sábado, 9 de abril de 2011

O cigarro do futuro

Eram modelos diferentes, todos com design de última geração, que, um a um, o sujeito à minha frente foi tirando dos bolsos quando chegou sua vez de ingressar na área de embarque do aeroporto de Congonhas. O homenzinho despachou para exame em raio x quatro celulares que levava junto ao corpo na viagem. Não é, convenhamos, um vício como outro qualquer!

A crescente dependência do homem moderno ao telefone móvel pode ser medida em seu nível mais dramático pela crise de abstinência provocada por 50 minutos de aparelhos desligados na ponte aérea Rio-São Paulo. Tem executivo que não espera o avião tocar na pista para religar o seu, fissurado por torpedos, e-mails, mensagens de voz, um tapa qualquer no celular: “Alô, cheguei!”

Dá pena dessa gente imaginar que, no futuro, o vício em questão será considerado tão nocivo quanto o cigarro hoje em dia. Proibido esta semana nas agências bancárias do Rio – tendência já consagrada em outras cidades –, o uso do celular acabará sendo, por motivos de segurança ou pura inconveniência, restrito a ambientes privativos.

Nada de pânico, por favor! Só quando, enfim, criarem áreas para portadores de aparelhos em restaurantes terá chegado a hora de largar o vício.

Novo calor - Arthur Dapieve

A reunião atingira o objetivo de toda reunião: a perpetuação da sua própria espécie, ou seja, a marcação de outra reunião. Eu caminhava pela João de Barros na direção da Bartolomeu Mitre distraído, nessa filosofia sem botequim, quando um carro veio devagar, cruzou a rua e parou um pouco adiante, na General Urquiza. Da janela do carona, um rapaz de barba rala botou meio tronco para fora e disse: "Ô Dapieve..."

Tomei um susto naquele fim de tarde, dois ou três anos atrás, e prestei atenção. "Ô Dapieve...", ele repetiu. O tom era íntimo, quase carinhoso, mas indubitavelmente de reclamação. Imaginei que fosse se queixar do excesso de referências ao Botafogo ou de alguma sacaneada no presidente Lula. "Sou seu leitor", o rapaz prosseguiu. "Queria te dizer pra escrever sobre música brasileira. Você não escreve sobre música brasileira..."

Era uma coisa estranha de se dizer para quem na época, além de artigos no jornal, já tinha um livro sobre rock brasileiro dos anos 80 e outro sobre Renato Russo, mais os textos da fotobiografia dos Paralamas do Sucesso, do Maurício Valladares. De qualquer forma, estava fora de cogitação comentar minha bibliografia no meio da rua. Levantei o polegar e fiz sinal de positivo. Aquilo era estranho, mas não surpreendente.

Uma quantidade frustrante de gente de todas as idades tem uma concepção muito estreita do que pode ser música brasileira. Pode MPB, samba, choro, caipira, axé, ritmos folclóricos, vale até o latino bolero. Entretanto, dependendo do grau de xiismo, mesmo a bossa nova continua sub judice. Tom Jobim, afinal, foi "acusado" de não fazer música brasileira. Não, não pode jazz, rock, funk, rap, eletrônica ou sertanejo. Em suma, nada que cheire, ainda que cada vez mais remotamente, a influência da música americana. Talvez essa pseudo-ortodoxia nada mais seja do que outra forma de antiamericanismo.

No caso do rock, porém, o cisma também foi alimentado, por razões diferentes, pela própria galera que surgiu na década de 80. Acreditava-se, então, que era necessário passar cerol na "linha evolutiva da MPB", de modo a marcar uma distância punk-crítica dos astros da década anterior. Depois, esse confronto geracional foi-se abrandando, conforme o BRock amadureceu e incorporou ritmos de origem não-americana. Coisa que, aliás, Roberto Carlos e os Mutantes já haviam feito na década de 1960.

Existem poucas músicas tão visceralmente brasileiras quanto "Perfeição", o anti-hino nacional que a Legião Urbana gravou em 1993, num disco chamado, ora veja, "O descobrimento do Brasil". No entanto, lembro-me de uma entrevista que fiz no ano seguinte, na qual Renato Russo se queixou, daquele seu jeito às vezes meio cômico, de um papo que ouvira entre alguns pirralhos. Eles discutiam se Legião era rock ou MPB. Concluíram que rock era Pantera - uma banda americana de metal, tão expressiva que hoje precisa ser lembrada assim, entre travessões - e que Legião era MPB. "Eu não entrei numa banda de rock para acharem que faço MPB!", irritava-se Renato.

As duas lembranças, a do encontro nas ruas do Leblon e a da entrevista num apartamento de Ipanema, voltam-me à cabeça a propósito do segundo disco solo de Marcelo Camelo, o recém-lançado "Toque dela" (Universal/Zé Pereira). Será que alguém, seja qual for a geração, vai perder tempo discutindo se é rock ou MPB? Espero que não. Inclusive porque o disco é rock e MPB e, talvez, mais alguma coisa que ainda não estejamos aptos a definir. Um caminho natural para quem é egresso de uma banda de rock carioca com nome em espanhol que, nos seus únicos quatro álbuns de estúdio, já misturava rock, hardcore, ska, samba, choro e otras cositas más.

"Toque dela" é um disco de canções. Isso pode soar uma obviedade, mas não é. O solo anterior de Camelo, "Sou/Nós", de 2008, era um disco de climas, apesar de ter ao menos duas grandes canções, "Janta" e "Santa chuva", gravada anteriormente por Maria Rita. Era bom, embora menos focado que "Toque dela", o que se reflete na própria duração, de mais de 55 minutos (contra os quase 42 minutos do novo CD). Era como se, fora do casamento com os Los Hermanos, Camelo experimentasse novas relações. Com o piano de Clara Sverner, com a sanfona de Dominguinhos e, também, claro, com sua namorada Mallu Magalhães. Por sinal, o disco foi um pouco obscurecido pela fofocada sobre o casal, alimentada pelo Bolsonaro que muitos trazem no peito.

"Toque dela", eu dizia, é um disco de canções. Não à moda literária de Chico ou Caetano, mas fragmentadas, dentro do espírito de um tempo computadorizado. O disco abre logo com três excelentes canções. "A noite" traz Camelo acompanhado pela banda de rock que já lhe fornecia um chão em "Sou/Nós", a paulistana Hurtmold. "ÔÔ" tem a melhor declaração de amor do primeiro trimestre: "Tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela". E "Tudo que você quiser" apresenta um bonito solo de acordeom de outro Marcelo talentoso, o Jeneci, que no ano passado lançou "Feito pra acabar".

Nove das dez faixas do novo CD de Camelo incluem ao menos um instrumento de sopro, normalmente todo um naipe. Essa característica às vezes aproxima do Beirut - música americana? balcânica? mexicana? europeia ocidental? quem se importa? - esse Camelo delicado como sempre, senhor de si como nunca. Esta característica sonora dá a "Toque dela" um calor especial.

Os brasileirinhos que se foram!!

http://oglobo.globo.com/rio/info/massacre-realengo/vitimas/

Um ''jogo'' premeditado - Lúcia Guimarães

Ninguém teve a ideia de fazer um bom videogame com um massacre escolar." A queixa é do mentecapto que atende pelo apelido Pawnstick e cuidou de preencher esta lacuna nos anais da glorificação escatológica.
"School Shooter: North American Tour 2012" (Atirador Escolar: Tour Norte-americano 2012, em tradução livre) foi lançado em fevereiro e retirado do site anfitrião na última semana de março. Pawnstick e a empresa Valve prometem trazer o videogame de volta em breve.
"School Shooter" permite ao jogador sentir-se como o par de assassinos de Columbine (13 mortos e 21 feridos, em 1999) ou como o estudante sul-coreano que matou 32 pessoas e feriu 21 na Escola Politécnica de Virgínia, em 2007. O objetivo, claro, é matar o maior número de alunos.
A palavra dissociação, usada com frequência para descrever o estado mental de autores de assassinatos em massa, cai como uma luva na explicação dada por Pawnstick quando acusado de depravação moral: "É só um jogo e o objetivo é ser divertido," disse ele ao website The Escapist.
Um estudo feito pelo Serviço Secreto Americano, quando o país estava sob o impacto do massacre de Columbine, examinou 37 incidentes de violência extrema nas escolas, entre 1974 e 2002. Não existe o "atirador de escola". Embora nunca tenha emergido o perfil psicológico de jovens ou adultos que usaram escolas como cenário de suas fantasias homicidas, os incidentes incluídos no estudo tinham um ponto em comum.
Nenhum foi resultado de um impulso. Todos foram cuidadosamente preparados, inclusive o que fez mais vítimas, o hoje esquecido massacre de Bath, no Estado de Michigan, em 18 de maio de 1927. Andrew Kehoe, o autor do massacre de 38 crianças e seis adultos, passou meses instalando explosivos na escola de Bath. Ateou fogo à escola e, quando os bombeiros chegaram, detonou os explosivos que também provocaram a morte deles.
Durante a Guerra Fria, as crianças americanas se submetiam a simulações para enfrentar a emergência de um ataque nuclear soviético. No começo do século 21, ao treinamento obrigatório para enfrentar incêndios juntou-se a simulação de um massacre escolar.
Tomemos como exemplo o verde Estado de Washington, na costa do Oceano Pacífico. Na semana passada, a idílica cidadezinha de Snoqualmie, batizada com o nome da tribo homônima que vivia no território transformado em Estado, não economizou em realismo. Tiros foram disparados, "vítimas" gritaram e dezenas de policiais bem equipados invadiram salas de aula para "salvar" os alunos - "Como no cinema", relatou o tabloide semanal da cidade, mal contendo a excitação com a súbita erupção de notícias.
A ameaça de violência que se instalou no imaginário da vida escolar americana não discrimina entre o cenário bucólico e a densidade urbana.
Em Nova York, 100 mil dos 1,1 milhão de alunos do sistema público de ensino passam por detectores de metais antes de chegar às salas de aula. No bairro do Bronx, não há mais uma escola pública sem detectores. A divisão do Departamento de Polícia de Nova York especializada em patrulhar escolas, com 5 mil membros, forma a quinta força policial do país e supera de longe o número de orientadores escolares.
A cidade mais rica dos Estados Unidos ocupa um lamentável 310.º lugar nos índices de graduação do país. Mas, avaliados sobre seus conhecimentos da ameaça extracurricular, os alunos nova-iorquinos tiram nota mais alta.

É CORRESPONDENTE EM NOVA YORK

O abraço não é mais aquele! - Tutty Vasques


Como quase todo carioca que não circula pelas bandas mais profundas da zona oeste de sua cidade, sei de Realengo por "aquele abraço" que Gilberto Gil lhe dá no famoso samba-exaltação que compôs no exílio de Londres para anunciar sua volta ao Rio de Janeiro.
Na época, o músico baiano também pouco conhecia do bairro, além do quartel do Exército onde passou por maus bocados quando lá esteve preso com Caetano Veloso durante a ditadura militar. Realengo, na canção, é metáfora de um Brasil que não perde a alegria nos piores momentos de sua história.
"Alô, alô Realengo!" O Brasil inteiro voltou a te abraçar ontem de um jeito diferente, comovido, solidário à tragédia particular que botou o bairro de novo na boca do povo. O abraço não é mais aquele, mas a intimidade sugerida na letra de Gilberto Gil permanece intacta no choro compungido de quem até hoje nada sabia a respeito de Realengo.
Eu aqui do outro lado da montanha, você aí em São Paulo, a presidente Dilma em Brasília, todo mundo esteve em pensamento nessas últimas 24 horas em Realengo, tentando entender a estupidez que incluiu o Brasil na rota dos massacres em escolas mundo afora.
O lugar que o País inteiro abraçou sem saber direito o que abraçava na cadência bonita do samba tem agora cara, sentimentos, angústia, desespero, dor, tristeza e medo documentados em suas ruas pelos telejornais do planeta. Todo brasileiro conhece um lugar esteticamente parecido em sua cidade, mas nenhum outro subúrbio conhece drama com a dimensão da tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira.
No lugar de Aquele Abraço, Realengo me traz agora à cabeça o choro-canção Subúrbio, de Chico Buarque:

"Lá não tem claro-escuro
A luz é dura

A chapa é quente

Que futuro tem

Aquela gente toda

Perdido em ti

Eu ando em roda

É pau, é pedra

É fim de linha

É lenha, é fogo, é foda

Fala Realengo..."

Crônica de um estranho amor

Filme de 1982 em que Xuxa aparece nua tem os direitos disputados na Justiça do Rio

Jorge Araújo/Folhapress

No centro de São Paulo, a apresentadora Xuxa Meneghel, durante o lançamento de "Amor Estranho Amor", em 1982

ROBERTO KAZ
ENVIADO ESPECIAL AO RIO

No dia 23 de março, um despacho, publicado no Diário da Justiça do Rio de Janeiro, convocou o cineasta Aníbal Massaíni Neto e o advogado Luiz Claudio Moreira, diretor comercial da Xuxa Promoções, a comparecer a uma audiência conciliatória.
Os dois concordaram e devem se encontrar, neste mês, na 2º Vara Cível da Barra da Tijuca (a data ainda não foi agendada). Será a primeira tentativa de pôr fim a um processo que corre desde fevereiro de 2010.
Massaíni, produtor de "Pelé Eterno", e Moreira, braço direito da apresentadora Xuxa Meneghel, brigam pelos direitos do filme "Amor Estranho Amor", de Walter Hugo Khouri (1929-2003).
Produzido por Massaíni -e protagonizado por Tarcísio Meira e Vera Fischer-, o filme, de 1982, tornou-se um "cult" em função de uma cena em que Xuxa, então uma jovem atriz, aparece nua com um menino de 12 anos (à época, ela ainda não apresentava programas infantis).
Relançado em 1987 e 1991, "Amor Estranho Amor" foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas. Em 1992, já "rainha dos baixinhos", Xuxa conseguiu proibir, judicialmente, que o filme fosse lançado em vídeo (alegou que o contrato dizia respeito apenas à veiculação em salas de cinema).
Em seguida, para blindar-se em definitivo de seu passado, comprou de Massaíni os direitos para o cinema. Ficou acertado que a renovação seria anual, a um valor de US$ 60 mil (R$ 97 mil).
De 1992, quando o contrato foi firmado, a 2009, quando foi extinto, Massaíni embolsou, pelo silêncio do filme, mais de R$ 1 milhão.
Dois anos atrás, em vez de cobrar o pagamento, aguardou o prazo (17 de maio) expirar. Cinco meses depois, enviou um e-mail a Moreira, alegando que "a não renovação do nosso Instrumento de Cessão implicou em sua extinção".
"Como não me procuraram, fiquei quieto", disse. "Queria relançar o filme."


"Quero apenas afirmar o mérito do filme", diz Massaíni

Produtor de "Amor Estranho Amor" declara não ter objetivo de prejudicar a carreira de Xuxa Meneghel

Processo, ao qual a Folha teve acesso, alega que Massaíni pediu R$ 240 mil pela renovação dos direitos da obra

DO ENVIADO AO RIO

Em março de 2010, quando estava na Cinearte, sua produtora em São Paulo, Aníbal Massaíni Neto foi surpreendido com uma notificação judicial dizendo que "Amor Estranho Amor" não poderia ser relançado. O descumprimento acarretaria em multa de R$ 200 mil.
A decisão, do juiz Mario Cunha Olinto Filho, decorrera de um processo aberto semanas antes, pela Xuxa Promoções, na 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca, no Rio.
A Folha teve acesso aos autos, em que os advogados de Xuxa Meneghel atestam que a cessão dos direitos do filme não havia sido renovada porque Massaíni pedira "cerca de R$ 240 mil -mais do que o dobro do valor previsto contratualmente- para a renovação".
O documento prosseguia: "O Sr. Aníbal Massaíni Neto alegou, sem o menor jus, aliás, que, desde o pacto celebrado em 1992, o dólar havia sofrido desvalorização, e que, portanto, seria justo receber uma compensação".
Massaíni defende que tal pedido jamais ocorreu. "Quando o contrato expirou, avisei ao Luiz Claudio [Moreira, diretor comercial da Xuxa Produções] que meu interesse era relançar o filme. Como ele insistia em fazer uma contraproposta, e chegou a me enviar uma planilha com atualizações do dólar, eu fiz uma correção, dizendo que o valor deveria ser ajustado por outras alíquotas."
O produtor alega que nunca houve, da sua parte, uma frase dizendo "eu quero tanto": "Não estou interessado em valor. Quem pensa em valor são eles. Quero lançar o filme em película, vender para fora. Tenho o palpite de que daria certo." (Desde "Pelé Eterno", de 2004, Massaíni não produziu outro filme.)
Luiz Claudio Moreira diz que, em anos anteriores, o prazo limite para o pagamento dos direitos (17 de maio) não costumou ser cumprido ao pé da letra. "Em 2001, depositei em 12 de setembro. Em 2003, em 3 de junho", disse, mostrando os comprovantes.
"Esse contrato nunca foi tratado com o rigor com que o Massaíni resolveu tratá-lo em 2009", prosseguiu Moreira. "E não era um contrato de 18 dias ou 18 meses. Era um contrato de 18 anos. Imaginei que havia uma relação de confiança."
Em resposta, o produtor disse não se lembrar de "depósitos feitos à posteriori". Em seguida, completou: "E isso não dá, ao Luiz Claudio, o direito de transformá-los em um precedente".

OBJETO PROIBIDO Massaíni afirma que um possível relançamento de "Amor Estranho Amor" não visa prejudicar a carreira de Xuxa: "Quero apenas afirmar o mérito do filme".
Ele considera "terrível" ser dono de uma obra que não pode circular. "E que, ainda por cima, é pirateada por todos os lados, na internet."
Por isso, findo o contrato, procurou a apresentadora, no intuito de fazê-la participar da nova divulgação. "Em 1982, a Xuxa fez o filme com muito orgulho, participou de pré-estreias, inclusive em Cannes. Falei ao Luiz Claudio: "Em vez de atrair a atenção pelo objeto proibido, vamos relançá-lo"."
A proposta não foi aceita. (ROBERTO KAZ)


Diretor comercial diz que produção é ruim para Xuxa

DE SÃO PAULO

Em 2009, Xuxa Meneghel venceu, em primeira instância, um processo contra a Band, pela divulgação de fotos suas, tiradas para a revista "Playboy", em 1982.
Após a publicação da sentença, ela declarou, com cansaço: "Tenho que provar quase diariamente que o que eu faço hoje não tem nada ver com o meu passado".
Luiz Claudio Moreira, diretor comercial da Xuxa Promoções, explica: "Quando a Xuxa filmou "Amor Estranho Amor", ela tinha acabado de completar 18 anos. Enxerga ela no presente. Mãe de uma menina de 12 anos, presidente da Fundação Xuxa Meneghel, que atende mil pessoas por dia. As fotos e o filme não colaboram em nada com a carreira dela". (RK)


OPINIÃO

Embargo a lançamento faz da obra uma vítima da mesma hipocrisia que narra


NÃO IMPORTA MUITO APELAR A ARGUMENTOS DE AUTORIDADE. QUALQUER FILME É UM DOCUMENTO DO MOMENTO EM QUE É FEITO


INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Em "Amor Estranho Amor", a ação se passa num bordel de luxo mantido por madame Laura (Íris Bruzzi), que, entre as suas protegidas, tem Vera Fischer (Ana) e Xuxa. Nesse bordel passará uns dias o menino Hugo, filho de Ana.
O orgulho da casa, no momento, é Tâmara (Xuxa), a jovem prometida ao político Benício, que logo chega ao local para resolver problemas nacionais e sexuais.
Xuxa é, hoje, a raiz da discórdia e o motivo do sumiço do filme, já que, nos anos 1990, conseguiu interditar sua saída em vídeo. Como se tratava de uma fita nacional, ninguém veio lutar pela liberdade de expressão.
No filme, ela era um chamariz tanto para Benício como para o público. Walter Khouri era mestre nesse expediente: usar uma atriz (ou modelo) em voga para atrair público. Em 1982, quando fez o filme, Xuxa era essa pessoa, por conta de uma ligação com Pelé.
Na época, diga-se, as atrizes apareciam nuas nos filmes, isso não era um problema. Os tempos mudaram. Hoje, se as moças do bordel seduzissem o jovem Hugo, como no filme, seriam processadas por pedofilia.
No lado feminino, o filme tinha, além de Fischer, Bruzzi e Xuxa, um grupo de atrizes menos famosas, mas não menos interessantes, como as ótimas Sandra Graffi e Vanessa. O elenco masculino não ficava atrás, com Walter Forster, Tarcísio Meira, Mauro Mendonça.
Esse belo grupo ocupa basicamente uma fantástica casa em São Paulo, onde se passa ação, em 1937, durante o golpe do Estado Novo.
É certo que não vem ao caso usar como alegação o valor estético do filme, na tentativa de romper o embargo que pesa sobre ele.
Claro que tem valor, mas não importa muito apelar a argumentos de autoridade (o diretor ilustre, o elenco etc.). Qualquer filme é um documento relevante do momento em que é feito.

VALOR HISTÓRICO
De todos, o mais relevante, hoje, é a aproximação entre um momento histórico (implantação do Estado Novo) e nossos usos e costumes sexuais. E hoje sabe-se bem a importância dos bordéis na história política pátria: é de valor histórico que se trata.
Em inúmeros casos, não apenas no cinema, a Justiça tem se tornado um obstáculo à circulação de bens culturais. No caso de "Amor, Estranho Amor", a interdição se deu por Xuxa considerar justo preservar sua imagem de "rainha dos baixinhos": talvez não fosse de bom tom vê-la num bordel.
Cuidado talvez excessivo, que não existia quando aceitou o papel de Tâmara, mesmo porque ele convinha a uma jovem atriz cujo principal atributo era ter posado nua em revista masculina, e quando trabalhar com Khouri significava, sim, prestígio.
Jogado para baixo do tapete, esse momento de sua vida artística (talvez o melhor) acaba vítima da mesma hipocrisia que divide nossa vida sexual e política entre o bordel e o lar, a rua e o santuário, o secreto (indecoroso) e o público (pomposo). Partição de que a arte procura, em geral, escapar.

domingo, 3 de abril de 2011

Jorge Luis Borges - A escuridão segundo Borges

O argentino Jorge Luis Borges é um dos maiores nomes da literatura mundial no século 20. Considerado um antecipador dos procedimentos técnicos e temáticos do pós-modernismo, Borges era um leitor voraz e enciclopédico. Ele também se destacou por suas célebres conferências, sobretudo quando ficou cego.

Reservado, foram poucos os momentos dedicados pelo argentino para falar sobre sua condição, o que aconteceu nos textos A Cegueira e A Última Oração em que comenta: "Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias".

Borges também falou sobre a cegueira na última noite da conferência que fazia no Teatro Coliseu, em Buenos Aires, em 1977. Essa palestra fez parte de uma série de sete que foram editadas três anos depois no livro Sete Noites.

Confira trecho de Borges falando sobre sua cegueira: http://www.youtube.com/watch?v=6f1qryPPVFI