sexta-feira, 4 de março de 2011

As mais belas cientistas de Hollywood

A ganhadora do Oscar Natalie Portman, formada em Harvard, derruba mito de que atrizes lindas são burras

Na noite do último domingo, a bela Natalie Portman, de 29 anos, ganhou um Oscar por sua elogiada performance como Nina, uma bailarina mentalmente perturbada no chocante "Cisne negro". Ao conquistar um lugar dos mais importantes entre os grandes atores, Natalie derruba estereótipos.

É a prova viva de que belas atrizes não precisam ser burras. E que cientistas nem sempre são feias. Aliás, às vezes, elas podem ser belíssimas. Entre os menos conhecidos e mais impressionantes detalhes da biografia de Natalie está o fato de ter sido, como estudante do ensino médio da Syosset High School, em Long Island, no fim dos anos 90, semifinalista do Intel Science Talent Search - considerada a mais difícil competição de elite do país.

Para quem faz ideia do quão difícil é elaborar um projeto à altura de um prêmio desses, devotar centenas de horas e tempo livre à noite, nos fins de semana e durante as férias fazendo pesquisa científica de verdade, enquanto os amigos estão ocupados "adolescendo", o feito é um testemunho mais do que suficiente da autodisciplina de Natalie.

Mas não é só. Enquanto desenvolvia sua pesquisa sobre métodos sustentáveis de transformar rejeitos em novas formas de energia e mantinha um boletim somente de notas As, Natalie já era uma estrela cinematográfica em ascensão.

Já tinha atuado em filmes dirigidos por Woody Allen, Tim Burton e Luc Besson; contracenado com Julia Roberts, Jack Nicholson, Matt Dillon, Uma Thurman, Drew Barrymore e....eu me cansei de digitar nomes de celebridades.

Ela conquistou o importante papel de rainha Amidala, na trilogia Star Wars, que a catapultou à fama internacional. E, então, ela foi para a Universidade de Harvard para estudar neurociência e a evolução da mente.

- Eu dei aulas em Harvard, Dartmouth e Vassar e tive o privilégio de ensinar para alunos brilhantes - contou Abigail A. Baird, uma das mentoras de Natalie em Harvard. - Mas poucos são tão inerentemente brilhantes, com tanta capacidade intelectual e tão dispostos a trabalhar duro quanto ela.

Natalie não é a única atriz com significativas credenciais científicas - prêmios, diplomas, patentes e teoremas em seu nome. Heidy Lamarr, a atriz habitualmente chamada de "a mulher mais bonita de Hollywood", trabalhava também no desenvolvimento de foguetes espaciais, inventando e patenteando técnicas de sinais responsáveis por manter os mísseis na rota correta. E reclamava muito das pessoas que, segundo ela, olhavam para o seu rosto e presumiam não haver mais nada por trás dele.

Danica McKellar, que trabalhou em séries como "The wander years" e "The west wing", se graduou com honras em matemática, na Universidade da Califórnia, Los Angeles, onde ajudou a elaborar uma prova matemática para determinadas propriedades dos campos magnéticos - um teorema que leva o seu nome ao lado de outros colaboradores. Ela também escreveu livros sobre matemática para leigos.

Como adolescente, nos anos 90, Mayim Bialik, ganhou o papel principal da série "Blossom". Agora, ela aparece numa outra série de grande sucesso, "The Big Bang Theory", como a adorável nerd Amy Farrah Fowler, uma neurobióloga e eventual parceira do mais nerd ainda Sheldon Cooper. A atriz se diz mais do que feliz com o seu novo papel. Afinal, ela tem um Ph.D. pela UCLA em neurobiologia.

- Eu digo para as pessoas: sou uma neurocientista e represento uma na TV - afirmou.

A despeito do grande número de personagens cientistas e filmes de ficção científica, as atrizes com credenciais na área ainda são muito poucas. A verdade é que as profissões têm apelos muito diferentes e costumam conquistar pessoas de personalidades distintas. Quem anseia por atenção e reconhecimento, dificilmente escolhe a ciência, um campo em que, com raríssimas exceções, mesmo o mais ilustre dos pesquisadores é desconhecido do grande público. Além disso, se a boa aparência conta pontos preciosos para quem quer ser ator, pode fazer com que um cientista não seja levado muito a sério.

Puro preconceito. A professora Abigail, atualmente em Vassar, garante que, a despeito de seus inúmeros compromissos como atriz, Natalie nunca pediu despensa das aulas ou dos trabalhos no laboratório. E era humilde ao dizer: "Muitos alunos de Harvard fazem coisas incríveis fora das salas de aula. Acontece de as pessoas verem apenas o que eu faço."

(O Globo)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Programe ou será programado

Artigo do professor Nelson Pretto*, da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para o jornal A Tarde da Bahia, na terça-feira (1).

Fiquei bastante impactado com o filme Cisne Negro. Impactado pela beleza do filme, atuação de Natalie Portman e pela possibilidade de pensar, a partir dele, a educação. É forte a pressão que o artista sofre para melhor desempenhar o seu papel.

Longe de mim pensar que a educação deva seguir uma metodologia como essa, muito menos nestes tempos em que, por decreto, sugere-se que não exista reprovação nos primeiros anos de escolaridade.

Claro que não defendo considerar a reprovação como uma boa ameaça para estimular o estudo da meninada. Não gosto dessas políticas por não acreditar que as questões e desafios mais fundamentais da educação sejam resolvidos por decreto. E decretos não faltam! Voltando ao filme, o que mais me instigou relacioná-lo com a educação foi a insistência com que o durão - e canastrão - diretor falava à nova bailarina que galgava o papel principal e o estrelado de que a sua superação não se daria simplesmente por mais e muito mais técnica. Nem seria apenas por mais conhecimentos, por fazer tudo bem direitinho, bem certinho, mas, sim, por um soltar a imaginação.

Por um intenso criar, um viver plenamente sua arte e sua vida. Penso ser assim também com a educação.

Gosto muito de flanar pelo Youtube e também por lá postar alguns vídeos. Recentemente assisti a uma entrevista do escritor russo Isaac Asimov (bit.ly/atarde1102).

O velho Asimov discute o futuro da educação e relembra o tempo em que a educação era feita por tutores que percebiam onde estava o interesse dos jovens e, a partir daí, avançavam na sua formação com os conhecimentos necessários para que eles compreendessem o mundo e, mais do que isso, pudessem dominá-lo, já que a educação era para poucos, a elite dominante.

Nossas lutas históricas provocaram uma profunda transformação daquela educação para poucos para a implantação de um sistema educacional público que atendesse a todas as pessoas. No vídeo, Asimov explica que a única forma de se fazer isso era tendo um só professor para uma grande quantidade de estudantes. Mais ainda, para organizar a situação, foi dado ao professor um currículo para ensinar. Passamos, então, a pensar a educação como um sistema, mais próximo de uma fábrica, com cada um desempenhando o seu papel, com ações sempre delimitadas, principalmente para os professores que passaram a seguir orientações emanadas de currículos, programas e avaliações nacionais e internacionais.

Pior: além de acompanhar essas normas, são eles constantemente seguidos, quase perseguidos, para que o sistema possa ter controle de sua autonomia em nome do bom desempenho. O ensino passa, então, a ser controlado por sistemas de avaliação que precisam ser universais com sua eficiência verificada - auditada! - através de exames, a exemplo do Pisa (sigla do Programa de Avaliação de Estudantes), que mede as chamadas competências em matemática e ciências. Assim, a escola passa a funcionar na busca de capacitar o jovem para responder a determinadas questões, de Matemática, por exemplo, muitas vezes sem nem mesmo compreender o que está respondendo. Nada de criação, nada de inovação, nada de vibração existencial.

No meu canal do Youtube (www.youtube.com/nlpretto) tenho um vídeo onde falo sobre videogames. Recentemente, recebi uma mensagem de Code Masters, um garoto de 17 anos que está no 1º ano do ensino médio, concordando comigo e afirmando que gostaria muito de que sua escola tivesse cursos de programação de computador, "linguagens c++, delphi, compiladores, engine de games, modelagem 3d etc". Ele quer que as autoridades o escutem porque deseja aprender essas coisas e não apenas as profissões tradicionais como pedreiro, mecânico, eletricista, etc. O comentário de Code Masters coincide com o que diz o pesquisador americano Douglas Rushkoff no seu recente livro Programe ou será programado.

Os computadores e as redes nos trazem inúmeras possibilidades de produção de conhecimentos e de culturas e não apenas de consumo de informações e, se não forem aprisionadas por teorias pedagógicas estreitas e imediatistas, podem contribuir para a formação de uma geração de pessoas geniais que estarão programando as máquinas, suas vidas e, principalmente, os destinos do planeta e da humanidade.

quarta-feira, 2 de março de 2011

RUY CASTRO - Qual Gaddafi?

RIO DE JANEIRO - Woody Allen disse certa vez que a Revolução Russa poderia ter acontecido muito antes de 1917. Mas os mencheviques e os bolcheviques, atirando-se mutuamente às carótidas sobre o que fazer depois que tomassem o poder, custaram a perceber que o Tzar e o Czar eram a mesma pessoa.
O mesmo pode ter se dado na Líbia, onde o ódio ao ditador Muammar Gaddafi vem de longe, mas, até há pouco, os rebeldes não se decidiam sobre quem derrubar: Gaddafi, Khadafi, Gathafi, Quathafi, Qadhafi ou Qadhdhafi? Eu próprio, que nunca me dediquei apaixonadamente à biografia do homem e costumo me perder quando abro um Atlas naquela região, já cheguei a pensar que fossem ditadores diferentes, talvez meio aparentados.
Vestígios dessa confusão ainda devem pairar por aí. É a única explicação para o fato de que Gaddafi, com 2/3 do território líbio em mão dos revoltosos, incluindo os poços de petróleo, abandonado por seus embaixadores, antigos aliados e metade do Exército, tendo contra si os EUA, a ONU e a União Europeia, com seu país sob bloqueio econômico e suas contas pessoais congeladas na Suíça, ainda não tenha sido posto para fora. Estarão atacando o Gaddafi certo?
A depender da rede de televisão ABC, do jornal "New York Times", da agência Associated Press e de outros possantes veículos de comunicação, essa possibilidade de confusão existe. Uns pelos outros, eles já grafaram o nome de Gaddafi de 112 formas diferentes desde que o cujo tomou o poder, em 1969.
Na verdade, há um imbróglio nisto, mas de outra natureza: qual Gaddafi os EUA pretendem enxotar? O atual, que o povo líbio sempre quis ver pelas costas, ou o de, digamos, 2008, que era louvado pela secretária de Estado americana Condoleezza Rice como "nosso forte parceiro na guerra contra o terrorismo" e cuja cooperação ela chamava de "excelente"?

TV & CLUBE DOS 13 - Ninguém é santo

Por Antero Greco em 1/3/2011

Reproduzido do Estado de S.Paulo, 25/2/2011; intertítulos do OI

O assunto da semana aparentemente é de uma chatice maior do que discurso de aspone em festa de fim de ano na firma. Só se fala em racha no Clube dos 13, rebelião destes ou daqueles, revolução no futebol brasileiro, novos tempos... Um bla-bla-blá interminável que tem por base avidez por dinheiro, briga política, busca de poder e disputa por audiência de televisão. O que, no fundo, é tudo a mesma coisa. A pitada de ridículo, também ligado ao tema, vai para a polêmica em torno do destino da Taça das Bolinhas, o que está mais para birra de criança do que para mérito esportivo.

A discussão dos principais times brasileiros parece essencialmente prática. Os cartolas estariam preocupados com as finanças de suas agremiações e, para tanto, empenham-se em batalhas árduas por melhor remuneração nos contratos com a mídia, sobretudo as emissoras de TV abertas. Fosse só isso, tratar-se-ia de controvérsias rotineiras no mundo dos negócios e mera obrigação dos dirigentes/administradores.

Os debates, porém, ultrapassam esse patamar. Diferenças entre os digníssimos donos da bola sempre existiram, como em qualquer associação. Muitos se suportavam em nome dos interesses comuns. Esses interesses, agora, tomam rumos diferentes com a perspectiva de transações mais valiosas e diversificadas (contratos separados para TVs a cabo, pay-per-view, internet, telefonia celular). Ou, sobretudo, com a possibilidade de mudança na relação comercial com alguns meios de comunicação.

As armas da CBF

Aí a porca começou a torcer o rabo. Não é segredo que há embate feroz entre Globo e Record, hoje as mais influentes redes de TV do país. Ambas se digladiam por números sempre mais significativos no ibope e têm o esporte como produto formidável para cativar audiência. Por isso, garimpam competições para transmitir – o Campeonato Brasileiro de futebol é o principal objeto de desejo.

Pela tradição e pela excelência no trabalho, a Globo sempre teve a preferência, até para saber de antemão o que eventuais concorrentes estariam dispostos a oferecer. O trâmite desta vez mudou e o Clube dos 13 resolveu receber propostas fechadas para as edições de 2012 a 2014 do torneio. A Globo teria ainda o benefício de ver seu contrato reconfirmado se os valores apresentados por outras redes não forem superiores a 10% do que ela espera pagar. Basicamente, é isso – só para entender o caso e sem enveredar por pormenores técnicos e jurídicos.

Com o processo em andamento, entraram em campo simpatias, predileções e conveniências de clubes e seus mandachuvas. A CBF também tem a sua (adivinha qual?) e jogou com as armas de que dispõe. Não foi de graça que reconheceu o Fla campeão nacional de 1987, ao lado do Sport. A adesão rubro-negra (a do Corinthians, havia tempos estava no papo) a essa causa era fundamental, por seu apelo popular. Sem contar que estava passada com o Clube dos 13 e com vários times que em 2010 derrotaram Kléber Leite, o candidato da casa, e preferiram continuar com Fabio Koff no comando.

Aposentadoria de Ronaldo

Não está claro o desfecho da cisão e muita pressão vai rolar. Só não caia na conversa de que há mocinhos de um lado e bandidos de outro. Não é guerra santa, nem há ideologia envolvida. Andrés Sanchez não é novo Dom Quixote. Todos olham para si e fazem parcerias de ocasião. Business.

Não tenho nada com a disputa das TVs. Mas pena que prevaleça por aqui a mentalidade da "exclusividade", do só eu posso ter o evento e não quero ninguém a incomodar-me. Nos EUA, três redes abertas mostram a NFL, com direito a chamadas para jogos (diferentes) a serem transmitidos na concorrência. Têm tal procedimento por estratégia, e todos faturam – emissoras, anunciantes, clubes, torcedores, telespectadores. Isso é profissionalismo, é capitalismo inteligente.

Como é?! No tuíter, Ronaldo mostra desalento ao afirmar que jogador não tem direito a aposentadoria (com a ressalva de que não advoga em causa própria). Claro que tem: basta contribuir para o INSS por 35 anos, como qualquer trabalhador. Ou requerer o benefício com 65 anos de idade.

terça-feira, 1 de março de 2011

MOACYR SCLIAR (1937-2011) - Um escritor com as luvas da fantasia

Por José Castello em 1/3/2011

Reproduzido de O Globo, 28/2/2011; intertítulos do OI

Moacyr Scliar sempre escreveu com a postura de médico: um pé atrás para observar o mundo, a coragem de meter as mãos nas piores partes do humano, a decisão de, mesmo nas horas difíceis, não se afastar da realidade. Foi assim, deslocado de seu centro, mais como observador que como inventor, que escolheu a literatura. Ainda menino, gostava de ir ao pronto-socorro do Bom Fim, reduto porto-alegrense da colônia judaica, para observar o atendimento aos pacientes e seu sofrimento. Nunca fugiu da dor. Sem ser hipocondríaco, sofria muito, desde cedo, com as doenças dos pais, que lhe despertavam medo e atração.

O interesse pela dura verdade do corpo o levou à medicina, em que se formou em 1962. O interesse pela verdade social o deslocou, anos depois, para a medicina sanitária – tornou-se especialista em saúde pública – que mexe nos subterrâneos da vida. A aproximação da literatura, em que estreou em 1968 com a coletânea de contos O carnaval dos animais, teve o mesmo caráter de inquietação. Imitando os grandes cirurgiões, de quem se exige a mão delicada, Scliar também se debruçou sobre a realidade com as luvas da fantasia. A parábola – na linha de Franz Kafka – logo se transformou em seu método preferido. Narrativa alegórica que, por comparação, evoca outras realidades, a parábola lhe foi muito útil como artifício de sobrevivência durante o regime militar, durante o qual lançou livros importantes, que tratam de temas incômodos como a violência e a mentira, como o romance Mês de cães danados, de 1977, e o livro de contos A balada do falso Messias, de 1976.

"Fora de si"

Três grandes influências marcam a literatura de Scliar: a presença contínua de Franz Kafka, como ele um judeu deslocado de sua condição; a escrita fantástica de Júlio Cortázar; e a leitura laica da Bíblia, em particular do Novo Testamento, em que as parábolas proliferam. Com eles aprendeu a força da linguagem figurada que, em poucas linhas, e de modo leve e até irônico, consegue dizer as piores verdades.

Seu mais importante romance, O centauro no jardim, de 1980, incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos organizada pelo National Yiddish Book Center, dos EUA, usa a figura lendária do centauro, metade cavalo, metade homem, para falar, de forma poética, da divisão que define a alma humana.

Para tratar do tema em geral recalcado da masturbação, Scliar, em Manual da paixão solitária, de 2008 – ganhador do Prêmio Jabuti de Melhor Livro do Ano de Ficção em 2009 – desloca-se até a antiga Judeia para reviver a vida de Judá, o quarto filho de Jacó, e de seus três filhos, Er, Onan e Selá e suas difíceis relações com o amor. Os saltos no tempo e as guinadas próprias da linguagem figurada o conduzem ao coração dos dilemas contemporâneos.

Scliar não se esquivou de temas cruciais, e arcaicos, como a culpa, a melancolia e o mal, que percorrem sua ficção de ponta a ponta, sempre temperados por um humor sutil, que não esconde a origem judaica. Nunca foi um homem religioso. Aos 6 anos, os pais o matricularam no Colégio Iídiche, levando-o a se aproximar melhor (outro deslocamento) da língua alemã falada por judeus. Cinco anos depois, eles o transferiram para uma escola católica onde – mais uma vez "fora de si" – tentou, sem sucesso, uma conversão ao catolicismo. Os dramas espirituais que percorrem os textos sagrados, em suas mãos, se transformam em matéria humana. Em Scliar, a carne sempre vence o espírito.

Prêmios e honrarias

A leveza e a ironia lhe serviram como antídotos para tratar de questões dolorosas sem ceder às pressões do drama. Foi também com leveza e sem afetação que, em 2003, elegeu-se para a cadeira número 31 da Academia Brasileira de Letras. Nunca abdicou da obsessão pela ciência e pelos grandes cientistas, que lhe serviram de modelos para muitas ficções. O médico e indigenista Noel Nutels, por exemplo, é o protagonista de A majestade do Xingu, romance de 1997, e o sanitarista Oswaldo Cruz, de Sonhos tropicais, de 1992. Scliar nunca pretendeu, porém, transformar a literatura em um instrumento da ciência, ou veículo de sua divulgação.

Jamais cogitou que a literatura possa se transformar em uma porta de acesso à religião. Certa vez, disse a respeito de seu fascínio pela Bíblia: "Ele não é o fascínio do ateu pela religião, mas do leitor pela narrativa". Sempre atribuiu à sua origem judaica a persistência de uma pergunta que marca a alma dos judeus emigrados: "O que sou exatamente?" Sem uma resposta, fez da literatura uma forma amorosa de sobrevivência no real.

Autor de mais de 70 livros, entre romances, contos, crônicas e ensaios, Scliar recebeu três vezes o Prêmio Jabuti, a mais tradicional distinção literária do país: em 2009, pelo romance Manual da paixão solitária (eleito melhor romance e melhor livro de ficção daquele ano); em 1993, pelo romance Sonhos tropicais; e em 1988, pelo volume de contos O olho enigmático. Pelos contos de A orelha de Van Gogh, ganhou o prestigioso prêmio Casa de Las Americas em 1989. Também recebeu o Prêmio José Lins do Rego, da Academia Brasileira de Letras, pelo romance A Majestade do Xingu, em 1998, entre outras honrarias.

Scliar morreu ontem [domingo, 27/2], aos 73 anos, depois de sofrer um acidente vascular cerebral isquêmico no dia 16 de janeiro. Ele estava internado no Hospital de Clínicas de Porto Alegre e sofreu o AVC durante uma cirurgia para a retirada de pólipos – espécie de tumores benignos – do intestino. No dia 17, Scliar foi submetido a uma cirurgia no cérebro e passou alguns dias sedado, respirando com a ajuda de aparelhos. Ele deixa a mulher, Judith, e um filho, o fotógrafo Beto Scliar.

Musa Nerd

Autora de "As Teorias Selvagens" , que sai no Brasil, Pola Oloixarac surge como sensação da Flip


Fotos Eduardo Knapp/Folhapress

A escritora Pola Oloixarac, em sua casa, em Bariloche

FABIO VICTOR
ENVIADO ESPECIAL A BARILOCHE

Pola é argentina, filósofa, inteligente e bonita. Tem um blog sobre orquídeas. Seu primeiro romance, publicado quando ela tinha 31 anos, despertou amor e ódio na Argentina e foi aclamado na Espanha. Ela agora tem 33.
Pola é uma nerd assumida, vive entre hackers e escreve artigos sobre tecnologia. Pola surfa. Canta num dueto que musica poemas de uma duquesa do século 17.
Citando Alexandre Kojève, define-se politicamente como "marxista de direita".
Pola pinta as unhas de azul e mora numa casa de cinema em Bariloche. Gosta de escrever em inglês, alegando que é um idioma mais conciso que o espanhol. Parece tipo, mas compõe à perfeição a persona literária interessantíssima que ela se esforça para compor, embora nem precisasse, porque de fato é.
Pola Oloixarac, em suma, tem tudo para causar sensação na próxima Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, de 6 a 10 de julho, para qual já confirmou presença.
A obra que a lançou ao mundo e foi a senha para que ela integrasse uma antologia dos melhores novos ficcionistas de língua espanhola da revista britânica "Granta" chama-se "As Teorias Selvagens" e sairá no Brasil no final deste mês pelo selo Benvirá, da editora Saraiva.
É uma bem construída gozação sobre o "mise-en-scène" ridículo de certo mundo acadêmico e político portenho, aqui situado na Faculdade de Filosofia de Buenos Aires, onde Pola estudou. A narradora é uma aluna que tenta seduzir um velho professor renovando uma teoria já usurpada por ele a um (ficcional) antropólogo holandês, segundo a qual "a presa é a causa do homem".
O romance também corrói a esquerda argentina refém ideológica dos anos de chumbo da ditadura.
E é, ao mesmo tempo, a crônica de um casal de nerds feios que, mais evoluídos que os pais esquerdistas, agora fazem ciberguerrilha (hackeando o Google Earth e reduzindo a "guerra suja" da ditadura argentina literalmente a um game, o Dirty War 1975) e curtem orgias -gravadas no celular e jogadas na internet- em festas regadas a quetamina (anestésico para animais).

LEBRES
A Folha esteve com Pola na sua casa de Bariloche, com vista deslumbrante para o lago Nahuel Huapi e as montanhas do parque nacional homônimo. Fica num condomínio fechado, cercado de pinheiros, ciprestes e macieiras, onde lebres selvagens saltitam nos gramados.
Ela mora há duas semanas na casa com o marido, Emiliano, autodefinido "fanático high-tech", e com os amigos que quiserem chegar.
O casal veio de um período de seis meses nos EUA, onde Pola deu conferências nas universidades Harvard, Columbia e de Iowa, San Francisco e Flórida.
Alugaram a casa no lago, conta, porque ela "queria fazer como o personagem de Stephen King em "Misery': morar na montanha, escrever e fazer snowboard quando a neve chegar". Aproveitará para dar aulas de escrita criativa a engenheiros nucleares do centro nacional de energia atômica da cidade.
Na semana passada estava hospedado na casa um amigo hacker, dedicado a invadir o e-mail de uma garota desaparecida em Buenos Aires, a pedido da mãe dela.
Outro dia apareceu no blog de Pola um post em que ela dizia ser um homem (havia uma foto dele), mas incorporara aquela mulher bonita (foto dela) só para promover seu livro no Brasil.
"Se você for mulher, eu poderei deixá-la chupar o meu impressionante e belo pau (se for homem, pode chupar também, não me importo)", estava escrito. O post sumiu depois de alguns minutos (depois reapareceu resumido). Pola disse que foi brincadeira de um amigo.

COMÉDIA
Pola define "As Teorias Selvagens" como uma "comédia sobre os jogos tecnológicos e sexuais da juventude contemporânea".
O escritor Ricardo Piglia a saudou como "o grande acontecimento da nova narrativa argentina".
Para a ensaísta Beatriz Sarlo -que Pola abordou num hotel em Salvador em meio a um temporal e lhe pediu para ler o livro- é um "tratado de microetnografia cultural".
Em sua resenha do livro, Sarlo usou adjetivos como "inteligente" e "exuberante", mas também fez reparos à intertextualidade forjada em tempos de Google, que no livro se reflete no acúmulo de citações e referências.
Pelas páginas desfilam Montaigne (a gatinha da narradora), Hobbes (seu mentor filosófico), Kant, Clausewitz, Plutarco, Platão, Leibniz (seriam necessários parágrafos para citar todos).
É um dos motivos que fez do livro muito falado entre escritores e intelectuais, mas pouco vendido na Argentina. Pola informa que foram 3.000 cópias, um crítico diz que não chegou a 2.000.
"As Teorias..." evocam o francês Michel Houellebecq, de quem Pola admite influência. Mas ela diz que gosta mesmo é do alemão Peter Sloterdijk e que as maiores influências foram "Fogo Pálido" e "Lolita", de Nabokov.
Pola começou a escrever o livro em 2005, estimulada pela escritora americana Maxine Swann, sua melhor amiga, que a fez ver que "o mundo das ideias não está separado do mundo da diversão".
Filha de um engenheiro naval com uma psicóloga forense, escreveu o primeiro romance aos oito anos. Tem outros quatro engavetados.
Antes de filosofia, estudou medicina.
Embora se diga uma "tímida evoluída", é louca por moda e posa para retratos como garotinha, mulher fatal ou pin-up. É mais exuberante em fotos que pessoalmente.
Do Brasil, diz que gosta dos "garotos" e do óleo de amêndoas Muriel.


RAIO-X
POLA OLOIXARAC

LABORATÓRIO
Nasceu em Buenos Aires em 1977. Formou-se em filosofia. Foi tradutora e roteirista

"AS TEORIAS SELVAGENS"
Elogiado na Argentina, onde foi lançado no fim de 2008, e na Espanha, sai neste ano no Brasil (Benvirá), na França, na Itália e na Holanda, entre outros

EFEITO
Integrou em 2010 antologia da "Granta" com os melhores novos ficcionistas em espanhol

"Inside Job", documentário imperdível - Luiz Gonzaga Belluzzo

O sempre instigante Eu& Fim de Semana publicado nas edições de sexta-feira do Valor, ofereceu a seus leitores uma entrevista do economista Lawrence Summers. Summers, entre outras proezas, ficou conhecido por declarações polêmicas. Recomendou o incentivo à deslocalização de indústrias poluidoras para os países da periferia. Reitor de Harvard, Summers decretou a incapacidade da inteligência feminina em lidar com as complexidades das "hard sciences".

Observei Summers no café do pavilhão onde se realizava a reunião do Fórum Mundial Davos, em 1993. Entre um gole de café e outro, Summers iniciou um sermão aos circunstantes sobre políticas econômicas nos países em desenvolvimento. As lições de Summers sucederam uma tertúlia sobre a economia mexicana que, segundo os participantes da mesa, navegava de velas enfunadas rumo à prosperidade. Não faltaram reverências e salamaleques ao então presidente Salinas de Gortari e a seu ministro da Fazenda, Pedro Aspe.

Sentados na plateia, o professor Carlos Antonio Rocca e este locutor que vos fala, entre estarrecidos e irritados, ouvíamos os julgamentos peremptórios que fluiam do debate entre os sabidos da academia e financistas mais sabidos ainda. As opiniões iam da celebração incondicional do modelo mexicano às referências derrisórias ao Brasil. Digo estarrecidos porque, naquele momento, o México apresentava um déficit em transações correntes de 8% do Produto Interno Bruto (PIB), déficit fiscal elevado e a dolarização galopante de sua dívida interna, infestestada de Tesobonos.

Em dezembro de 1994, o México quebrou vítima de uma "parada súbita" e só sobreviveu com o socorro do Tesouro Americano e do Fundo Monetário Internacional (FMI), providência destinada a salvar os bancos de Tio Sam. Summers, então subsecretário do Tesouro de Clinton capitaneou a operação de salvamento.

Não havia como escapar da impressão de que Summers era encarnação mais acabada do personagem de Molière, o "idiot savant", cheio de si, como tantos outros que se abrigam sob o manto hoje prestigioso dos estudos da economia. (Evito a expressão ciência econômica para evitar que o ego já inflado dos sabichões sofra um processo fatal de inchaço e implosão).

Pois Summers é um dos personagens centrais do imperdível documentário "Inside Job" de Charles Ferguson que, na madrugada de ontem, levou o Oscar na sua categoria. O título do filme foi traduzido para o português como "Trabalhos Internos" - é lamentável a falta de imaginação do tradutor, que provavelmente não viu o filme. "Inside Job" é uma expressão idiomática. Um amigo, mais versado do que eu no idioma de Shakespeare, sugeriu "Trabalhos Promíscuos".

O documentário mostra que Summers faturou uma nota preta ao ministrar palestras remuneradas pelos senhores do Universo sobre as maravilhas da desregulamentação financeira. Entre suas idas e vindas ao governo, dedicava-se a assessorar instituições financeiras mediante farta remuneração. Não sei se ele está no rol de 19 economistas investigados no estudo do seu colega Gerald Epstein, da Universidade de Massachusetts Amherst.

O estudo trata do conflito de interesses entre a atividade acadêmica, a ocupação de funções no Estado e as atividades de consultoria, quando os personagens não advertem a opinião pública a respeito de suas ocupações e pertinências. Essa confusão de papéis está gerando um movimento entre os economistas americanos para a adoção de um código de ética.

Não se trata de limitar as atividades profissionais dos economistas, mas sim de tornar claro ao público que as opiniões podem estar viciadas e deformadas pela infiltração de interesses estranhos à independência acadêmica e à função pública.

Enquanto secretário do Tesouro de Clinton, Lawrence Summers trabalhou intensamente para a aprovação no Congresso dos Estados Unidos do Gramm-Leach-Bliley Act. Essa lei derrotou a legislação dos anos 1930, o Glass-Steagal Act, que separava os bancos de depósito, os bancos de investimento, seguradoras e instituições voltadas para o financiamento imobiliário e "fundeadas" na poupança das famílias.

Os mercados financeiros contemporâneos lograram capturar os controles da economia e do Estado, mediante o incrível aumento do seu poder social e político. As transformações ocorridas no sistema financeiro desataram a livre e brutal concorrência no capitalismo da grande empresa e das grandes instituições financeiras.

A expressão grande demais para falir esconde mais do que revela. Nos últimos anos, a securitização e a alavancagem construíram uma teia de relações de débito e crédito entre as grandes instituições espalhadas pelo mundo. Os bancos de investimento e os demais bancos sombra aproximaram-se das funções monetárias dos bancos comerciais, abastecendo seus passivos nos "mercados atacadistas de dinheiro" ("wholesale money markets"), amparados nas aplicações de curto prazo de empresas e famílias. Não por acaso, a dívida intrafinanceira como proporção do PIB americano cresceu mais rapidamente do que o endividamento das famílias e das empresas. Esse fenômeno corresponde ao controle da riqueza social pelas instituições privadas, o que torna impossível a omissão dos bancos centrais quando um elo da cadeia se rompe.

O depoimento mais constrangedor, entre tantos de "Inside Job", é prestado pelo economista Frederick Mishkin. Ex-membro do Federal Reserve, Mishkin não consegue explicar porque às vésperas do colapso dos bancos da Islândia produziu um relatório que assegurava a estabilidade do sistema financeiro do país, mediante o estipêndio de US$ 124 mil.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp.