o desejo". Também ficamos sabendo de sua afeição pela cultura e os escritos da Grécia antiga. Talvez seja esta a diferença entre o Zuckerberg real e o Zuckerberg falso: o filme o coloca no mundo romano das traições e excessos, mas o Zuckerberg real talvez pertença aos gregos."

Ela continua:

"[Zuckerberg] é desapaixonado sobre as questões filosóficas que envolvem privacidade – e sociabilidade em si – levantadas por seu engenhoso programa. […] É o tipo de garoto que pensaria que dar às pessoas menos privacidade seria uma boa ideia."

Quando o Facebook mudou seus ajustes de privacidade, permitindo – sem consultar os usuários – que mais informações se tornassem públicas, houve muita reclamação. Zuckerberg respondeu que a privacidade é uma norma social que evoluiu ao longo do tempo, e o site criou o aplicativo Groups, que permite que as pessoas dividam seus amigos virtuais em categorias: aqueles que podem ver mais, e os que podem ver menos.

Basta saber como o Groups – que amplia a proteção da privacidade – vai funcionar ao lado da nova plataforma do site, o Facebook Connect, que permite que os usuários conectem seu perfil a qualquer outro site. As pessoas passam a usar sua identidade do Facebook em toda a rede – e bye bye privacidade.

Banco de dados

A preocupação com a privacidade é, até certo ponto, questionável. Por que as pessoas participam da rede social se temem o que os outros vão ver sobre elas? Seriam os 500 milhões de usuários do Facebook tão importantes assim para "compartilhar" informações sobre aquilo que vivem ou pensam? Para questionar a utilidade do Facebook, Zadie cita o cientista da computação Jaron Lanier, autor do livro You Are Not a Gadget, que discute o modo como as pessoas "se reduzem" para fazer com que uma descrição delas no computador pareça mais precisa. "Sistemas de informação precisam de informação para funcionar, mas a informação não representa inteiramente a realidade", escreve ele, que defende que não há um análogo perfeito no computador para o que chamamos de "pessoa". No Facebook e em outras redes sociais, a vida é resumida a um banco de dados.

Mas seriam as redes sociais, na verdade, uma evolução social? Poderiam elas próprias evoluir para se tornar a própria realidade? "Nós vivíamos em fazendas, passamos para as cidades e agora vamos viver na internet", diz Sean Parker no filme. Lanier afirma que é preciso "ser alguém" antes de "se compartilhar" na internet. Mas, para Zuckerberg, compartilhar-se na internet, no fim das contas, é ser alguém.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Rede Social | Omelete entrevista David Fincher

O vencedor do Globo de Ouro fala de A Rede Social, novos projetos, suas obsessões e seu estilo de filmar


Steve Weintraub
18 de Janeiro de 2011

No domingo, David Fincher levou o Globo de Ouro de melhor diretor e o seu filme, A Rede Social, foi escolhido o melhor drama de 2010 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood. É o primeiro passo para uma possível coroação no Oscar, no dia 27 de fevereiro.

Normalmente avesso a entrevistas, Fincher conversou com os nossos parceiros do Collider por ocasião do lançamento do Blu-ray de A Rede Social nos EUA. Falou do processo de produção do filme sobre a formação do Facebook, de projetos futuros, da sua maneira de trabalhar e também dos seus questionamentos.

Pra quebrar o gelo, o que você achou do filme O Discurso do Rei?

Fincher: Quer saber? Eu vi não tem muito tempo e achei lindo.

Concordo. Os dois filmes que todo mundo está comentando são O Discurso do Rei e o seu, A Rede Social...

Cisne Negro é muito bom.

Concordo, eu achei o filme incrível.

E eu amei O Inverno da Alma, achei maravilhoso.

Você ficou surpreso com a aclamação do seu filme? Por que você nunca sabe, é uma história tão moderna e parece que os críticos e a audiência realmente gostaram. Você estava preparado para isso?

Não, eu não estava preparado para isso e também não estava aqui. Quer dizer, terminamos o filme umas três, quatro semanas antes do Festival de Cinema de Nova York, e embarquei pra Estocolmo. Quando voltei, já comecei a trabalhar novamente, então eu meio que não tive chance de aferir sobre essas coisas. Mas é sempre bom ser bem recebido.

Jesse Eisenberg me contou que você lê muito, que está por dentro das coisas. Isso é verdade? Você lê o que as pessoas dizem na Internet?

Não. Quer dizer, acho que quando você está promovendo um filme, você tem que ler. Eu certamente estava ciente de que quando fomos à [empresa especializada em divulgação de filmes de] Mark Woolen para a produção do trailer, sabíamos que teríamos um problema. As pessoas achavam que estávamos fazendo um filme sobre tecnologia. Mark é a melhor pessoa para fazer um trailer obtuso com a informação que ele tem, então eu disse a ele "não estou te dando uma tarefa imensa, você só precisa fazer um trailer que faça sentido e mostre porque qualquer pessoa faria um filme desse tipo". Então eu estava ciente de que, na época, tinha muita gente falando "filme sobre o Facebook? Como assim?". E honestamente, quando eu li o roteiro, eu realmente não tinha noção... Minha filha tem Facebook, então eu até já tinha visto, mas não tinha noção do que se faz lá. E aí, quando eu terminei de ler o script, eu tinha ainda menos noção do que a tecnologia em si fazia, tanto quanto estava ciente da animosidade que houve por trás de seu desenvolvimento. Então eu até tento estar ciente dos obstáculos que se relacionam à percepção, se você está tentando jogar contra ou a favor, ou do que a adiência precisa saber. Mas uma vez que o filme está pronto, você tem que ler tanto as críticas boas quanto as ruins. Eu meio que penso nisso como se eu fosse um jogador de futebol: você leva a culpa toda quando joga mal, mas também é aclamado quando joga bem. Eu não tive muito tempo de ficar indo atrás disso quando estava em Paris e Londres divulgando o filme. Agora eu penso que deveria ter feito mais disso, mas não fiz.

Entendo. Como o filme finalizado é comparado a aquilo que você primeiramente pensou, antes de começarem as filmagens?

É bem parecido. Com um filme tão específico a um tempo e um lugar, queríamos capturar a essência de Harvard. Queríamos capturar o sentimento do que é ser um calouro nos dormitórios de Harvard, mesmo não sendo permitido filmar lá.

Se posso interromper, queria dar seguimento a isso. Adoro seu filme Zodíaco, em que tudo é historicamente reproduzido obsessivamente. Sei que deve ter machucado não ser permitido filmar em Harvard em A Rede Social, mas isso chegou a ser um problema para vocês?

Não tem problema, e eu acabei aprendendo isso com a experiência [de Zodíaco]. Existia uma informação no filme que, não por culpa do autor, não foi aceita por muitos "zodiacologistas". Muitas pessoas achavam que a visão do [cartunista Robert] Graysmith era... que ele era louco, ou coisa do tipo. Mas esse é o filme que estávamos fazendo [fiel ao ponto de vista de Graysmith]. Então fizemos algumas pesquisas desse ponto de vista. Essa é a história que vamos contar, a história de Dave Toschi, a história de Robert Graysmith, a história de Arthur Leigh Allen. Fazer todo esse trabalho, tentando reverter o máximo de problemas que isso pudesse trazer, poderia tanto desfazer tudo aquilo que Graysmith havia construido ou apoiá-lo. E aí você acaba com coisas do tipo "não podemos incluir isso. Isso é muito interessante e dramático, mas não temos dados suficientes para incluir em nossa narrativa". Então, apesar de termos três ou quatro capítulos de Zodiac Unmasked, nós não podíamos utilizá-los. Em relação ao que Aaron Sorkin [roteirista de A Rede Social] estava fazendo... Acho que o mais depressivo sobre não ter a cooperação de Harvard é... Com uma câmera 2000 ASA e uma equipe muito pequena, se eles dessem acesso ao que tem por trás das paredes por lá eu poderia fazer esse filme com muito menos dinheiro e mais eficiência. Mas aí você pensa "certo, não vamos poder fazer isso, então temos que achar outro lugar com a arquitetura parecida. Agora estamos em John Hopkins com uma unidade móvel, mas não podemos usar os salões de jantar, então temos que gravar na University of Southern California".

Então acabamos tendo que juntar coisas que estão a centenas de quilômetros de distância ou que estão perto dos estúdios de som onde vamos filmar. Gostariamos muito de ter a autenticidade e ter sido capazes de filmar nos dormitórios de Kirkland, mas não existia essa possibilidade, então você meio que fica com a impressão "será que é meu trabalho recriar tudo até o milionésimo detalhe? Ou será que meu trabalho é contar uma história por cinco ou seis pontos de vista diferentes?". Passei por isso em Zodíaco e tinha vantagens: uma delas foi que eu cresci na área e me lembro do que eu senti ao ver as imagens das crianças nos ônibus sendo levadas para a escola, ser uma daquelas crianças e lembrar de como eram as cozinhas nas casas dos meus amigos, e de como eram os carros, eu tive o benefício de saber... O sentimento é importante, mas os detalhes não. [Já com A Rede Social] eu nunca estive em Harvard, eu nunca fiz faculdade, então eu não sei como é morar em um dormitório. Quer dizer, eu estava mais interessando em outros tipos de fraternidades do que os outros moleques da minha idade porque eu já sabia que queria ser da indústria cinematográfica. Eu ainda tenho alguns desses sentimentos guardados, então eu posso me relacionar com todas essas coisas, apesar de eu não ter a menor ideia de como escrever um código HTML ou coisa do tipo. Eu posso olhar pra esse tipo de coisa e pensar "eu acho que essa é uma parte importante da trama, mas eu também sei que ficar vendo pessoas digitando em computadores é bem chato, então temos que passar por essa parte do filme o mais rápido possível".

Tem uma cena no filme que eu entendi como você montou, vendo os extras do DVD. É quando Jesse está correndo pela Harvard Square, você colocou três câmeras no telhado do prédio do outro lado da rua. Você chegou a pensar que os policiais fossem pegar vocês? Ou você pensou "vamos que isso pode dar certo"?

Não, você nunca gasta o tanto de dinheiro que nós gastamos sob o risco de que a polícia pode lhe entregar uma multa e pedir que todo mundo vá embora. É tudo risco calculado. Você sempre pensa "será que alguém de Harvard realmente se importou que estávamos do outro lado da rua? Provavelmente não".

Eles estavam te vendo do outro lado da rua? Eles sabiam que vocês estavam lá?

Não, não. Nós tivemos que pegar uma permissão com a prefeitura para colocar uma câmera [de resolução] 5K no telhado que poderia possivelmente agredir os olhos das pessoas, tudo isso por ser uma questão de segurança. Então entre as filmagens da cena, enquanto Jesse voltava ao seu ponto inicial, nós tinhamos que colocar algo em frente à luz, ou até desligá-la. E temos que pensar no tráfego na rua. Não somos donos daqueles veículos. E vem a questão: é 2003 naquela cena e tem carros passando pela rua que são de 2007 e 2009. Não dá pra parar tudo e dizer "parem, não queremos nada que seja pós-2003 na rua!".

[risos] Eu nem cheguei a pensar nisso.

Também estamos passando por isso com Girl With the Dragon Tattoo. Os livros [da trilogia Millennium] foram entregues em 2004, então ele [o autor Stieg Larsson] provavelmente os criou por volta de 2003, o primeiro foi publicado em 2005, o iPhone é lançado em 2007, então todos aqueles aplicativos disponíveis para iPhone são provavelmente uma coisa a que [Lisbeth] Salander teria acesso, pelo fato de ela ser meio viciada em Mac. Então você se pergunta "onde traçamos a linha?". Decidimos que tudo seria pré-iPhone, porque se não eles teriam bússola, seriam capazes de saber como estava o tempo. Então quer dizer, você tem que tomar uma decisão que é arbitrária.

Nos extras, eu descobri que vocês filmaram 268 horas de material para A Rede Social. Obviamente você não senta por 268 horas e assiste a tudo. Você é conhecido por fazer várias tomadas da mesma cena. Quando você está no set, vamos dizer que você fez 40 tomadas ou coisa do tipo, você já sabe que as tomadas 38 e 39 são as boas ou você entrega todo esse material para alguém, seu time de edição, e pede que eles assistam a tudo e digam o que acharam?

Não, é como se você estivesse criando uma criatura da medula pra fora. Você começa do centro de cada membro, então você decide "bem, nesta cena, o importante é a intenção". A medula é como a intenção da coisa. Mas depois, tudo isso precisa de pernas bem potentes, então precisamos de ossos maiores aqui. E agora vamos precisar de muito mais músculo nesta parte... Você constrói o que cada cena tem que cumprir. No ensaio, você pensa "o que está sendo feito em termos da psicologia de onde as pessoas estão sentadas e como eles devem ser apresentadas?". Quer eles estejam na linha direta de visão ou não, você ensaia baseado nisso e depois você decide na cobertura. Baseado na cobertura - e eu tenho algumas regrinhas - eu quero que as coisas sejam o mais visível possível. Eu quero poder ver... Se eu pudesse ver tudo num master [a tomada de segurança, que dá conta de uma cena inteira para não haver perigo de faltar nada] e fosse convincente o suficiente, isso seria ótimo. Isso simplifica meu dia, simplifica a vida dos atores quando você pode focar nisso. Mas pelo mesmo motivo, eu não quero ser forçado a fazer cobertura. Eu quero que seja bom por todos os ângulos e eu preciso conseguir o maior número de matizes que eu quero por cada ângulo. Então 40 tomadas é... Novamente, há uma hipérbole quando se trata disso e eu acho que nós fazemos por volta de 20, 23 tomadas em média por cena. Em alguns casos ainda fazemos menos do que isso. Quando se trata de uma pessoa correndo da direira pra esquerda, fazemos por volta de 14, 15 tomadas.

Nas primeiras quatro tomadas eu não dou muita direção. Já haviamos ensaiado bastante e também conversado abertamente com todos sobre qual seria a intenção, então eles fizeram tudo sozinhos. Aí, por volta da tomada quatro ou cinco, eu falo "ok, eu sinto que o cara que está conduzindo a coisa toda parece estar meio travado, então eu preciso me concentrar em fazê-lo se mexer, tudo é centrado nele, então preciso refiná-lo". E então, enquanto eu o refino, eu vejo o que as pessoas estão fazendo do outro lado e eu falo "ok, quando eu for pra cobertura, eu preciso ter certeza de que eu tenho material onde eles não estão interessados, onde eles fingem que não estão interessados e onde eles estão realmente interessados no que está acontecendo". Então eu sei que preciso dessas três opções quando vou para o outro lado.

Então tudo acaba se tornando meio fractal. Você meio que descobre o espaço entre momentos onde você pensa "ah, é realmente bem interessante assistir ao outro advogado e como o advogado parece não estar com medo algum daquilo que o advogado do Zuckerberg está dizendo". Ele está apenas esperando para falar. Ele não está nem ouvindo, ele está somente esperando o outro cara terminar. E os Winklevosses estão do outro lado só "eu só quero gritar. Acredita no que esse cara está dizendo?" e o advogado deles "olha, é assim que são depoimentos. Eles vão tentar mostrar a vocês o que eles têm e daí decidir se vocês querem ou não continuar com o processo". Então é com esse tipo de coisa que você está lidando. Você deixa o ator por si só. E depois você começa a refinar. No processo do refinamento, você acha outras coisas interessantes, "isso é bom. Interprete aquilo. Eu preciso que volte e faça aquilo que estava fazendo no início, onde você meio que acelerou nisso". Então você pode fazer 20 tomadas e, nessas 20 tomadas com duas câmeras, pode ser que você ame a maior parte da tomada 14, mas o comecinho ficou ruim. Então a tomada 17 tem o melhor começo e a 20 tem o melhor final e é assim que você monta o esqueleto da coisa. Então agora, na maior parte, a cena será construida ao redor dessas coisas e você vai filmar outros pedaços que apóiem aquelas tomadas.

Você nota já no set que as tomadas 14 e 17, por exemplo, são as melhores?

Eu construo a cena toda em volta disso.

Então é no set que você descobre quais as tomadas que te agradam mais?

No set eu já penso "nós conseguimos alguma coisa por volta da tomada 14". A maioria da cobertura será a partir dessa ideia, eu ajusto o que todos estão fazendo para apoiar essa ideia. Então agora vamos para a cobertura dessas pessoas e vamos filmar quatro ou cinco tomadas onde eles podem fazer o que quiserem. E aí dizemos "ok, já conseguimos o queríamos desse lado, agora temos que conseguir a mesma coisa de você". Eu sento ali o dia todo para ter aquele momento de realização "essa é a resposta que eu queria da tomada 14 do outro lado". Pode ser que eu nem imprima as primeiras oito tomadas. Pode até ser que eu diga "não gostei, pareceu robótico, mas na tomada 14 eles realmente conseguiram". Aí vamos para os close-ups, e se tem um ótimo momento na tomada dois onde ele faz uma coisinha, então eu mantenho a tomada toda, mas só por causa daquele momento. Você passa por tudo novamente e faz um mix. Aí tudo é despachado e [os montadores] Angus Wall e Kirk Baxter vão rever tudo de novo e dizem "é interessante o que você está falando sobre a tomada 14, mas isso também acontece na tomada 12". Eles mandam de volta e eu digo "nossa, é verdade". É uma troca interessante e eu gosto do trabalho que eles fazem, me dá mais opções. Aí construimos uma versão da cena por cada ângulo onde colocamos só as melhores falas. E tudo isso às vezes é só pelo áudio. "Amo como a voz dele soou quando disse isso. Dá pra encaixar em alguma das tomadas que acabamos usando?"

Nos extras percebe-se como vocês juntam as tomadas X e Y com só a imagem da Z. Isso acontece com frequência nos seus filmes?

É o filme todo.

Então é constante?

Eu acho que Clube da Luta é um ótimo exemplo. Pelo fato de termos tanta narração que foi gravada duas ou três vezes. Pode ser que uma fala da gravação de fevereiro fique melhor para um certo ponto do filme. Então existem, provavelmente, para Edward Norton, por volta de 1.300 cenas no filme todo e por volta de 1.800 pedaços diferentes para se montar essa cena.

Só estou aqui pensando sobre tudo isso.

É. Pode até soar como xadrez tridimensional, mas não é tão difícil quando já está tudo certo para se fazer desse jeito. Você lança uma rede sobre a coisa toda e depois começa a peneirar. Isso não quer dizer que a performance seja construída; as performances são encorajadas. Se eu vou fazer com que pessoas façam a mesma coisa tantas vezes, eles precisam saber que, se me derem algo maravilhoso, estará no filme. Para mim, a ideia é libertar as pessoas. Eu quero erros. Eu quero as coisas que eles fazem quando são pegos não pensando sobre o que eles tem que estar fazendo.

Você tem o raro luxo de ter tempo de fazer tantas tomadas. E como você descreveu o seu modo de edição, eu não sei se conseguiria fazê-lo com apenas quatro tomadas.

Bem, dá pra ver tudo isso de uma maneira diferente, que é "o que diabos você está fazendo?". Você traz atores de todos os cantos do mundo simplesmente porque eles são as pessoas certas pra ler aquele texto, e você gasta semanas com eles em ensaios, aí então você chega lá e diz "agora vai, macaquinho treinado, faça desse jeito"? Isso não é incrivelmente desreipeitoso com o tempo de todos? Mas eu vejo tudo de uma certa forma. Existem muitos diretores que gostam de ter uma grua muito específica no set. O aluguel da tal grua custa US$3.000,00 por dia. US$3.000,00 é o preço da multa do sindicato por invadir o horário de almoço. É o custo de você ter mais 15 ou 20 minutos logo antes do almoço que permita que o ator faça algo de uma melhor forma. Eu sempre prefiro trocar cenas de helicópteros, steadicams e coisas do tipo por mais tempo com os atores. Eles sabem o que estão fazendo, eles já conhecem seus personagens. Eles já vêm de uma contribuição sólida e você quer que eles cheguem no ponto em que não pensem mais qual mão é qual e se pegaram ou não tal objeto. Depois que você faz a mesma coisa 16 vezes, você já pode fazer aquilo dormindo. Agora, quando você puder fazer tal coisa dormindo, vamos tentar fazer as palavras saírem de sua boca como se fosse a primeira vez que você as disse. É isso que estamos fazendo. Você senta lá e diz "será que a sala de conferência dos advogados dos Winklevosses não poderia ter mais mármore, mais madeira entalhada?". Sim, pode ser uma coisa bem mais elaborada. Precisa ser? Não. Será que eu não prefiro ter oito dias para filmar naquele lugar ao invés de seis? Então se eu tirar um pouco da elaboração, se não iluminar tanto, tirar um pouco da tela verde que eu queria para as janelas [em Zodíaco] terem a vista de São Francisco... Tirar essas coisas do meu orçamento. Eu penso "ok, então podemos colocar só um clarão nas janelas porque é assim que geralmente fica quando você filma alguma coisa e existe luz vindo da janela". Eu me importo com isso? Me dá mais dois dias com Andrew Garfield? Sim. Então eu gostaria de ter mais dois dias com Andrew Garfield. Eu prefiro dar mais algumas chances pra ele.

A trilha de comentários no Blu-Ray tem muitos momentos que foram censurados. Você sabia que eles tinham sido censurados?

Sim, eles certamente tirariam algumas coisas que eu disse. Olha, eu nem uso muitos palavrões, mas depois de quatro horas de comentários que acabam editados para duas horas... Eu acho que as coisas mais interessantes que eu disse tinham "fuck" em algum lugar.

Eu queria ir um pouco mais a fundo e dizer que você realmente passou o e-mail do Aaron Sorkin enquanto gravava os comentários.

[risos] Eu passei. As companhias põem aquele aviso - dizendo que os pontos de vista ali expressos não são necessariamente o ponto de vista deles - e depois te perguntam "por que você está dizendo isso? Você não precisa dizer isso". Mas eu disse, então foda-se. Nós acabamos entrando em uma discussão sobre o filme ser para maiores de 13 anos, e que eu não poderia falar daquele jeito... Que se foda. Esse é o jeito como eu falo e se você quiser usar meu comentário você vai ter que censurar os palavrões.

Concordo completamente. O que você acha de sessões-testes e o que mudou em seus filmes depois de sessões com a família e os amigos?

[pausa] Duas coisas bem diferentes...

Você faz sessões-testes em seus filmes?

Sim, eu tenho que fazer. Eu não fiz neste filme por causa de sites.

Não entendi.

Seguinte, não há dúvida de que a blogosfera é uma parte importante na hora de se fazer ouvir. É um lugar onde tudo é muito democrático e todos têm a chance de deixar sua mensagem e participar. O maior problema é que isso tudo reduziu a noção de autoria. Cinema é uma... Você tem que ter a porra da pré-temporada, tem que realizar exibições em outras cidades. Se tudo der certo vai todo mundo adorar o filme e então você tem que mostrar para um outro grupo de pessoas... E isso se tornou uma bagunça enorme: quem viu o quê primeiro, quem deu sua opinião primeiro. É tudo bem perigoso. Eu já ouvi falar de situações onde fóruns são bombardeados por relações públicas que trabalham para estúdios só para poder falar bem de seus filmes.

Mas, eu só estou curioso, na minha opinião você já alcançou um certo nível no seu trabalho em que você tem mais habilidade de dizer "não" a certas pessoas, dizer "vamos fazer desse jeito".

Mas não é nem isso. Ninguém vive isolado. Realmente, seria ótimo se fosse possível fazer isso, mas não é. Acho que foi Martin Scorsese que disse "ter poder de veto sobre o corte final do filme não te protege tanto assim, porque se o estúdio não pode falar com você eles podem falar com a sua mulher". Sabe o que estou dizendo? E eu já vi isso acontecer - quando alguém te pergunta a mesma coisa 13 vezes é difícil se manter verdadeiro consigo mesmo, porque você já respondeu a mesma coisa 10 vezes e cada vez mais você vai amolecendo. Produtores, gerentes de produção fazem isso o tempo todo: "Você realmente tem que fazer isso? Quantos extras precisamos pra essa cena?". E eles continuam perguntando, e quanto mais a pergunta é feita, mais você pensa "eu não preciso de 25 extras, eu posso fazer essa cena com apenas 18". Antes que você perceba, já consegue fazer com 16. E aí você começa a ir aparando diversos aspectos e, em vários casos, isso pode ser uma coisa positiva. Mantém você afiado, e, pra isso, é preciso fricção.

Mas é uma coisa difícil de se administrar. As pessoas que estão pagando pela produção não têm problema algum quando você diz "deixa eu pensar sobre isso". No momento em que você diz "quer saber? Vou fazer do meu jeito", é disso que eles se lembram. Eles sempre se lembram disso como ingratidão. Tudo era pra ser uma discussão e no momento em que não é mais uma discussão, vira um problema. Então é bem difícil trabalhar com esse tipo de coisa e eu tento desesperadamente ter certeza [de que tudo foi bem discutido]. É provavelmente por isso que eu já desisti de vários filmes e também já fui impedido de começar diversos outros filmes. Eu não acredito em engravidar e deixar pra decidir como será depois. Eu não posso mentir pra você e te dizer que vai custar 70 milhões de dólares quando na verdade vai custar 76 milhões. E eu também não posso exigir que você fique tomando decisões quando eu te perguntar se eu posso ter mais carros ou mais uma máquina de chuva. Em uma base hora-a-hora, se você ficar ligando para o estúdio perguntando coisas desse tipo, eles vão dizer "porra, mas é para isso que eu estou te pagando, para tomar esses tipos de decisão. Eu estou te pagando para gerenciar o dinheiro. Eu não quero ter que gerenciar o dinheiro à distância".

E ainda assim, eles [os executivos de estúdio] invariavelmente entram numa situação onde os chefes deles dizem que nós [os diretores] tomamos decisões arbitrárias em nossas cabeças, dizendo que tal coisa custa X. Eu li o roteiro de O Gângster, de Steve Zaillian - o nome era Superfly na época e eu queria tê-lo feito. Eu tive uma conversa por telefone com a cabeça do estúdio e ela me disse "quanto você acha que esse filme vai custar?" Eu disse "eu acho que provavelmente vai ficar por volta de 100 milhões de dólares, talvez 90". E ela disse "bem, nós achamos que tem que custar 45 milhões". E eu fiquei ali pensando "eu fiz Zodíaco [que é uma produção de época] e no seu filme vocês recriam o Harlem, tem situações de época, a Guerra do Vietnã...". Eu não sei como eles conseguiram.

Quando chega-se a uma discussão dessas, seja 5 milhões de dólares, aí você já não está mais falando de caminhões, iluminação, mão de obra. Você já está falando dos últimos 10%, a finalização, a habilidade de ter mais um pouco de tempo para capturar aqueles momentos. Eu vejo esse tempo que os atores têm em frente às câmeras - é para isso que estamos todos ali, é ali que tudo tem que acontecer. Muitas pessoas olham para produção de filme e pensam "vamos ver, a grua está lá, banheiros estão lá, os astros têm seus trailers, a produção tem seus trailers, o pessoal da maquiagem tem energia, seus secadores estão funcionando. Nosso trabalho está feito". Não, é agora que tudo vai começar! Quando tudo chega é que tudo começa, e não quando termina. E tem muita gente de produção que pensa que quando tudo já está lá, está tudo pronto. Os produtores nessa hora pensam que "agora ele já tem tudo de que precisa".

Agora eu quero te fazer algumas perguntas divertidas.

Divertidas!

Você recebeu agradecimentos especiais nos créditos de Wall-E. Por quê?

[pausa longa] Bem, eu não sei.

Acho que te deixei perplexo.

Jim Morris trouxe algumas pessoas ao set de Zodíaco. Eu acho que eles queriam conhecer Harris [Savides, diretor de fotografia] e acho que eles meio que estavam tentando descobrir como pintar com luz. Eles queriam ter a oportunidade de pensar em coisas nos termos de como você as realiza em live-action ao contrário de animação. E ele foi bem generoso com seu tempo, sentou com ele, e eu posso ter recebido um obrigado por causa disso.

Há rumores de que Vidas em Jogo vai sair em Blu-Ray pela Criterion. É verdade? Você sabe quando?

Sim, é verdade. E eu não sei quando porque eu ainda não tive tempo de ver isso. Eu já vi dois rolos do filme, ou até os três primeiros rolos, e está bom, mas eu acho que é uma questão de... A Gramercy foi comprada pela Universal, eu acho que acabou entrando para o nome da Universal Home Video e que eles têm poucos fundos para terminar a produção. Eu acho que a Criterion está tendo que juntar tudo... E eles são maravilhosos, fazem um ótimo trabalho. Então eu acho que eles estão tendo que cobrar todos os favores que podem para poderem fazer com que tudo isso funcione e eu não sei quando isso vai ser. Eu deveria saber.

Então quer dizer que é no futuro, mas está vindo.

Eu achava que era no primeiro trimestre deste ano, mas tenho certeza de que não vai acontecer se eu não for atrás.

Mas eu diria que você está de alguma forma envolvido nisso...

Não, eu vi algumas coisas que pareciam... Você sabe. Eu não gosto de revisitar certas coisas. É por isso que eu gosto de pôr o máximo de esforço em finalizar da maneira certa [um filme] logo da primeira vez, assim você não tem que ficar voltando. Quando você volta é sempre "o que eu fui fazer...".

Você realiza filmes muito específicos. Você se vê fazendo uma comédia romântica?

Achei que Clube da Luta fosse uma comédia romântica. [risos] Mas embora bem homoerótico e sobre narcisismo... Quando The Girl With the Dragon Tattoo apareceu, eu pensei "não, eu não posso fazer outro filme sobre serial killer. Preciso parar com isso". Mas pelo lado do estúdio nasceu essa ideia de que poderia existir... Eu tinha uma esperança de que pudesse existir uma franquia de filmes para adultos. E eu pensei "eu trabalhei muito por 20 anos, esperando que alguém dissesse algo desse tipo". Quando você tem uma oportunidade dessas, é ótimo.

Você está listado em alguns projetos: Heavy Metal, 20.000 Léguas Submarinas, The Killer, Chef...

Chef não vai mais acontecer.

Eu também estava curioso sobre The Reincarnation of Peter Proud.

Eu adoraria fazer esse filme. Ótimo roteiro.

E a minha pergunta é: você vê acontecendo algum desses projetos? Por que o nome de Guillermo Del Toro está ligado a umas oito coisas diferentes, mas ele está fazendo Nas Montanhas da Loucura.

Sim...

Esses projetos estão sendo escritos para você?

Sim...

Quando um deles vai sair?

É uma questão de as coisas se alinharem. Encontro com Rama tem uma ótima história e um papel incrível para Morgan Freeman, que é um ótimo ator e ficaria perfeito nesse caso. A questão era: será que conseguimos um script digno de Freeman? Será que conseguimos digno de Arthur Clark? Conseguimos fazer tudo isso num círculo que permita que o filme tenha as chances que quer ter? Por que queremos fazer um filme onde as crianças saiam do cinema e, ao invés de comprar um boneco, comprem um telescópio. Era isso que esperávamos. A esperança era, você sabe, interessar as pessoas no filme. Houve pessoas que se interessaram nessa ideia e nós nunca conseguimos um roteiro digno.

O que você pensa do 3D?

Acho bom... Quando é bem feito.

Você se imagina, em alguns dos seus futuros projetos, os fazendo em 3D?

20.000 Léguas Submarinas vai ser em 3D.

Basicamente, era isso que eu queria te perguntar. Obviamente a Sony enxerga aí uma grande franquia. Provavelmente vai querer fazer dois ou três filmes. A questão é, você seria capaz de, após terminar o primeiro, partir para o segundo?

Acredito que ainda seja preciso um roteiro para o segundo filme. O público precisa querer também. Existem muitos elementos que entram em jogo.

Você acha que 20.000 Léguas Submarinas pode ser seu próximo filme?

Eu acho que existem diversos filmes que podem ser meu próximo filme.

[risos] Você parece um político com essa resposta.

Bem, quer dizer, essa é a verdade.


Texto original : http://collider.com/david-fincher-interview-social-network-girl-with-dragon-tattoo/67432/