quarta-feira, 27 de abril de 2011

Quem é quem na rede

Vontade de chamar a atenção e um estado de autocrítica rebaixada fazem as pessoas exibirem na internet até o que não querem mostrar
Felix Lima - 25.fev.2011/Folhapress

A modelo Bruna Tenório, 23, que mora em Nova York, usa a rede social para se comunicar com amigos

IRENE RUBERTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Aquele colega de faculdade que era tão simpático agora é o chato que registra os detalhes mais insignificantes do seu dia no Facebook.
Quem estava interessado em negócios e começou a seguir o executivo bem-sucedido no Twitter fica sabendo só sobre suas viagens e festas.
E é sempre um constrangimento quando um conhecido resolve expor suas crises pessoais na internet.
Frequentar as redes sociais é uma boa maneira de manter contatos, mas é preciso conter a ansiedade, a raiva e a curiosidade nessas salas sem paredes.
Muitas pessoas se sentem tão à vontade no mundo virtual que acabam revelando aspectos de suas personalidades que surpreendem (ou aborrecem) os demais.
"Todos nós temos aspectos desconhecidos até de nós mesmos, que podem ser positivos, como talentos, ou sombrios, como medos. A internet é um meio propício para experimentar esses lados", diz Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC-SP.
Uma das hipóteses para isso é que, quando se está na internet, perde-se um pouco a noção de tempo e espaço.
O internauta fica em imersão, o que favorece uma condição quase de sonho. "As pessoas se sentem mais capazes de expressar desejos que, na vida presencial, pensariam 10 mil vezes antes de demonstrar", afirma.
Nesse estado alterado de consciência, a censura e a autocrítica ficam rebaixadas.
Um estudo da Universidade da Califórnia (EUA) mostrou que os internautas ficam em estado contínuo de atenção parcial e alerta permanente. Os resultados indicam que o Twitter estimula a liberação do hormônio ocitocina e diminui os níveis do cortisol, associado ao estresse.
Segundo a pesquisa, as conexões on-line são entendidas pelo cérebro como contatos cara a cara.

SEDE DE ATENÇÃO
"Eu vejo dualidade nas pessoas nas redes sociais: o tímido se torna expressivo, e pessoas que no convívio são agradáveis e educadas ficam agressivas", diz Gil Giardelli, professor da pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Para ele, a vontade de chamar a atenção é uma das explicações.
Um levantamento feito pelo Facebook mostra que usuários que fazem mais críticas são os que recebem mais comentários.
Para o especialista em planejamento estratégico digital Felipe Morais, os internautas se surpreendem com o comportamento alheio porque, na verdade, acabam trazendo para o seu convívio pessoas que não conhecem a fundo. "Eu mesmo tenho mais de 800 contatos no Facebook, mas posso dizer que realmente conheço uns 15."
Já o estudante de direito Guilherme Saraiva, 20, diz que já excluiu da sua lista pessoas "chatas".
A maioria dos usuários de redes sociais prefere o papel de espectador, segundo Morais, que dá aulas de comércio eletrônico no MBA da Faculdade Anhembi-Morumbi.
Um levantamento feito pelo Yahoo Research mostra que apenas 0,05% dos usuários do Twitter conseguem chamar a atenção.

MULHERES
Nas redes sociais, as mulheres se expõem mais do ponto de vista pessoal. Uma pesquisa feita no ano passado pela Oxygen Media e Lightspeed Research mostrou que 21% das mulheres entre 18 e 34 anos que estão nas redes se levantam à noite só para checar o Facebook.
"Por uma questão cultural, as mulheres são mais abertas e comunicativas. É aceitável que elas mostrem mais os sentimentos", diz a professora Rosa Farah.
A agente de negócios Fernanda Nunciato, 23, está no Facebook, MySpace, Orkut, LinkedIn, Twitter e tem um blog. Checar as redes sociais é a última coisa que faz antes de dormir e a primeira quando acorda. "Tomo o café da manhã vendo minhas páginas pelo notebook", diz.
A top model alagoana Bruna Tenório, que mora em Nova York, também adotou a rede social para se comunicar com amigos e parentes.
"O Facebook é bem útil quando preciso ter contato com amigos, acho mais ágil escrever algo no mural deles, a resposta vem mais rápido do que por e-mail", diz.
Ter muitos acessos no blog, um grande número de amigos no Facebook e de seguidores no Twitter virou símbolo de status, popularidade e prestígio.
Mas frequentar as redes sociais significa também conviver com amigos exibidos e gente mal-humorada e ficar da sabendo de detalhes pouco interessantes da rotina dos outros. "É o zoológico humano, só que visto de camarote", afirma Farah.


RISCO

ALEGRIA VIRTUAL X DEPRESSÃO
A Sociedade Americana de Pediatria lançou uma cartilha alertando pais para o risco de depressão entre adolescentes que usam o Facebook. Fotos de pessoas felizes nas páginas dos outros podem passar uma visão distorcida da realidade para jovens que já têm baixa autoestima.

A 'FAUNA' DO FACEBOOK

O EXIBICIONISTA
Com textos e fotos, procura mostrar como é feliz e bem-sucedido. Fala das viagens que faz, de restaurantes e festas que frequenta e de como sua família é linda e unida. Dá a impressão de que criou um personagem

O VOYEUR
Ele está lá, mas pouco se manifesta. Pode ser por timidez ou porque não quer mesmo se relacionar com ninguém. Observa tudo e não fala nada

O CARENTE
Ele conta seu dia em detalhes. Parece precisar de reconhecimento. Com seus posts que não interessam a ninguém, parece dizer "ei, olhem para mim". Pode ser um solitário e não ser tão desocupado como aparenta

O POPULAR
Ele quer ter 1 milhão de amigos, como na música. Adiciona até quem não conhece direito para atingir sua meta. Provavelmente também é assim no mundo 'real' e mostra esse aspecto nas redes sociais

O BIG BROTHER
Ele escancara sua vida pessoal, relata crises conjugais e reclama do trabalho. Pode não ter noção de que muito mais gente do que imagina está lendo o que escreve ou não percebe que está sendo inadequado

O POLÊMICO
O simples comentário que alguém fez sobre um filme pode virar uma grande dor de cabeça quando o crítico resolve se manifestar. Ele é o mal-humorado, o do contra, que vê em tudo uma teoria da conspiração

O BAJULADOR
O puxa-saco está sempre pronto para dar os parabéns, principalmente se os colegas forem mais ricos e bem-sucedidos do que ele. Diz que os amigos estão lindos, que os bebês são fofos e que está com saudades


Fontes: Rosa Farah, professora de psicologia e Gil Giardelli, professor de marketing

Menos, gente, menos

Quem vai se manifestar nas redes sociais não deve agir por impulso. "Em qualquer mídia virtual, se 20 pessoas replicarem uma informação sua, ela será distribuída para 8.000 pessoas. É como pólvora", diz o professor Gil Giardelli.
"As empresas olham o que você coloca na rede e há até o risco de perder o emprego. A reputação é a moeda do século 21 e isso serve para trabalho, namorada e amigos."
Para a professora Rosa Maria Farah, tudo depende da maturidade emocional do internauta e do conhecimento que ele tem das ferramentas. "Ele pode achar que está falando para um grupo quando uma comunidade inteira tem acesso às informações."
Caso se arrependa do que disse, pode até apagar o que escreveu, mas já terá perdido controle da informação.
"É como a fábula do rapaz que foi repreendido por um sábio por uma fofoca que fez", compara. No conto, o jovem pede uma penitência proporcional ao estrago que fez e o sábio diz que ele deve espalhar as penas de um travesseiro do alto de um morro e descer para recolhê-las.
"Era impossível. Com a informação na internet é a mesma coisa: ela se espalha e não se tem mais controle."
"Diariamente, são levadas ações à Justiça que têm como prova o que está nas redes sociais", afirma o advogado Leandro Bissoli, especializado em direito digital. Ele conta que os problemas mais comuns são o uso indevido de imagens e os crimes contra a honra, como a difamação.
"As pessoas acabam produzindo provas contra elas mesmas", diz. Há casos de pessoas que alegam problemas de saúde para se afastar do trabalho, mas postam fotos de viagens na rede. E há funcionários que acabam registrando situações no trabalho que podem levar à demissão por justa causa.


Vídeo viral mostra estereótipos das redes sociais

Sabe aquele amigo que dá um "curtir" em tudo que publicam no Facebook? E aquele que compartilha o que come, aonde vai e até detalhes, digamos, íntimos?
Os estereótipos das redes sociais estão em um novo vídeo viral das balas Altoids, chamado "Altoids Celebrates the Stars on Facebook" (Altoids celebra as estrela do Facebook): http://vimeo.com/22575745.

ANNA VERONICA MAUTNER - Ode a Gagarin


Quero lembrar o dia em que a humanidade se fez uma. Há 50 anos, uma voz do espaço disse: 'A Terra é azul!'

GENTE "de mais". Tempo de menos. Diversidade "de mais". Tolerância de menos.
Será que o doloroso momento que vamos vivendo é só feito desses ingredientes, nessas medidas?
Está bem difícil afinar tantos "de mais" com tantos de menos. O instinto de sobrevivência nos leva a procurar proteção, evitando excessos.
Só não podemos nos esquecer que precisamos nos acostumar a que os "de mais" e os "de menos" existem, que devemos conviver com eles e, para isso, temos que aprender ou reaprender a nos acostumar. E a gente só se acostuma na base de mais e mais repetições.
Eu, assim como qualquer outra pessoa, só perco o medo do trovão se tiver visto e ouvido muitos pelo correr da minha vida. Sem "muitos", não perco o medo.
Não é vivendo isolado que vou me acostumar a ficar tranquilo no meio de uma multidão.
Preciso ter nela mergulhado, tê-la amado ou tê-la detestado. Mas não é me blindando que vou ficar à vontade no meio de muita gente.
Multidão tanto aconchega quanto ameaça. Para distinguir um estado de ânimo do outro, só me arriscando em muitos mergulhos.
A multidão virtual é bem, mas bem diferente de uma passeata, de um comício ou de uma rebelião.
Quero me lembrar de um dia em que a humanidade se fez uma. Um momento em que todas as consciências bateram no mesmo ritmo.
O mundo todo aplaudiu e sabíamos que era verdade, que tudo aconteceu mesmo.
Foi quando, há 50 anos, uma voz surpreendida, vinda do espaço, aonde até então nós não íamos, disse: "A Terra é azul!" O primeiro homem, pela primeira vez, nos viu de longe e admirou-se: imediatamente nos surpreendeu com sua exclamação.
Podíamos até desconfiar, mas, até então, com certeza, nós só podíamos saber que o céu era azul, quando não estava nublado.
Aí, Gagarin nos congraçou e todos nós vimos e fomos vistos pelos olhos de um só. E, porque assim foi, acreditamos sem pedir confirmação.
Que grande momento foi aquele! Felizes dentre todos somos nós que o ouvimos. Estávamos vivos e tínhamos acesso tecnológico a esse som que veio de longe.
Pela primeira vez, pelos olhos de um, nós todos, de supetão, nos enxergamos.

ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Setaro's Blog: Sidney Lumet está morto

Setaro's Blog: Sidney Lumet está morto: "Iria colocar uma tarja preta neste blog, mas não soube como fazê-lo. Por causa da morte de Sidney Lumet, um grande realizador america..."

A chacina e o pânico da mídia

Por Raquel Paiva e Muniz Sodré em 13/4/2011

Em seguida à tragédia da escola em Realengo, o advérbio "talvez" tornou-se o protagonista das narrativas jornalísticas sobre o acontecimento. Como na realidade são muito obscuras as causas reais do que se passou, a mídia tenta aplacar a angústia da motivação vazia com um sem-número de explicações oriundas dos discursos competentes (psiquiatras, psicanalistas, sociólogos, articulistas etc.) que, apesar de razoáveis construções argumentativas, redundam inevitavelmente no "talvez". Acreditamos que não poderia ser de outra maneira: a passagem ao ato do serial killer – já muito pesquisado em seu original, o modelo norte-americano – é aquilo que os lógico-matemáticos chamam de "indecidível" quando se deparam com determinados problemas de computabilidade sem saída.

A partir desse vazio, a mídia resvala inadvertida ou deliberadamente para a instilação do pânico social. Na tentativa de exaurir o assunto antes que se esgote o ciclo (geralmente curto) de atenção pública inerente a um noticiário, os jornais esmiúçam detalhes, entrevistam vizinhos e autoridades, reconstroem topograficamente o itinerário da chacina. As revistas semanais carregam nas tintas retóricas do texto, à beira da sub-"literatura" cinematográfica. Na capa da Veja, o título "O monstro mora ao lado" é o pastiche aterrorizante de alguns blockbusters à disposição dos consumidores nas locadoras de cedês.

Pânico – e não medo – é o termo correto para o fenômeno. Embora seja preferencialmente utilizado nas situações descritas como "catastróficas" (terremotos, inundações, incêndios etc.) ou no "estouro da boiada humana" dentro de espaços fechados, ele se espraia, entretanto, por modalidades diversas caracterizadas por intenso terror subjetivo e por temor contagiante de perigo. Não se define, pois, por um estado emocional específico, e sim por uma desestruturação de conduta, que tanto pode ser irruptiva (como quando se tenta escapar de um prédio que desaba) ou latente.

Resposta de marketing

O medo é outra coisa: desde O Leviatã (de Thomas Hobbes), é aquilo que mantém o vínculo pacífico e virtuoso dos homens, de tal maneira que o governante "deve dispor das forças necessárias para suscitar o terror que leve a vontade dos indivíduos à conformidade e à concórdia". Esse é o ponto de partida para a construção do Estado em Hobbes, como nos faz ver o politólogo Carl Schmitt, já no século 20: "O terror do estado de natureza empurra os indivíduos, cheios de medo a juntar-se". Estaria, portanto, como força agregadora, no próprio vínculo comunitário: "Longe de ser sem objeto, esse medo é o próprio objeto do desejo que funda o grupo e o confunde" (Daniel Sibony, psicanalista francês).

A ruptura do vínculo, por outro lado, é ocasionada pelo pânico, especialmente nos instantes ou nos pontos muito sensíveis do corpo social ou quaisquer outras metáforas que liguem o socius a uma idéia de organicidade. Nesses momentos ou nesses lugares, os comportamentos mais bem organizados podem dar lugar à catástrofe do afeto ou a atos sem qualquer sentido coesivo.

Estranhamente, um desses lugares preferenciais para a chacina perpetrada por matadores ensandecidos é a escola. Não como regra absoluta, já que a crônica conhecida do fenômeno lista casos em que o atirador mirou a multidão na rua ou mesmo num cinema, como já aconteceu em São Paulo. Mas o recinto escolar se sobressai tanto em número quanto em narrativas muito conhecidas, a exemplo do filme de Michael Moore sobre o massacre em Columbine (EUA).

Por que a escola? Pode-se inicialmente pensar em jovens vítimas indefesas congregadas num espaço circunscrito. São muitos, porém, outros espaços dessa natureza que, embora repletos de adultos, não os isenta da condição de sujeitos indefesos frente a um homicida que empunha modernas armas automáticas.

Não há, assim, como deixar de pensar na idéia de "santuarização" dos estabelecimentos escolares – em que se priorizam medidas de segurança física – presente em alguns países do dito Primeiro Mundo, a exemplo da França. Em maio de 2009, durante uma reunião com "os principais atores da segurança pública, da Justiça e da Educação nacional", o presidente Sarkozy propôs uma série de providências no sentido de que os estabelecimentos mais "sensíveis" fossem objeto de um "diagnóstico de segurança, a partir do qual serão adotadas todas as medidas necessárias", desde a instalação de portões até dispositivos de videovigilância. Não é apenas isso: as medidas se diversificam ao ponto de habilitar o professor a abrir pastas e mochilas para impedir a entrada de armas, a formar "equipes móveis de guardas", a ter ligação direta com a delegacia de polícia.

Tratando-se de Sarkozy, essa transformação da escola num "santuário" militar é uma resposta de marketing (segundo ele mesmo, uma reação de "bom senso") ao que a mídia francesa chama de "deterioração" do clima nos estabelecimentos de ensino. Mas é um fato – que vem recrudescendo desde meados do século 20 e que suscitou alguns filmes norte-americanos sobre o assunto – que a violência na escola se tornou um problema social em ascensão.

Opção dos editores

O bullying, tema agora recorrente na mídia brasileira, é fenômeno muito antigo, que aumenta na razão inversa do decréscimo de autoridade dos professores. Autoridade não é poder coercitivo, mas o crédito disciplinar advindo de um reconhecimento que Estado e sociedade atribuem à docência. A crise dessa autoridade equivale à crise da educação enquanto processo de socialização dos jovens na direção de uma cidadania reflexiva e criativa. Na escola que apenas "informa" – tendência crescente na privatização do ensino, onde estudante é redefinido como "cliente" – a educação cede o lugar a uma ambígua "instrução", sem qualquer ideal republicano.

Como essa instrução é efetiva junto aos filhos das classes abastadas e tende a "guetificar-se" em face de um mundo externo potencialmente "duro", não se pergunta sobre crise de autoridade ou sobre violência latente. A violência se torna de fato irruptiva e endêmica, segundo algumas pesquisas de caráter científico, nas escolas situadas em zonas "desfavorecidas", onde é grande a amplitude das desigualdades sociais. A violência escolar é, assim, também um fenômeno da exclusão social. Nos países de Primeiro Mundo, isso ocorre principalmente em bairros muito pobres ou em guetos de imigrantes.

Num país como o Brasil, a periferia urbana pode ser um lugar no mínimo angustiante tanto para o professor quanto para o próprio aluno, entregues que estão à ausência de verdadeiros projetos político-pedagógicos e à presença dos números de universalização do acesso à escola, no fundo, slogans para "inglês" (OCDE, Banco Mundial et caterva) ver.

No nível singularizado do fato, a chacina de Realengo tem certamente algo de viral, enquanto modalidade de um contágio mental (ao mesmo tempo patológico e informativo, já que o modelo midiático do terrorista e do serial killer americano colou-se à doença individualizada de um miserável psíquico), mas por isso mesmo é sem objeto e sem causa, no sentido de previsibilidade social dos fenômenos.

Apenas repercutir midiaticamente a superfície narrativa da tragédia é entregar-se à atração do pânico latente e perder a ocasião de refletir sobre o porquê desse excesso de violência ou de crueldade contra o lugar, a escola, sobre a qual os antigos ideais educativos depositaram esperanças enquanto comunidade-máter da socialização republicana. Agarrar-se às metáforas da pura monstruosidade do assassino é a hipocrisia neoliberal dos editores.

RUY CASTRO - Mais cidadãos

RIO DE JANEIRO - Que cena! Eu, um cidadão quase em idade de poder furar fila em bancos e tomar ônibus de graça, sendo vasculhado, com as pernas abertas e os braços em cruz, por uma geringonça eletrônica em busca de objetos suspeitos, na entrada da Feira dos Nordestinos, em São Cristóvão, outro dia. Teria feito mais sentido se o segurança me examinasse na saída, depois da fabulosa buchada de cabrito -esta, sim, um torpedo- que devorei num restaurante da feira.
Quem diria que o ataque a Nova York, em 2001, levaria a que, dez anos depois, uma singela feira popular brasileira se equipasse para detectar pistolas e peixeiras entre seus frequentadores? Mas foi o que aconteceu. Do detector de metais no aeroporto à humilhante porta giratória dos bancos e ao bastão que escaneia os torcedores na rampa dos estádios e ginásios, a paranoia não parou de crescer.
Dali estendeu-se aos shows de rock, à recepção em empresas públicas e privadas (com direito a retratinho compulsório no balcão) e, depois do massacre de Realengo, ameaça ser adotada até pelas escolas de 1º grau. Quando isso acontecer, cada brasileiro, não importa a idade, será visto como um suspeito, um potencial assassino em massa, alguém a não se tirar os olhos de cima durante qualquer evento.
Você dirá que, se essa medida já tivesse sido implantada, o matador Wellington não teria entrado tão facilmente na escola em Realengo. Talvez não. Mas quem o impediria de postar-se num terraço ou janela próximos e fuzilar as crianças quando elas saíssem à rua? E se, um dia, for possível vigiar todo mundo, quem vigiará os vigias?
O fato de o Brasil estar infestado de detectores de metal prova que as armas já são um problema. Eliminá-las não impedirá que, um dia, surja um novo Wellington. Mas nos tornará mais seguros, mais confiantes e mais cidadãos.

Uma mente perigosa - ZUENIR VENTURA

Ainda não dá para mudar de assunto, por mais triste que seja continuar. Primeiro, o choque da chacina; agora, o impacto dos manuscritos revelados pelo "Fantástico". Antes, muitas hipóteses haviam sido levantadas na busca de explicação para a tragédia de Realengo e para a motivação do atirador: fácil acesso às armas, falta de segurança na escola, fanatismo religioso, cultura da violência, vingança. A influência de cada um desses fatores no massacre variava conforme a visão de quem analisava. A isso veio se juntar o que foi alegado ou o que se depreende dos escritos deixados pelo suicida: humilhação, rejeição, a inspiração do 11 de setembro de 2001, a má interpretação do Alcorão, os ensinamentos da internet de como conseguir munições, o transtorno mental, as perseguições ou bullying. Mas como essas possíveis causas não são excludentes, o mais provável é que o fator determinante tenha sido a explosiva conjugação de todas elas, convivendo numa cabeça atormentada e perigosa.
A primeira dificuldade de entender o que significam os textos do assassino é descobrir onde termina a realidade e começa a fantasia, o que é literal e o que é delírio. A ambiguidade está sempre presente. É uma escrita com erros de ortografia, mas com fluência, que grafa "escelência", mas usa termos mais ou menos cultos ("ícone", "meditação", "infiéis"). Uma mente tumultuada, mas que persegue com lógica o seu objetivo - tanto que conseguiu. Numa das cartas, ele denuncia como álibi: "Muitas vezes aconteceu comigo de ser agredido por um grupo e todos (...) se divertiam com as humilhações que eu sofria." Parece que não há registro disso na Tasso da Silveira, mas um antigo colega de turma de Wellington em outra escola relatou para os repórteres Mariana Belmont e Vinicius Lisboa dois episódios capazes de deixar sequelas no ego de uma personalidade equilibrada, quanto mais no de uma transtornada. No primeiro, "três garotos enfiaram a cabeça dele no vaso sanitário". No segundo, "vi jogarem o cara de cabeça para baixo dentro de uma lata de lixo e tamparem". Segundo a testemunha, ele teve que balançar a lata e derrubá-la para sair. Não protestou, preferiu armazenar a raiva.
Nenhum desses supostos abusos justifica o que ele fez dez anos depois, e contra outra escola, até porque há ocorrências diárias de bullying em todo o mundo, e as chacinas são exceção. Mas podem ter contribuído. Assim, da mesma maneira que se pensa em promover o desarmamento, seria a hora de repensar a questão da violência interna nos colégios. Fala-se muito em detector de metais na entrada, em guardas no portão, em aumentar enfim o policiamento. Fala-se pouco em combater, por meio de um controle rígido com inspetores e câmeras, esse provedor de ódio que é o bullying.

terça-feira, 12 de abril de 2011

CARLOS HEITOR CONY - O tempo do tempo

RIO DE JANEIRO - O herói da batalha de Maratona precisou correr 42 quilômetros para transmitir a notícia da vitória numa guerra. Morreu logo após ter cumprido a tarefa. A descoberta (ou o achamento) do Brasil levou mais de dois meses para chegar ao conhecimento do rei Manuel, dito o Venturoso. Hoje, com a internet em funcionamento, Manuel seria venturoso antes do tempo, ficaria sabendo da façanha de Cabral na hora.
A instantaneidade da notícia é uma das conquistas mais fantásticas da humanidade. Cem anos após a Proclamação da nossa República, em 1889, havia brasileiro lá pelo setentrião acreditando que o Brasil ainda era governado por um d. Pedro qualquer, provavelmente d. Pedro 3º ou 4º.
Consta que no Japão, 30 anos depois de Hiroshima, apesar de seu avançado estágio tecnológico, havia soldado do Mikado escondido nas matas pensando que a Segunda Guerra Mundial ainda não acabara. Há poetas que ainda fazem sonetos na ilusão de que serão recitados na Confeitaria Colombo.
Outro dia, a bordo de um avião doméstico, o piloto informou, com voz aveludada e calma, que o tempo estava ótimo em toda a rota. Nem havia comunicado integralmente a boa notícia, o aparelho começou a sacudir como se estivesse com mal de Parkinson.
Quando passou a turbulência, uma das maiores que já atravessei, o piloto explicou que os computadores estavam certos nas duas ocasiões, a do tempo bom e a do tempo ruim. Apenas -disse ele- o tempo fora mais rápido, não dando tempo para que a rede eletrônica de bordo e das estações meteorológicas no caminho pudessem fazer a correção do tempo.
Repeti a palavra "tempo" várias vezes porque acredito que seja o único fato e fator inamovíveis da nossa vida. Não precisa de notícia para existir. O tempo não precisa de tempo para ser tempo.