sábado, 9 de abril de 2011
Um ''jogo'' premeditado - Lúcia Guimarães
"School Shooter: North American Tour 2012" (Atirador Escolar: Tour Norte-americano 2012, em tradução livre) foi lançado em fevereiro e retirado do site anfitrião na última semana de março. Pawnstick e a empresa Valve prometem trazer o videogame de volta em breve.
"School Shooter" permite ao jogador sentir-se como o par de assassinos de Columbine (13 mortos e 21 feridos, em 1999) ou como o estudante sul-coreano que matou 32 pessoas e feriu 21 na Escola Politécnica de Virgínia, em 2007. O objetivo, claro, é matar o maior número de alunos.
A palavra dissociação, usada com frequência para descrever o estado mental de autores de assassinatos em massa, cai como uma luva na explicação dada por Pawnstick quando acusado de depravação moral: "É só um jogo e o objetivo é ser divertido," disse ele ao website The Escapist.
Um estudo feito pelo Serviço Secreto Americano, quando o país estava sob o impacto do massacre de Columbine, examinou 37 incidentes de violência extrema nas escolas, entre 1974 e 2002. Não existe o "atirador de escola". Embora nunca tenha emergido o perfil psicológico de jovens ou adultos que usaram escolas como cenário de suas fantasias homicidas, os incidentes incluídos no estudo tinham um ponto em comum.
Nenhum foi resultado de um impulso. Todos foram cuidadosamente preparados, inclusive o que fez mais vítimas, o hoje esquecido massacre de Bath, no Estado de Michigan, em 18 de maio de 1927. Andrew Kehoe, o autor do massacre de 38 crianças e seis adultos, passou meses instalando explosivos na escola de Bath. Ateou fogo à escola e, quando os bombeiros chegaram, detonou os explosivos que também provocaram a morte deles.
Durante a Guerra Fria, as crianças americanas se submetiam a simulações para enfrentar a emergência de um ataque nuclear soviético. No começo do século 21, ao treinamento obrigatório para enfrentar incêndios juntou-se a simulação de um massacre escolar.
Tomemos como exemplo o verde Estado de Washington, na costa do Oceano Pacífico. Na semana passada, a idílica cidadezinha de Snoqualmie, batizada com o nome da tribo homônima que vivia no território transformado em Estado, não economizou em realismo. Tiros foram disparados, "vítimas" gritaram e dezenas de policiais bem equipados invadiram salas de aula para "salvar" os alunos - "Como no cinema", relatou o tabloide semanal da cidade, mal contendo a excitação com a súbita erupção de notícias.
A ameaça de violência que se instalou no imaginário da vida escolar americana não discrimina entre o cenário bucólico e a densidade urbana.
Em Nova York, 100 mil dos 1,1 milhão de alunos do sistema público de ensino passam por detectores de metais antes de chegar às salas de aula. No bairro do Bronx, não há mais uma escola pública sem detectores. A divisão do Departamento de Polícia de Nova York especializada em patrulhar escolas, com 5 mil membros, forma a quinta força policial do país e supera de longe o número de orientadores escolares.
A cidade mais rica dos Estados Unidos ocupa um lamentável 310.º lugar nos índices de graduação do país. Mas, avaliados sobre seus conhecimentos da ameaça extracurricular, os alunos nova-iorquinos tiram nota mais alta.
É CORRESPONDENTE EM NOVA YORK
O abraço não é mais aquele! - Tutty Vasques
Na época, o músico baiano também pouco conhecia do bairro, além do quartel do Exército onde passou por maus bocados quando lá esteve preso com Caetano Veloso durante a ditadura militar. Realengo, na canção, é metáfora de um Brasil que não perde a alegria nos piores momentos de sua história.
"Alô, alô Realengo!" O Brasil inteiro voltou a te abraçar ontem de um jeito diferente, comovido, solidário à tragédia particular que botou o bairro de novo na boca do povo. O abraço não é mais aquele, mas a intimidade sugerida na letra de Gilberto Gil permanece intacta no choro compungido de quem até hoje nada sabia a respeito de Realengo.
Eu aqui do outro lado da montanha, você aí em São Paulo, a presidente Dilma em Brasília, todo mundo esteve em pensamento nessas últimas 24 horas em Realengo, tentando entender a estupidez que incluiu o Brasil na rota dos massacres em escolas mundo afora.
O lugar que o País inteiro abraçou sem saber direito o que abraçava na cadência bonita do samba tem agora cara, sentimentos, angústia, desespero, dor, tristeza e medo documentados em suas ruas pelos telejornais do planeta. Todo brasileiro conhece um lugar esteticamente parecido em sua cidade, mas nenhum outro subúrbio conhece drama com a dimensão da tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira.
No lugar de Aquele Abraço, Realengo me traz agora à cabeça o choro-canção Subúrbio, de Chico Buarque:
"Lá não tem claro-escuro
A luz é dura
A chapa é quente
Que futuro tem
Aquela gente toda
Perdido em ti
Eu ando em roda
É pau, é pedra
É fim de linha
É lenha, é fogo, é foda
Fala Realengo..."
Crônica de um estranho amor
| Jorge Araújo/Folhapress |
ROBERTO KAZ
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Os dois concordaram e devem se encontrar, neste mês, na 2º Vara Cível da Barra da Tijuca (a data ainda não foi agendada). Será a primeira tentativa de pôr fim a um processo que corre desde fevereiro de 2010.
Massaíni, produtor de "Pelé Eterno", e Moreira, braço direito da apresentadora Xuxa Meneghel, brigam pelos direitos do filme "Amor Estranho Amor", de Walter Hugo Khouri (1929-2003).
Produzido por Massaíni -e protagonizado por Tarcísio Meira e Vera Fischer-, o filme, de 1982, tornou-se um "cult" em função de uma cena em que Xuxa, então uma jovem atriz, aparece nua com um menino de 12 anos (à época, ela ainda não apresentava programas infantis).
Relançado em 1987 e 1991, "Amor Estranho Amor" foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas. Em 1992, já "rainha dos baixinhos", Xuxa conseguiu proibir, judicialmente, que o filme fosse lançado em vídeo (alegou que o contrato dizia respeito apenas à veiculação em salas de cinema).
Em seguida, para blindar-se em definitivo de seu passado, comprou de Massaíni os direitos para o cinema. Ficou acertado que a renovação seria anual, a um valor de US$ 60 mil (R$ 97 mil).
De 1992, quando o contrato foi firmado, a 2009, quando foi extinto, Massaíni embolsou, pelo silêncio do filme, mais de R$ 1 milhão.
Dois anos atrás, em vez de cobrar o pagamento, aguardou o prazo (17 de maio) expirar. Cinco meses depois, enviou um e-mail a Moreira, alegando que "a não renovação do nosso Instrumento de Cessão implicou em sua extinção".
"Como não me procuraram, fiquei quieto", disse. "Queria relançar o filme."
"Quero apenas afirmar o mérito do filme", diz Massaíni
Produtor de "Amor Estranho Amor" declara não ter objetivo de prejudicar a carreira de Xuxa Meneghel
Processo, ao qual a Folha teve acesso, alega que Massaíni pediu R$ 240 mil pela renovação dos direitos da obra
DO ENVIADO AO RIO
Em março de 2010, quando estava na Cinearte, sua produtora em São Paulo, Aníbal Massaíni Neto foi surpreendido com uma notificação judicial dizendo que "Amor Estranho Amor" não poderia ser relançado. O descumprimento acarretaria em multa de R$ 200 mil.
A decisão, do juiz Mario Cunha Olinto Filho, decorrera de um processo aberto semanas antes, pela Xuxa Promoções, na 2ª Vara Cível da Barra da Tijuca, no Rio.
A Folha teve acesso aos autos, em que os advogados de Xuxa Meneghel atestam que a cessão dos direitos do filme não havia sido renovada porque Massaíni pedira "cerca de R$ 240 mil -mais do que o dobro do valor previsto contratualmente- para a renovação".
O documento prosseguia: "O Sr. Aníbal Massaíni Neto alegou, sem o menor jus, aliás, que, desde o pacto celebrado em 1992, o dólar havia sofrido desvalorização, e que, portanto, seria justo receber uma compensação".
Massaíni defende que tal pedido jamais ocorreu. "Quando o contrato expirou, avisei ao Luiz Claudio [Moreira, diretor comercial da Xuxa Produções] que meu interesse era relançar o filme. Como ele insistia em fazer uma contraproposta, e chegou a me enviar uma planilha com atualizações do dólar, eu fiz uma correção, dizendo que o valor deveria ser ajustado por outras alíquotas."
O produtor alega que nunca houve, da sua parte, uma frase dizendo "eu quero tanto": "Não estou interessado em valor. Quem pensa em valor são eles. Quero lançar o filme em película, vender para fora. Tenho o palpite de que daria certo." (Desde "Pelé Eterno", de 2004, Massaíni não produziu outro filme.)
Luiz Claudio Moreira diz que, em anos anteriores, o prazo limite para o pagamento dos direitos (17 de maio) não costumou ser cumprido ao pé da letra. "Em 2001, depositei em 12 de setembro. Em 2003, em 3 de junho", disse, mostrando os comprovantes.
"Esse contrato nunca foi tratado com o rigor com que o Massaíni resolveu tratá-lo em 2009", prosseguiu Moreira. "E não era um contrato de 18 dias ou 18 meses. Era um contrato de 18 anos. Imaginei que havia uma relação de confiança."
Em resposta, o produtor disse não se lembrar de "depósitos feitos à posteriori". Em seguida, completou: "E isso não dá, ao Luiz Claudio, o direito de transformá-los em um precedente".
OBJETO PROIBIDO Massaíni afirma que um possível relançamento de "Amor Estranho Amor" não visa prejudicar a carreira de Xuxa: "Quero apenas afirmar o mérito do filme".
Ele considera "terrível" ser dono de uma obra que não pode circular. "E que, ainda por cima, é pirateada por todos os lados, na internet."
Por isso, findo o contrato, procurou a apresentadora, no intuito de fazê-la participar da nova divulgação. "Em 1982, a Xuxa fez o filme com muito orgulho, participou de pré-estreias, inclusive em Cannes. Falei ao Luiz Claudio: "Em vez de atrair a atenção pelo objeto proibido, vamos relançá-lo"."
A proposta não foi aceita. (ROBERTO KAZ)
Diretor comercial diz que produção é ruim para Xuxa
DE SÃO PAULO
Em 2009, Xuxa Meneghel venceu, em primeira instância, um processo contra a Band, pela divulgação de fotos suas, tiradas para a revista "Playboy", em 1982.
Após a publicação da sentença, ela declarou, com cansaço: "Tenho que provar quase diariamente que o que eu faço hoje não tem nada ver com o meu passado".
Luiz Claudio Moreira, diretor comercial da Xuxa Promoções, explica: "Quando a Xuxa filmou "Amor Estranho Amor", ela tinha acabado de completar 18 anos. Enxerga ela no presente. Mãe de uma menina de 12 anos, presidente da Fundação Xuxa Meneghel, que atende mil pessoas por dia. As fotos e o filme não colaboram em nada com a carreira dela". (RK)
OPINIÃO
Embargo a lançamento faz da obra uma vítima da mesma hipocrisia que narra
NÃO IMPORTA MUITO APELAR A ARGUMENTOS DE AUTORIDADE. QUALQUER FILME É UM DOCUMENTO DO MOMENTO EM QUE É FEITO |
INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA
Em "Amor Estranho Amor", a ação se passa num bordel de luxo mantido por madame Laura (Íris Bruzzi), que, entre as suas protegidas, tem Vera Fischer (Ana) e Xuxa. Nesse bordel passará uns dias o menino Hugo, filho de Ana.
O orgulho da casa, no momento, é Tâmara (Xuxa), a jovem prometida ao político Benício, que logo chega ao local para resolver problemas nacionais e sexuais.
Xuxa é, hoje, a raiz da discórdia e o motivo do sumiço do filme, já que, nos anos 1990, conseguiu interditar sua saída em vídeo. Como se tratava de uma fita nacional, ninguém veio lutar pela liberdade de expressão.
No filme, ela era um chamariz tanto para Benício como para o público. Walter Khouri era mestre nesse expediente: usar uma atriz (ou modelo) em voga para atrair público. Em 1982, quando fez o filme, Xuxa era essa pessoa, por conta de uma ligação com Pelé.
Na época, diga-se, as atrizes apareciam nuas nos filmes, isso não era um problema. Os tempos mudaram. Hoje, se as moças do bordel seduzissem o jovem Hugo, como no filme, seriam processadas por pedofilia.
No lado feminino, o filme tinha, além de Fischer, Bruzzi e Xuxa, um grupo de atrizes menos famosas, mas não menos interessantes, como as ótimas Sandra Graffi e Vanessa. O elenco masculino não ficava atrás, com Walter Forster, Tarcísio Meira, Mauro Mendonça.
Esse belo grupo ocupa basicamente uma fantástica casa em São Paulo, onde se passa ação, em 1937, durante o golpe do Estado Novo.
É certo que não vem ao caso usar como alegação o valor estético do filme, na tentativa de romper o embargo que pesa sobre ele.
Claro que tem valor, mas não importa muito apelar a argumentos de autoridade (o diretor ilustre, o elenco etc.). Qualquer filme é um documento relevante do momento em que é feito.
VALOR HISTÓRICO
De todos, o mais relevante, hoje, é a aproximação entre um momento histórico (implantação do Estado Novo) e nossos usos e costumes sexuais. E hoje sabe-se bem a importância dos bordéis na história política pátria: é de valor histórico que se trata.
Em inúmeros casos, não apenas no cinema, a Justiça tem se tornado um obstáculo à circulação de bens culturais. No caso de "Amor, Estranho Amor", a interdição se deu por Xuxa considerar justo preservar sua imagem de "rainha dos baixinhos": talvez não fosse de bom tom vê-la num bordel.
Cuidado talvez excessivo, que não existia quando aceitou o papel de Tâmara, mesmo porque ele convinha a uma jovem atriz cujo principal atributo era ter posado nua em revista masculina, e quando trabalhar com Khouri significava, sim, prestígio.
Jogado para baixo do tapete, esse momento de sua vida artística (talvez o melhor) acaba vítima da mesma hipocrisia que divide nossa vida sexual e política entre o bordel e o lar, a rua e o santuário, o secreto (indecoroso) e o público (pomposo). Partição de que a arte procura, em geral, escapar.
domingo, 3 de abril de 2011
Jorge Luis Borges - A escuridão segundo Borges
Reservado, foram poucos os momentos dedicados pelo argentino para falar sobre sua condição, o que aconteceu nos textos A Cegueira e A Última Oração em que comenta: "Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias".
Borges também falou sobre a cegueira na última noite da conferência que fazia no Teatro Coliseu, em Buenos Aires, em 1977. Essa palestra fez parte de uma série de sete que foram editadas três anos depois no livro Sete Noites.
Confira trecho de Borges falando sobre sua cegueira: http://www.youtube.com/watch?v=6f1qryPPVFI
terça-feira, 29 de março de 2011
TELEFONIA vs. RADIODIFUSÃO - A guerra anunciada
Por Venício A. de Lima em 29/3/2011 | |
| Salvo por uma matéria traduzida da The Economist, publicada na Carta Capital nº 639, a grande mídia brasileira optou por não noticiar a briga de gigantes deflagrada no México, nos últimos dias. E por que interessaria ao público brasileiro o que ocorre no México? Quando nada, um dos gigantes envolvidos é sócio (alguns dizem, majoritário) da maior operadora de televisão paga do Brasil: a NET, ligada às Organizações Globo. Ademais, o que está acontecendo ao norte do Equador pode perfeitamente vir a acontecer também ao sul, vale dizer, aqui mesmo entre nós. Monopólio vs. monopólio As operações de telefonia e televisão no México são praticamente monopolizadas por dois grandes grupos. Cerca de 80% das linhas de telefonia fixa estão conectadas à Telmex – a mesma empresa que é sócia da NET – e 70% do mercado de telefonia móvel (celular) são controlados pela Telcel, outra empresa do mesmo grupo – ambas de Carlos Slim, o homem mais rico do planeta. Por outro lado, o grupo Televisa, do empresário Emilio Azcárraga, controla cerca de 70% da audiência da televisão aberta. O que sobra, em boa parte, está sob controle da TV Azteca, comandada por Ricardo Salinas, outro magnata mexicano. Os grupos conviviam em relativa harmonia, cada um com seu respectivo "mercado". Agora, diante da convergência tecnológica, resolveram se enfrentar abertamente. Um grupo de 25 empresas de telecomunicações, incluídas a Cablevisión (propriedade do Grupo Televisa) e Iusacell (do Grupo Salinas, da TV Azteca), entrou com uma ação na Comissão Federal de Competição (Cofeco, equivalente ao nosso Conselho Administrativo de Defesa Econômica – Cade, do Ministério da Justiça) contra o alto custo das tarifas de interconexão cobradas pela Telcel. Ao mesmo tempo, a Telmex apresentou quatro denúncias contra a Televisa, a Televisión Azteca, a Cablesivion, a Megacable, a Cablemas, a Television Internacional e a Yoo por "práticas de monopólio e correlatos". As ações legais vieram acompanhadas de anúncios de página inteira nos jornais parceiros da Televisa denunciando o "monopólio caro e ruim" da indústria de telecomunicações, enquanto Carlos Slim retirava os anúncios de suas empresas – cerca de 70 milhões de dólares anuais – dos canais da Televisa. Em represália e solidariedade à Televisa, a TV Azteca passou a recusar os anúncios do Grupo Telmex. Disputa de mercado O que está em jogo, por óbvio, é o controle do mercado convergente de telefonia e televisão. Como explica didaticamente a matéria da The Economist: "A tecnologia transformou os negócios de telefonia e televisão em um único mercado: a televisão hoje inclui telefone e internet em seu serviço de TV a cabo, e quer adicionar telefones celulares. Salinas, que também controla uma empresa de celulares, a Iusacell, lançou um pacote semelhante em 2010. Slim deseja usar seus cabos de telefonia para distribuir TV paga (setor em que se tornou o maior ator no resto da América Latina), mas o governo não quer permitir. "Agora os bilionários pedem o tipo de reforma da concorrência de que suas respectivas indústrias precisavam há muito tempo. Os magnatas da TV querem que Slim reduza o valor cobrado quando, um telefone rival liga para um celular Telcel (a agência reguladora das teles do México lhe disse para reduzir algumas taxas). A atual tarifa de interconexão é 43,5% acima da média da maioria dos países ricos da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Isso torna impossível que outras operadoras ofereçam tarifas competitivas. A Comissão Federal de Concorrência (CFC) do México diz que os consumidores se beneficiariam de 6 bilhões de dólares por ano se as taxas de conexão se equiparassem à média da OCDE. A CFC recomenda deixar Slim concorrer na televisão quando tiver relaxado seu poder no setor de telefonia. Se a Telmex entrasse no mercado de tevê paga, o aumento da concorrência colocaria os preços ao alcance de mais 3,8 milhões de residências, admite a CFC." E no Brasil? A situação brasileira é diferente da mexicana, mas a briga entre teles e radiodifusores tradicionais ocorre também aqui. O locus dessa disputa, desde 2007, tem sido o projeto de lei que tramita no Congresso Nacional e "abre o setor de TV por assinatura para as teles, cria a separação de mercado entre produtores de conteúdo e empresas de distribuição e ainda cria cotas de programação nacional nos pacotes de canais pagos", além de revogar a Lei do Cabo de 1995. Na sua versão atual o projeto – PLC 116 do Senado Federal – é o resultado da articulação inicial de três propostas representando grupos e interesses distintos: o PL 29/2007 representa as empresas de telefonia; o PL 70/2007 representa os radiodifusores; e o PL 323/2007 situa-se em posição intermediária entre os interesses dos dois setores. Aprovado em junho de 2010 na Câmara dos Deputados, até hoje tramita no Senado Federal. Será que teremos aqui uma versão explícita da briga entre teles e radiodifusores como ocorre no México? A ver. | |
segunda-feira, 28 de março de 2011
Humor - Craque não precisa jogar
Embora sem ter atuado ultimamente, Uevinho Catarinense continua a ser o mais caro jogador do planeta. E pleiteia uma vaga na Seleçãopor Marcos Caetano
Como precisei largar o colégio para correr atrás do meu sonho, não sou muito bom de escrita. De forma que quem está botando em palavras os meus pensamentos é o meu assessor de imprensa, Ricardo Preá, o cara mais inteligente que conheci nos tempos de internato. Tão inteligente que, de todos os moleques da Cruzada de São Judas, foi o único que fez faculdade de jornalismo, na Unitosca, Universidade Técnica Operacional de Santa Catarina. Ele me falou que, como sou muito importante, um revisor dará mais uns tapas no texto. Por isso, essas mau traçada estão à altura do meu futebol. "Deus é fiel."
Para começo de conversa, ando chateado com a imprensa esportiva. O pessoal vem pegando no meu pé, e não é de hoje. Não adianta nada eu ganhar todo ano o título de melhor jogador do mundo. Eles cismam que tenho que ir a treinos, beber menos, controlar o peso, fazer gol todo final de semana, ser artilheiro do campeonato, essas besteiras que cansei de fazer na carreira. É como se ainda tivesse que provar o quanto sou bom de bola.
Fala sério: precisa mais do que aquele comercial que fiz para uma empresa de telefone, para todo mundo ver que sou bom de bola? Pombas, foram 35 embaixadinhas com uma caixa de aparelho de celular, sem deixar cair. O telefone não estava dentro da caixa, porque aí ficava pesado demais, mas fiz 35 embaixadinhas de verdade, sem deixar o raio da caixinha cair. Não teve truque de edição, como em muita publicidade que vejo por aí. E aquela paradinha na nuca que eu fiz com a berinjela para uma rede de supermercados também foi para valer. E o engradado do anúncio da cerveja eu bebi mesmo, uma por uma! O que mais eu preciso provar? Mas não tem problema. "Tudo posso n'Aquele que me fortalece."
Esses palhaços desses jornalistas dizem que eu estava esquentando o banco no meu time, lá na Europa. Ora, o West Ham é uma droga de time. Só fui para lá porque o Arsenal, que me comprou do Figueirense por 80 milhões de euros, em 2006, me emprestou para o Aston Villa, que me repassou para o Blackburn, que acabou me cedendo a essa porqueira do West Ham. West Ham? Que palhaçada é essa? Que time é esse que se chama, em português, Presunto do Oeste? Não dava para continuar lá. Ainda mais na reserva de um garoto do Lesoto. Vim embora. Forcei minha transferência, por empréstimo, para o Figueirense.
Aqui, estou em casa. Perto dos amigos, da Igreja do Tabernáculo da Graça dos Apóstolos da Revelação Eucarística Civil, da danceteria Biblo's, da praia, dos meus oito carros e dos meus quatro -filhos, que moram em quatro cidades perto de Florianópolis, cada um com sua mãe, menos um, o Uevercleisson, que mora com minha ex-sogra. No Figueira, vou reconquistar o meu lugar na Seleção e brilhar na Copa. Esperem para ver. "Mil poderão cair ao teu lado e dez mil à tua direita, mas tu não serás atingido."
Esse negócio de futebol tem muito a ver com o emocional, entende? Se a gente não está feliz com o idioma, a cidade que mora, o horário dos treinos, o frio, as boa-tes, o jeitão do técnico, o mulherio, a saudade da picanha na chuleta, o peso da bola, as cores da camisa do time, não tem jeito.
E tem o negócio do ritmo também. Minha última partida foi há mais de oito meses. Entrei no finalzinho, contra o Aberdeen. Não fiz gol, nosso time perdeu de 3 x 1, mas lembro perfeitamente de ter dado duas pedaladas e um chapéu daqueles bem curtinhos, no estilo penteia macaco, que foram umas pinturas. No dia seguinte, o jornal de Presunto do Oeste me deu uma nota três. Não é só no Brasil que jornalista esportivo é tudo sem-vergonha.
Na primeira metade da minha temporada no Arsenal, marquei 23 gols. Na segunda metade, caí um pouquinho na noite, e aí caí também um pouquinho de produção. Mas marquei dois gols. E começaram a pegar no meu pé. Vejam vocês: fiz 25 gols na temporada e só faltaram me pregar na cruz. Se não fosse atleta de Cristo, mandava - Amém! - todo mundo para o inferno. Não há de ser nada. "A sua descendência será poderosa na Terra; a geração dos retos será abençoada."
Graças ao Nosso Senhor Jesus Cristo - eia! - existem pessoas que sabem dar valor ao talento. Quando voltei para o Figueira, mais de 2 mil pessoas foram me recepcionar no estádio. Três semanas depois, quando voltei aos treinos, muita gente voltou a visitar o clube para me prestigiar. Devo estrear daqui a nove rodadas, na reta final do Campeonato Catarinense. Prometo, ainda assim, lutar pela artilharia.
Não foi fácil para a diretoria me trazer de volta. Meu salário ainda é o mesmo dos tempos do Arsenal (disso eu não abro mão de jeito nenhum: tenho uma obra assistencial a manter, além de oito carros, quatro ex-mulheres, quatro filhos e uma ex-sogra) e foi preciso arranjar nove patrocinadores para viabilizar a negociação: uma montadora, uma telefônica, uma cervejota, uma marca de caninha (que nem é a que eu gosto), um tônico capilar, um curso de inglês, uma empresa de quentinhas, uma marca de cueca e um remédio para disfunção erétil, que não sei bem o que é, mas parece que é coisa de boiola.
A camisa ficou linda, toda colorida, com aquele monte de marcas. Parece macacão de piloto de Fórmula 1. O cara do marketing lá do clube disse que ela passa modernidade, calor, umas coisas assim, sei lá. O problema é que, como toda a renda de patrocínios é usada para pagar o meu salário, os outros jogadores - cambada de invejosos sem fé em Deus - ficam reclamando com o técnico, fazendo corpo mole e não me -passam a bola. Ora, tem que ser craque de verdade para poder fazer corpo mole, e eles estão longe disso. "Ó Senhor dos Exércitos, bem-aventurado o homem que em Ti põe sua confiança."
Agora que voltei para o Brasil, só me falta mesmo obter uma última graça - Amém, Deus esteja, eia! -, que é voltar à Seleção. O professor já me convocou algumas vezes. A última foi há dois anos, na derrota de 2 x 0 para a Islândia, mas sei que ele gostou da minha atuação naquele jogo e respeita muito o meu trabalho. A lista para a Copa sai daqui a uma semana e eu devo voltar aos gramados em um mês. O melhor do mundo da Fifa não pode ficar fora do maior evento do futebol, o Senhor seja louvado!
Vou rezar 99 novenas para ser convocado e sei que meu nome será lembrado. Quem sabe jogar não esquece. Estou fazendo um trabalho à parte do grupo, lá no clube, e espero perder os 16 quilos que estou acima do peso em duas ou três semanas de trabalho duro, das 11h às 12h45, de terça a quinta, pulando a quarta porque ninguém é de ferro.
Nunca estive tão empenhado. Espero que o que escrevi aqui, com a ajuda de Nosso Senhor Jesus Cristo e do amigo Preá, sirva para mostrar toda a perseguição que venho sofrendo da imprensa. Que as calúnias - Amém! Eia! - sejam trocadas pelo perdão. Vou trazer esse hexa para o Brasil, nem que, para isso, tenha que treinar até mesmo nas manhãs de segunda... de quinze em quinze dias. Epa rei, minha Nossa Senhora dos Atacantes que Caem pela Esquerda! Concedei-me essa graça. "Sangue de Jesus tem poder."