sábado, 12 de fevereiro de 2011

Corpo a corpo com a paixão pelo cinema - LUIZ ZANIN ORICCHIO

O historiador e crítico francês Antoine de Baecque, biógrafo de Truffaut e Godard, fala ao Estado sobre seu novo livro, Cinefilia, que trata desse fenômeno cultural renovador da própria arte cinematográfica

O gosto pelo cinema pode se transformar em paixão. Foi o que aconteceu na França dos anos 50 quando a assim chamada sétima arte, impulsionada por esse amor, entrou de vez na cultura francesa - e pela porta da frente. É esse processo que o crítico e historiador Antoine de Baecque descreve em seu belo livro Cinefilia. Nele, De Baecque fala de amor, mas também de rivalidades, combates, táticas e estratégias de dominação, que empolgavam vários grupos de aficionados. Trata de um desses agrupamentos em particular, o dos então jovens críticos François Truffaut, Jean-Luc Godard, Eric Rohmer e Jacques Rivette, reunidos em torno do patriarca André Bazin, cofundador da mitológica revista Cahiers Du Cinéma, em 1951.
Empenhados e agressivos, os chamados "jovens turcos" da crítica parisiense praticavam a sua cinefilia dedicando-se a causas. Elevavam o então menosprezado Hitchcock à condição de gênio enquanto demoliam o cinema francês praticado na época - que ironicamente chamavam de "cinéma de qualité". Foi assim, entre afagos e golpes duros que tomaram o poder nos Cahiers e prepararam terreno para realizar a sua própria concepção de cinema, que desaguaria na nouvelle vague, com influência mundial nos anos 60 e seguintes.
Politicamente à direita, os cinéfilos ignoraram as grandes causas do seu tempo, como a guerra colonial na Argélia. Mas ajudaram a fundar uma nova sensibilidade cinematográfica, na qual a mulher passou a ocupar lugar central. Basta pensar na Brigitte Bardot de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim, e de O Desprezo, de Godard. Corpo novo, livre e seguro de si, que aparecia na tela e anunciava a nova mulher, junto com o novo cinema. "BB foi "adotada" pelos futuros cineastas da nouvelle vague. Veem nela o mundo, pura e simplesmente", diz De Baecque. Atacada pela moral burguesa, Bardot é defendida por Truffaut num artigo na revista Arts: "Os críticos de cinema são misóginos; BB é vítima de uma conspiração", escreve.
Cinefilia tão intensa, combativa e produtiva seria possível ainda hoje ou só é concebível naqueles anos loucos do pós-guerra, do existencialismo e das ilusões perdidas? Leia na entrevista que De Baecque concedeu ao Sabático.

A cinefilia francesa está ligada exclusivamente ao pós-guerra, aos anos 40-60?
Existe uma cinefilia anterior, dos anos 20, muito ativa nos clubes, revistas, sessões de gala, e uma outra posterior, especialmente aquela que renasce com o DVD e depois a internet. O que meu livro quer mostrar é que, sem dúvida, jamais a paixão pelo cinema, a crença colocada nos filmes e naqueles que os produziam, foi tão intensa como naquelas três décadas, de 40, 50 e 60. Nesse período, identificando-se com a geração da nouvelle vague, a cinefilia encontrou seus rituais, suas "igrejinhas", suas personalidades, seus filmes fetiches e suas ideias.

Para que serviu a cinefilia?
A cinefilia conseguiu legitimar o cinema como arte do século 20, recolocá-lo na cultura entendida de modo amplo. Foi Godard que afirmou: "Nós colocamos Hitchcock no seu lugar dentro da história da arte..." Se o cinema é a arte do século é porque os cinéfilos viram nele, com seus olhos, ao mesmo tempo as histórias e a História.

A sua tese é bastante iconoclasta: a cinefilia era de direita?

Para mim, é uma questão de contexto. Alfred Hitchcock, Samuel Fuller, Roberto Rossellini eram cineastas de direita? No contexto da Guerra Fria dos anos 50, defender Hitchcock, Fuller, Rossellini, em nome do estilo e da mise-en-scène, significava apoiar, de maneira provocativa, uma posição de direita diante de uma esquerda que pretendia um cinema engajado, com uma mensagem, com temas políticos e importantes. É por isso que, ao recolocar a cinefilia em seu contexto dos anos 50, penso poder dizer que a crítica moderna de cinema nasceu à direita. Ela está fundamentalmente ligada à ideia do "desengajamento", o que a coloca na contramão em relação ao chamado a um engajamento do intelectual e do artista que era feito no mesmo momento por Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou Louis Aragon.

O risco dessa crítica não seria o isolamento na torre de marfim?
É o seu risco, efetivamente: ficar fechada na sala escura, no conforto de uma poltrona de cinema, com planos magníficos na cabeça, atrizes fetiches e ideias maravilhosas sobre o cinema. A propósito, não nos esqueçamos que a nouvelle vague, até a paz de 1962 e a independência, não quis ver o que se passava na Argélia durante a guerra suja. Mas o que salvou a cinefilia do formalismo mais claustrofóbico foi o fato de ela considerar o cinema uma visão do mundo, como a ontologia realista que permitia ter notícias de autores, atrizes, mas também da civilização contemporânea na América, na Itália, no Japão.

O senhor apresenta Georges Sadoul, principal crítico comunista, como o stalinista dogmático, mas também aquele que, alguns anos mais tarde, apoiou a nouvelle vague e os novos cinemas dos anos 1960.
Sadoul sempre era sincero quando via um filme e escrevia sobre ele, o que podia levá-lo a se enganar, mas com autenticidade e talento. Depois ficou sinceramente comovido com Acossado, de Godard, compreendendo perfeitamente seu alcance revolucionário. Ele também foi um dos primeiros na França a ver filmes de cinemas novos, tanto japoneses, como italianos, russos ou ...brasileiros.

Quais foram os conflitos críticos provocados por Hitchcock na França?Até os anos 50, Hitchcock era amplamente desconsiderado pela crítica francesa, que o considerava um sujeito astuto, que só pensava em dinheiro, sem profundidade. Além disso, no contexto da Guerra Fria, a esquerda crítica, sobretudo os comunistas, na época muito poderosos, agregados em torno de Georges Sadoul, consideravam Hitchcock um inimigo, um cineasta nada engajado, hollywoodiano, que não tinha nada para dizer. A jovem geração crítica, apoiando Hitchcock, provocou uma batalha de críticas sem precedentes. Os jornais e revistas se dividiram em prós e contra Hitchcock, as "igrejinhas" passaram a não se falar mais, os cinéfilos se entusiasmando e se mobilizando.

Por vezes, nessa batalha, todos os meios eram bons, incluindo aí a má-fé e a trapaça?
Certamente, numa guerra vale tudo. Truffaut toma um roteiro de Pierre Bost emprestado para escrever um artigo contra ele. Depois o devolve antes que o artigo, o famoso Uma Certa Tendência do Cinema Francês, seja publicado. Algo totalmente cínico, mas eficaz. Bost ficou mortificado. Truffaut fazia crítica como se estivesse tomando uma fortificação.

Trata-se também de um conflito de gerações?
A guerra cinéfila envolve um conflito de gerações, o que chamamos na França de nouvelle vague. O termo nasceu da sociologia, quando das grandes pesquisas realizadas em 1957-58 sobre a juventude francesa. O cinema da nouvelle vague abrange parte dessas aspirações. Mas os cinéfilos o fazem com certa provocação ao mesmo tempo social, política, e sobretudo estética; eles são fundamentalmente anticonformistas, portanto mais tradicionalistas e à direita enquanto a juventude francesa se sente mais liberal em termos de costumes e de esquerda. Chamo isso de uma moral dândi.

Contudo, dez anos mais tarde, a cinefilia evolui: Rivette critica a antiga cinefilia, tachando-a de "estreita, limitada à tela, autossuficiente", e abre os Cahiers du Cinéma para as ciências humanas, o estruturalismo...
E para a esquerda: é uma revolução política. Os Cahiers colocam-se a favor do cinema novo, contra o colonialismo, e assim contra o poder conservador na França do general Charles de Gaulle. A cinefilia não podia permanecer fechada na sala de cinema nos moldes antigos, ela tinha que acompanhar as evoluções do mundo.

A desconstrução do formalismo cinéfilo passa por um momento histórico quando Glauber Rocha afirma, por exemplo, que a miséria determina a forma de um filme.
É sempre a História que faz a crítica da crítica! Quando aqueles jovens que, inspirados pela nouvelle vague, pegaram suas câmeras para filmar a realidade do seu tempo, natural e historicamente, faziam um cinema de esquerda, tanto Glauber Rocha, Nagisa Oshima como Pier Paolo Pasolini.

Uma cinefilia como a dos jovens turcos é possível hoje?
Hoje podemos ver tudo, ou quase, e cada cinéfilo pode se comunicar com outro. Com isso foram recriados os laços cinéfilos, multiplicaram-se as igrejinhas, os grupos, os especialistas, as opiniões, as críticas. Vivemos um momento em que o desejo de escrever e de fazer cinema jamais foram tão intensos. Existe uma vitalidade excepcional, mas, ao mesmo tempo, isso poderá ter efeito perverso: escreve-se muito, produzem-se filmes em demasia! Se tudo está aí, tudo é possível, tudo é dado, faltam a dificuldade e a raridade, que são as principais condições da verdadeira criação.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Kafka em Teerã: Cineasta iraniano é vítima de regime paranóide

Lars-Olav Beier
Martin Wolf


  • Jafar Panahi, cineasta iraniano, durante entrevista em Teerã, no Irã, em imagem de 2004
  • Jafar Panahi, cineasta iraniano, durante entrevista em Teerã, no Irã, em imagem de 2004
O diretor Jafar Panahi enfrenta seis anos de prisão em seu país, o Irã, onde o regime se sentiu ameaçado por seus filmes, como “Fora do Jogo” de 2006. Os organizadores do Festival de Cinema de Berlim, que começará na quinta-feira, expressaram seu apoio a Panahi o incluindo no júri, mesmo não podendo estar presente.

Talvez, diz Abbas Bakhtiari, ele fará um filme algum dia. Algo autobiográfico a respeito de sua fuga do Irã no início dos anos 80 – uma fuga que se tornou inevitável após os soldados terem disparado contra um amigo e sua esposa grávida ter abortado, depois de ter sido abusada com as coronhas dos rifles. Bakhtiari e sua esposa escaparam em um pequeno barco, com o qual atravessaram o Estreito de Hormuz até Dubai. Ele vive em exílio em Paris desde 1983.

Bakhtiari, 53 anos, um homem magro em um terno preto sem gola, é um ator profissional, músico e compositor. Hoje ele dirige um centro cultural franco-iraniano no canal Saint-Martin, no 10º arrondissement de Paris. Algumas cenas do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” foram filmadas do lado externo do centro cultural.

Mas no momento a principal ocupação de Bakhtiari é ser a voz de seu amigo Jafar Panahi, o diretor iraniano premiado. Panahi está proibido de falar com estrangeiros e jornalistas. Se o fizer, isso apenas piorará sua situação.

Pouco antes do Natal, um tribunal em Teerã sentenciou Panahi a seis anos de prisão e o impediu de exercer sua profissão por 20 anos, por supostamente tentar cometer “crimes contra a segurança nacional e promover atividades propagandísticas contra o sistema da Revolução Iraniana”. Na verdade, o diretor apenas tentou fazer um filme.

Panahi se transformou em um símbolo da liberdade de expressão artística e de como ela é ameaçada por regimes totalitários, censura e violência. “Eles querem transformar Jafar em um exemplo”, diz Bakhtiari. Ele está coordenando uma campanha internacional e alistando o apoio de celebridades para assegurar que o mundo não esqueça seu amigo, especialmente agora que a atenção internacional está concentrada no Egito. Os únicos holofotes internacionais apontados ao Irã se devem às supostas ambições nucleares do país.

‘A arte é mais forte do que a política’

Bakhtiari recebe visitantes em seu centro cultural, onde há livros persas e CDs nas estantes. Uma jovem vestindo um longo casaco verde serve chá e Bakhtiari nos oferece tâmaras e amêndoas. Ele fuma um cigarro atrás do outro. Seu isqueiro é decorado com uma folha de palmeira, o logotipo do Festival de Cinema de Cannes.

“A arte é mais forte do que a política”, diz Bakhtiari. Há petições apoiando Panahi na Internet, assinadas por diretores famosos como Martin Scorsese e Sean Penn. O 61º Festival Internacional de Cinema de Berlim, ou Berlinale, que começa na quinta-feira, também está assumindo uma posição em relação ao diretor perseguido.

O diretor do festival, Dieter Kosslick, nomeou Panahi para o júri do festival como “um sinal de apoio à sua luta pela liberdade”, como ele escreveu em uma carta ao embaixador iraniano. Teerã reagiu friamente, oferecendo enviar um diretor aceito pelo regime para servir no júri. Kosslick rejeitou a oferta, dizendo: “Nós não queremos alguém do banco de reservas”.

De fato, a presença de Panahi será fortemente sentida no Berlinale deste ano, onde todos os seus filmes serão exibidos durante o festival. Em 11 de fevereiro, o aniversário da Revolução Iraniana, o dia em que as forças apoiadas pelo aiatolá Ruhollah Khomeini assumiram o poder em 1979, o festival exibirá “Fora do Jogo”, provavelmente o filme mais popular de Panahi.

Tratando de tabus

Jafar Panahi, 50 anos, é um dos diretores iranianos contemporâneos mais renomados. Ele já conquistou prêmios nos grandes festivais de cinema da Europa –Cannes, Locarno, Veneza e Berlim– por seus filmes “O Balão Branco” (1995), “O Espelho” (1997), “O Círculo” (2000), “Ouro Carmim” (2003) e “Fora do Jogo” (2006). Por sua vez, os mulás conservadores veem o diretor, que vem da cidade de Meyaneh, no noroeste do Irã, e lutou na guerra de 1980-1988 contra o Iraque antes de se tornar cineasta, como um inimigo público. Isso não causa surpresa, dado que seus filmes retratam todas as coisas que são oficialmente tabu em seu país: consumo de álcool, prostituição e opressão às mulheres. Os filmes de Panahi são proibidos no Irã.

Os extremistas religiosos do Irã já consideram o cinema como sendo obra do diabo. Em agosto de 1978, com a revolução contra o xá já fermentando, radicais incendiaram um cinema lotado na cidade de Abadan. Mais de 400 pessoas morreram. O aiatolá Khomeini, que viria a se tornar o líder supremo do país, culpou os agentes do xá pelo ataque. Ele também aproveitou a oportunidade para condenar os cinemas como “centros de imoralidade” que são “voltados contra o bem-estar de nosso país”. Já foi comprovado que os seguidores do aiatolá Ali Khamenei, o atual líder religioso do país, estiveram por trás do ataque.

Atualmente há apenas 90 salas de cinema em Teerã, uma cidade de 13 milhões de habitantes, dentre um total de aproximadamente 270 em todo o país. A maioria dos iranianos prefere assistir filmes em DVD em casa, em parte porque homens e mulheres solteiros são oficialmente proibidos de ir juntos ao cinema.

Até mesmo grandes sucessos americanos como “Avatar” estão legalmente disponíveis em DVD no Irã, apesar de frequentemente cortados. Além disso, os filmes estrangeiros são retocados em computador. Para apaziguar a polícia moral do país, técnicas de retoque digital são usadas para aumentar saias e eliminar decotes. Quase qualquer filme está disponível, sem censura, no mercado negro em Teerã, desde produções de Hollywood até filmes iranianos que não foram aprovados para exibição nos cinemas, incluindo os de Panahi.

Problemas com as autoridades

O conflito entre o diretor e o regime aumentou quando Panahi demonstrou abertamente simpatia por Mir Hossein Mousavi, o adversário mais promissor do presidente Mahmoud Ahmadinejad na eleição presidencial de 2009. Em 15 de junho de 2009, Panahi se juntou a centenas de milhares de outros iranianos em uma marcha por Teerã em protesto contra a suposta fraude eleitoral e o autonomeado vencedor, Ahmadinejad.

O diretor foi preso pela primeira vez, juntamente com sua filha Solmaz, quando os dois participaram do serviço fúnebre de Neda Agha-Soltan, em 30 de julho. A estudante, que foi morta a tiros durante uma manifestação, se transformou em ícone do movimento de resistência após sua morte. Panahi e sua filha foram soltos um dia depois.

No final de agosto de 2009, o diretor viajou para Montreal, como convidado do festival de cinema da cidade, para servir como presidente do júri. Panahi usou um xale verde no tapete vermelho, com o verde sendo a cor do movimento de protesto iraniano. Foi um ato de provocação.

No início de 2010, Panahi e um amigo, o diretor e produtor Mohammad Rasoulof, começaram a rodar um novo filme. Sem permissão do Ministério da Cultura e das Diretrizes Islâmicas, eles filmavam secretamente no apartamento de Panahi, localizado em um bairro de luxo no norte de Teerã. “Mas no Irã”, diz Bakhtiari, “quase nada permanece em segredo”.

Greve de fome

Em 1º de março, com um terço do filme já rodado, a polícia realizou uma batida no apartamento. Ela prendeu 17 pessoas, incluindo Panahi, sua esposa e filha, Rasoulof e outros membros da equipe. Ela também confiscou rolos de filme e a coleção de DVDs de Panahi, além de arquivos e computadores. Panahi foi levado para a Prisão Evin de Teerã, o destino final de muitos prisioneiros políticos e que é notória pela tortura.

No final de maio, após Panahi ter realizado uma greve de fome de 10 dias e muitas campanhas de protesto terem sido realizadas em todo o mundo, ele foi solto sob fiança após pagar o equivalente a US$ 218 mil. Panahi foi forçado a hipotecar seu apartamento para levantar o dinheiro da fiança. Apesar de ser mantido sob vigilância policial, ele conseguiu dar algumas poucas entrevistas por telefone nos meses que se seguiram. Ele trocava constantemente o chip de seu celular.

Há mais de 750 páginas no dossiê que os promotores prepararam contra ele. Ele contém todas as entrevistas dadas pelo diretor nos últimos cinco anos. Apesar de Panahi ter expressado apenas uma crítica discreta ao regime, mesmo em entrevistas para a imprensa europeia, a promotoria está usando as entrevistas como evidência de suposta “conspiração e propaganda” contra o governo.

Em 18 de dezembro de 2010, a 26ª Vara do Tribunal Revolucionário em Teerã sentenciou Panahi a seis anos de prisão e o proibiu de exercer sua profissão por 20 anos. Seu amigo Rasoulof recebeu a mesma sentença. O advogado de Panahi, Farideh Gheirat, apelou da decisão. É a sentença mais dura imposta contra um cineasta proeminente no Irã desde 1979. O diretor está autorizado a circular livremente dentro do Irã até a decisão final.

Alerta drástico

Na prática, a decisão do tribunal não é direcionada apenas contra Panahi, mas contra todos os artistas iranianos independentes. Ela serve como um alerta drástico e uma exigência de que exerçam autocensura e não critiquem o regime. Muitos artistas apoiaram Mousavi em 2009. Até mesmo o órgão de censura do governo aparentemente estava tão convencido de que o candidato relativamente liberal venceria a eleição que aprovou alguns poucos projetos de filmes que normalmente seriam considerados suspeitos, como o drama de vingança “O Caçador” de Rafi Pitts.

O filme conta a história de um segurança em Teerã (interpretado pelo próprio Pitts) cuja esposa e filha são mortas em uma manifestação. Apesar de não saber quem foi o responsável pela morte delas, ele pega sua arma e sai à caça dos policiais.

Com permissão das autoridades, Pitts rodou uma cena, no meio da campanha eleitoral, na qual seu protagonista atira contra dois policiais dirigindo uma viatura na estrada. “O censor apenas exigiu que nós o retratássemos como uma pessoa louca”, diz Pitts. O protagonista não deveria parecer um assassino de sangue frio.

Os riscos da pressão estrangeira

Pitts, 44 anos, está sentado em seu pequeno apartamento no 14º arrondissement de Paris, com um cartaz do filme “A Morte de um Bookmaker Chinês” de John Cassavetes na parede. “Este é o meu esconderijo”, diz Pitts, sorrindo de modo um tanto desconfortável. Ele deixou o Irã em 1979, estudou em Londres, trabalhou como assistente de direção em Paris, mas sempre voltou ao Irã para rodar seus próprios filmes.

Está frio no apartamento. Pitts abriu as janelas para permitir a saída do cheiro da fumaça do cigarro. Seus amigos iranianos em Paris estiveram lá na noite anterior, quando passaram horas debatendo como poderiam ajudar Panahi e Rasoulof. O assistente de direção de Pitts também foi preso junto com Panahi. Poderia facilmente ter sido o próprio Pitts.

Pitts está organizando uma campanha de solidariedade para Panahi e Rasoulof. Ele quer que as pessoas que trabalham na indústria cinematográfica de todo o mundo parem de trabalhar por duas horas em 11 de fevereiro, enquanto “Fora do Jogo” de Panahi estiver sendo exibido no Berlinale. “Não é para ser algo ostentoso”, ele diz. “Apenas um protesto silencioso.” É preciso ser cuidadoso ao fazer campanha no exterior, ele acrescenta, porque pressão estrangeira demais pode tornar o regime ainda mais teimoso. Vários prisioneiros políticos foram executados no Irã nos últimos dias.

A estratégia de defesa para Panahi consiste de negar fortemente a acusação de que ele tem uma agenda política com seus filmes. Os promotores o acusaram de que pretendia tratar da agitação ligada ao movimento verde em seu novo filme.

Mas seu novo filme nem mesmo está concluído, disse Panahi ao tribunal. “Às vezes eu tenho a impressão de que é um crime apenas pensar em fazer um filme”, ele disse. “De fato, alguém que apenas sonhe com um filme parece estar cometendo um delito menor ou um crime punível com sentença de prisão.”

Um artista que está sendo molestado por causa de uma ideia –soa como uma cena de pesadelo escrita por autores como Franz Kafka ou George Orwell, e acentua a paranóia de um regime que sabe, especialmente após os protestos de meados de 2009, quão pouco apoio popular possui.

‘O filme não é político’

“O filme não é político”, diz Bakhtiari, o amigo de Panahi, em Paris. Em um telefonema pouco antes da entrevista para a “Spiegel”, Panahi pediu a Bakhtiari para que destacasse que estava filmando uma história puramente pessoal sobre “uma apresentadora de televisão que chega em casa e encontra seu filho ferido”. Bakhtiari não diz o motivo para o garoto estar ferido.

Para evitar colocar em risco as chances de sua apelação, Panahi insiste que estava apenas filmando um pequeno filme caseiro inofensivo com parentes e amigos. “Não há lei que proíba um cineasta de fazer um filme em sua própria casa”, diz Bakhtiari, citando Panahi. Mas Panahi, mais do que qualquer outro, sabe que o que alguém faz em sua casa no Irã não está fora dos limites.

Em seu filme “Ouro Carmim”, o diretor mostra policiais de Teerã espreitando do lado de fora de um prédio de apartamento, onde uma festa está sendo realizada. É possível ver as sombras das pessoas dançando na cortina de um apartamento no terceiro andar. Dançar é proíbido no Irã. No filme de Panahi, a polícia prende imediatamente todos aqueles que deixam o prédio.

Praticamente não há música nos cinco filmes dirigidos por Panahi até o momento. Sirenes policiais, por outro lado, são ouvidas constantemente. Os sons habilmente arranjados são retratos sonoros de um Estado policial. Repetidas vezes em seus filmes, o diretor faz com que policiais e soldados apareçam inesperadamente. Eles nem sempre parecem ameaçadores, mas sim desajeitados e sem competência, como se os uniformes que vestem fossem alguns números maiores do que eles.

Panorama da sociedade

Em “Fora do Jogo”, a polícia prende seis garotas e mulheres jovens que, vestidas como homens, entraram em um estádio de futebol em Teerã, onde a seleção iraniana está jogando uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo contra Bahrein. O problema é que mulheres não são autorizadas no Irã a assistir os homens jogarem futebol. Os policiais prendem as mulheres em um espaço isolado no estádio. Elas não podem assistir ao jogo dali, mas podem ouvir a torcida. De repente, as mulheres começam a imitar uma partida de futebol. O modelo delas é o jogador iraniano Ali Karimi, que atualmente joga pelo time alemão Schalke 04. Os policiais, sem saber o que fazer, ficam do outro lado da cerca, assistindo as mulheres, incertos sobre a qual dos jogos devem prestar mais atenção. Como acontece com frequência nos filmes de Panahi, as mulheres agem enquanto os homens hesitam.

A capacidade de apresentar um panorama da sociedade em apenas poucos metros quadrados de espaço é uma das coisas que o regime de Teerã teme em Panahi. Isso provavelmente explica por que aqueles no poder enviaram seus capangas ao apartamento do diretor para prendê-lo.

Todo projeto de filme no Irã deve passar por três etapas de censura. Primeiro, o roteiro precisa ser aprovado, o que pode levar meses de disputa a respeito de diálogos e posições de câmera. Cada fio de cabelo que escapa de um lenço de cabeça pode se tornar uma questão política no Irã. Assim que um filme é concluído, o produtor e o diretor devem obter permissão para exibi-lo em um festival. No final, os censores também decidem se ele pode ser exibido nos cinemas iranianos.

“Quando você faz um filme no Irã, você desperdiça 80% de sua energia obtendo todas as permissões. Você constantemente se pergunta: eu posso fazer isto, posso fazer aquilo?” disse Panahi em uma entrevista de 2005.

Driblando os censores

Ele conseguiu repetidas vezes driblar as autoridades por um período de anos. No caso de “Fora do Jogo”, ele apresentou aos censores uma versão diferente do roteiro do que aquele que pretendia filmar. Ele recebeu sinal verde e reuniu duas equipes de filmagem. Uma equipe visava distrair os censores, filmando a versão oficial, enquanto outra filmava secretamente a versão de Panahi.

É claro, “Fora do Jogo” não recebeu aprovação para exibição nos cinemas iranianos, mas o Museu do Cinema do Irã estatal não se incomodou em acrescentar o Urso de Prata que Panahi ganhou no Festival de Cinema de Berlim à sua coleção. “A sala onde o museu exibe meus prêmios é maior do que minha cela na prisão”, disse Panahi no tribunal em novembro passado.

Panahi é tanto perseguido quanto oficialmente celebrado. “No Irã”, diz Bakhtiari, "não é uma pessoa que toma uma decisão”. Rasoulof, o aliado de Panahi, ele acrescenta, foi sentenciado a seis anos de prisão e, quase simultaneamente, recebeu aprovação do Ministério da Cultura para rodar seu novo filme. Panahi e Rasoulof são heróis trágicos de um sistema kafkaniano.

Quando o mentor de Ahmadinejad, Esfandiar Rahim Mashai, disse à agência de notícias “ISNA” do Irã, em meados de janeiro, que a sentença contra Panahi era dura demais, o jornal “Kayhan” de Teerã, um porta-voz da linha-dura islâmica, perguntou se Mashai queria emitir um cheque ou dar um prêmio a um agitador como Pahani. O diretor, um provocador que sempre exibe um leve sorriso em seu rosto, colocou o regime em uma saia justa.

No exílio

Panahi é um ídolo dos iranianos. Em um evento universitário em Teerã há duas semanas, os estudantes levantaram sua foto, cantaram seu nome e encobriram a banda que visava abafar seus protestos. O que as pessoas no poder certamente não precisam é transformar Panahi em um mártir. Elas provavelmente prefeririam vê-lo deixar o país, como tantos outros artistas de cinema antes dele. Panahi foi chamado ao Ministério da Cultura iraniano cinco vezes nos últimos anos, e toda vez foi aconselhado a deixar o país. Em todas as vezes ele rejeitou a sugestão.

Em comparação, alguns dos artistas e cineastas iranianos mais bem-sucedidos, como Mohsen Makhmalbaf (“A Caminho de Kandahar”), Shirin Neshat (“Zanan-E Bedun-E Mardan” –“Mulheres Sem Homens”, em tradução livre) e Marjane Satrapi (“Persépolis”), deixaram o Irã há muitos anos. Apesar de atualmente viverem em Paris ou Nova York, seu país natal é sempre o centro de seus filmes. “Você pode expulsar um iraniano de seu país, mas não consegue expulsar o país de um iraniano”, diz Neshat.

“The Green Wave”, o documentário mais forte até o momento sobre os protestos de meados de 2009, também é obra de um exilado, o alemão-iraniano Ali Samadi Ahadi. A última vez em que ele esteve no Irã foi em abril de 2009, mas agora está perigoso demais para ele ir para lá.

‘Eu vivenciei o lado sombrio do meu país’

No momento até mesmo astros antes apolíticos como a estrela Golshifteh Farahani, 27 anos, estão fugindo para o exterior. Ela já tinha atuado em aproximadamente 20 filmes iranianos quando o diretor Ridley Scott lhe ofereceu um papel ao lado de Leonardo DiCaprio e Russell Crowe no thriller “Rede de Mentiras” de Hollywood.

Na pré-estreia em Nova York em outubro de 2008, Farahani apareceu no tapete vermelho sem lenço de cabeça, provocando alvoroço no Irã. “Eu não estava ciente das consequências”, ela diz hoje. “Mas naquele momento eu achei que era estupidez usar um lenço de cabeça. Afinal, as outras mulheres na pré-estreia também não estavam usando.”

Quando ela retornou ao Irã, Farahani foi interrogada e seu passaporte foi confiscado. A produção seguinte em Hollywood, para a qual ela já tinha assinado um contrato (intitulada, ironicamente, de “Príncipe da Pérsia”), foi filmada sem ela. “Foi o pior momento da minha vida. Eu vivenciei o lado sombrio do meu país pela primeira vez. Na época, Jafar Panahi foi a única pessoa que me apoiou publicamente”, diz Farahani.

Ela só foi autorizada a deixar o país de novo em fevereiro de 2009, quando esteve no Berlinale. Seu filme, “Procurando Elly”, que apenas agora está em exibição nos cinemas alemães, foi exibido na competição em Berlim. Farahani atualmente vive em Paris.

Kafka em Teerã

Panahi, por sua vez, não deixa as autoridades o expulsarem, apesar de muitos amigos frequentemente pedirem para que ele deixe o país. Ele deseja permanecer no Irã e continuar fazendo filmes, apesar dos censores repetidamente rejeitarem seus projetos desde 2006, incluindo a adaptação cinematográfica de “A Cidade do Sol”, o segundo romance do autor best seller Khaled Hosseini (“O Caçador de Pipas”). “Eu não posso deixar de trabalhar. Eu vivo apenas quando faço filmes”, diz Panahi.

O que o regime fará com seu diretor mais rebelde? Será que ele realmente manterá Panahi na prisão por anos, apesar dos protestos em casa e no exterior? Ou será que os juízes em Teerã podem reverter sua decisão?

“A lei islâmica oferece muitas possibilidades”, diz seu amigo Bakhtiari, sorrindo por ora. Há uma diferença, ele explica, entre “tasiri”, ou cumprir uma sentença, e “talighi”, uma sentença suspensa. Os juízes em Teerã podem decidir converter uma sentença de uma para outra.

Nesse caso, Panahi seria sentenciado, mas ao mesmo tempo seria solto –um Kafka em Teerã– com sua cabeça cheia de ideias que são consideradas como crimes.


Tradução: George El Khouri Andolfato

A aldeia global em ação

Por Alberto Dines em 10/2/2011

No ano do centenário de nascimento do canadense Marshall McLuhan, o ditador egípcio Hosni Mubarak consagrou definitivamente o conceito de Aldeia Global ao colocar seus esbirros contra a imprensa internacional acampada no Cairo para cobrir a revolta popular que exigia a sua saída.

Apesar da violenta repressão, veículos dos quatro cantos do mundo (inclusive do Brasil) reagiram de forma instintiva, coerente, determinada: Mubarak, a figura e não uma estátua, começou a desabar naquele exato momento.

Depois de tantas bolhas, vacilações e vexames, a mídia noticiosa reencontra a sua história e missão. Ao atravessar a maior crise existencial e institucional, o jornalismo – é ele que está em questão – mostrou o seu ânimo, sua força, sua validade.

A humanidade tem sede de saber, a imprensa tem a obrigação de saciá-la. Sobretudo quando se trata de livrá-la da opressão e do obscurantismo. Este compromisso não pode ser regulado nem controlado por caudilhos oportunistas, diplomatas maneiristas, políticos ambiciosos, fanáticos delirantes, especuladores gananciosos.

Segunda década

Atender aos chamamentos por liberdade está na alma deste ofício, é o seu modelo de negócios, qualquer que seja a plataforma utilizada. Pela primeira vez, o jornalismo foi às ruas para evitar um banho de sangue, e não para provocá-lo. Sua presença, mais do que o seu testemunho, foi decisiva para impedir a maré montante da repressão.

O Ocidente reencontrou-se, releu talvez o discurso de Barack Obama em 4 de junho de 2009 pronunciado ali mesmo, no Cairo, e reverteu o rumo das cruzadas medievais (ver aqui, texto em inglês; vídeo aqui). Foi ao Oriente para ajudá-lo a acabar com a opressão e não trocá-la por outra. Trouxe a sua tecnologia, sua criatividade e, principalmente seu compromisso com uma utopia das Nações Unidas chamada Aliança das Civilizações.

A revolta egípcia corre o mundo e desperta entonações revolucionárias. Enquanto a China se cala, manietada por suas contradições, a praça Tahrir do Cairo força os irmãos Castro em Havana a liberar o blog de Yoani Sánchez. Um gerente egípcio do Google torna-se ídolo mundial porque assume integralmente sua condição de comunicador social e cala a boca do apedrejador persa Ahmadinejad.

Em meio a terríveis nevascas, portentosos dilúvios e presságios de fome, a segunda década do século 21 começa alentadora. Graças à imprensa – plural, livre, descontraída, diversificada.

EUGÊNIO BUCCI - Quando a imprensa é uma chance para a paz

Antes de olharmos o que se passa na Praça Tahir, no Cairo, onde o povo se aglomera para derrubar o ditador Hosni Mubarak e jornalistas de todos os países sofrem abusos e agressões, façamos uma breve escala no passado recente. Recapitulemos, em poucos parágrafos, a Guerra do Iraque, suas mentiras e a lição sutil - ainda não assimilada - que elas nos deixou.

No dia 21 de janeiro, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair prestou seu segundo depoimento à Comissão Chilcot, que investiga a participação do Reino Unido na invasão do Iraque. Houve protestos na audiência. "Suas mentiras mataram meu filho!", acusou Rose Gentle, mãe de um dos 179 soldados ingleses mortos no conflito. Nomeada pelo sucessor de Blair, Gordon Brown, a comissão tem a incumbência de esclarecer as verdades e as mentiras que levaram o Reino Unido à guerra e de preparar um relatório final para o Parlamento. Há muito a ser elucidado.

Hoje se sabe que pelo menos uma mentira, uma gigantesca mentira, foi decisiva para que, nos Estados Unidos, o então presidente George W. Bush obtivesse o apoio do Congresso para atacar o Iraque: a acusação de que o ditador Saddam Hussein fabricava secretamente armas químicas de destruição em massa. Como ficaria claro, a acusação era falsa. As tropas de Bush e Blair viraram o Iraque de pernas para o ar, localizaram Saddam Hussein escondido num porão, barbudo e alquebrado, mas não acharam arma química nenhuma. Mas ainda há mistérios no episódio. Por exemplo: quando bancou essa informação, Bush sabia que mentia? A pergunta está em aberto. Segundo seu ex-assessor político Karl Rove, em seu livro Courage and Consequence, lançado no ano passado, o ex-presidente foi sincero. E quanto a Blair? No depoimento à Comissão Chilcot, ele diz lamentar as baixas, como a do filho de Rose Gentle, mas considera que a guerra teve razões justas. Na opinião dele, o planeta estaria pior do que está se Saddam Hussein não tivesse sido arrancado do poder.

A discussão será longa. E, pelo menos até agora, um dos fatos mais relevantes da escalada da guerra vai ficando na sombra: a mentira que ajudou Bush a costurar sua base entre os parlamentares americanos, e que pesou de algum modo na decisão de Blair, foi disseminada e sustentada não apenas nos gabinetes dos políticos, mas na opinião pública. Ela foi endossada por alguns dos jornais mais influentes do mundo - que, depois, reconheceriam sua falha. Se Bush e Blair erraram, grandes e respeitáveis veículos de imprensa erraram junto.

Chegamos, então, ao que deveria ser a maior lição desse episódio: a verdade deixou de ser a primeira vítima da guerra; hoje, a guerra não é mais a causa, mas a consequência da verdade vitimada. Até meados do século 20 prevaleceu como verdadeira uma frase atribuída, entre outros possíveis autores, ao senador americano Hiram Johnson (1866-1945): "Quando uma guerra começa, a primeira vítima é a verdade". Segundo a velha máxima, um país, ao entrar em conflito armado com outro, deveria aceitar de bom grado mentir sobre o inimigo e sobre si mesmo. Ganhar a guerra seria mais importante do que dizer a verdade sobre os fatos. Hoje, quando os interesses nacionais se veem obrigatoriamente mediados por algo que, em termos apressados, poderíamos chamar de um interesse público supranacional, cujo ponto mais alto é a paz, a informação jornalística já não pode ser vista ou tratada como arma de guerra. Ela é parte da base comum para o diálogo. O valor da informação jornalística situa-se acima dos cálculos dos governos, uma vez que é pré-requisito para a convivência entre as nações. Isso aumenta, é claro, a responsabilidade do jornalismo. Hoje, quando a verdade é violentada, a primeira vítima pode ser a paz. Uma grande mentira nas páginas de um grande jornal pode render, entre outras tragédias, as 179 mortes pelas quais Tony Blair diz chorar até hoje.

A conclusão é simples: se souber e puder acompanhar os fatos e documentá-los com um mínimo de honestidade e integridade, a imprensa pode ajudar a evitar abusos.

Agora voltemos à Praça Tahir, no Cairo. Nela, e no seu entorno, os apoiadores do ditador Mubarak investem contra qualquer pessoa que represente a possibilidade de diálogo entre os cidadãos. Até o representante do Google no país passou semanas encarcerado. Celulares emudeceram e depois voltaram a falar. Os jornalistas Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Rocha, da TV Brasil, ficaram presos por 18 horas. Na segunda-feira, a Embaixada do Egito no Brasil divulgou um pedido de desculpas, lacônico. Para a tirania que tenta sobreviver no Cairo, a imprensa, qualquer imprensa, da Al-Jazira ao Estadão (cujo correspondente, Jamil Chade, também foi agredido), é inimiga mortal. A ditadura não quer testemunhas. Sabe que todas as suas chances dependem da escuridão.

No caso do Iraque, a investigação jornalística sobre as armas químicas chegou tarde demais. A paz saiu perdendo. Agora, é diferente. Correspondentes do mundo todo estão a postos na praça. Querem fazer seu trabalho. Aos governos de todos os países, à ONU e às entidades da sociedade civil cumpre exigir da ditadura egípcia, com muito mais veemência, o devido respeito os jornalistas, que representam os olhos de todos nós. Por isso, uma agressão a um jornalista no Cairo deve ser repelida como uma agressão ao seu país de origem.

A esta altura, ninguém sabe direito para onde vai o Egito. Mas, desde já, sabemos que sem repórteres por perto o caminho será muito mais sangrento. Garantir a presença da imprensa internacional na Praça Tahir é dar uma chance à paz. Omitir-se na defesa dos jornalistas equivale a patrocinar, indiretamente, a brutalidade que só prospera onde não há direito à informação.

JORNALISTA, PROFESSOR DA ECA-USP E DA ESPM

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Lições de crise egípcia para o debate sobre o livre fluxo de informações na web

Ainda não dá para dizer qual será o desfecho a crise egípcia, mas duas coisas já ficaram claras: 1) o debate sobre o livre fluxo de informações na internet vai subir mais alguns graus de temperatura; e, 2) a web pode ser fantástica para difundir palavras de ordem, mas não substitui os protestos de rua.

O livre fluxo de informações na internet foi colocado na agenda mundial pelo cambaleante regime do presidente egípcio Hosni Mubarak quando ele resolveu, na base da força, bloquear o uso da rede achando que com isto ele impediria a continuidade dos protestos contra sua permanência no poder desde a 30 anos.

Mesmo sem poder usar sistemas de comunicação como correio eletrônico, Twitter, Facebook e fóruns online, os egípcios não só continuaram nas ruas como os protestos aumentaram de intensidade. Isto permitiu contextualizar melhor o papel da internet em crises políticas. Ela é um excelente instrumento para trocar informações, mas, sem uma causa, ela perde todo o seu charme como ferramenta política.

A instabilidade política que está contagiando boa parte dos países do norte da África e do Oriente Médio tem mais a ver com o cansaço da população em relação a governos impopulares, corruptos e autoritários, do que com o uso de ferramentas eletrônicas no jogo político. Curiosamente, é muito provável que os protestos nos vários países acabem empurrando o pêndulo político para a recuperação de tradições islâmicas.

Trata-se de uma reação natural após décadas de ocidentalismo exagerado, em que a modernidade acabou sendo associada pelas elites governantes à corrupção, ao nepotismo e ao autoritarismo. Agora, é bem possível que a reação venha associada a comportamentos tradicionalistas, formando um contraste marcante com a badalação de boa parte da imprensa mundial sobre o uso da tecnologia de ponta na crise egípcia.

Mesmo que seu papel tenha sido exagerado na crise egípcia, graças ao comportamento desastrado de Mubarak, a questão da internet está deixando de ser monopólio dos nerds, tecnocratas, lobistas e executivos das empresas de telecom para entrar no cardápio de discussões do cidadão comum. Já não importam mais as conseqüências e sim o princípio.

É um debate muito interessante porque qualquer ação tomada contra o livre fluxo de informações vai acabar refletindo na sociedade como um todo. Já não estamos mais no tempo em que um militar armado paralisava uma central telefônica ou impunha a censura num jornal. Agora, bloquear a internet equivale a um haraquiri econômico e financeiro.

Um ditador ameaçado pode impedir que seus adversários usem a internet para conspirar, mas se fizer isso vai levar também os bancos, o comércio e o turismo para uma situação insustentável. A globalização e a integração de setores econômicos simplesmente inviabilizaram o bloqueio da internet por um período mais longo de tempo.

Se num primeiro momento a crise egípcia atraiu a atenção mundial pela forma como ela surgiu, graças à polêmica em torno da internet, agora o mais importante passou a ser entendê-la no seu real contexto social, econômico e cultural.

Blog crítico tem acesso liberado em Cuba

Por Agências

Cuba aparentemente parou de bloquear o acesso a partir da ilha ao site da conhecida blogueira Yoani Sánchez e a outras páginas críticas do governo comunista.

O acesso ao blog mundialmente conhecido Generación Y estava bloqueado desde 2008 para os usuários domésticos na ilha.

“Na longa escuridão da censura foi aberto um pequeno buraco. Meu blog Generación Y veio à tona novamente”, disse Sanchez em uma mensagem no Twitter na madrugada desta terça-feira, 8.

“A grande pergunta agora é ‘quanto tempo vai durar? Voltarão a me colocar em um boicote digital?’”, acrescentou a blogueira em outro texto.

Outros blogs hospedados no site Voces Cubanas, uma plataforma administrada por Sánchez, também estavam acessíveis nesta terça para os usuários cubanos.

As razões do fim do bloqueio não estavam imediatamente claras.

Funcionários do governo cubano não estavam disponíveis para comentar sobre a aparente mudança na política sobre a internet. Sánchez é muito conhecida fora de Cuba. Seu blog é traduzido em mais de 15 idiomas e sua conta no Twitter superou nesta semana os 100 mil seguidores.

Cuba considera Sánchez e outros blogueiros críticos do governo como “cibermercenários” a serviço dos Estados Unidos e de outros inimigos.

De acordo com um vídeo publicado na semana passada na internet, as autoridades cubanas temem que os Estados Unidos estejam promovendo o uso de redes sociais como o Facebook e o Twitter para incitar uma insurreição.

O vídeo, aparentemente uma conferência para representantes do Ministério do Interior, afirma que a internet é o novo campo de batalha entre Cuba e os Estados Unidos.

/ REUTERS

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cuba sinaliza liberação da web

Por Agências

Cuba não vê “nenhum obstáculo político” para abrir o acesso da população à internet, disse na segunda-feira, 7, o vice-ministro de Comunicações, Jorge Luis Perdomo, na semana em que um cabo de fibra ótica venezuelano entrará em operação e aumentará a velocidade de conexão na ilha.

No entanto, Perdomo disse que o novo cabo não será uma “varinha mágica” e que ainda falta investimento em infraestrutura para disponibilizar o acesso à internet na casa dos cubanos.

“Não há nenhum obstáculo político… que possa deter esse processo”, disse Perdomo a jornalistas ao ser perguntado se Cuba abrirá o acesso à internet à população.

“Existe total vontade do governo… de seguir desenvolvendo o setor das telecomunicações em função do desenvolvimento econômico e social do país, incluindo as instituições, a população e todos os atores da sociedade”, acrescentou ele.

Cuba tem uma das taxas de conexão mais baixas do hemisfério. O acesso à rede está restrito principalmente a funcionários do governo, acadêmicos e empresários estrangeiros.

Segundo dados oficiais, Cuba tinha 1,6 milhão de usuários em 2009, ou 14,2 para cada 100 habitantes. Mas a maioria não tem acesso pleno à internet — somente a e-mail e a uma intranet com páginas selecionadas pelo governo.

Cuba atribui suas limitações de conexão ao embargo comercial imposto pelos Estados Unidos, que obrigou a ilha a utilizar uma ligação por satélite, mais lenta e cara do que uma conexão física.

Nesta semana, um cabo de fibra ótica de 1.600 quilômetros entre Cuba e Venezuela entrará em operação, aumentando em 3 mil vezes a velocidade de transmissão de dados da ilha.

/ REUTERS