sábado, 24 de março de 2012
Fazendo a sua parte - Zuenir Ventura
que a imprensa está fazendo a sua parte. Sem qualquer protecionismo ou espírito corporativo, pode-se afirmar que não há um grande escândalo no país que não seja denunciado ou noticiado por algum jornal, revista, emissora de rádio, de TV ou site. Ela pode pecar por excesso, não por omissão. O trabalho de Faustini desfaz a lenda saudosista de que hoje não há mais lugar na mídia para grandes reportagens, que bom era o jornalismo de antigamente. Engano.
Com criatividade, paciência e argúcia, ele fez um dos mais contundentes libelos contra a corrupção, sem aparecer e sem precisar usar um adjetivo sequer, passando a palavra aos próprios personagens para se confessarem e se incriminarem. Nada é contado por ele, mas mostrado ao telespectador sem mediação ou retoque, didaticamente. Assim, desvenda-se não só o mecanismo dos desvios — a técnica, o modus operandi — como a cultura que envolveseus autores. Em meio a gargalhadas, a pândega representante de uma das empresas corruptas recorre, na maior desfaçatez, à “ética do mercado”; o sócio de outra fornecedora fala com orgulho no exemplo de conduta que “deixo pros meus filhos”. O terceiro detalha como será entregue o dinheiro, disfarçado em “caixas de uísque”. Tudo muito natural, como se fossem práticas legítimas realizadas em clima de absoluta normalidade. Assistiu-se a um impressionante festival de hipocrisia, cinismo e escárnio que deveria estarrecer e revoltar nossas instituições republicanas.
Por que a Justiça (e também o Congresso) não faz a sua parte? Para só ficar nesse caso — deixando de lado os muitos e velhos escândalos famosos que continuam impunes — das quatro empresas corruptas mostradas no “Fantástico”, pelo menos duas — Locanty e Rufolo — vêm há 15 anos lesando hospitais e prefeituras, negociando propina para obter vantagens. Será que o destino delas e de todas as outras comprometidas até o pescoço é não pagar pelo mal que fizeram? Não é normal que, apesar das evidências que a mídia costuma escancarar, o Brasil continue sendo o país do “nada ficou provado”.
domingo, 4 de março de 2012
Meu camarim - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
– Cento e dezessete toalhas de banho fofas, brancas, com meu monograma em dourado.– O mesmo número de toalhas de rosto, com monogramas simples.
– Cinquenta roupões felpudos.
– Cinquenta pares de chinelos na forma de coelhos, também felpudos.
– Uma banheira jacuzzi.
– Patinhos flutuantes para a banheira jacuzzi.
– Submarinos de brinquedo para a banheira jacuzzi.
– Um sortimento de pastéis, dividido igualmente entre de carne e de camarão. Queijo não.
– Uma bandeja de empadas do restaurante Caranguejo, de Copacabana.
– Um suprimento inesgotável de picolés de coco da Kibon.
– Doze garrafas de champanhe Taittinger numa temperatura não menor do que 8 ou maior do que 11 graus.
– Quatro garrafas do vinho Cheval Blanc, safra 2005.
– Um serviço continuo de caviar, blinis, “creme fraiche”, vodka gelada e limão. O limão pode ser nacional. O caviar, obviamente, não.
– Três tenistas russas. De saiote.
– Uma massagista sueca e uma tailandesa que trabalhem em conjunto. Uma a parte de cima, outra a parte de baixo.
– Uma orquestra de câmara.
– Visitas da Patricia Pillar, da Patrícia Poeta e de alguma outra Patrícia que me ocorrer na hora.
– Um padre franciscano, um pastor evangélico, um rabino e um monge budista, para o caso de eu precisar de orientação espiritual ou de quatro para o pôquer.
– Em Busca do Tempo Perdido, A Montanha Mágica e A Genealogia da Moral, de Nietzsche, não para ler mas para deixar espalhados pelo camarim e dar uma boa impressão, e disfarçar as revistas de quadrinhos.
Caetano Veloso - Picnic
Ao ouvir a conversa que surgiu, durante o ensaio do show de Gal, sobre a nomeação de Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca (e a história de que o senador evangélico teria respondido à pergunta de um repórter sobre seus conhecimentos a respeito do assunto com a frase "Não sei nem colocar uma isca no anzol"), o guitarrista Pedro Baby, ainda levantando o tronco e a cabeça do semicírculo de pedais que se dispõe à sua frente, comentou (ele viveu alguns anos nos Estados Unidos): "Puxa vida, Ministério da Pesca!, daqui a pouco vai ter o Ministério do Piquenique." O número de ministérios é enorme e só fez crescer na era Lula. Tem que agraciar muitos partidos e muitos grupos de pressão (dizem que Crivella entra para atrair eleitores evangélicos para o candidato do PT, portanto do Governo Federal, à prefeitura de São Paulo, já que Serra decidiu dizer mais uma vez que se se eleger não deixará o cargo para tentar de novo a presidência?). Quem pode acreditar em quem quer que esteja em qualquer dos lugares dessa dança? Um pique-nique contra a legalização do aborto e o reconhecimento do casamento gay. Piquenique ou picnic? Como é mesmo que o acordo nos aconselharia a grafar essa palavra inglesa (ou alemã?) há século consagrada pelo uso?
Esse acordo é uma maluquice. Quero dizer, é outra maluquice. É mais uma maluquice. O que foi mesmo que houve nos anos 1970? Não me lembro de ouvir a palavra "acordo" (que ainda se escrevia "acôrdo", para distinguir da primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo acordar). Mas o fato é que o CD "Nego", concebido por Carlos Rennó, ficou com esse título que remete mais ao samba-canção que primeiro fez furor na voz de Nelson Gonçalves e, depois, na de Maria Bethânia do que à palavra que poderia corresponder ao "nigger" americano, se este não fosse um xingamento. Até os anos 1970, escrevia-se "nêgo", quando se queria designar alguém de pele escura, ou dengar um amigo ou namorado querido, ou ser simpático com o vendedor da loja, ou simplesmente referir-se ao ser humano em geral. Aliás, nesta última acepção é que ouvi essa palavra pronunciada hoje, pelo mesmo Pedro, quando, ao reportar uma combinação que tinha feito com todos os membros de sua família, disse que "nego acatou logo". "Nego" é "geral", é "todo mundo" (que perdeu o "o", o artigo definido que tinha herdado da origem francesa da expressão, também depois dos anos 1960, acho, embora eu próprio quando escrevi um livro nos anos 1990 ainda teimasse em manter o artigo). Nego é a família de Pedro.
Também o livro "Um defeito de cor", cujas 925 páginas li sempre com algum interesse, ostenta um título à primeira vista estranho na capa: alguém decorou um defeito e o repete sem precisar consultar o teleprompter? Não, seu velho, "cor" é "côr". Faz décadas que alguém decidiu, neguinho decidiu, um grupo de pessoas decidiu (quem, afinal, foi a esse piquenique?) que seria mais fácil para os estudantes brasileiros e estrangeiros que os acentos diferenciais dançassem. Por falar nisso: por que Guimarães Rosa escreve "dansar" em ao menos uma das histórias (estórias) de "Sagarana" (ou será "Corpo de baile")? E "dôido" em todo o "Grande sertão"? "Dôido"? Nem nos anos 1950 eu aprendi isso. Diferençava-se "doido" (que já começa com um ditongo que automaticamente confere som fechado ao "o", além de assegurar a tonicidade da sílaba - que aliás independe disso, já que um dissílabo não acentuado e não terminando em "i", "u" ou ditongo é automaticamente paroxítono - fazendo duas vezes desnecessário o recurso ao acento circunflexo) de "doído", como até hoje se faz. Nada mais. Mistérios. Escrever é muito perigoso. Esse circunflexo de Rosa deve ter motivações esotéricas, numerológicas, ocultas. É um caso extremo e anômalo. Mas o de, por melhor exemplo, "fôra" até hoje me faz falta. Muitas vezes inicio a leitura de um parágrafo de romance e paro na palavra "fora", indeciso se seu "o" foi pensado para se pronunciar aberto (e, portanto, indicar que não é dentro) ou fechado (dando à palavra o sentido de mais-que-perfeito do verbo ir - ou ser!). De modo que sempre tenho de recomeçar a leitura depois que, lendo o resto da frase, me asseguro de tratar-se de uma ou outra pronúncia. Imagino que teria um problema se estivesse lendo o texto pela primeira vez e em voz alta para um grupo, num piquenique.
Mas será que a finalidade é de fato facilitar o uso da língua escrita? E é seguro que a ausência de acentos a torna mais fácil? A facilidade é uma virtude para uma língua? Ouço muitos malucos brasileiros dizerem que "o português é uma língua muito difícil". De onde vem essa ideia? Do Ministério da Pesca?
Sempre se dá o exemplo da facilidade gramatical do inglês. Acho inglês uma língua de outro planeta. Ela é polida ou desgastada pelo tempo, uso e convergência de vários povos numa ilha afortunada, como um seixo. Não tem essas redundâncias de o plural ter que se reafirmar em cada palavra da sentença, não tem propriamente conjugação verbal, não tem esse desperdício de masculino e feminino pra tudo. Mas ouvi aquele discurso contra o preconceito linguístico nos Estados Unidos no filme "12 homens e uma sentença". Em "Picnic" temos aqueles peitos incríveis de Kim Novak. Agora aqui é "para" em vez de "pára". Como posso parar? As maluquices proliferam ao redor, só tenho uma cabeça. Ou talvez só tenha quatro, como diz Mautner.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Caetano Veloso - Gente
Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalad para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.
Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.
Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada notacantada (o modo como ela instintivamente cuidava daafinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava par meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitadopor desafios mais altos.
Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.
Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.
O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantos a explosão de musicianship que eu vi na TV.
Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo com essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Elio Gaspari - Já foi tarde
Poucas vezes na história viu-se de forma tão direta e fotográfica o legado de um governante. É o buraco negro registrado pelos satélites que passam sobre o apagão da Coreia do Norte deixada por Kim Jong-il, o "Sol do Futuro Comunista", o "Comandante Invencível". Um apagão elétrico, social, político e econômico.
É com esse apagão que a jornalista americana Barbara Demick começa seu livro "Nothing to Envy" ("Nada a Invejar - Vidas Comuns na Coreia do Norte"). Ela foi correspondente do "Los Angeles Times" em Seul e, durante sete anos, entrevistou coreanos que fugiram da tirania de Kim Jong-il, que foi-se embora no domingo. Quando o "Querido Líder" nasceu, uma estrela brilhou no céu e dois arco-íris enfeitaram o dia. Sucedeu ao pai, o "Grande Marechal", e passou o poder ao filho.
Como sucedeu em 1994, quando o coração matou Kim Il-sung, o "Divino Guardião do Planeta", torce-se pela desagregação do regime que aprisiona 23 milhões de pessoas, dando-lhes fome, miséria e brutalidade.
Barbara Demick escreveu sobre uma tirania depois de um século varrido pelo Holocausto e pelo Gulag, quando seria possível pensar que já se viu de tudo. O que há de terrível no retrato da Coreia do Norte é que ele surpreende o leitor. Quando se acha que a vida de um povo não pode piorar, ela piora, envergonhando a época em que se vive.
Em 1945, a península coreana foi dividida entre duas ditaduras. A do Norte, comunista e rica. A do Sul, capitalista e pobre. Nos anos 60, quando se falava em "Milagre Coreano", o tema era a supremacia socialista. Em 1970, todos os vilarejos do país tinham eletricidade. Passou-se uma geração, o Sul tem uma democracia e o Norte tem uma tirania enlouquecida, que mais se parece com a Spectre do romance de Ian Fleming do que com um Estado. Em apenas quatro anos, entre 1991 e 1995, a renda per capita da população caiu de US$ 2.460 para US$ 719. O regime vive do socorro cúmplice da China.
Falta eletricidade, mas as 34 mil estátuas do "Pai da Pátria Socialista" são iluminadas mesmo de dia.
A professora Mi-Ran conta que via alunos de cinco ou seis anos morrerem de fome nas salas de aula. Sua turma de jardim de infância de 50 alunos caiu para 15.
Nas casas desse paraíso, uma parede da sala deve ser reservada para o retrato do Líder, que é distribuído com um pano. Fiscais zelam para que nenhuma família deixe de limpá-lo.
A fome dos anos 90 matou entre 600 mil e 2 milhões de coreanos do norte. Em algumas cidades morreram dois em cada dez habitantes. Um médico conta que ensinou mães a ferver demoradamente a sopa de capim. A certa altura, as famílias preferiam que as crianças morressem de fome em casa, porque nos hospitais, onde não havia remédio, faltava também comida.
Nessa época o governo informou que racionara alimentos porque o povo da Coreia do Sul estava passando fome e precisava ser ajudado.
Ninguém comemora aniversário na Coreia do Norte. Festeja-se apenas um dia: o do nascimento do Líder.
Kim Jong-Il, com seus sapatos-plataforma, já foi tarde. Se Deus é comunista, o filho do Líder entrega o campo de concentração a um condomínio da China com a Coreia do Sul.
Serviço: "Nothing to Envy" está na rede por US$ 9,99.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Vento anarquista - ZUENIR VENTURA
Tavares ressaltava que isso aconteceu não "apesar", mas "graças" à situação singular dessa monarquia parlamentar que, "desgovernada" há 19 meses, desconhecia medidas de austeridade, recessão, arrocho, demissões e cortes de programas sociais. Desse modo, concluía o articulista, "a economia cresce de forma mais saudável, ajuda a diminuir o déficit e a pagar a dívida". Sede da União Europeia e da Otan, a Bélgica bateu o Iraque na categoria país sem governo, e não fez da crise política uma tragédia; preferiu enfrentá-la com bom humor e comemorar, chamando-a de Revolução da Batata Frita, como paródia à Revolução de Jasmim tunisiana e em homenagem ao prato nacional. Os jornais chegaram a fazer piada. Um anunciou em manchete: "Finalmente campeões do mundo"; outro celebrou, também com autoironia, o feito negativo inédito: "Recorde batido!"
Nos anos 70, o economista Edmar Bacha descreveu como Belíndia um país fictício, desigual e injusto, onde conviviam dois povos, um que tinha o padrão de vida da pequena e rica Bélgica e outro que lembrava a pobreza da Índia. Era o Brasil da época dos militares. Agora, o reino belga está sendo fonte de inspiração para outra fábula - a utopia anarquista de que não só é possível sobreviver sem governo como se vive até melhor sem ele.
Em tempos de descrença nas instituições, quando os jovens estão indo às praças públicas protestar em várias partes do mundo, independentemente de regime, ideologia ou credo, sabendo mais o que não querem do que o que querem, o exemplo belga pode exercer um grande fascínio, principalmente se considerarmos que nessa estação de tantas "primaveras" insurrecionais um pouco do vento da anarquia está soprando.
Já imaginou se a velha moda do "hay gobierno, soy contra" se espalha? No Brasil, onde o comportamento da Câmara e do Senado leva muita gente a sonhar com o seu fechamento por desnecessários, a experiência belga poderia ser adotada durante pelo menos alguns meses. Como se trata de um exercício de fantasia do tipo "o que não tem governo nem nunca terá", da música de Chico Buarque, quem sabe assim o país não funcionaria melhor? Uma coisa parece certa: sem ministros e ministérios, a corrupção seria menor.
sábado, 26 de novembro de 2011
Jussara na berlinda - José Castello
Estranho que um livro que fala das lágrimas e de morte me remeta, justamente, à infância. É mais prudente examinar melhor a palavra, “carpideira”, que o dicionário define como uma “mulher mercenária que acompanhava os funerais pranteando os mortos”. Há, em sua figura, uma “atuação” — como a do ator em cena. Uma encenação nesse choro que empresta dramaticidade a um corpo vazio.
Existe, talvez, uma relação imprevista entre as carpideiras e a berlinda. Nos dois casos, joga-se alguma coisa — uma parte do ser está em questão. Mas existe, também, uma diferença crucial: enquanto as crianças colocam-se na berlinda por prazer, as carpideiras choram para tirar vantagens de suas lágrimas. O desempenho na berlinda é gratuito, fútil e interminável. Já as carpideiras medem as horas e as intensidades de seu choro, à espera do justo pagamento. Nem isso importa: crianças e carpideiras tiram efeitos surpreendentes de seus desempenhos.
Essa tensão entre o inútil e o útil está no coração dos poemas de Jussara Salazar. As carpideiras fazem sua ópera Por isso talvez o livro, em que a poesia se metamorfoseia às vezes em prosa, abre com um cenário luxurioso. “No ano sagrado da colheita ao entrar na aldeia víamos a grande arvore luminosa plantada ao centro do bosque”. A árvore evoca os deuses e remete a sentimentos antigos. Prossegue a poeta: “Do chão em torno de seu corpulento lenho brotava o fogo-fátuo (...) por onde saltava misterioso o boitatá enquanto alguns macacos lançavam olhos de fogo ao vento”.
As imagens, contínuas e tensas, se derramam sobre as páginas, nelas gravando o tom agudo (choroso) do poema. Estamos em um teatro: o versos vêm entrecortados por breves descrições de cena. Costuram uma narrativa secreta. A ação parece incontrolável: “Aceso o clarão das velas do céu/ um macaco salta a umbra noturna/ rondando a manhã lunar”. Nas sombras, velhas — como versos rangentes — se movem e se lamuriam. A palavra, milenar, encarna-se nesses personagens vagos, para quem a poesia é, antes de tudo, um canto. Música remota, impregnada nas palavras. Encanto.
Jussara faz dos poemas um leito para o relato. O zumbido nordestino a envolve. Descreve: “Cantarolando entre as rãs/ sou humana rodopio/ no alpendre da casa”. A magia esconde-se nas miudezas. A construção equivale à destruição Escreve Jussara: “Sangro a terra arrancando pedaços/ até que nada reste e vou-me raposa/ ao vento desatinada e casta noiva”. As lágrimas imitam sangue que escorre. Ao fundo, um coro de anjos acolhe a aflição do leitor. “Quem quer ver a barcarola/ Que vai se deitar ao mar/ Nossa Senhora vai nela/ Vão os anjos a remar”.
No entrecruzamento de falas (comentários secretos, como na berlinda), as posições se deslocam. Personagens fluidos, eles se esquivam, se disfarçam, não se deixam pegar. A História, com seu ameaçador “H” maiúsculo, percorre as entrelinhas: “Passou um minuto e depois cem anos/ quando a barca das velhas aportou/ Trouxeram o breviário e umas fotos lá do cafundó”. Ato: teatro. No laço dos poemas, cada gesto, por menor, ganh grandeza.
Em uma escrita antiga, Jussara remenda versículos, cantos, orações, retábulos. Até que o livro, retorcendose, fala de si mesmo. Está escrito: “Abre-se o livro/ sinuoso rio/ voz muda/ palavra bela”. Diz mais: “Rio livro sinuoso/ cósmico/ a água arrasta/ a maré carrega/ rio sinuoso/ livros sãocasas”. Jussara escreve aos talhos; é uma escultora que, com a lâmina das palavras, corta nossa ilusão. O jorro de palavras conduz a um “canto geométrico”, discretamente cabralino, que a poeta define como um “teatro de luz”. Jogo bruto _ as metáforas como cartas sangrentas, as palavras como grilhões. A escrita de Jussara é espessa, cada palavra arrasta consigo algo de material. Quase podemos ouvir o choro que sublinha a palavra.
Volto à berlinda, jogo em que palavras anônimas se oferecem como cartas de um baralho. A criança (a poeta) faz sua escolha no escuro e depoi precisa aceitar o que a sorte lhe destinou. O coro das carpideiras instala o teatro da morte, mas também purifica a casa dos malefícios da dor. Ele a incorpora, transformando-a em energia. Ato de salvação em que a vida, mesmo diante da morte, resiste. No momento em que rematam a mortalha, as velhas carpideiras ainda dizem: “Com espinho/ costuro amarro/ prendo teu coração com o meu”. O canto (a palavra) é este cordão forte com o qual, choramingando, as carpideiras se amarram à morte. Não para engoli-la (não para morrer), mas para lhe destinar um lugar. O teatro do poema chega, enfim, a seu termo: “dá corpo” a algo que já não tem corpo algum. Eis a poesia.
É um jogo, é só um jogo, que tem seu lado interesseiro, mas que, para além disso, acolhe e emoldura o rombo que, impotentes, enquadramos com a palavra “morte”. Como diz a poeta, depois “a beleza adormece”, envolta, enfim, no silêncio. “Calar o escasso é cantar um reinado”. Envolto na mudez, “o relógio das horas/ ecoa sem fim”, sinal de que a vida — arrancada da morte, como em um parto — prevalece.
A poesia não tem solução. Nada resolve. Como o canto das carpideiras, não passa de encenação. De um substituto, um consolo. Poetas podem ser mentirosos, fraudulentos, falsários, nada importa: é a palavra que, fingindo-se de veste, lhes dá o próprio corpo. De um poeta, o que se tem, enfim, é só isso: uma ferida. Diz Jussara: “este cortejo é uma rua/ uma saída/ onde a ânsia mergulha/ no espesso da vida”. O que mais ouvir, senão esse rumor?
Email: josegcastello@gmail.com.
Leia mais textos do colunista em www.oglobo.com.br/blogs/literatura
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Caetano Veloso - Tigre
Acho que não conheço Flora Thompson DeVeaux pessoalmente. Digo “acho” porque estava certo de nunca ter encontrado Benjamin Moser (embora o achasse familiar nas fotografias), mas afinal ele me disse que nos conhecemos em Nova York (já aderi ao Y e ao K na grafia do nome dessa cidade tão amada e aonde vou tão pouco: as letras voltaram oficialmente para o português, no amalucad acordo, e toda a razão do argumento que me foi apresentado por Sergio Flaksman ganhou do meus caprichos): Benjamin trabalhava na Knopf era assistente de George Andreou quando este me convenceu a escrever e publicar “Verdade tropical”. Admito que ele mudou bastante (não sei s emagreceu ou se simplesmente ficou mais bonito), mas o fato é que eu o vi e falei com ele muitas vezes naquele tempo, e me surpreendeu que eu não me lembrasse dele agora. Assim, pode ser que eu já tenha visto Flora em algum lugar. Mas o querer dizer isso? Que não gravo as feições de americanosque gostam de Clarice Lispector?
Bem, estou no Recife, me preparando para ir para o Chevrolet Hall (que nomes têm os locais de show hoje em dia!) cantar com Maria Gadú, sendo que saio do palco para um jatinho que me leva a Maceió, onde faço show amanhã (coisa rara em minha vida fazer shows em dias seguidos em cidades diferentes, mas o voo daqui até a capital das Alagoas dura menos de meia hora). De modo que não tenho tempo para tentar escrever objetiva e concisamente, o que deveria ser meu fito, uma vez que escrevo para comentar algo escrito por uma americana. Já ralham comigo amigos e desconhecidos pela falta de clareza e coesão dos meus textos — os menos chegados sempre exemplificando com a capacidade anglo-saxônica de escrever de maneira breve e expressiva. Imagina se me ponho a dialogar com uma jovem ianque que estuda em Princeton, encafifou-se com o jeito high school dos alunos da PUC e, sem embargo, apaixonou-se pelo Rio de Janeiro! Logo eu, que estudei na Universidade da Bahia, tendo ido às aulas no primeiro ano e abandonado a escola no segundo, o ano do golpe militar (que Mauro Lima retrata em “Reis e ratos”, com ênfase na participação da CIA no episódio).
Não. Nem dá.
Li alguns textos de Flora no blog da “Piauí” porque me mandaram aquele em que ela comenta “La piel que habito”, referindo-se en passant ao artigo que publiquei aqui sobre o filme. São textos bacanérrimos. Têm as virtudes louvadas na boa prosa americana em geral, mas com uma marca pessoal irresistivelmente vívida. Há uma apresentação em (ótimo) português, mas os posts mesmo são em inglês, porque ela acha que seu humor é “um pouco intraduzível”. São textos engraçados, elegantes e que esboçam um olhar antropológico sobre a vida brasileira. Ex-aluno de Padre Pinheiro, não me atrevo a querer enfrentar a ironia veloz de uma mente juveníssima e metropolitana. Mas, como já escrevi em algum lugar, o tema do Brasil visto por estrangeiros foi parte do núcleo do Tropicalismo e nunca me abandonou. Flora chia contra o que lhe pareceu clichê na imagem caricata de um carioca fantasiado de tigre, cuja biografia é dada em segundos nos termos de “cresceu numa favela” etc. Que ela tenha quase exortado os brasileiros a reagirem contra isso é intrigante. No post, ela faz um paralelo, que seria forçado se não fosse uma piada explícita, entre a ideia convencional que forasteiros fazem do Brasil habitado por bandidos de favela que se fantasiam no carnaval e a que nós fazemos das relações dos americanos com a ceia do Dia de Ação de Graças. Em suma, ela diz que aqui perguntam a ela se vai perder o tal peru do jantar, obrigatório nas sitcoms da TV, e parece que a favela do filme de Pedro é algo que quem não conhece o Brasil pergunta a quem, como ela, conhece bem mas não é daqui, se não teme. E conclui que os americanos ao menos são responsáveis pelas sitcoms, enquanto os brasileiros deixam a última palavra a Almodóvar e aos Simpsons (em referência a um notório episódio do desenho em que o Rio aparece mal).
Sou do tempo em que a plateia brasileira desprezava “Orfeu negro” (que é adorado por estrangeiros e até inspirou o romance de que nasceu Obama) como os austríacos rejeitam “A noviça rebelde”. Contei a Pedro sobre o texto de Flora, e ele logo se lembrou de “A condessa descalça” e “Vicky Cristina Barcelona”, para só falar de dois filmes americanos de grandes diretores em que a Espanha aparece em clichês inverossímeis. Creio que Flora não acharia as Espanhas de Mankiewicz e de Woody Allen mais aceitáveis do que o Rio de Pedro. Mas o que mais me interessa dizer a ela não é que Pedro se tenha posto acima desses exemplos (pois apesar de parecer preso a contradições relativas a seu tom paródico e autoparódico, Pedro não nos deixa brecha para pensar que ele se rendeu a um clichê). O que me interessa é frisar que os brasileiros não se grilarem com isso pode ser um bom sinal. Para um velho tropicalista, sim. Faz pouco tempo, os atores de “Velozes e furiosos” vieram ao Rio lançar o número X da série. Dizem que o Rio é tratado como lixo sociológico numa obra que é lixo artístico. Meu filho de 19 anos foi ver e achou o filme mau, mas apenas riu dos erros e dos desrespeitos à vida carioca. Houve tempo em que a tensão relativa à improvável respeitabilidade do Brasil aos olhos dos outros era opressiva. Hoje, sentimos que filmes como “Cidade de Deus” é que dão a última palavra. Internamente, são os filmes de Coutinho.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Feudos mantidos com o dinheiro público - GIL CASTELO BRANCO
Nas duas últimas décadas, foram levantadas suspeitas em relação às ONGs dos anões do orçamento, do filho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, da mulher do deputado Paulinho e do churrasqueiro do ex-presidente Lula, entre outras. Recentemente, foram para a vitrine ONGs do Turismo - por capacitar fantasmas - e do Esporte, várias comandadas por militantes do PCdoB. Agora, a bola da vez é o Trabalho, onde ONGs pagam pedágios.
Com os "malfeitos" escancarados, o governo federal editou dois decretos em menos de um mês, tentando, a conta-gotas, sanear o esgoto. O problema, porém, não está só nas ONGs, mas na politização das transferências voluntárias.
No Ministério da Integração Nacional, por exemplo, auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União constatou que, em 2008 e 2009, os municípios baianos ficaram com 65% dos R$175,3 milhões desembolsados pelo programa de prevenção e preparação para emergências e desastres. O ministro na ocasião era o candidato derrotado ao governo em 2010, Geddel Vieira Lima.
No Ministério da Justiça não foi diferente. Em 2009, as prefeituras do Rio Grande do Sul receberam metade dos R$11,9 milhões transferidos aos municípios no Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci). As cidades de Canoas, Cachoeirinha, Sapucaia do Sul e Novo Hamburgo obtiveram, juntas, R$5,9 milhões. À época, a Pasta era comandada pelo gaúcho Tarso Genro, eleito depois governador. No Ministério do Esporte, outra curiosidade. Em 2009, nos valores repassados aos municípios, Campinas, em São Paulo, foi a campeã. O secretário de Esportes e Lazer da cidade paulista era Gustavo Petta - cunhado do ministro do Esporte -, candidato a deputado federal pelo mesmo partido do ex-ministro Orlando Silva.
A distribuição de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), em 2009, também já era curiosa. Na ação de "orientação profissional e intermediação de mão de obra", a Secretaria de Trabalho, Emprego e Promoção Social do Paraná liderou os valores enviados pelo Ministério do Trabalho e Emprego aos estados. A ONG favorita nessa mesma ação foi a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, presidida por vereador de Curitiba, integrado à campanha do então candidato do PDT, Osmar Dias, ao governo estadual. Por acaso, à frente do Ministério do Trabalho, ao qual estão vinculados os recursos do FAT, estava e está Carlos Lupi, ex-presidente do PDT. Por enquanto?
Assim, moralizar os repasses às ONGs - sobretudo dos apadrinhados - é somente parte do problema. Pouco adianta trocar o titular da Pasta por outro do mesmo partido, caso permaneçam os interesses políticos e pessoais. Mantidos os "feudos", o rodízio de ministros irá continuar, pois atualmente é fácil localizar o destino de cada centavo dos programas governamentais, tornando evidente os absurdos.
Até o momento, porém, os órgãos de controle, o Ministério Público e o Judiciário, passaram ao largo dessa questão. E urge que o tema seja debatido, visto que os recursos - como é óbvio - têm que estar associados ao interesse público, o que não vem acontecendo.
É oportuna, portanto, a ação que o procuradorgeral da república move em relação às ONGs do Esporte. Não basta saber se o ex-ministro recebeu ou não dinheiro na garagem. É preciso avaliar se não há algum tipo de crime embutido na farta distribuição de recursos às ONGs de militantes. É necessário, inclusive, que se cobre do Congresso Nacional a aprovação de Orçamento tecnicamente mais detalhado, reduzindo o poder discricionário dos ministros na distribuição das transferências voluntárias.
Caso contrário, a "farra política" irá continuar, por meio dos convênios com as ONGs, estados e municípios. Trata-se de uma verdadeira geleia de jabuticaba, tão genuinamente brasileira quanto o recorde mundial de demissão de ministros.
GIL CASTELLO BRANCO é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas.
domingo, 6 de novembro de 2011
As novidades - LUIZ FERNANDO VERISSIMO
Isto foi até anteontem. Hoje a novidade é o movimento chamado Ocupar Wall Street, que se alastra pelos Estados Unidos e lembra as manifestações por direitos civis e contra a guerra no Vietnã de anos atrás. O movimento americano se parece com os protestos na Europa contra as medidas de austeridade para enfrentar a crise financeira porque a revolta dos dois lados é contra a mesma injustiça básica: quem está pagando pela crise são os que não têm culpa alguma, enquanto os culpados não só não estão pagando como estão ganhando como nunca. Mas é diferente na medida em que os americanos têm uma Bastilha clara para atacar, mesmo de longe: Wall Street, o coração do capitalismo financeiro e o símbolo mais evidente da injustiça, onde os lucros e as gratificações de executivos crescem em proporção inversa às perdas de renda e de emprego da maioria da população.
O OWS também não pode ser chamado de movimento anti-Tea Party porque ainda não se sabe se vai durar ou ser apenas um espasmo de indignação, enquanto o Tea Party está institucionalizado, já elegeu uma porção de reacionários para o Congresso e influencia todos os candidatos declarados dos republicanos às eleições presidenciais do ano que vem. E o OWS não pode defender o Baraca dos ataques da direita, que o chama de socialista disfarçado, porque também o considera um dissimulado, no caso conservador. Diz-se mesmo que OWS está nas ruas fazendo o que Obama deveria estar fazendo na Presidência, enfrentando os privilégios de Wall Street e cobrando do mercado financeiro desregulado sua culpa na crise, ou no mínimo um pouco de recato na sua festa.
Mesmo que não dure, o OWS é uma bem-vinda novidade num país em que a direita parecia ter monopolizado o discurso político e a mobilização da rua. A Bastilha não vai cair, claro. Mas é bom ouvir um som novo à sua volta.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Barthes amordaçado - José Castello
Só um tema amordaça um grande escritor como o francês Roland Barthes (1915-1980): a morte. Em particular, a morte da mãe, que é, também, a morte da origem. Em “Diário de luto” (Martins Fontes, tradução de Leyla Perrone- Moisés), conjunto de 330 notas que o filósofo começou a escrever em 26 de outubro de 1977, dia seguinte ao da morte de sua mãe, e encerrou em 15 de setembro de 1979, as palavras estão sempre a lhe escapar. Elas o desprezam. Elas lhe fogem.
Barthes balbucia. Escreve seu diário apesar da sensação crescente de que a escrita sôfrega não dá conta de seu tema. Trata-se de luta destinada ao fracasso. Mas é justamente da escrita do fracasso que se trata. É dessa derrota anterior que ele, o escritor, precisa partir. Que nome dar à morte? Palavra vazia, que fala de uma ausência, não permite sínteses, tampouco suporta pensamentos. Ao contrário, ela os massacra. Ela os amordaça.
A primeira anotação traz só duas frases e uma dúvida: “Primeira noite de núpcias. Mas primeira noite de luto?” As núpcias falam de um encontro, mas a morte é um desencontro. Noite, portanto, aniquilada, a partir da qual Barthes se impõe — como um menino agarrado à saia inexistente — a tarefa de escrever. Não para pegar, ou para “chegar a”; mas para consolar e, talvez mais ainda, aceitar a inexistência de um consolo. A isso, aliás, chamamos luto. Não algo que se pega, mas que se atravessa.
Afirma Barthes: “Todos calculam — eu o sinto — o grau de intensidade do luto. Mas é impossível (sinais irrisórios, contraditórios) medir quando alguém está atingido”. Certo: a morte aponta para o impossível, coloca- o em cena. Mas uma pergunta ainda pode ser feita: o que é possível fazer do impossível? Que papel atuar? Em qual script confiar? Que máscaras vestir?
A mãe morta: ainda ousamos falar dela. Mas será dela mesma que falamos? Reflete Barthes: “Na frase ‘Ela não sofre mais’, a que, a quem remete o ela?” A escrita esbarra em seu limite quando, na morte, tem como objeto o que já não existe. Não há objeto algum. Só palavras, e mais palavras, que Barthes espreme em fichas metódicas. Isso é um livro? Responde Barthes: “Tomando estas notas, confiome à banalidade que há em mim”.
Sim, porque a morte conduz ao banal. Mortos, nos tornamos todos iguais: não passamos de restos. Dizem, solenemente: “restos mortais”. O que fomos — as diferenças, as “personalidades”, os estilos, os vícios, as manias — nada mais está ali. Não é da mãe que se trata, mas de um resto da mãe, atrás do qual Roland Barthes, outra vez como um menino em desespero, insiste em procurá-la.
A morte coloca a literatura sob suspeita. Aponta sua fragilidade, sua incapacidade. Diante da morte, a literatura é impotente. “Não quero falar disso por medo de fazer literatura”, ele admite. Mas acrescenta: “embora, de fato, a literatura se origine dessas verdades”. De fato, a literatura surge de uma falta, caso contrário ninguém teria paciência de escrever. Ficções, poemas, para que servem? Diz Barthes: “O espantoso destas notas é o sujeito devastado submetido à presença de espírito”. Não o espírito religioso que sobrevive à carne, mas o espírito humano — sensibilidade, inteligência, altivez — que só existe nos vivos.
Da mãe, restam as últimas palavras. “Meu R, meu R”, ela murmura. “Estou aqui”. E ainda, a um passo de abandonar a vida, mas sem largar o papel de mãe: “Você está mal, está mal sentado”. As palavras como últimos sinais (fronteira) de uma presença. Sem as palavras, a dolorosa verdade: nada há. Ao lembrar do corpo que sustentou estas palavras de despedida, ele anota: “Cada vez menos coisas a escrever, a dizer, exceto isto (mas não posso dizê-lo a ninguém)”. Não pode e, no entanto, diz. Admite Barthes a falência de uma língua separada de seu corpo. O silêncio, a repugnância.
Há, porém, uma vantagem no luto: a perda terrível já aconteceu. Assinala Barthes — “luto: região atroz onde não tenho mais medo”. A morte anula todos os medos, porque os ultrapassa. O luto nunca é o que se pensa que seja. Diz: “Assusta-me absolutamente o caráter descontínuo do luto”. Também o teatro da morte (o preto, o choro, o desespero) fracassa. Tudo, na morte, é fracasso. O pior: na vida, quase tudo também. Que se observem as palavras com seu gaguejar. Barthes luta (luto) para escapar de qualquer tipo de teatro — para ter “a morte em si”. Repreende- se: “Não dizer Luto. É psicanalítico demais. Não estou de luto. Estou triste”.
Luto: “mal-estar, situação sem chantagem possível”. Trata-se do irremediável. Não existe anestésico. Nada. Os bons sentimentos tornamse inúteis. “Todos são ‘muito gentis’ — e, no entanto, sinto-me só”. As próprias palavras se tornam traiçoeiras. Por exemplo, a palavra desespero, quase sempre associada à morte. Escreve: “Desespero: a palavra é demasiadamente teatral, faz parte da linguagem. Uma pedra”. Isso porque as palavras, ditas em referência ao inexistente, nada sustentam, limitam-se a pesar.
A morte embaralha o Tempo. Mais ainda: ela o destrói. Onde está o presente? “Sofro com o medo do que aconteceu”, Barthes anota. Dá-se conta, então, que repete um pensamento de Donald Winnicott: “medo de um desmoronamento que já aconteceu”. Mas se o que está para vir “já aconteceu”, onde está o futuro? Eis o que a morte faz: impede a visão do futuro. Veda-o. Lembra Barthes que Marcel Proust falava de “chagrin” (“desgosto”) e não de “deuil” (“luto”). A morte ensina: é preciso ter cuidado com as palavras.
Tenta pensar, enfim, no desgosto que atravessa e nas coisas do mundo que se afastam. Encontra algo: “O que me parece mais afastado de meu desgosto, de mais antipático a ele: a leitura do jornal ‘Le Monde’ e suas maneiras ácidas e informadas”. A morte não é ácida — ela não é. Não carrega qualquer informação, ao contrário, é a ausência absoluta de informação. O que se sabe de um morto? Nada. Mesmo os necrológicos dos jornais, o que fazem, senão embalsamar os que partiram? Sugere Barthes: talvez a morte não passe de uma “espécie de epopeia sem atitude heroica”. Eis o buraco (cova): devemos prestar atenção no “sem”.
Email: josegcastello@gmail.com. Leia mais textos do
colunista em www.oglobo.com.br/blogs/literatura
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
‘A Google é um negócio, não uma igreja’
KEN AULETTA: “O botão Curtir do Facebook é uma ameaça mortal à Google”
SÃO PAULO - Crítico de mídia da revista "New Yorker" há mais de 30 anos, o jornalista Ken Auletta esmiuçou durante dois anos a história da Google, "um dos negócios mais rentáveis, poderosos e estranhos do mundo". O resultado é o livro "Googled" (Agir, 508 páginas, por R$ 64,90), traduzido no Brasil por Débora Chaves, com posfácio de Pedro Doria. Investigando as origens da Google, Auletta leva o leitor a um passeio pela revolução (ainda em curso) digital. A história da maior empresa virtual do planeta serve também para compreender como seu sucesso e crescimento influenciam as chamadas "empresas do mundo real". Em entrevista ao GLOBO por e-mail, Auletta diz que a cultura de engenheiros - fonte da ousadia das empresas "pontocom" - é também o seu maior defeito. Segundo o especialista, ao mesmo tempo em que esses jovens criam ferramentas capazes de reinventar a maneira como fazemos coisas básicas, eles têm dificuldade em construir relacionamentos de confiança, e em antecipar o que querem os anunciantes ou lidar com o desejo de privacidade de pessoas e governos. Auletta recomenda às empresas de mídia tradicionais que, em vez de cruzar os braços e culpar a revolução digital por seus prejuízos, aprendam a fazer parcerias com empresas de tecnologia como Google, Amazon e Apple, e a ganhar dinheiro com isso. E cita um clássico da sabedoria popular: "Se não pode vencê-los, junte-se a eles".
O GLOBO: O que faz a Google ser tão revolucionária?
KEN AULETTA: Antigamente você ia a uma biblioteca ou fazia uma chamada de telefone para obter informações. Hoje, a informação está a seu alcance em meio segundo com uma pesquisa no Google. Quer assistir a um vídeo perdido há muito tempo, o YouTube da Google está a seu alcance. Telefones inteligentes, que estão substituindo os PCs? O Google Android tem a maior fatia de mercado. Está perdido e precisa de direções? O Google Maps está lá. E-mail? O Google Gmail está disponível. E o que é verdadeiramente revolucionário é que tudo é gratuito. A Google faz dinheiro da mesma forma que a TV ou o rádio tradicional: com venda de publicidade.
O que as empresas de mídia tradicionais podem aprender com a Google?
AULETTA: Contratem grandes engenheiros e os deixem fazer perguntas desconfortáveis, tais como: "Por que estamos fazendo as coisas dessa maneira? Por que não podemos ser mais eficientes?" No mundo digital, o engenheiro pode ser um criador de conteúdo. Engenheiros criaram Google, Apple e Facebook. Enquanto passamos duas horas pesquisando no Google, explorando o iPad, ou no Facebook, não estamos lendo um livro ou vendo TV.
Como a Google transforma as empresas do mundo real?
AULETTA: A Google tem perturbado muitas indústrias tradicionais. Cobrando anunciantes só quando usuários clicam na propaganda, ou sendo capaz de precisar a audiência alvo de cada campanha publicitária, a Google transformou a publicidade. Permitindo que os internautas localizem notícias que os interessam, a Google ajuda a enfraquecer os jornais. E a busca Google afugentou as pessoas das bibliotecas. São apenas alguns exemplos de indústrias impactadas por essa gigante e pela revolução digital.
Como a Google transforma as empresas do mundo real?
AULETTA: A Google tem perturbado muitas indústrias tradicionais. Cobrando anunciantes só quando usuários clicam na propaganda, ou sendo capaz de precisar a audiência alvo de cada campanha publicitária, a Google transformou a publicidade. Permitindo que os internautas localizem notícias que os interessam, a Google ajuda a enfraquecer os jornais. E a busca Google afugentou as pessoas das bibliotecas. São apenas alguns exemplos de indústrias impactadas por essa gigante e pela revolução
digital
Como empresas tradicionais de mídia e companhias do mundo real podem competir com a Google? Que mudanças devem fazer para enfrentar a revolução digital?
AULETTA: Sentar, cruzar os braços e culpar o Google por seus problemas é uma atitude condenável. As empresas devem ser humildes e perceber que existem formas de parceria com as companhias digitais. Empresas de mídia produzem conteúdo — músicas, notícias, programas de TV, filmes, livros — e a Google oferece plataformas para torná-los disponíveis. A Google já aprendeu que suas plataformas, como o YouTube, precisam de mais conteúdo do que filmes caseiros fornecidos pelos usuários. É assim que a mídia tradicional e o mundo digital estão se aproximando.
Quais as virtudes e os defeitos da Google?
AULETTA: A força de uma empresa como a Google é sua cultura de engenharia; sua fraqueza é sua cultura de engenharia. Engenheiros são hábeis em coisas que podem medir, como algoritmos de busca.
São menos hábeis com o que não podem medir — por exemplo, encontrar formas de construir relações de confiança com outras companhias, antecipar o que anunciantes desejam como forma de construir relações de confiança comoutras empresas, entender por que pessoas e governos se preocupam com sua privacidade ou monopólios, ou compreender as razões das autoridades chinesas ou iranianas para impedir que cidadãos de seus países tenham acesso a todas as informações do mundo.
O que podemos esperar do futuro da Google? Quais desafios ela vai enfrentar?
AULETTA: A Google tem se saído bastante bem na competição com empresas como a Microsoft. Tem se saído pior em lidar com governos ao redor do mundo. Além dos desafios governamentais, redes sociais como o Facebook são outra pedra no caminho. O botão “curtir” do Facebook é uma ameaça mortal à Google, porque receber indicações de seus amigos sobre o que comprar, a qual filme assistir, é mil vezes mais eficiente do que uma avalanche de centenas de links, resultado de uma busca no Google.
A Google realmente está mudando o mundo para melhor, como diziam desejar seus criadores?
AULETTA: Tanto para melhor, quanto para pior. Melhor porque todo tipo de informação está disponível, e de graça. Posso ler nas minhas telas digitais um jornal brasileiro ou o livro de um autor brasileiro traduzido. Mas se essas pesquisas significam que não pagarei pelo jornal ou pelo livro, ou que vou me contentar com uma leitura rápida em vez de me aprofundar, estarei prejudicando o jornal, o escritor e a mim mesmo.
Você lembra no livro que o slogan informal da Google é “não faça o mal”. Ele é seguido ao pé da letra?
AULETTA: Não, é só um slogan. A Google é um negócio, não uma igreja. Às vezes eles fazem coisas nobres, como resistir à censura na China. Mas duvido que um jornal que sofre prejuízos por causa da busca Google vá dizer que tudo que eles fazem é nobre.
Por que estamos há mais de dez anos tentando descobrir como ganhar dinheiro com a internet?
AULETTA: Estamos fazendo progresso lentamente. No iTunes, da Apple, cidadãos pagam não apenas
por música, mas por livros, programas de TV, filmes, jornais e revistas. Pagamos também por vários aplicativos para nossos celulares, incluindo jogos e toques. O YouTube começou a cobrar pela exibição de filmes. A mídia tradicional tem conseguido aumentar suas receitas com parcerias com empresas digitais como Google, Apple e Amazon. A questão é se estas receitas são capazes de compensar as perdas com os lucros perdidos com conteúdo impresso e analógico.
Como a Google transforma nosso comportamento, nossa forma de pensar e apreender o mundo? Você acredita que a humanidade está evoluindo graças à revolução digital? Ou estamos piorando?
AULETTA: É mais saudável olharmos para a revolução digital como uma oportunidade ou um desafio, não como algo que devemos temer. A informação e a capacidade de compartilhá-la alimentaram a Primavera Árabe. As pessoas têm muito mais chances de se educar e se entreter. Mas, se preferirmos usar essa facilidade como um atalho — fazendo uma busca no Google para um trabalho escolar, em vez de mergulhar nos livros — estamos prejudicando a nós mesmos. ■
‘A Google é um negócio, não uma igreja’
KEN AULETTA: “O botão Curtir do Facebook é uma ameaça mortal à Google”
SÃO PAULO - Crítico de mídia da revista "New Yorker" há mais de 30 anos, o jornalista Ken Auletta esmiuçou durante dois anos a história da Google, "um dos negócios mais rentáveis, poderosos e estranhos do mundo". O resultado é o livro "Googled" (Agir, 508 páginas, por R$ 64,90), traduzido no Brasil por Débora Chaves, com posfácio de Pedro Doria. Investigando as origens da Google, Auletta leva o leitor a um passeio pela revolução (ainda em curso) digital. A história da maior empresa virtual do planeta serve também para compreender como seu sucesso e crescimento influenciam as chamadas "empresas do mundo real". Em entrevista ao GLOBO por e-mail, Auletta diz que a cultura de engenheiros - fonte da ousadia das empresas "pontocom" - é também o seu maior defeito. Segundo o especialista, ao mesmo tempo em que esses jovens criam ferramentas capazes de reinventar a maneira como fazemos coisas básicas, eles têm dificuldade em construir relacionamentos de confiança, e em antecipar o que querem os anunciantes ou lidar com o desejo de privacidade de pessoas e governos. Auletta recomenda às empresas de mídia tradicionais que, em vez de cruzar os braços e culpar a revolução digital por seus prejuízos, aprendam a fazer parcerias com empresas de tecnologia como Google, Amazon e Apple, e a ganhar dinheiro com isso. E cita um clássico da sabedoria popular: "Se não pode vencê-los, junte-se a eles".
O GLOBO: O que faz a Google ser tão revolucionária?
KEN AULETTA: Antigamente você ia a uma biblioteca ou fazia uma chamada de telefone para obter informações. Hoje, a informação está a seu alcance em meio segundo com uma pesquisa no Google. Quer assistir a um vídeo perdido há muito tempo, o YouTube da Google está a seu alcance. Telefones inteligentes, que estão substituindo os PCs? O Google Android tem a maior fatia de mercado. Está perdido e precisa de direções? O Google Maps está lá. E-mail? O Google Gmail está disponível. E o que é verdadeiramente revolucionário é que tudo é gratuito. A Google faz dinheiro da mesma forma que a TV ou o rádio tradicional: com venda de publicidade.
O que as empresas de mídia tradicionais podem aprender com a Google?
AULETTA: Contratem grandes engenheiros e os deixem fazer perguntas desconfortáveis, tais como: "Por que estamos fazendo as coisas dessa maneira? Por que não podemos ser mais eficientes?" No mundo digital, o engenheiro pode ser um criador de conteúdo. Engenheiros criaram Google, Apple e Facebook. Enquanto passamos duas horas pesquisando no Google, explorando o iPad, ou no Facebook, não estamos lendo um livro ou vendo TV.
Como a Google transforma as empresas do mundo real?
AULETTA: A Google tem perturbado muitas indústrias tradicionais. Cobrando anunciantes só quando usuários clicam na propaganda, ou sendo capaz de precisar a audiência alvo de cada campanha publicitária, a Google transformou a publicidade. Permitindo que os internautas localizem notícias que os interessam, a Google ajuda a enfraquecer os jornais. E a busca Google afugentou as pessoas das bibliotecas. São apenas alguns exemplos de indústrias impactadas por essa gigante e pela revolução digital.
Como a Google transforma as empresas do mundo real?
AULETTA: A Google tem perturbado muitas indústrias tradicionais. Cobrando anunciantes só quando usuários clicam na propaganda, ou sendo capaz de precisar a audiência alvo de cada campanha publicitária, a Google transformou a publicidade. Permitindo que os internautas localizem notícias que os interessam, a Google ajuda a enfraquecer os jornais. E a busca Google afugentou as pessoas das bibliotecas. São apenas alguns exemplos de indústrias impactadas por essa gigante e pela revolução
digital
Como empresas tradicionais de mídia e companhias do mundo real podem competir com a Google? Que mudanças devem fazer para enfrentar a revolução digital?
AULETTA: Sentar, cruzar os braços e culpar o Google por seus problemas é uma atitude condenável. As empresas devem ser humildes e perceber que existem formas de parceria com as companhias digitais. Empresas de mídia produzem conteúdo — músicas, notícias, programas de TV, filmes, livros — e a Google oferece plataformas para torná-los disponíveis. A Google já aprendeu que suas plataformas, como o YouTube, precisam de mais conteúdo do que filmes caseiros fornecidos pelos usuários. É assim que a mídia tradicional e o mundo digital estão se aproximando.
Quais as virtudes e os defeitos da Google?
AULETTA: A força de uma empresa como a Google é sua cultura de engenharia; sua fraqueza é sua cultura de engenharia. Engenheiros são hábeis em coisas que podem medir, como algoritmos de busca.
São menos hábeis com o que não podem medir — por exemplo, encontrar formas de construir relações de confiança com outras companhias, antecipar o que anunciantes desejam como forma de construir relações de confiança comoutras empresas, entender por que pessoas e governos se preocupam com sua privacidade ou monopólios, ou compreender as razões das autoridades chinesas ou iranianas para impedir que cidadãos de seus países tenham acesso a todas as informações do mundo.
O que podemos esperar do futuro da Google? Quais desafios ela vai enfrentar?
AULETTA: A Google tem se saído bastante bem na competição com empresas como a Microsoft. Tem se saído pior em lidar com governos ao redor do mundo. Além dos desafios governamentais, redes sociais como o Facebook são outra pedra no caminho. O botão “curtir” do Facebook é uma ameaça mortal à Google, porque receber indicações de seus amigos sobre o que comprar, a qual filme assistir, é mil vezes mais eficiente do que uma avalanche de centenas de links, resultado de uma busca no Google.
A Google realmente está mudando o mundo para melhor, como diziam desejar seus criadores?
AULETTA: Tanto para melhor, quanto para pior. Melhor porque todo tipo de informação está disponível, e de graça. Posso ler nas minhas telas digitais um jornal brasileiro ou o livro de um autor brasileiro traduzido. Mas se essas pesquisas significam que não pagarei pelo jornal ou pelo livro, ou que vou me contentar com uma leitura rápida em vez de me aprofundar, estarei prejudicando o jornal, o escritor e a mim mesmo.
Você lembra no livro que o slogan informal da Google é “não faça o mal”. Ele é seguido ao pé da letra?
AULETTA: Não, é só um slogan. A Google é um negócio, não uma igreja. Às vezes eles fazem coisas nobres, como resistir à censura na China. Mas duvido que um jornal que sofre prejuízos por causa da busca Google vá dizer que tudo que eles fazem é nobre.
Por que estamos há mais de dez anos tentando descobrir como ganhar dinheiro com a internet?
AULETTA: Estamos fazendo progresso lentamente. No iTunes, da Apple, cidadãos pagam não apenas
por música, mas por livros, programas de TV, filmes, jornais e revistas. Pagamos também por vários aplicativos para nossos celulares, incluindo jogos e toques. O YouTube começou a cobrar pela exibição de filmes. A mídia tradicional tem conseguido aumentar suas receitas com parcerias com empresas digitais como Google, Apple e Amazon. A questão é se estas receitas são capazes de compensar as perdas com os lucros perdidos com conteúdo impresso e analógico.
Como a Google transforma nosso comportamento, nossa forma de pensar e apreender o mundo? Você acredita que a humanidade está evoluindo graças à revolução digital? Ou estamos piorando?
AULETTA: É mais saudável olharmos para a revolução digital como uma oportunidade ou um desafio, não como algo que devemos temer. A informação e a capacidade de compartilhá-la alimentaram a Primavera Árabe. As pessoas têm muito mais chances de se educar e se entreter. Mas, se preferirmos usar essa facilidade como um atalho — fazendo uma busca no Google para um trabalho escolar, em vez de mergulhar nos livros — estamos prejudicando a nós mesmos. ■
sábado, 27 de agosto de 2011
Melancolias - JOSÉ MIGUEL WISNIK
Ainda não pude ver “Melancholia”. As colunas de Francisco Bosco e de Caetano me mobilizaram para o filme, e para o assunto da melancolia e do fim do mundo. Já contei aqui, recentemente, que essas questões me perseguiram intimamente por muito tempo, com o sentimento de uma catástrofe final, definitiva, inevitável. Contei também que esse sentimento passou por uma mutação em mim, e perdeu a dominância que tinha nas minhas fantasias e nos meus medos. Talvez porque eu tenha passado por perdas reais. A verdade é que saí da posição melancólica encruada. Entrevejo, pelos comentários deles, que as duas irmãs, personagens do filme de Lars von Trier, de algum modo dramatizam isso. Diante da iminente colisão do planeta Melancholia com a Terra, a melancólica parece encarar o real (se eu não estiver enganado), enquanto a realista e adaptada não tem como suportá-lo.
Sem ter visto o filme, eu o vejo através dos meus colegas de coluna, além de vêlos e de me ver neles. O texto de Francisco Bosco é bonito e forte, e acusa o impacto do filme sobre si como o da Melancolia destruidora
sobre a Terra. Embora já tenha se revelado, aqui mesmo, como habitualmente insone, ele conta ter sofrido, na noite que se seguiu, da insônia redobrada desse impacto, o do filme, que lhe pareceu tão poderoso quanto filosoficamente inaceitável.
Não sofro de insônia, em geral, mas imagino bem essa insônia específica. Acho que eu e Francisco Bosco, antes de críticos, somos crédulos, isto é, damos crédito às fabulações artísticas que nos atingem. Há outros que, antes de críticos, preferem ser mais propriamente crápulas, dispostos a extirpar pela raiz qualquer espécie de inocência. Eu e Bosco não tememos a inocência — tememos talvez pela inocência. É por isso que ele acusa no filme a traição da vocação nietzscheana da arte, a de afirmar a vida contra a falta de fundamento e sentido.
Caetano é mais escolado do que nós dois, que somos mais escolares, ou mais scholars, do que ele. Identifica com naturalidade os truques americanoides que correm por baixo do supereuropeu “Melancholia”, ao mesmo tempo em que identifica os vezos europeizantes do norteamericano “A árvore da vida”, que lhe parece ser o mesmo filme pelo avesso. Conhecendo bem, por experiência própria, os atalhos do campo que medeia entre a arte (historicamente europeia) e o entretenimento (invenção americana), embarca autoconsciente no que há de entretenimento em “Melancholia”, sem se abalar, ao que parece, com os efeitos apocalípticos do filme, movidos a subwoofers tipicamente hollywoodianos (aqueles sons mais que graves, que vêm de baixo, vibrando nos ossos, e que servem no cinema para dar a ideia da presença de forças colossais).
Fazendo assim, isto é, apontando truques hollywoodianos no famigerado cineasta transgressor escandinavo e relativizando a sua ambição totalizante, livra-se de sofrer os efeitos do filme em bloco, podendo apreciar as situações da trama que lhe interessam — a atriz sexy, o problema do casamento, os podres devassados da burguesia, a trepada, o vestido da noiva, a limousine na estrada de terra, a criança e o anúncio da tragédia — mais em escala interpessoal do que em escala global e alegórica. Não deixa de ser uma estratégia, praticamente declarada ao final do artigo, para neutralizar a melancolia espasmódica dada em espetáculo, com suas cólicas catastrofistas.
Eu me interesso por essa visão multifocal das coisas, que Caetano pratica hoje em dia sem maiores cerimônias e sem pruridos didáticos. Ela é um dissolvente, funcione assim ou não, dos estereótipos monofocais que pulam e pululam por toda parte. Nos seus comentários ele exibe o modo como ao mesmo tempo gosta e não gosta do filme de Lars von Trier, colocando-se, no entanto, não em cima do muro, mas acima de certos muros mentais.
No final das contas, nos convida de novo a ver os vídeos de Mangabeira Unger (eu também
ainda não vi ) . Mangabeira representa, para Caetano, a posição assertiva de quem contrapõe à paralisia crítica e aos lampejos revolucionários de certa esquerda, por um lado, e às ameaças apocalípticas, confusamente objetivas e subjetivas, que nos assombram, por outro, um rol de propostas práticas, não por acaso pouco audíveis em meio ao turbilhão entrópico. Acho que Caetano migrou desde algum tempo, a seu modo, para uma ênfase na afirmação política, mesmo que heterodoxa, mais do que na sublimação estética. Isso marca a sua diferença em relação à tônica do artigo de Francisco Bosco, ao mesmo tempo em que se liga com a tendência à poética mais crua e direta de suas últimas canções.
Voltando à melancolia. Só os muito insensíveis são capazes de viver este tempo sem sofrer os efeitos mutantes da mais antiga das doenças da alma. Esses efeitos são desde muito tempo conhecidos como ambivalentes, como Francisco Bosco mostrou. Enraízam-se na impossibilidade estrutural do desejo,
de atingir plenamente os seus objetos, e realimentamse das ansiedades e ameaças contemporâneas, multiplicadas em todas as escalas. São despistados pela oferta universal das mercadorias. Mas a melancolia mesma só tem uma saída: mergulhar fundo nela, até conhecer a forma mais total do desapego, a de quem abre mão de tudo. Aí então, sem se deixar levar por ela, voltar a ter pela vida um apego de verdade, desses de que não se abre mão.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Justiça, corrupção e impunidade - Marco Antonio Villa
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Causas da letargia diante da corrupção (Editorial)
O Globo
Em artigo publicado no GLOBO, o correspondente do jornal espanhol “El País”, Juan Arias, expôs sua perplexidade diante da letargia cívica que acomete a sociedade brasileira enquanto se multiplicam casos de corrupção.
O afastamento de dois ministros, Antonio Palocci e Alfredo Nascimento, em poucos meses de governo Dilma, seria motivo para alguma manifestação. Até porque, antes de serem fatos isolados, constam de um longo ciclo de malfeitos na esfera pública.
É ainda mais estranha a passividade quando se considera — como levou em conta Arias — que este mesmo país já ocupou ruas e praças em defesa da volta das eleições diretas e pelo impeachment, por corrupção, do presidente Fernando Collor.
Nos últimos tempos, apenas atraem multidões, observou o jornalista, a defesa da liberalização da maconha, a luta contra a homofobia e igrejas evangélicas. “Por que não reagem os brasileiros?” — é o título do artigo de Arias.
O fenômeno da inapetência política diante de assaltos aos cofres abastecidos com pesados impostos pelo contribuinte tem múltiplas raízes. A mais profunda deriva da bem-sucedida execução de um projeto de cooptação — com dinheiro público, claro — dos sindicatos, organizações da sociedade civil, como a União Nacional dos Estudantes (UNE), e movimentos ditos sociais. Todos convertidos em correias de transmissão do lulopetismo.
Repartida a máquina pública dentro da filosofia do toma lá dá cá do fisiologismo, couberam ao MST e satélites, por exemplo, o Ministério do Desenvolvimento e o Incra; e aos sindicatos, o Ministério do Trabalho, e por óbvio, respectivas verbas.
Assim, soube o lulopetismo desativar os motores de ignição clássicos de manifestações políticas. Até o 1º de Maio, data de reivindicações sindicais, foi convertido num dia de quermesses.
Afinal, as agremiações sindicais estão no poder. Na reedição sem retoques de uma política getulista, o governo Lula oficializou a existência das centrais, dando-lhes a chave do cofre do imposto sindical, um dinheiro de acesso fácil, recolhido compulsoriamente dos assalariados, e sem a necessidade de comprovação de gastos.
Tudo ao contrário do que defendia o “novo sindicalismo” nascido sob a liderança de Lula no final da década de 70.
Também não pode ser desprezado o efeito hipnótico do crescimento econômico com inflação sob relativo controle, embora alta.
Acrescente-se o crédito farto — caro, mas com prestações a perder de vista — e estará pronto o cenário de tranquilidade para os inquilinos do poder.
Não é inédito. Guardadas as devidas diferenças históricas, também no auge do “milagre brasileiro” a classe média não se opôs à ditadura militar, enquanto conseguia comprar no crédito direto o primeiro carro do filho recém-aprovado no vestibular.
Outro aspecto a ser considerado é que, com Lula, a partir de 2003, passou a ser aplicado um projeto de poder, não de governo. Em nome dele, tudo é válido — mensalões, aloprados, getulização do Estado, doação do Ministério dos Transportes ao PR e a Valdemar Costa Neto. O silêncio literalmente vale ouro.
domingo, 17 de julho de 2011
Caetano Veloso - Esboço de resposta
Juan Arias, do “El País”, pergunta por que os brasileiros não demonstram indignação pública contra a corrupção, já que o governo Dilma, em seis meses, teve que expulsar dois ministros fortes por evidência de práticas ilícitas. Pensando nos protestos espanhóis contra o sombrio clima político resultante do caos financeiro pós-2008, ele estranha a atual apatia no país das Diretas Já e dos caras- pintadas. Ao ler seu artigo, me lembrei de ter visto e-mails-filipetas convocando encontros semelhantes aos da Puerta del Sol em frente ao Copacabana Palace. Um pequeno grupo de pessoas tentava incitar pelo menos a garotada e os velhinhos descolados da Zona Sul a se manifestarem.
As notícias são de fato estarrecedoras. Palocci ter caído pela segunda vez em poucos anos e, semanas depois, a cúpula do Ministério dos Transportes ser defenestrada significa que o governo, mais uma vez, se vê obrigado a admitir que não pode sequer tentar negar as acusações gritadas pela imprensa. Ricardo Noblat dissecou o histórico sujo de Pagot — e este passou pelo Congresso com muito lubrificante. Não há quem não saiba que se mantém a tradição de mensaleiros e aloprados. Sendo que Palocci e Nascimento são herança direta do governo Lula.
Eu começaria a responder a Arias dizendo que as manifestações verdadeiramente populares do Brasil moderno têm em seu DNA a explosão indignada que o suicídio de Getúlio deflagrou: ela era contra o moralismo udenista e a imprensa que o apoiava. Este DNA estava nas Diretas Já, nos caras-pintadas e na passeata dos cem mil de 1968. Não somos a Argentina. E Vargas, o nosso Perón, não é sequer um nome que comova o coração de pessoas com menos de 60 anos. Mas o fim da era Vargas, que FH preconizara,
não se realizou. Está, na melhor das hipóteses , em andamento. Lento. A estrutura mental deixada por Vargas é ainda dominante. Seus conteúdo são na maioria inconscientes, mas têm consequências. Então não pode ser fácil arregimentar gente para protestar contra a frouxidão com que se tratam os crimes de corrupção no país.
Arias chama a atenção para o fato de que milhões vão a marchas pelos veados, pelo evangelismo e pela maconha. Sim. Mas isso reflete, por um lado, a tendência contemporânea para a compartimentalização de temas ideológicos, e, por outro, a ausência de estímulo para pôr em xeque um governo cujo histórico tem mais a ver com as manifestações pró-Vargas do que com as críticas ao “mar de lama”. Como iniciar um apelo pela internet para uma passeata contra a impunidade de altas autoridades que são exoneradas e logo santificadas pelos mandatários se a web está cheia de blogueiros lutando contra a “imprensa golpista”? Esses movimentos crescem em ambientes estudantis, em rodas de jovens artistas, em papo de trabalhadores sindicalizados, em naves de igrejas. Como imaginar algo assim acontecendo se a UNE é financiada por estatais e os sindicatos estão nos palácios? Em suma: se os formadores de rebelião são hoje todos chapa-branca, como organizar o movimento?
Claro que essas manifestações espanholas, inspiradas imediatamente no cheiro de jasmim que vem do Oriente, têm caráter sessentista. Como o maio francês e a contracultura americana, elas são mais geracionais do que de classe.
Odeio esse papo de imprensa golpista. Mas é fato que a imprensa brasileira tem o Estado oligárquico em seu DNA. E eu amo mais Vargas como figura histórica do que seus detratores. Começou copiando Mussolini, terminou assustando as oligarquias. Grosso modo, o conluio de Vargas com Samuel Wainer é algo mais progressista do que os jornais pró-Lacerda que viraram, anos depois, marchas da família com Deus pela liberdade. Nestas, viu-se que a mistura de plutocracia com moralismo católico vulgar é marca genética de nossas movimentações políticas mais antiga e mais resistente do que a que se revelou com a morte de Getúlio. Os blogueiros lulistas enfrentam internautas malucos herdeiros das marchadeiras. Será que todas as tramoias de Lula com os parceiros mais variados são mesmo mais progressistas do que toda e qualquer crítica que se lhe faça? Não creio. Não creio nem que as tramoias de Vargas, por mais estruturadoras do novo Brasil que tenham sido, devessem ser imunes a críticas — nem à época, nem agora. E a superação do estágio em que Vargas nos deixou requer coragem para que sejamos mais exigentes do que pudemos ser até aqui. Zuenir tocou na ferida, quando decidiu ousar não temer o udenismo. Será ele apenas a voz mais refinada da imprensa golpista?
Jânio de Freitas insiste em que o silêncio sobre empresas, mesmo quando se malham políticos, é sintoma de uma sociedade que resiste a mudanças mais fundas. O que é inegável. Mas nem o carnaval contra os corruptos parece possível orientarse. As mesmas pessoas que estavam na primeira fila da passeata dos cem mil ou no comício das diretas ainda estão na festa da posse de Lula. E o povo iletrado só tem a agradecer.
Votei em Marina para dizer que o número dos avisados é maior do que se pensa. A contagem dos votos confirmou. Novos critérios. A oposição não pode ser refém de reacionários fanáticos. Se um entrudo antiempresas corruptoras, mesmo com bonecos de Palocci, Dirceu e Nascimento, surgisse de surpresa,
seria um sinal de saúde: o esboço de um pós-getulismo progressista, civilizador e moderno, levando o Brasil a dizer ao mundo o que este precisa ouvir.
sábado, 16 de julho de 2011
Obsessão - Merval Pereira, O Globo
O movimento de contenção da liberdade de imprensa está presente em diversos países, como Venezuela, Argentina, Bolívia e Equador, onde TVs, rádios e jornais vão sendo fechados sob os mais variados pretextos, e muitos outros são ameaçados com diversas formas de pressão, seja financeira, seja por meio de medidas judiciais.
No início do governo, tivemos que lutar contra a criação de várias agências oficiais. A Agência Nacional de Cinema e Audiovisual daria poderes para o governo interferir na programação da televisão e direcionar o financiamento de filmes e de toda a produção cultural para temas que estivessem em sintonia com as metas sociais do governo.
O Conselho Nacional de Jornalismo teria a finalidade de controlar o exercício da profissão e poderes para punir, até mesmo com a cassação do registro profissional, os jornalistas que infringissem normas de conduta que seriam definidas pelo próprio conselho.
Os mesmos grupos políticos continuam empenhados em aprovar novos tipos de cerceamento à liberdade de imprensa no país, sob o pretexto de exercer um "controle social" sobre os meios de comunicação, sendo que o Partido dos Trabalhadores decidiu que uma das prioridades é o que chamam, paradoxalmente, de "democratização da comunicação".
A presidente Dilma, ao assumir o governo, relegou a um plano secundário um projeto que objetivava controlar a informação, sob o pretexto de regulamentação dos novos meios eletrônicos.
Nossos dois "especialistas" voltaram às suas obsessões nos últimos dias. Lula motivado pelas críticas ao apoio oficial ao Congresso da UNE, onde foi o grande homenageado. E José Dirceu incentivado pelo escândalo na imprensa inglesa que provocou o fechamento do jornal "News of the World", além da demissão de vários dirigentes do conglomerado de informações do magnata Rupert Murdoch, uma espécie de "cidadão Kane" pós-moderno.
Insistindo nos seus equívocos, Lula tentou pela enésima vez menosprezar o peso dos jornais tradicionais que chamaram a reunião da UNE de chapa-branca. E declarou-se "invocado" por considerar que a imprensa não larga do seu pé.
A pretexto de consolar o presidente da UNE, Augusto Chagas, o ex-presidente garantiu a ele que os grandes jornais do Rio e de São Paulo não têm alcance nacional e não chegariam, segundo o ex-presidente, à Baixada Fluminense ou ao ABC paulista.
"Eles não perceberam que as coisas estão mudando no Brasil. O povo não quer mais intermediário entre eles e a informação. O povo está se informando de muitas formas. Muitas formas. E não apenas naqueles (meios) que habitualmente achavam que formavam", argumentou o ex-presidente, revelando sua peculiar postura ética, além de ignorância em relação à circulação das informações nas novas mídias.
Se a notícia não chega a todo o país, e muito menos ao interior, então não é preciso se preocupar, ensina Lula. O fato em si não tem a menor importância, desde que a grande massa de cidadãos permaneça na ignorância deles.
Esquece-se o presidente que, da mesma maneira que a internet e as novas mídias sociais permitem que as informações circulem mais largamente, com versões de várias fontes, elas também levam as reportagens da grande imprensa aos recantos mais longínquos do país.
Estudo recente demonstra que as reportagens da grande imprensa são replicadas no Facebook, no Twitter e em outras mídias sociais, amplificando sua repercussão.
O ex-presidente também se esqueceu que, no Brasil, a circulação dos jornais vem crescendo, especialmente a dos chamados "jornais populares", o que leva as questões nacionais a esse público que Lula pretende controlar sozinho, sem a interferência de outros agentes.
Além do mais, os blogs mais acessados são justamente os que se ligam aos principais jornais do país, cujas marcas e tradição lhes dão os meios para apuração das notícias e a credibilidade que muitas vezes faltam a blogs personalistas.
Não é à toa que a presidente Dilma Rousseff vem demitindo ministros e assessores do primeiro escalão com base em denúncias da chamada "grande imprensa". E, se considerasse mesmo desimportantes os grandes jornais, Lula não perderia seu tempo com eles.
Não há dúvida de que, com o surgimento das novas tecnologia, os jornais perderam a hegemonia da informação, mas continuam sendo fatores fundamentais para cidadania.
O jornalista espanhol José Luis Cebrian, diretor do "El País", talvez o jornal mais influente hoje da Europa, considera que os jornais perderam a centralidade da formação da opinião pública, mas continuam sendo um "contrapoder", com uma enorme influência, embora menor do que anteriormente à chegada das mídias sociais.
Ele relembrou em recentes entrevistas que os jornais continuam sendo importantes para a institucionalização democrática dos países, embora precisem se adaptar à nova realidade tecnológica.
Já o escândalo das escutas ilegais do jornal britânico "News of the World" fez com que o ex-ministro José Dirceu recuperasse o fôlego, depois de ter sido reafirmado pelo procurador-geral da República Roberto Gurgel como o "chefe da quadrilha" do mensalão, e voltasse à carga em seu blog na campanha pela "regulação da mídia", nova maneira de denominar sua permanente tentativa de controlar a informação.
A gravidade do que aconteceu no "News of the World", com escutas ilegais e chantagens, liga perigosamente a prática de crimes comuns ao jornalismo, o que é inaceitável e põe em risco a própria essência da liberdade de expressão. O jornalismo, instrumento da democracia, não pode se transformar em atividade criminosa.
O interessante é que nem mesmo na Grã-Bretanha, epicentro dessa grave crise do jornalismo, está em discussão uma legislação oficial para controlar meios de comunicação.
São grandes as críticas à atuação da Press Complaints Commission (comissão de queixas sobre a imprensa), órgão formado pelos próprios jornais para se autorregular, e há um amplo debate sobre a revisão de seus critérios para reconquistar a confiança do público britânico.
Mas até agora não apareceu nenhum Dirceu para defender o controle governamental da imprensa.
