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domingo, 11 de março de 2012

Josué Gomes da Silva - Sem P&D não há futuro

Num cenário mundial de crise, em que o crescimento do consumo aguça o apetite dos competidores internacionais pelo nosso mercado, a perda de competitividade da indústria é um tema presente e preocupante.

Enfrentamos práticas legalmente questionáveis e desleais de países que colocam suas mercadorias a preços artificiais. O tsunami de dólares, cujo epicentro é a expansão monetária nos países desenvolvidos, atraído por nossas generosas taxas de juros, contribui para sobrevalorizar o câmbio, agravando o quadro e somando-se ao custo Brasil.

Por outro lado, em um hercúleo esforço para aumentar sua competitividade, nossa indústria tem aportado crescentes recursos no desenvolvimento de novas tecnologias e na capacitação de recursos humanos. Mas poderia investir muito mais em pesquisas, inovação e ciência, se não fossem os ônus trazidos por carga tributária, juros, infraestrutura cara e precária e demais ineficiências da economia.

É urgente e imperiosa a solução para tais gargalos. Uma vez implementada, criará condições isonômicas de competição para nossas empresas. Mas o que garantirá a competitividade futura da indústria será o investimento em P&D (pesquisa e desenvolvimento).

Felizmente, surge uma possibilidade de incremento: a iniciativa conjunta do governo e da CNI (Confederação Nacional da Indústria) para criar a Embrapi (Empresa Brasileira de Pesquisas Industriais).
Com baixo custo para o Estado, expressiva participação do universo corporativo e somando visão empresarial e espírito da academia, a organização deverá tornar-se legítima e ser importante parceria público-privada no aproveitamento das estruturas de pesquisa, inovação e desenvolvimento dos diversos segmentos do setor manufatureiro.

Ótimo pressuposto para acreditarmos no seu sucesso é a existência da vitoriosa Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que promoveu uma revolução de produtividade e avanço do agronegócio brasileiro, contribuindo para que ele se tornasse um dos grandes pilares da economia e fosse responsável, ao lado das commodities minerais, pelo superavit comercial. Esperamos que a Embrapi faça pela indústria o mesmo que a bem-sucedida Embrapa fez pelo agronegócio.

A criação da Embrapi, na sequência da instituição do programa Ciência sem Fronteiras, poderá dar musculatura para o Brasil em P&D. As metas desse programa de concessão, até 2014, de milhares de bolsas de estudo em boas universidades internacionais para pesquisadores e estudantes de nível médio deverão garantir recursos humanos aos centros de pesquisa do país e tornar a inovação o grande diferencial competitivo do Brasil.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Roberto Lobo - Os foguetes ainda são newtonianos

Ao contrário das afirmações sensacionalistas, Newton e Einstein não estavam errados; as novas descobertas da física só são observadas em escalas extremas


Se eu me apoiar em uma parede, eu vou pressioná-la, e ela vai reagir fazendo uma força igual e oposta à força que eu fazia sobre ela. É isso que me impede de cair. Trata-se da terceira lei de Newton, que aprendemos na escola.

Se confirmada a experiência de que os neutrinos podem viajar a uma velocidade superior à da luz, a terceira lei de Newton deixará de ser verdadeira? Deixará de ser válida qualquer outra lei conhecida e de uso cotidiano?

O que significam manchetes questionando se estamos passando por uma "revolução na ciência" ou se "Einstein estava errado"?

As profundas mudanças ocorridas na ciência no último século se referem a fenômenos que, em sua quase totalidade, só são observáveis em escalas microscópicas, a enormes distâncias ou a grandes velocidades. Eles não são observáveis sem equipamentos modernos muito especiais.

Os resultados da lei da gravidade, por exemplo, só se modificaram com as novas descobertas para distâncias astronômicas.

Um exemplo é a órbita de Mercúrio ao redor do Sol. Ela não é exatamente periódica, em razão da atração de outros astros (fenômeno que já era conhecido antes de Einstein), que faz com que o ponto de maior aproximação do planeta com o Sol se desloque a cada rotação.

No entanto, os cálculos da época não coincidiam com as medições, havendo uma diferença de 1% entre eles. Quando foi aplicada a relatividade geral de Einstein, tornou-se possível corrigir os cálculos anteriores em 25 milionésimos de grau por rotação (e uma volta tem 360 graus!), fazendo teoria e experiência coincidirem.

A relatividade restrita de Einstein também só modifica as leis de Newton para velocidades próximas à velocidade da luz.

Por exemplo: a estrela mais perto de nós, a Próxima da constelação do Centauro, está a cerca de quatro anos-luz, que é a distância que a luz percorre em quatro anos.

Um foguete que viajasse a uma velocidade de 10 mil quilômetros por hora (mais de dez vezes a velocidade de um Airbus) levaria 400 mil anos para chegar à estrela Próxima. Por isso, até nossos foguetes ainda são newtonianos!

O desenvolvimento da tecnologia permite medidas muito mais refinadas e tem trazido desafios à ciência, pois fenômenos que antes eram inobserváveis nem sempre estão de acordo com as previsões teóricas baseadas em experiências menos extremas. Novas teorias são necessárias para explicá-los.

No entanto, elas só alteram os resultados nesses limites, sendo esse, aliás, um dos critérios de consistência para essas novas teorias. Ou seja, aquém desses limites as novas teorias devem reproduzir os resultados das observações clássicas.

É por isso que tudo que Einstein provou continuará válido para situações em que a relatividade é necessária, seja qual for o resultado da experiência com os neutrinos.

Afirmações sensacionalistas sobre as novas descobertas não ajudam a sociedade a compreender a evolução da ciência. Essa evolução, ao contrário do que parece, é fortalecida quando surgem novas descobertas, pois elas ampliam os limites de compreensão da natureza.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Nonita - UMBERTO ECO

Imaginação


PROSA, POESIA E TRADUÇÃO



Nonita UMBERTO ECO


tradução JOANA ANGÉLICA D'AVILA MELO


Nonita. Flor da minha adolescência, angústia das minhas noites. Poderei algum dia rever-te? Nonita. Nonita. Nonita. Três sílabas, como uma negação feita de doçura: No. Ni. Ta. Nonita, que eu possa recordar-te até que tua imagem seja treva e teu lugar, sepulcro.Chamo-me Umberto Umberto. Quando ocorreu o fato, eu sucumbia destemidamente ao triunfo da adolescência. No dizer de quem me conheceu, não no de quem me vê agora, leitor, emagrecido nesta cela, com os primeiros sinais de uma barba profética que me endurece as faces, no dizer de quem me conheceu então, eu era um efebo valente, com aquela sombra de melancolia que creio dever aos cromossomos meridionais de um ascendente calabrês. As jovenzinhas que conheci me cobiçavam com toda a violência de seus úteros em flor, fazendo de mim a telúrica angústia de suas noites. Das donzelas que conheci pouco recordo, porque era presa atroz de bem diferente paixão, e meus olhos mal afloravam as faces delas, douradas na contraluz por uma sedosa e transparente pelugem.Eu amava, amigo leitor, e com a loucura dos meus anos solertes, amava aquelas a quem chamarias, com alheado torpor, "as velhas". Do mais profundo emaranhado das minhas fibras imberbes, desejava aquelas criaturas já marcadas pelos rigores de uma idade implacável, dobradas pelo ritmo fatal dos 80 anos, minadas atrozmente pelo fantasma desejável da senescência.Para designar estas últimas, desconhecidas da maioria, esquecidas pela indiferença lúbrica dos habituais "usagers" de rijas friulanas de 25 anos, adotarei, leitor -oprimido também nisto pelas regurgitações de uma impetuosa sabedoria que me aterroriza todo gesto de inocência que por acaso eu tente-, um termo que espero seja exato: parquetas.O que dizer, vós que me julgais ("toi, hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère!"), da matutina presa que se oferece no palude deste nosso mundo subterrâneo ao calidíssimo amador de parquetas! Vós que correis pelos jardins vespertinos à caça banal de jovenzinhas mal tumescentes, o que sabeis da caça silente, umbrátil, casquinante, que o amador de parquetas pode conduzir sobre os bancos dos velhos jardins, na sombra odorosa das basílicas, pelas trilhas saibrosas dos cemitérios suburbanos, à hora dominical na esquina dos asilos, às portas dos abrigos noturnos, nas fileiras salmodiantes das procissões do padroeiro, nas pescarias beneficentes, em uma amorosa, cerradíssima e, ai de mim, inexoravelmente casta emboscada, para espreitar de perto aqueles rostos escavados por vulcânicas rugas, aquelas olheiras aquosas de catarata, o vibrátil movimento dos lábios crestados, recolhidos no delicioso afundamento de uma boca desdentada, às vezes sulcados por um filete luzidio de êxtase salivar, aquelas mãos triunfantes de nódulos, nervosas, lúbrica e provocantemente tremulantes ao desfiarem um lentíssimo rosário!Poderei jamais participar-te, amigo leitor, o langor desesperado daquelas fugidias presas dos olhos, o frêmito espasmódico de certos contatos ligeiríssimos, um golpe de cotovelo na tropelia do bonde ("Desculpe, senhora, quer sentar-se?" Oh, satânico amigo, como ousavas recolher o úmido olhar de reconhecimento e o "Obrigada, meu bom jovem", tu que gostarias de encenar ali mesmo tua báquica comédia da posse?), o roçar de tua panturrilha contra um joelho, venerando, ao te esgueirares entre duas fileiras de assentos na solidão vespertina de um cinema de bairro, o apertar com ternura contida -esporádico momento do mais extremo contato!- o braço ossudo de uma anciã que eu ajudava a atravessar no semáforo com ar contrito de jovem explorador!As vicissitudes da minha irreverente idade me induziam a outros encontros. Já o disse, eu parecia bem fascinante, com minhas bochechas morenas e um rosto terno de mocinha oprimida por uma suave virilidade.Não ignorei o amor de adolescentes, mas o sofri, como um pedágio às razões da idade. Recordo um entardecer de maio, pouco antes do ocaso, quando no jardim de uma "villa" fidalga -era no Varesotto, não longe do lago avermelhado pelo sol que descambava- jazi à sombra de uma touceira com uma menina de 16 anos, implume, coberta de sardas, tomada por um ímpeto de amorosos sentidos verdadeiramente desalentador.E foi naquele instante, enquanto lhe concedia apaticamente o ambicionado caduceu da minha púbere taumaturgia, que vi, leitor, quase adivinhei, em uma janela do primeiro andar, a silhueta de uma decrépita nutriz dobrada curvamente em duas enquanto desenrolava ao longo da perna o amontoado informe de uma meia preta de algodão.A visão fulgurante daquele membro inchado, marcado por varizes, acariciado pelo movimento inábil das velhas mãos entretidas em desenovelar a peça de roupa, pareceu-me (olhos meus concupiscentes!) como um atroz e invejável símbolo fálico afagado por um gesto virginal: e foi nesse instante que, tomado por um êxtase robustecido pela distância, explodi estertorando numa efusão de biológicos consensos, que a donzela (irrefletida fedelha, quanto te odiei!) recolheu gemebunda, como um tributo aos próprios fascínios ainda verdes.Terás compreendido algum dia, meu néscio instrumento de diferida paixão, que desfrutaste do alimento de uma mesa alheia, ou a obtusa vaidade dos teus anos incompletos apresentou-me a ti como um fogoso, inesquecível, pecaminoso cúmplice?Tendo partido com a família no dia seguinte, uma semana depois me enviaste um cartão assinado como "tua velha amiga". Intuíste a verdade, revelando-me tua perspicácia no uso acurado daquele adjetivo, ou apenas cometeste a giriesca bravata de uma secundarista em guerra com as filológicas boas maneiras epistolares?Desde então, como fitei trêmulo toda janela, na esperança de ver aparecer ali a "silhouette" desenfaixada de uma octogenária no banho! Em quantos serões, semiescondido por uma árvore, consumei meus solitários deboches, com o olhar voltado para a sombra, perfilada atrás de uma cortina, de uma anciã suavissimamente concentrada em um repasto ruminante! E a decepção horrenda, súbita e fulminante ("tiens donc, le salaud!"), da figura que se subtrai à mentira das sombras chinesas e se revela ao peitoril como aquilo que é, uma desnuda bailarina de seios túrgidos e ancas ambarinas de potranca andaluza! Assim, durante meses e anos corri insaciado à caça iludida de adoráveis parquetas, voltado para uma procura que, eu sei, extraía sua indestrutível origem do momento em que eu nasci, e uma velha e desdentada parteira -infrutífera busca do meu pai, que àquela hora da noite não conseguiu encontrar nenhuma outra além daquela, um pé à beira da sepultura!- me subtraiu ao viscoso cativeiro do ventre materno e me mostrou à luz da vida seu rosto imortal de "jeune parque".Não procuro justificações para vós que me ledes ("à la guerre comme à la guerre"), mas quero ao menos explicar-vos quão fatal foi a combinação de eventos que me levou àquela vitória.A festa à qual eu havia sido convidado era uma deprimente petting party de jovens manequins e universitárias impúberes. A flexuosa luxúria daquelas jovenzinhas excitadas, o negligente oferecimento de seus seios por uma blusa desabotoada no ímpeto de uma figura de dança me repugnavam.Eu já pensava em deixar correndo aquele lugar de banal comércio de virilhas ainda intactas, quando um som agudíssimo, quase estrídulo (e porventura poderei exprimir a frequência vertiginosa, a rouca degradação das cordas vocais já exauridas, "l'allure suprême de ce cri centenaire?"), um trêmulo lamento de fêmea velhíssima mergulhou a reunião no silêncio.E, na moldura da porta, eu a vi, o rosto da longínqua parca do choque pré-natal, marcado pelo entusiasmo escorrido da cabeleira encanecidamente lasciva, o corpo engelhado que marcava com ângulos agudos o tecido do vestidinho preto e liso, as pernas já débeis dobradas inexoravelmente em arco, a linha frágil do fêmur vulnerável desenhada sob o pudor antigo da saia veneranda.A insípida jovenzinha que nos recebia ostentou um gesto de enfadada cortesia. Ergueu os olhos para o céu e disse: "É minha nonna, minha avó"...


SOBRE O TEXTO Trecho de "Nonita", que integra os "Diários Mínimos", coletâneas de paródias e pastiches intelectuais que ganham nova edição pela Record em maio. Leia o texto completo, com informações do autor sobre em que condições os manuscritos fictícios de "Nonita" teriam sido localizados, em folha.com.br/ilustrissima.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Elio Gaspari - Já foi tarde

Se Deus é comunista, entrega a Coreia do Norte a um condomínio da ditadura de Pequim com dinheiro de Seul


Poucas vezes na história viu-se de forma tão direta e fotográfica o legado de um governante. É o buraco negro registrado pelos satélites que passam sobre o apagão da Coreia do Norte deixada por Kim Jong-il, o "Sol do Futuro Comunista", o "Comandante Invencível". Um apagão elétrico, social, político e econômico.

É com esse apagão que a jornalista americana Barbara Demick começa seu livro "Nothing to Envy" ("Nada a Invejar - Vidas Comuns na Coreia do Norte"). Ela foi correspondente do "Los Angeles Times" em Seul e, durante sete anos, entrevistou coreanos que fugiram da tirania de Kim Jong-il, que foi-se embora no domingo. Quando o "Querido Líder" nasceu, uma estrela brilhou no céu e dois arco-íris enfeitaram o dia. Sucedeu ao pai, o "Grande Marechal", e passou o poder ao filho.

Como sucedeu em 1994, quando o coração matou Kim Il-sung, o "Divino Guardião do Planeta", torce-se pela desagregação do regime que aprisiona 23 milhões de pessoas, dando-lhes fome, miséria e brutalidade.
Barbara Demick escreveu sobre uma tirania depois de um século varrido pelo Holocausto e pelo Gulag, quando seria possível pensar que já se viu de tudo. O que há de terrível no retrato da Coreia do Norte é que ele surpreende o leitor. Quando se acha que a vida de um povo não pode piorar, ela piora, envergonhando a época em que se vive.

Em 1945, a península coreana foi dividida entre duas ditaduras. A do Norte, comunista e rica. A do Sul, capitalista e pobre. Nos anos 60, quando se falava em "Milagre Coreano", o tema era a supremacia socialista. Em 1970, todos os vilarejos do país tinham eletricidade. Passou-se uma geração, o Sul tem uma democracia e o Norte tem uma tirania enlouquecida, que mais se parece com a Spectre do romance de Ian Fleming do que com um Estado. Em apenas quatro anos, entre 1991 e 1995, a renda per capita da população caiu de US$ 2.460 para US$ 719. O regime vive do socorro cúmplice da China.

Falta eletricidade, mas as 34 mil estátuas do "Pai da Pátria Socialista" são iluminadas mesmo de dia.
A professora Mi-Ran conta que via alunos de cinco ou seis anos morrerem de fome nas salas de aula. Sua turma de jardim de infância de 50 alunos caiu para 15.

Nas casas desse paraíso, uma parede da sala deve ser reservada para o retrato do Líder, que é distribuído com um pano. Fiscais zelam para que nenhuma família deixe de limpá-lo.

A fome dos anos 90 matou entre 600 mil e 2 milhões de coreanos do norte. Em algumas cidades morreram dois em cada dez habitantes. Um médico conta que ensinou mães a ferver demoradamente a sopa de capim. A certa altura, as famílias preferiam que as crianças morressem de fome em casa, porque nos hospitais, onde não havia remédio, faltava também comida.

Nessa época o governo informou que racionara alimentos porque o povo da Coreia do Sul estava passando fome e precisava ser ajudado.

Ninguém comemora aniversário na Coreia do Norte. Festeja-se apenas um dia: o do nascimento do Líder.
Kim Jong-Il, com seus sapatos-plataforma, já foi tarde. Se Deus é comunista, o filho do Líder entrega o campo de concentração a um condomínio da China com a Coreia do Sul.

Serviço: "Nothing to Envy" está na rede por US$ 9,99.