terça-feira, 3 de maio de 2011

Rapidez digital e tradição jornalística

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 3/5/2011

O Twitter foi o grande "vencedor" na cobertura da mídia sobre a morte de Osama bin Laden. A notícia vazou pela rede social (mesmo sem confirmação) no domingo (1/5) e chegou ao público antes das publicações da mídia tradicional. No dia seguinte, outro ponto para o Twitter: já havia sido publicado em quase todo mundo que a primeira nota no microblog veio do paquistanês Sohaib Athar, um consultor de informática de 33 anos, que informou voo anormal de helicóptero, seguido de explosão, em Abbottabad (Paquistão), conforme a notícia publicada no Último Segundo no mesmo dia. O técnico paquistanês, entretanto, não sabia que se tratava da morte de Osama bin Laden.

Mas informar antes (e sem confirmação) não quer dizer informar melhor. A informação do paquistanês foi inconsciente. E o "vazamento" da informação da morte de Bin Laden não passaria de mais uma nota curta do Twitter, se não tivesse sido antes capturada por um repórter do New York Times. Em outras palavras, a notícia vazou para as mãos de um repórter especializado em mídia digital: este foi o grande diferencial na cobertura de mídia daquela noite, e que favoreceu o jornal de Nova York.

Naquele momento, o New York Times tinha o homem certo, na hora certa: um jornalista viciado em Twitter... Um sujeito que reclama quando "perde" 20 minutos fora do microblog. O periódico nova-iorquino, então, com essa vantagem nas mãos, fez uma ágil e excelente cobertura do evento, sem esquecer em nenhum momento o papel fundamental que o Twitter teve no tenso desenrolar da cobertura da mídia sobre a morte do terrorista.

O anúncio oficial

No dia primeiro de maio, às 10h49, horário do leste dos Estados Unidos, o Huffington Post noticiou a morte de Bin Laden. The New York Times postou sua notícia ("Como o anúncio de Bin Laden Vazou" – "How The Osama Bin Laden Announcement Leaked Out") um pouco mais tarde, às 11h28, mas o fez de forma muito mais completa, estabelecendo a cronologia inicial dos primeiros momentos da cobertura, incluindo aí as informações que vieram pela rede social, desde os primeiros tweets entre membros da comunicação social do governo americano até a cobertura nacional das grandes redes de TV americanas. Vejamos mais de perto a evolução dos acontecimentos, segundo a ordem temporal do New York Times:

** "O anúncio curto veio logo depois das 21h45, de Dan Pfeiffer, o diretor de Comunicações da Casa Branca. ‘POTUS (codinome do presidente dos Estados Unidos) vai falar à nação hoje à noite as 10h30, hora local’, ele escreveu no Twitter, compartilhando a mesma mensagem transmitida à equipe de imprensa da Casa Branca;

** "De acordo com Brian Williams, o âncora do NBC Nightly News, alguns jornalistas receberam e-mails com apenas três palavras: ‘Go to work’ (Vá trabalhar);

** "Âncoras e editores de jornais não sabiam com certeza que o presidente estaria comunicando a nação a morte do homem mais odiado na América. Mas repórteres de Washington intuíram rapidamente que poderia ser sobre Osama bin Laden;

** "A especulação não foi ao ar imediatamente, mas às 10h25 surgiu uma nota no Twitter que trazia bastante confiabilidade: fora postada por Keith Urbahn, ex-chefe de pessoal do ex-secretário de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, e dizia: ‘Fui informado por pessoa de reputação que eles mataram Osama bin Laden’. Logo depois, Urbahn acrescentou: ‘Não sei se é verdade, mas vamos rezar para que seja’. O ex-funcionário de Rumsfeld informou, mas não confirmou a notícia. É importante que isso fique claro, aqui;

** "‘Dentro de minutos’, continuou Brian Stelter, o autor da matéria, ‘fontes anônimas do Pentágono e da Casa Branca começaram a contar aos repórteres a mesma informação. ABC, CBS e NBC interromperam a programação pelo país quase ao mesmo tempo, às 10h45.’ O presidente Obama anunciou, então, oficialmente, a morte do odiado inimigo para toda a nação."

Falsa oposição

A esta altura dos acontecimentos, já podíamos ver, nas redes pagas CNN e BBC, aglomerações de populares comemorando o fato (em frente à Casa Branca) com um minicarnaval de bandeiras, hinos e outras manifestações de satisfação do povo americano. Tudo havia sido confirmado: o inimigo público número 1 dos Estados Unidos estava realmente morto.

Certa vez, o jornalista brasileiro Ruy Castro afirmou que "o Twitter não pode produzir conteúdo como faz um periódico convencional. Não pode aprofundar temas, fazer investigações e pesquisas, produzir editoriais ou publicar artigos mais longos, tantas e tantas vezes necessários". Foi uma observação relevante e que agora mostra seu valor. Pois se o Twitter saiu na frente na informação da morte de Bin Laden, o New York Times, além de localizar o tweet original, que trouxe credibilidade à então especulação sobre a morte do terrorista, apresentou uma cobertura que, por razões óbvias, não pode ser feita no Twitter. Ele não foi pensado para isso.

Não se trata de estabelecer uma falsa oposição maniqueísta nova mídia vs. imprensa tradicional. O próprio Stelter (que é repórter de TV e mídia digital do New York Times) faz intenso uso do microblog. Foi lá que ele localizou o tweet original de Keith Urbahn. Seu trabalho, combinando a rapidez do Twitter com a capacidade de aprofundamento do jornal, deixou bem claro a nova gênese da formação e divulgação da notícia no mundo contemporâneo. E a cobertura do New York Times provou que há espaço bastante para a convivência entre a mídia digital imediata e extensa e a cobertura aprofundada e intensa dos jornais tradicionais.

sábado, 30 de abril de 2011

Cidadão Kane: Ainda revolucionário e genial

Murilo da Silva Navarro

70 anos após a sua primeira exibição em maio de 1941, o filme Cidadão Kane, do cineasta norte–americano Orson Welles, ainda fascina diretores de cinema, críticos, escritores e acadêmicos. Em todos esses anos o filme continua exibindo pujança narrativa, originalidade técnica e beleza visual que o mantêm no ápice das listas de filmes mais importantes de todos os tempos.

Quando Orson Welles dirigiu, produziu, protagonizou e foi co-roteirista de Cidadão Kane, ele tinha 25 anos e já havia conquistado fama no rádio. Em 1939 Welles tinha feito história ao transmitir um programa de rádio que simulava a invasão dos Estados Unidos por marcianos. Sua dramatização para A Guerra dos Mundos, de H. G. Welles, foi tão realista que aterrorizou milhares de ouvintes americanos.

A notoriedade adquirida nesse episódio, juntamente com o sucesso obtido pelas adaptações teatrais de peças de Shakespeare, permitiu a Orson Welles conseguir um contrato com o Estúdio Cinematográfico R.K.O, que lhe oferecia condições excepcionais para a época. Nenhum outro diretor tinha até então obtido tamanha liberdade para o desenvolvimento de um filme. A R.K.O concedeu-lhe independência total para formar a equipe técnica do filme. Ele contratou uma equipe de primeira linha, liderada pelo inventivo fotógrafo Gregg Toland. Convidou para o elenco Joseph Cotten e Agnes Moorehead, atores do seu grupo Mercury Theater e a trilha sonora ficou a cargo do genial maestro Bernard Herrmann.

Welles escolheu um tema explosivo: roteirizou, juntamente com Herman J. Mankiewicz, a vida do magnata da mídia William Randolph Hearst, considerado o pai da imprensa sensacionalista na América do Norte.

Mantido em segredo pelos estúdios, o projeto recebeu a denominação de R.K.O 281 (era esse o número do palco do estúdio onde o filme foi rodado no segundo semestre de 1940). Durante as filmagens, Welles manteve-se discreto e reticente a respeito das semelhanças entre seu personagem, Charles Foster Kane, e Hearst, chegando mesmo a vazar para a revista Stage, em dezembro de 1940, uma sinopse sobre o filme, na qual Kane era apresentado como mais uma encenação de Fausto, de Goethe.

Ao descobrir que o filme era baseado em sua vida, Hearst travou uma feroz batalha contra Welles, com o objetivo de destruir o filme. Usou, para isso, seus jornais, revistas e rádios e sua influência em Hollywood. Ameaçou revelar em seus jornais os escândalos da elite de Hollywood caso os negativos do filme não fossem destruídos (um em cada cinco americanos lia os jornais de Hearst).

As pressões do império Hearst logo se estenderam ao resto da indústria do cinema, o que levou Louis B. Mayer, o chefão da Metro, a reunir-se com diretores de outros estúdios e, em seguida, propor a George J. Schaefer (Diretor da R.K.O) a destruição de todas as cópias e do negativo de cidadão Kane, mediante um pagamento que , no mínimo, cobriria o custo total da produção. Schaefer recusou a oferta, aceitando, porém, extrair do filme cenas ou referências diretas a Hearst e sua amante, de comum acordo com Orson Welles.

Após a estréia no R.K.O Palace da Broadway, no dia 1º de maio de 1941, o filme de Welles foi atacado pela mídia controlada por Hearst e teve uma acolhida fria do público, tendo os seus produtores arcado com um prejuízo de US$ 160 milhões. O filme concorreu ao Oscar e foi indicado em nove categorias, mas boicotado, ficou somente com o de melhor roteiro.

Somente com o fim da guerra é que o filme obteve o reconhecimento internacional, através de estudos realizados pelo criador do Cahiers Du Cinema, André Bazin e por críticos e pesquisadores americanos e franceses. A votação, realizada a cada 10 anos pelo British Film Istitute, que desde 1962 elege Cidadão Kane como o filme mais importante de todos os tempos, contribuiu para elevar o filme ao status de obra mais importante da arte cinematográfica americana e marco- zero do Cinema Moderno.

Mesmo com o filme ganhando adeptos ao longo do tempo, um artigo publicado pela crítica de cinema Pauline Keal, em 1971, gerou polêmica ao afirmar que as inovações contidas no roteiro do filme devem-se mais a Mankiewicz do que a Welles. Essa tese tinha muitos furos e foi combatida e refutada por vários historiadores, principalmente pelo crítico e cineasta Peter Bogdanovich. “Sem as mão de Welles o roteiro de Mankiewicz tornar-se-ia um emaranhado de situações”, afirma Bogdanovich.

A história do cinema mostrou que a obra prima de Welles foi um hiato fundamental que gerou vocações de futuros diretores de cinema, impôs soluções de mise-en-scène até então inéditas e ainda hoje é um ponto de referência na arte cinematográfica.

Cidadão Kane sobreviveu a todas as dificuldades e mantém o frescor revolucionário e contemporâneo de sua linguagem. Influenciou cineastas como Stanley Kubrick, Martin Scorsese, David Lean e Wood Allen (que o homenageou no filme Zelig -1983). O diretor francês François Truffaut era seu admirador. “Nenhum outro filme estimulou tantos jovens a virar cineastas”, escreveu e resumiu o filme como sendo “um hino à juventude e uma meditação sobre a velhice, um ensaio sobre a vaidade e um poema sobre a decrepitude.”

Outra curiosidade no filme é que a história do personagem Charles Foster Kane guarda semelhanças também com dois outros magnatas da comunicação.. Silvio Berlusconi na Itália e Roberto Marinho no Brasil, que inclusive ganhou um documentário produzido pela BBC de Londres intitulado “Beyond Citizen Kane”

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PASQUALE CIPRO NETO - Foi sem querer querendo

Sugiro ao nobre senador a leitura do capítulo 31 de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" ("A Borboleta Preta")


QUEM NÃO É ESPECIALISTA nos estudos da linguagem talvez não saiba o que é a análise do discurso. Um dos objetivos dessa disciplina, entre outros, é "desvendar" o que está por trás de certas construções linguísticas, enunciados etc.
É claro que há muitos exageros nesse território. Há muitos "doutores" nessa matéria que veem chifres em cabeça de urubu, jacaré, macaco, sapo, barata etc., mas não os veem em cabeça de boi. Nos tristes tempos do (ultrachato e macartista) "politicamente correto", então, é um tal de muito analista do discurso ver "preconceito" em qualquer manifestação. O resultado disso é a "hipocritização" do discurso, tão nefasta quanto o exagero no exercício do "politicamente correto".
Deixemos de lado os exageros e vejamos como o modo de perguntar/dizer algo pode deixar subentendido determinado prejulgamento. Vou dar como exemplo algo que ocorreu comigo há alguns dias, no aeroporto de Confins (MG). Ao fazer o check-in, induzido pela má colocação dos cartazes de separação dos passageiros (quem fez o check-in pela internet e só vai entregar a bagagem, quem não o fez, quem tem o cartão X etc.), entrei na fila errada. Quando percebi, fui para a posição certa (a dos possuidores do cartão X), que ficava ao lado daquela em que eu estava. Não havia ninguém na fila. Como fui recebido pela funcionária? Com uma gentil pergunta: "O senhor furou a fila?".
Sem comentários, não? Achei melhor fingir que não ouvi a pergunta e mostrar logo o tal cartão. A moça empalideceu e me tratou com muita gentileza. Só não pediu desculpas pela gafe. O que a terá levado a fazer-me a tal pergunta? Deixo para você a resposta, caro leitor.
Pois passemos de Confins para Brasília. Você decerto sabe que na última segunda-feira um nobre senador da República sequestrou o gravador de Victor Boiadijan, repórter da Rádio Bandeirantes. Na terça, no plenário, o senador disse, entre outras joias, que sequestrou o gravador para evitar que o repórter editasse a entrevista. Pois bem, caro leitor, o que está por trás do que disse o senador? A clara afirmação (acusação) de que o repórter da Bandeirantes edita entrevistas, ou seja, manipula, monta e remonta o que lhe dizem seus entrevistados.
Isso me lembra a corriqueira história do elevador que demora muito para aparecer. O indivíduo que está no térreo esmurra a porta. Enquanto isso, outro indivíduo, que está no terceiro andar, também espera há algum tempo o elevador, que não se sabe onde está (não há painel indicativo). Finalmente chega o ascensor. O cidadão que está no terceiro andar o toma e desce. Ao chegar ao térreo, é recebido aos berros e insultos por quem lá estava. Pensar dói. O culpado é sempre o outro, o primeiro que aparecer pela frente.
Não é preciso ser doutor em análise do discurso para perceber a inconsistência dos argumentos do senador. O fato é que ele tomou uma atitude violenta e apresentou para seu ato justificativas dignas de torcedores fanáticos, daqueles de torcidas organizadas (Xi! Lá vem o pessoal do politicamente correto dizer que... Dai-me força e paciência, Senhor!), ou seja, justificativas que "justificam" o injustificável. É claro que isso só vale para os próprios atos (para os do outro, não e não).
Do alto da minha insignificância, sugiro ao nobre senador (e a quem mais possa interessar-se) a leitura do genial capítulo 31 de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" ("A Borboleta Preta"), de Mestre Machado de Assis. O percurso dos argumentos que o narrador apresenta para a toalhada que dá na borboleta preta faz do senador um principiante na matéria. Aula das aulas. É isso

CARLOS HEITOR CONY - Tasso da Silveira

RIO DE JANEIRO - Um nome que apareceu na mídia de forma inesperada e dramática. Contudo não li uma única linha na imprensa escrita, nem ouvi, no rádio ou na TV, o mínimo comentário sobre Tasso da Silveira (1895-1968), cujo nome inocente e ilustre foi dado a uma escola em Realengo.
Trata-se de um brilhante intelectual da primeira metade do século passado, sobretudo um professor estimado pelos alunos, além de poeta e ensaísta que marcou uma corrente de origem simbolista, da qual fizeram parte poetas como Cecília Meireles e Murilo Mendes.
O grupo de Tasso da Silveira foi o contraponto literário e espiritual do nativismo dos Andrades, Mário e Oswald.
Ele praticou, segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos, "uma poesia simples, clara, de cunho moral, cheia de espiritualidade e leveza; a nitidez e a religiosidade de seus versos atingem o auge em "O Canto Absoluto", de 1940".
Por ironia do destino, o nome de um homem delicado, marcado pelas coisas do espírito, foi dado a uma escola que serviu de cenário a uma das maiores tragédias da vida nacional, o massacre de 12 crianças em 7 de abril. Ouço comentários de gente ligada ao magistério e às letras sobre a conveniência de se mudar o nome da escola, a fim de que o poeta e professor de tantas gerações não fique associado ao episódio de Realengo.
Aliás, é um problema que caberá às autoridades municipais decidir: se devem manter como escola o prédio manchado por sangue ou se dão ao edifício outro destino que não lembre a chacina de tantas crianças.
O nome de Tasso da Silveira continuará merecendo memória em outro estabelecimento de ensino ou em fundação oficial destinada à educação da juventude, para resgatar a herança que nos deixou um homem que viveu em função do bem e do belo.

Thor | Crítica Cinema | Omelete


Marvel Studios amplia suas fronteiras

Érico Borgo
18 de Abril de 2011

O Marvel Studios continua em Thor (2011) a construção de seu universo adaptado das histórias em quadrinhos nas telas. O grande diferencial do longa-metragem do Deus do Trovão, porém, em tempos em que se procura um suposto "realismo" nas histórias de super-heróis para os cinemas, é a aposta em uma aventura das mais fantasiosas - uma que começa a trazer a essa mídia alguns dos conceitos mais complexos e imaginativos do Universo Marvel.

Até Thor, as produções controladas pela Marvel nos cinemas, os dois Homem de Ferro e O Incrivel Hulk, resumiram-se às aventuras embasadas na ciência. Agora, essa ciência ganha contornos muito mais fantásticos que Raios Gama e Geradores de Arco. O público começa a ser apresentado ao outro lado do Universo Marvel, em que magia e outros planos de existência vão surgindo.

Em Thor, afinal, somos apresentados aos asgardianos, seres imortais de outra dimensão, que, ao revelarem-se aos vikings, foram confundidos com deuses, iniciando a mitologia nórdica. Thor (Chris Hemsworth) é um príncipe desse povo, um jovem impetuoso e tolo, cujas ações desencadeiam uma nova guerra contra os Gigantes do Gelo, liderados pelo Rei Laufey (Colm Feore). Banido para a Terra por seu pai, Odin (Anthony Hopkins), ele precisa aprender lições de humildade se quiser tornar-se digno de brandir novamente sua arma, o martelo Mjolnir, e com ele seu poder imortal.

Toda a construção de Asgard, a morada dos asgardianos, enche os olhos, assim como a cultura desse povo. Figurinos, o design da cidade, a iluminação e as cores, é tudo impressionante - especialmente para quem cresceu lendo as aventuras do Deus do Trovão nas histórias em quadrinhos. Asgard nunca foi tão bem retratada no papel ou fora dele.

A seleção de Hopkins como o "Pai de Todos", Odin, é igualmente acertada. O ator dá enorme peso e nobreza ao personagem. Hemsworth, por sua vez, não compromete (seu peso é outro, em massa muscular). É Tom Hiddleston, o Loki, quem tem qualidade para segurar-se ao lado do oscarizado veterano. O inglês, que já trabalhou com o diretor Kenneth Branagh na série Wallander, divide com Hopkins as melhores cenas do filme, entregando ao cineasta a qualidade "shakespeareana" que o levou a se interessar pela história.

Branagh também aproveita a natureza épica do roteiro para criar batalhas emocionantes, à altura das maiores aventuras do personagem nas páginas dos quadrinhos. O embate de Thor com o Destruidor, por exemplo, é um dos mais empolgantes já mostrados em filmes do gênero.

Os problemas de Thor começam quando a trama, escrita por J. Michael Straczynski e Mark Protosevich, sai do plano de Asgard em direção à Terra. A necessidade de tornar a trama mais palatável ao grande público obriga o roteiro a martelar relacionamentos e situações mais próximas da realidade do espectador. Entra em cena então o núcleo formado por Natalie Portman (Jane Foster), Stellan Skarsgård (Dr. Selvig) e Kat Dennings (Darcy, um forçadíssimo alívio cômico), que servem como a âncora de Thor em nosso mundo. É fato que Natalie Portman é adorável... mas que uma noite de conversa fiada ao lado da fogueira baste para que Thor se apaixone e torne-se um protetor jurado de nosso planeta, à serviço de suas forças governamentais, é mais difícil de acreditar do que um mundo povoado por vikings imortais.

É um vício de roteiro difícil de relevar, por mais que o lado fã fale mais alto e vibre a cada referência e easter egg do Universo Marvel - do outdoor de "Journey Into Mistery" à participação de Jeremy Renner como Gavião Arqueiro, passando pela menção a Bruce Banner e a cena pós-créditos que deixa tudo pronto para o filme d´Os Vingadores. Apoiar-se em Shakespeare teria bastado. Aliás, basta há séculos.

Igualmente estranha é a opção de Branagh de filmar quase tudo no "ângulo holandês". Em linguagem cinematográfica, a inclinação da linha do horizonte é usada para causar desequilibrio e sensação de deslocamento. Mas quando o recurso é usado em excesso, o resultado em certos momentos beira a comicidade. Essa estética, combinada ao 3D, que pouco acrescenta ao filme, tira muito do mérito de Thor.

De qualquer maneira, por ampliar nas telas os limites do Universo Marvel para além da ciência, por deixar de lado o realismo e manter a diversão como foco e por abrir caminho para outras ideias (novamente, fique até o final dos créditos), a "Jornada aos Mistérios" de Thor é obrigatória aos fãs.


Thor | Omelete Entrevista Kenneth Branagh

Diretor fala da escala épica, dos ecos shakespeareanos e do trabalho com a Marvel


Steve Weintraub
27 de Abril de 2011

Embora tenha participado de franquias como Harry Potter e filmes de ação como As Loucas Aventuras de James West, o ator Kenneth Branagh é conhecido no cinema pelas adaptações de clássicos literários, especialmente de peças de William Shakespeare, como as três que ele dirigiu: Henrique V, Muito Barulho por Nada e Hamlet.

Foi com surpresa, portanto, que veio a notícia de que a Marvel queria Branagh para dirigir Thor. A versão para as telas da HQ do Deus do Trovão chega aos cinemas no Brasil nesta sexta, e o irlandês exercita seu lado teatral ao narrar as trágicas intrigas palacianas de Asgard.

Já haviamos conversado com Branagh durante a Comic-Con do ano passado. Agora nosso correspondente em Los Angeles e editor do Collider, Steve Weintraub, fala com o diretor sobre o desafio de levar Thor ao cinema.

Você usou sua formação shakespeareana em Thor?

Thor tem uma escala imensa. Levamos meses - anos - de planejamento nele. Mas o conteúdo combina o que temos nos quadrinhos com histórias bastante pessoais e reconhecíveis, como a temática do pai e filho de Hamlet, por exemplo. Então, neste caso, em que a família em questão é dotada de enorme poder e consequência, quando seus integrantes discutem é o universo que paga o preço. É isso que dá o tom épico do filme. Ao mesmo tempo, eu não queria que os personagens soassem shakespeareanos, queria mostrar que eles ainda são como nós. Especialmente nas cenas intimistas, o desafio foi encontrar um modo de falar que conseguisse cumprir o que eu acho que as pessoas gostam nos quadrinhos, uma certa diferença na maneira de falar, para que você acredite que eles são deuses, são inumanos, mas ao mesmo tempo não fiquem muito shakespereanos. Acho que nós conseguimos capturar muito bem isso.

Um dos grandes problemas em adaptar Shakespeare é que você não pode ligar pra ele pra conversar. [risos] Eu tentei várias vezes e ele não retorna as ligações, não escreve de volta... Já em Thor foi o contrário. Dá pra falar com Stan Lee, com [J. Michael] Straczynski... Existem várias pessoas-chaves nisso tudo que podem te auxiliar. Existe também o extremo entusiasmo das pessoas que estão trabalhando nesse projeto, você sente que eles realmente querem fazer esses filmes e é assim que eu gosto de trabalhar.

Houve grande colaboração com a Marvel então? Como foi?

Há mais ou menos dois anos, eu almocei com Stan Lee, quando começamos a falar sobre Thor. Depois, ele veio ao set e mostrou um grande interesse por tudo. Além dele, também discutimos bastante com outras pessoas de importância na Marvel, com as quais tentamos encontrar um equilíbrio entre o passado - não é por acidente que a Marvel ainda está por aqui, que os quadrinhos deles ainda estão no mercado - e a linguagem do cinema. As versões de Straczynski para as HQs foram um novo marco para o personagem. Ele deu um tratamento imaginativo fantástico para os personagens e as paisagens de Asgard e também para a Terra contemporânea. Eu realmente gostei da natureza colaborativa de todo o projeto. Meu trabalho foi guiar, mover algumas coisas de lugar, mas ao mesmo tempo eu tive que selecionar material de uma enorme variedade de talentos que conhecem essa história muito bem. Essas pessoas têm um conhecimento e um entusiasmo incríveis e gostam desse tipo de desafio. Há muitas maneiras de errar, muitas armadilhas para evitar, o que faz de tudo isso muito interessante e difícil, mas realmente emocionante, mesmo quando você pensa que está chegando perto de acertar.

Como era a atmosfera no set?

Éramos um grupo incrível de pessoas muito animadas e bem motivadas durante as filmagens. Demos muita sorte com os atores também. Todos estavam muito interessados em seus personagens, nos quadrinhos e na história em si. Jamie Alexander, por exemplo, conhecia cada fala e cada cena.

O seu passado em filmes épicos de época, como Henrique V, te ajudou na preparação e no entendimento da escala desse mundo?

Eu acho que sim. Eu fico muito animado quando o assunto é o gênero dos épicos. Eles não me assustam. Eu gosto daquele momento em que você entra em uma sala escura, com centenas de pessoas, em frente a uma tela grande, pronto para aceitar coisas que vão além da realidade. Você está pronto para aceitar um tipo de realidade aumentada que dá uma liberdade catártica; te deixa curtir problemas muito maiores daqueles que qualquer pessoa jamais terá que enfrentar - a não ser que você tente governar nove reinos diferentes através do Cosmo. [risos] Mas, ainda assim, existem os problemas humanos centrais que se mantêm os mesmos.

A escala de Thor foi determinante para a sua aceitação do projeto, então?

Por mais que o tamanho das coisas me atraia, essa atração é só parcial. Há também a preocupação em tornar isso interessante. É claro que nós sempre estamos interessados nas vidas de pessoas grandiosas e o que acontece entre quatro paredes com elas. É como na série The West Wing, que mostra o que acontece nos corredores do poder e como existem "pessoas normais" envolvidas em coisas como inaugurações épicas ou coroações; como essa dinâmica funciona. Eu já tenho prática nisso, nessa fusão de escala, mas isso não torna tudo mais fácil, mas eu acho divertido. É bem legal estar em um mundo onde tudo pode ser discutido de um modo que possa oferecer reflexão mas, no fundo, também oferece entretenimento. Nós fizemos um filme bem divertido e que não insulta o público, mas que também não tenta ser um filme artístico.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Não existíamos e não sabíamos - Arnaldo Jabor

Na revista piauí deste mês, há um artigo seminal de Pérsio Arida, sobre sua participação juvenil na guerrilha urbana. Lá está a análise rara de um prisioneiro torturado sobre a onda revolucionária que pegou nossa geração; lá estão os humanos tremores, a dúvida, o medo, todo o irresistível delírio ideológico e psicológico que insuflou uma geração para sofrimentos e mortes depois de 68. A luta armada foi a consequência da fé que tínhamos antes de 64, influenciados pela guerra fria, Cuba liberada, Vietnã.

A importância que restou de tudo, como Pérsio aponta, foi justamente a "via-crúcis" que tivemos de viver e que, por vias tortas, acabou nos levando à democracia em 85. Historicamente, foi bom.
O golpe militar de 64 aconteceu porque nós não existíamos. Éramos uma ilusão. A esquerda era uma ilusão no Brasil. (Já imagino as "cerdas bravas do javali" se eriçando em alguns cangotes). Mas, existia o quê? Existia uma revolução verbal. A ideologia "revolucionária" era um ensopadinho feito de JK, Marx, Getúlio e sonho. Existia uma ideologia que nos dava a sensação de que o "povo do Brasil marchava conosco", um "wishful thinking" de que éramos o "sal da terra". Havia a crendice de que nossos inimigos estavam todos "fora" de nós, fora do País e das estruturas políticas arcaicas que nos corroem há 400 anos. Existia um "bacalhau português" em nosso discurso, um forte ranço ibérico em nosso aparente "rationale" franco-alemão: o amor ao abstrato, a literatura salvacionista, a busca de um "Uno" totalizante. A população nem sabia que existíamos. Não havia base material, econômica ou armada, "condições objetivas" para qualquer revolução. Por trás de nossas utopias, o Brasil escravista e patriarcal dormia a sono solto, intocado. Éramos uma esquerda imaginária, delegando ao Estado a tarefa de fazer uma revolução contra o Estado. Até nas revoluções precisamos do Governo.
Por baixo dos sonhos juvenis, havia apenas o sindicalismo de pelegos e dependentes do presidente, que deu a grande festa de 13 de março (o comício da Central, com tochas da Petrobrás e clima soviético). Eu estava lá, olhando para Thereza Goulart, linda de vestido azul e coque anos 60 e vendo, depois, com calafrio na espinha, as velas acesas em protesto contra nós em todas as janelas da classe média "reacionária", do Flamengo até Ipanema. Essa era a verdadeira "sociedade civil" que acordava. Hoje, acho que o único cara que sacava a zorra toda era o próprio Jango, mais brasileiro, mais sábio, entre os gritos de Darcy Ribeiro falando do "Brasil, nossa Roma tropical!". Havia uma espécie de "substituição de importações dentro da alma": a crença de que éramos "especiais" e de que podíamos prescindir do mundo real, fazendo uma mutação por vontade mágica. Só analisávamos a realidade "objetiva", quando tínhamos de estar incluídos nela, subjetivamente. Em seu artigo, Pérsio se inclui.
Mas existia o que, então?

Existiam os outros. Os "outros" surgiram do nada. O óbvio de nossa cultura pipocou do "nada" em 64. Fantasmas seculares reviveram. Apareceu uma classe média apavorada e burra, que sempre esteve ali. Surgiu um Exército autoritário e submisso às exigências externas. Ficamos conhecendo a ignorância do povo (que idealizávamos), descobrimos que a resistência reacionária de minhas tias era igual à dos usineiros e banqueiros. Descobrimos a violência repressiva de uma falsa "cordialidade". Descobrimos o óbvio do mundo.

Eu estava dentro da UNE pegando fogo no 1.º de abril e quase morri queimado; mas, senti nesse dia que a vida real começava. A sensação não foi de derrota; foi a de acordar de um sonho para um pesadelo. Um pesadelo feito de milicos grossos, burrice popular e pragmatismo de gringos do "mercado". (Foi inesquecível o surgimento de Castelo Branco, feio como um ET de boné verde, na capa do O Cruzeiro).

Em 64, começara o calvário que nos levou a uma possível maturidade. Despertamos para a bruta mão do "money market", que precisava nos emprestar dinheiro, para que o Estado pós-getulista-verde-oliva avalizasse a instalação das multinacionais aqui. Ou vocês acham que iam nos emprestar US$ 100 bilhões para o Jango fazer a reforma agrária com o Francisco Julião? Aprisionaram-nos para contrairmos a dívida como, 20 anos depois, nos libertaram para pagá-la. Depois de 64 e 68, vimos que a esquerda tinha "princípios" e "fins", mas não tinha "meios".
Nossos paranoicos achavam (e muitos continuam achando) que somos vítimas de uma trama de Washington.

Claro que a CIA armou coisas com direitistas daqui, mas foram apenas os parteiros do desejo material da Produção.

O tempo da ditadura foi um show de materialismo histórico. Mas ibérico não gosta de ver essas coisas. E, logo, tapamos os olhos e nos consideramos as "vítimas", lutando pela "liberdade" formal. E não víamos que a barra-pesada estava entranhada em nossas instituições políticas, assim como não havia ideal democrático nenhum em nossos guerrilheiros. Nessa época, poderíamos ter descoberto que um país sem sociedade organizada morre na praia. E deveríamos ter descoberto que não adianta nada analisar os "erros" de nossa esquerda "revolucionária" como se fossem erros episódicos, veniais. A esquerda no Brasil tem de ser repensada "ab ovo", pois é impossível trancar a complexidade de nossa formação nacional num "pensamento único". Por isso, é desesperante ver gente ainda querendo restaurar ilusões perdidas.

O tempo não para e as forças produtivas do mundo continuarão agindo sobre nossa resistência colonial.

A mutação modernizadora, digital, do mundo nos obriga à democracia. Quando entenderemos que a verdadeira revolução brasileira tem de ser endógena, democrática e que só um choque de capitalismo e de empreendedores livres pode arrasar o "bunker" corrupto, a casamata secular do Estado patrimonialista? Pérsio não morreu e, 20 anos depois, ajudou a acabar com a inflação. Valeu...