domingo, 4 de março de 2012

Pós-canção - Ailton Magioli e Francisco Bosco‏





Música brasileira encontra caminhos para expressar a voz dos artistas da nova geração. Leitura política da realidade é mais diversa e plural

Ailton Magioli















Chico Buarque


Por mais que praticamente todos eles estejam vinculados à tradição da canção popular, não dá para negar: a desgastada sigla MPB passa por aguardada renovação, depois do longo reinado daqueles que contribuíram para a sua consolidação. Chico Buarque, Gal Costa, Milton Nascimento, Maria Bethânia, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso e tantos outros continuam em cena, mas dividem o território com Criolo, Céu, Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Kristoff Silva, Marcelo Jeneci, Lucas Santtana, Karina Buhr, Makely Ka, Wado, Mariana Wisnik, Luiza, Curumim, Tiê, Edu Kneip, Coletivo Instituto, Thiago Amud, Cidadão Instigado, Graveola e O Lixo Polifônico, Flávio Renegado, Transmissor e muitos outros responsáveis pela reciclagem.














Gal Costa


“É o fim do ciclo da geração 1960, apesar de muitos deles continuarem compondo e cantando”, detecta o pesquisador e professor Frederico Coelho, da PUC Rio, cujo interesse pelo tema resultou na organização coletiva do livro MPB em discussão – Entrevistas (Editora UFMG). Para ele, o próprio Chico Buarque apontou a novidade, ao prever que a canção, tal qual a conhecíamos, não sobreviveria por muito tempo. “Eles não são mais a voz hegemônica da MPB”, acrescenta Frederico, lembrando que nomes como Céu, Lucas Santtana e o hermano Marcelo Camelo já são referência.

“A banda Los Hermanos toca tão profundo hoje quanto Chico tocava a um jovem fã na época dele”, compara Frederico, para quem mudaram tanto o público quanto as referências da canção. “Já não precisa partir da bossa nova, do bolero e dos ritmos nordestinos para fazer canção. Ela pode nascer do rap, do dub jamaicano, da eletrônica”, diz Frederico Coelho, admitindo que a principal característica da nova MPB é a mudança no formato da produção. “Se antes havia as grandes gravadoras e seus estúdios, cujo vínculo dependia da divulgação de apenas três mídias fixas (rádios, jornais e TVs), hoje há uma gama imensa de recursos tecnológicos à disposição dos músicos, sem necessidade de sair de casa, incluindo a internet e as comunidades virtuais.”

Para o pesquisador, provavelmente ninguém mais vai vender 100 mil cópias de discos – exceção feita às carreiras formatadas para trabalhar com a massa, como artistas de axé, religiosos e sertanejos. “Se anteriormente a opção era estourar ou se tornar alternativo, agora é diferente. Está tudo pulverizado”, constata. Ele salienta que a nova MPB vem sendo feita por artistas de uma faixa etária que varia de 25 a 45 anos. “Marcelo D2, por exemplo, é da nova MPB. Ele começou como rapper, passou a fazer rap com samba e hoje faz quase um samba mesmo”, exemplifica.

Na opinião de Frederico Coelho, se a geração dos anos 1960 também era vinculada a uma discussão sociológica da MPB, diante da trágica experiência da ditadura militar, hoje isto se fragmentou, com o formato possuindo uma relação mais antropológica com a MPB. “A canção se articula com a realidade social do país com pontos de vista mais diversos. Até os anos 1960, tínhamos a música urbana, a música folclórica e a música sofisticada, que era a bossa nova. Trabalhava-se sobre duas, três matrizes básicas. Hoje, um jovem pode compor a partir do tecnobrega, de uma guitarrada amazônica ou de um samba carioca. A base da relação musical é muito mais ampla”, compara. Frederico avalia que, atualmente, ninguém que estuda ou pesquisa música brasileira vai questionar se alguém fez uma canção em cima de base internacional.


A nova canção é nova?


Francisco Bosco*, especial para o EM



Desde os anos 1990 questiona-se o valor dos novos cancionistas brasileiros. Resumida ao mínimo, a historiografia é assim: até 1929 é o período de formação; de 1930 a 1957, consolidação; entre 1958 até o fim dos 1970, época de ouro modernizadora. A partir daí já pairam suspeitas. O rock errou? Há algo além de Chico Science nos anos 1990? Rap é canção? E finalmente: a geração atual é tão inventiva quanto foram as suas precedentes no "século da canção", como a chamou Luiz Tatit?

Essas suspeitas tiveram um momento crítico de formulação na já célebre entrevista de Chico Buarque em 2004, em que ele lançou a hipótese de um fim da canção. Uma resposta fecunda é a do cancionista Romulo Fróes, que há um tempo aprofunda e contraria a hipótese de Chico. Para Romulo, a novidade da canção contemporânea não está nas relações internas de seus elementos fundamentais (melodia, harmonia, ritmo e letra), como ocorreu desde o início, mas na sua sonoridade, com a exploração de novas possibilidades tecnológicas de timbres.

Isso vai ao encontro do aumento de importância, entre nós, da figura do produtor: Catatau, Kassin, Gui Amabis, como produtores, são tão importantes quanto Céu, Otto, Criolo, Karina Buhr, Lucas Santanna. A canção nova é mesmo nova? A própria pergunta encerra uma ideia velha de novidade. Tende-se a julgar a cultura com parâmetros antigos.

Não há hoje figuras centrais, como havia na era do rádio ou dos festivais. O impacto de artistas na cultura é bem menor. A indústria fonográfica quebrou. A cultura se descentralizou. Talvez não haja no momento o grande cancionista – mas isso ainda é possível? E está mesmo fazendo falta?


* Ensaísta, poeta e letrista, parceiro de João Bosco

Tecnologia deu mais liberdade Artistas contemporâneos não fazem questão de movimentos ou manifestos e buscam no clima de cooperação a saída para as consequências da crise da indústria fonográfica



Ailton Magioli





Para o compositor Romulo Fróes, um dos talentos da MPB contemporânea, é sempre saudável manter canais desimpedidos com a tradição


Discípulo do produtor brasiliense Tom Capone (1966-2004), o também produtor e guitarrista carioca Plínio Profeta, de 39 anos, lembra que o banquinho e o violão perderam espaço nos últimos tempos. “O imediatismo do momento já não permite que um artista passe anos lançando discos, sem vender, para consolidar uma carreira. Como as gravadoras perderam força, os independentes começaram a criar carreira independente. Artistas como Criolo, Tulipa Ruiz e Céu já surgiram com mentalidade independente”, constata Plínio, lembrando que a própria noção de qualidade na música mudou.

“Se antigamente as pessoas vinham da contracultura hippie, hoje é preciso ter noção de marketing para fazer música. A própria produção é quase um selo de composição”, aposta Plínio Profeta. O produtor lembra que o avanço tecnológico permitiu a gravação de discos em casa. “Já não precisamos de gravadoras e muito menos de seus estúdios”, comemora. Como ressalta o pesquisador Frederico Coelho, o senso de coletividade predomina no meio, ainda que artistas como Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso já explorassem tal característica em seu trabalho.

Longe de querer constituir um movimento ou algo do gênero – não há diretrizes e muito menos manifestos –, o que a nova geração da MPB busca é a aproximação. “Por necessidade”, justifica o paulistano Romulo Fróes, de 40 anos. “Eu, por exemplo, estou aí desde 2000, fazendo disco, tentando viver de música autoral, em pleno caos da indústria fonográfica brasileira”, acrescenta o cantor-compositor, que, paralelamente à carreira solo, integra o grupo Passo Torto, ao lado de Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral.

Para Romulo, o que caracteriza a nova turma de MPB é o desapego pela indústria, associado a um contato mais íntimo, além de um sistema de gravação e divulgação diretamente associado às novas tecnologias. “Pode parecer pouco, mas isto atuou na qualidade sonora dos nossos discos”, avalia ele, atribuindo aos últimos álbuns de Caetano Veloso (Zii e Zie, de 2009, e Cê, de 2007) e de Gal Costa (Recanto, não por acaso também produzido por Caetano) papel determinante para a mudança de cena na MPB contemporânea.

Assumidamente ligado à linhagem mais triste do samba, à la Nelson Cavaquinho, o cantor paulistano diz que a nova geração de artistas brasileiros mantém relação com a MPB e sua história, “sem medos, sem reservas e sem tributos”. “O que nos distingue é a liberdade, a diversidade e a falta de vergonha”, garante Romulo Fróes, sem se esquecer de associar tais características à adquirida experiência de gravação.

Como reforça o pesquisador e professor Frederico Coelho, em Caravana sereia bloom, que acaba de lançar, a também paulistana Céu exibe intimidade com o GarageBand, que a nova geração já considera como uma espécie de novo gravador, tamanha a facilidade que encontrou em manusear o software.


O palco não mente

Característica marcante da geração responsável pela solidificação da MPB, a relação com o palco – Maria Bethânia, por exemplo, protagonizou shows antológicos, além daquele que fez ao lado dos Doce Bárbaros Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil – continua sendo objeto de preocupação da nova geração, como prova a paulistana Luzia.

Prestes a estrear o show de lançamento do primeiro disco, batizado com o próprio nome, a jovem cantora diz que a experiência de palco para ela é única e vital. “Gravo CD para me ouvirem em casa, mas para a realização artística, na minha concepção, o palco é imprescindível. É o momento em que me sinto inteira, exposta completamente, sem artifícios”, justifica Luzia, para quem, diante do atual excesso tecnológico, o palco virou muito mais “a hora da verdade”.

“O palco não mente”, justifica. A cantora admite que o espaço é vital para ela sentir a reverberação do público. Oriunda de família teatral, Luzia garante que o palco exige dela um ritual. “Eu gosto de me colocar à prova e o palco é o espaço para isto. É o que me alimenta como artista”, reconhece. “Acho também que cada vez mais vai ser exigido do artista uma performance diferente, que toque o público”, acrescenta. Fora o fato de detectar o que chama de “preocupação imagética”. “Música não é só som”, conclui Luzia, citando o grupo paulistano Cinco a Seco como exemplo de diálogo cênico entre música, TV e cinema.

Marcelo Gleiser - Os neutrinos não tão rápidos

A controvérsia sobre o possível erro dos cientistas do Cern nos ensina sobre como funciona a ciência Depois de muita euforia, especulação e intrigas contra Einstein, saiu o pré-veredito sobre os neutrinos supostamente mais rápidos do que a luz. Digo pré-veredito porque existem ainda alguns pontos a ser esclarecidos. Mas, ao que tudo indica, segundo declaração da última semana de cientistas do laboratório de física de partículas europeu Cern ligados ao experimento, a culpa do erro de cerca de 50 bilionésimos de segundo é um mau contato numa fibra ótica. O princípio base da teoria da relatividade de Einstein, de que nada pode viajar mais rápido do que a luz, sobreviveu.No experimento, neutrinos criados no Cern, na Suíça, viajam 730 km através da crosta terrestre até chocarem-se com os detectores do laboratório em Gran Sasso, na Itália. Os cientistas do experimento Opera, em Gran Sasso, identificaram dois possíveis efeitos que podem ter causado mudanças no tempo de viagem dos neutrinos. O primeiro, uma conexão defeituosa entre a fibra ótica que leva sinais entre o sistema GPS e o relógio-mestre do detector, pode ter diminuído o tempo de viagem dos neutrinos. Para complicar, o segundo efeito, um instrumento que opera dentro do detector e que deveria estar sincronizado com os sinais de GPS, pode aumentar o tempo de viagem.Como os dois efeitos agem contrariamente, os cientistas do Cern e da colaboração Opera estão estudando sua magnitude para então decidir qual dos dois domina a medida final. Porém, Lucia Votano, diretora do laboratório Gran Sasso, afirmou que "suspeita principalmente" da fibra ótica, o que confirmaria a validade da teoria de Einstein. Em maio, os dois laboratórios vão repetir o experimento usando pulsos de curta duração com uma precisão bem maior do que a atual. O caso poderá então ser fechado.Conforme escrevi aqui no dia 2 de outubro de 2011, "embora o time de cientistas tenha sido extremamente cauteloso na análise de possíveis erros sistemáticos, é muito provável que algo tenha-lhes escapado. Talvez no processo de produção dos neutrinos -o momento em que surgem, talvez na medida do tempo entre os vários sinais que registram os resultados de colisões nos computadores, talvez algum efeito geológico ainda desconhecido. Ou, claro, pode ser que os neutrinos tenham viajado mesmo algumas dezenas de bilionésimos de segundo mais rápido do que os fótons, as partículas da luz. Mas não apostaria nisso." Continuo não apostando. De todo modo, a controvérsia é extremamente importante e nos ensina muito sobre como funciona a ciência. Sabendo que seus resultados aparentemente contrariavam um dos fundamentos da ciência moderna, os cientistas dos dois laboratórios buscaram diligentemente por erros em suas medidas e equipamentos para tentar eliminá-los.Talvez tenham se precipitado ao declarar para o mundo o que tinham achado antes de confirmar que estavam certos. Porém, agiram com humildade ao confrontar uma questão de extrema complexidade, pedindo ajuda aos colegas espalhados pelo mundo. Não há dúvida de que alguns se aproveitarão da situação e tentarão atacar a credibilidade da ciência. Obviamente, esses indivíduos não entendem que errar e admitir o erro são passos essenciais na busca pela verdade.


MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI

Carlos Heitor Cony - O DNA das palavras

RIO DE JANEIRO - A Justiça acolheu o pedido de um cidadão que deseja modificar um verbete do dicionário de Antônio Houaiss, publicado sob a responsabilidade do instituto criado pelo famoso filólogo. O verbete em causa é "cigano" e seus derivados, como ciganear, ciganice e outros. Como é praxe nos dicionários, há a relação de todos os significados de determinada palavra, inclusive aqueles que podem ser considerados ou que são realmente pejorativos.Dando seguimento à ação, a Justiça pediu o recolhimento do estoque existente do dicionário em questão e estabeleceu pesa- da quantia a ser paga ao querelante, devido à indenização moral a que teria direito. No passado, um intelectual de origem judaica também questionou o verbete "judiação", constante de muitos dicionários. Não me lembro no que deu a ação, mas a palavra continua constando do léxico, com o significado de maltrato a alguém. É a linguagem do povo, verdadeiro autor e usuário das palavras. O que se exige de um dicionário é que traga o maior número de significados para cada vocábulo, inclusive para aqueles que podem ser pejorativos ou insultuosos a determinados indivíduos, comunidades ou instituições.Qualquer palavra pode mudar de significado conforme as circunstâncias e o tom da pronúncia. É o caso de "cachorrada", altamente pejorativa, derivada de cachorro e cão. "Você é um cão" pode ser elogioso, no sentido de fidelidade, apego a um amigo. Mas pode ser pejorativo, com o sentido de canalha: "Você não passa de um cão". Há o caso de "barbeiragem" e "barbeiro", palavras relativas a um ofício antigo e digno, mas que a gíria adotou para designar, inicialmente, um mau motorista, e, depois, qualquer um que cometa uma ação errada.

Recrutando as cariocas - JOÃO UBALDO RIBEIRO

Deve ser obra do famoso peso da idade, porque a cada ano fica mais difícil enfrentar a descompressão, na volta de minha temporada na ilha. Aliás, não costuma ser bem uma descompressão, antes é o seu contrário. Sai-se do sossego da ilha para enfrentar todas as fontes de estresse geradas pela cidade grande e mergulhar onde as coisas estão acontecendo e os destinos nacionais são discutidos e traçados. É meio chato mesmo e faz um bem enorme à saúde a gente passar um bom tempo sem assistir a noticiários de televisão e ler jornais, é uma espécie de spa mental e emocional, uma boa faxina em tanta tralha acabrunhante que não cessam de nos enfiar no juízo.Mas este ano tem sido diferente, até porque voltei em cima do carnaval, que aqui no Rio está ficando parecido com o da Bahia de antigamente, com a óbvia exceção das escolas de samba. Carnaval de rua, foliões fantasiados, bandas de sopro, todo mundo pulando solto. Na Bahia, antigamente, era assim, o carnaval era livre. Hoje, pelo que ouço e leio, a organização e a condução das grandes empresas em que se tornaram os blocos de Salvador só faltam transformar pular carnaval em ordem-unida e contratar sargentos dos Fuzileiros Navais para enquadrar os foliões - tudo bem, são os tempos. Mas aqui no Rio, o carnaval vem se espalhando pela cidade cada vez mais e tenho a impressão de que o ano, diversamente do que se diz, ainda não vai começar agora. Aguardaremos o feriadão da Semana Santa. Não podemos aspirar a folgar como os deputados, mas também somos filhos de Deus.Está tudo tão devagar que, honestamente, as notícias mais quentes continuam a vir da ilha e receio que mais uma vez, no centro delas, avulta a figura ímpar de Zecamunista, de quem não esperava falar novamente tão cedo, mas existe o dever do jornalista para com a notícia e ele é notícia. Apesar de cercada de sigilo e precauções, sua visita ao Rio, ainda este mês, está confirmada. O projeto do lançamento nacional dos Bem-te-vis da Pátria aqui no Rio continua a ser desenvolvido e ele me revelou, num dos muitos telefonemas que me tem dado, que, a depender dos contatos a serem feitos, deverá iniciar de pronto a etapa do recrutamento e alistamento, em moldes semelhantes aos dos Voluntários da Pátria, também criados no Rio.- E você vai participar do alistamento?- Claro, eu vou coordenar a formação da ala principal, a ala feminina.- A ala principal é a feminina?- Evidente. Minha experiência política demonstra que se pode confiar muito mais na militância feminina que na masculina, a mulher é a base dos Bem-te-vis da Pátria. E eu vou coordenar esse setor não é por nada, é porque sempre tive muito jeito para lidar com as mulheres, elas gostam de mim, eu trato todas como boas camaradas. E a mulher carioca, então... Não há brasileiro que não almeje, ou almejado não haja, ou a almejar não venha, a graça do favor de uma mulher carioca! A mulher carioca é a quintessência sublime da sedução feminina, da beleza e do encanto, a mais-valia da natureza, a palavra de ordem do Universo! A mulher carioca...- Zeca, me desculpe, mas está me parecendo que suas intenções, com esses Bem-te-vis da Pátria, estão mais relacionadas com as cariocas que com o combate à corrupção.- Tem razão, mas é só a aparência, é que eu me entusiasmo, quando toco nesse assunto. Eu de fato tenho grande admiração pela mulher carioca, isso vem de pequeno, faz parte de minha formação, já deve estar em meu DNA. No meu tempo, a gente chamava mulher gostosa de peixão. Ninguém se lembra disso, mas eu me lembro. Eu pegava a revista O Cruzeiro e passava o dia inteiro vendo as fotos daqueles peixões em Copacabana, cada peixão de desmontar o esqueleto!- Eu lembro. Os peixões também se chamavam uvas. Ela é uma uva!- Uva! Isso mesmo! Aqueles peixões, aquelas uvas, as vedetes! Angelita Martinez! Ai! Anilza Leoni! Ai! Íris Bruzzi! Ai! Elvira Pagã! Aaai!- É, Zeca, parece que vai ser difícil você se concentrar muito nos Bem-te-vis da Pátria, nessa sua estada no Rio.- Não, você está enganado, é que eu me entusiasmo com facilidade, você me conhece, é meu coração de orador revolucionário. O assunto me empolga e aí eu faço logo um comício, mas claro que os Bem-te-vis da Pátria são minha absoluta prioridade. O bem-te-vi é um passarinho de valentia e dignidade, muito melhor que o tucano, um folgado que só tem bico e pose e faz cocô o tempo todo. Você vai ver a força de nosso movimento.- É, você ainda não me deu detalhes de nada, só sei que vai haver uma camisa com um bem-te-vi dizendo que está vendo os ladrões.- Isso é apenas um aspecto, eu tenho muito mais para contar. Mas, antes de mudar de assunto, eu queria lhe fazer uma pergunta: não dá para dizer no jornal que eu sou virgem de carioca? De repente cola e aí vai ver que desperta o espírito de pioneirismo de alguma leitora ou a sede de glória de outra, pode ser que tenha alguma tarada... Enfim, nada de mais, você bem que podia dizer isso no jornal, eu nunca lhe pedi nada.- Isso não, não fica bem, para isso é melhor a internet. Já os Bem-te-vis da Pátria, tudo bem, são um projeto cívico. Quer dizer que você estará examinando candidatas a alistar-se nos Bem-te-vis. Como é esse exame?- Ah, é complexo, são vários exames. Mas eu só aplico um.- Qual é ele?- O psicotoque. Quem inventou fui eu. Você acha que a carioca...

Meu camarim - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

É pouco provável que me convidem para fazer algum megashow num futuro próximo, mas nunca se sabe. Por via das dúvidas, e para não ficar atrás das exigências feitas pelos artistas internacionais que nos visitam, enquanto o convite não vem preparei uma lista do que eu quero no meu camarim.
– Cento e dezessete toalhas de banho fofas, brancas, com meu monograma em dourado.– O mesmo número de toalhas de rosto, com monogramas simples.
– Cinquenta roupões felpudos.
– Cinquenta pares de chinelos na forma de coelhos, também felpudos.
– Uma banheira jacuzzi.
– Patinhos flutuantes para a banheira jacuzzi.
– Submarinos de brinquedo para a banheira jacuzzi.
– Um sortimento de pastéis, dividido igualmente entre de carne e de camarão. Queijo não.
– Uma bandeja de empadas do restaurante Caranguejo, de Copacabana.
– Um suprimento inesgotável de picolés de coco da Kibon.
– Doze garrafas de champanhe Taittinger numa temperatura não menor do que 8 ou maior do que 11 graus.
– Quatro garrafas do vinho Cheval Blanc, safra 2005.
– Um serviço continuo de caviar, blinis, “creme fraiche”, vodka gelada e limão. O limão pode ser nacional. O caviar, obviamente, não.
– Três tenistas russas. De saiote.
– Uma massagista sueca e uma tailandesa que trabalhem em conjunto. Uma a parte de cima, outra a parte de baixo.
– Uma orquestra de câmara.
– Visitas da Patricia Pillar, da Patrícia Poeta e de alguma outra Patrícia que me ocorrer na hora.
– Um padre franciscano, um pastor evangélico, um rabino e um monge budista, para o caso de eu precisar de orientação espiritual ou de quatro para o pôquer.
– Em Busca do Tempo Perdido, A Montanha Mágica e A Genealogia da Moral, de Nietzsche, não para ler mas para deixar espalhados pelo camarim e dar uma boa impressão, e disfarçar as revistas de quadrinhos.

– Por último: nenhum contato com o mundo exterior. Nem por rádio, nem por TV, sequer por janela. Não quero ser incomodado pela realidade nem na hora do show.Aí estão minhas exigências. Espero que tenham tomado nota.

Pela honra do mandatário - MARIO VARGAS LLOSA

O presidente do Equador, Rafael Correa, ganhou uma importante batalha legal contra a liberdade de imprensa em seu país, e deu mais um passo para transformar o seu governo em um regime autoritário. A Corte Nacional de Justiça, a máxima instância da magistratura, condenou o jornal El Universo, decano da imprensa equatoriana com mais de 90 anos de existência, por injúrias ao presidente, com uma sentença extremamente severa: US$ 40 milhões e 3 anos de cadeia para os principais responsáveis do diário, os irmãos Carlos, César e Nicolás Pérez. (Correa depois "perdoou" a multa e pediu a anulação da sentença.) O processo se iniciou há pouco menos de um ano, em razão de um artigo do jornalista Emilio Palacio, que, comentando a atuação de Correa numa confusa rebelião da polícia, em setembro de 2010, na qual acabou envolvido, afirmava: "O ditador deveria lembrar, por fim, e isto é muito importante, que com o indulto, no futuro, um novo presidente, talvez inimigo seu, poderia levá-lo perante um tribunal penal por ter ordenado que se disparasse e sem aviso prévio contra um hospital cheio de civis e gente inocente". Correa considerou a frase lesiva à sua honra.Comemorando a decisão do Tribunal, enquanto seus partidários queimavam na rua exemplares do diário incriminado, o chefe de Estado do Equador disse que, com a sentença, haviam sido alcançados três objetivos: "provar que El Universo mentiu e é possível julgar, não os palhaços, mas os donos do circo, além de mostrar que cidadãos podem reagir aos abusos da imprensa".Ele não disse se estava satisfeito por sua honra ter sido reparada, e por uma razão muito simples: porque agora, precisamente, essa honra - aliás do seu nome e do seu governo - está sendo desprestigiada internacionalmente por uma operação judicial que toda a imprensa livre do mundo, as organizações de jornalistas, dos direitos humanos e partidos e governos democráticos consideram um atropelo cínico e exorbitante da liberdade de expressão. Levando em conta que esse atropelo não é o primeiro nem será o último, essa operação traz com consequências trágicas para o seu país.Nem é preciso dizer que a sentença da Corte Nacional de Justiça do Equador coloca uma espada de Dâmocles sobre todos os meios de comunicação e os adversários do governo, advertindo-os de que qualquer crítica ao poder poderá acarretar represálias.A intimidação e a ameaça de instalar a autocensura no mundo da informação, obrigando jornalistas e formadores de opinião a se tornarem censores de si mesmos e a escrever olhando furtivamente ao seu redor, é um método que todos os ditadores modernos praticam.O exemplo mais conspícuo na América Latina, depois do caso óbvio de Cuba, é o do comandante Hugo Chávez, da Venezuela, seguido por sua aluna exemplar, a argentina Cristina Kirchner - mais hipócrita, mas mais efetiva do que o da anacrônica censura prévia ou o mero fechamento policial de meios de comunicação indomesticáveis.O desaparecimento de um jornalismo livre e sua substituição por uma mídia neutralizada e incapaz de exercer a crítica é o sonho, também, das pseudodemocracias demagógicas e devastadas pelo populismo.Na verdade, quando começou a se destacar, em abril de 2005, em plena crise constitucional, Correa, economista católico, com títulos pelas Universidade de Lovaina e de Illinois e uma brilhante carreira acadêmica, inspirou muitas esperanças. Aparentemente movido por sentimentos generosos e idealistas, acreditava-se que fortaleceria as instituições democráticas, a justiça social e a modernização do Equador.Foi exatamente o contrário. Intoxicado pelo poder e pela obsessão continuísta, peão dos delírios socialistas e bolivarianos do comandante Chávez, Correa, com suas políticas de curto prazo, irresponsabilidade fiscal e corrupção multiplicada, empobreceu e confundiu a sociedade equatoriana, irritando-a e exasperando-a. Por isso, sua impopularidade foi crescendo de maneira sistemática nos últimos tempos.Esse é o contexto que explica os golpes desesperados contra a liberdade de expressão nos últimos meses.Dito isso, ninguém pode negar que o jornalismo, tanto no Equador quanto no restante da América Latina, está longe de ser sempre um exemplo de probidade, moderação e objetividade. Evidentemente, às vezes sucumbe ao sensacionalismo, ao exagero, à injúria e ao libelo, e por outro lado, um sistema judicial probo e independente deveria amparar os cidadãos contra esses excessos. Mas a decapitação não é o remédio mais adequado contra a dor de cabeça.A sanção a El Universo pela Corte Nacional escandaliza, entre outras coisas, por sua desproporção com a suposta ofensa e o caráter exorbitante com que se destaca. É a melhor demonstração de que sua finalidade não é corrigir os erros de que tenha sido vítima uma pessoa. É um ato político, que pretende acabar de vez com todos os pilares da democracia.De todo modo, foi uma vitória de Pirro de Rafael Correa. O caso serviu para mostrar, por um lado, como são pouco confiáveis os tribunais equatorianos em matéria de justiça, mancomunados como estão com os que controlam o poder político, e, por outro, a coragem e a coerência dos donos e dos jornalistas do Universo e dos inúmeros colegas equatorianos que se solidarizaram com eles. Os desenfreados esforços do governo para dividi-los e quebrá-los foram inúteis. Todos se uniram à sua luta: empresários, jornalistas, funcionários e gráficos, defendendo com magnífica coerência sua posição independente. Por seu lado, Correa converte-se num vulto indefinido, meio esmaecido, entre o tumulto dos pequenos caudilhos e dos "politicastros" que fazem parte da pior tradição da América Latina.


TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Caetano Veloso - Picnic

Ao ouvir a conversa que surgiu, durante o ensaio do show de Gal, sobre a nomeação de Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca (e a história de que o senador evangélico teria respondido à pergunta de um repórter sobre seus conhecimentos a respeito do assunto com a frase "Não sei nem colocar uma isca no anzol"), o guitarrista Pedro Baby, ainda levantando o tronco e a cabeça do semicírculo de pedais que se dispõe à sua frente, comentou (ele viveu alguns anos nos Estados Unidos): "Puxa vida, Ministério da Pesca!, daqui a pouco vai ter o Ministério do Piquenique." O número de ministérios é enorme e só fez crescer na era Lula. Tem que agraciar muitos partidos e muitos grupos de pressão (dizem que Crivella entra para atrair eleitores evangélicos para o candidato do PT, portanto do Governo Federal, à prefeitura de São Paulo, já que Serra decidiu dizer mais uma vez que se se eleger não deixará o cargo para tentar de novo a presidência?). Quem pode acreditar em quem quer que esteja em qualquer dos lugares dessa dança? Um pique-nique contra a legalização do aborto e o reconhecimento do casamento gay. Piquenique ou picnic? Como é mesmo que o acordo nos aconselharia a grafar essa palavra inglesa (ou alemã?) há século consagrada pelo uso?
Esse acordo é uma maluquice. Quero dizer, é outra maluquice. É mais uma maluquice. O que foi mesmo que houve nos anos 1970? Não me lembro de ouvir a palavra "acordo" (que ainda se escrevia "acôrdo", para distinguir da primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo acordar). Mas o fato é que o CD "Nego", concebido por Carlos Rennó, ficou com esse título que remete mais ao samba-canção que primeiro fez furor na voz de Nelson Gonçalves e, depois, na de Maria Bethânia do que à palavra que poderia corresponder ao "nigger" americano, se este não fosse um xingamento. Até os anos 1970, escrevia-se "nêgo", quando se queria designar alguém de pele escura, ou dengar um amigo ou namorado querido, ou ser simpático com o vendedor da loja, ou simplesmente referir-se ao ser humano em geral. Aliás, nesta última acepção é que ouvi essa palavra pronunciada hoje, pelo mesmo Pedro, quando, ao reportar uma combinação que tinha feito com todos os membros de sua família, disse que "nego acatou logo". "Nego" é "geral", é "todo mundo" (que perdeu o "o", o artigo definido que tinha herdado da origem francesa da expressão, também depois dos anos 1960, acho, embora eu próprio quando escrevi um livro nos anos 1990 ainda teimasse em manter o artigo). Nego é a família de Pedro.
Também o livro "Um defeito de cor", cujas 925 páginas li sempre com algum interesse, ostenta um título à primeira vista estranho na capa: alguém decorou um defeito e o repete sem precisar consultar o teleprompter? Não, seu velho, "cor" é "côr". Faz décadas que alguém decidiu, neguinho decidiu, um grupo de pessoas decidiu (quem, afinal, foi a esse piquenique?) que seria mais fácil para os estudantes brasileiros e estrangeiros que os acentos diferenciais dançassem. Por falar nisso: por que Guimarães Rosa escreve "dansar" em ao menos uma das histórias (estórias) de "Sagarana" (ou será "Corpo de baile")? E "dôido" em todo o "Grande sertão"? "Dôido"? Nem nos anos 1950 eu aprendi isso. Diferençava-se "doido" (que já começa com um ditongo que automaticamente confere som fechado ao "o", além de assegurar a tonicidade da sílaba - que aliás independe disso, já que um dissílabo não acentuado e não terminando em "i", "u" ou ditongo é automaticamente paroxítono - fazendo duas vezes desnecessário o recurso ao acento circunflexo) de "doído", como até hoje se faz. Nada mais. Mistérios. Escrever é muito perigoso. Esse circunflexo de Rosa deve ter motivações esotéricas, numerológicas, ocultas. É um caso extremo e anômalo. Mas o de, por melhor exemplo, "fôra" até hoje me faz falta. Muitas vezes inicio a leitura de um parágrafo de romance e paro na palavra "fora", indeciso se seu "o" foi pensado para se pronunciar aberto (e, portanto, indicar que não é dentro) ou fechado (dando à palavra o sentido de mais-que-perfeito do verbo ir - ou ser!). De modo que sempre tenho de recomeçar a leitura depois que, lendo o resto da frase, me asseguro de tratar-se de uma ou outra pronúncia. Imagino que teria um problema se estivesse lendo o texto pela primeira vez e em voz alta para um grupo, num piquenique.
Mas será que a finalidade é de fato facilitar o uso da língua escrita? E é seguro que a ausência de acentos a torna mais fácil? A facilidade é uma virtude para uma língua? Ouço muitos malucos brasileiros dizerem que "o português é uma língua muito difícil". De onde vem essa ideia? Do Ministério da Pesca?
Sempre se dá o exemplo da facilidade gramatical do inglês. Acho inglês uma língua de outro planeta. Ela é polida ou desgastada pelo tempo, uso e convergência de vários povos numa ilha afortunada, como um seixo. Não tem essas redundâncias de o plural ter que se reafirmar em cada palavra da sentença, não tem propriamente conjugação verbal, não tem esse desperdício de masculino e feminino pra tudo. Mas ouvi aquele discurso contra o preconceito linguístico nos Estados Unidos no filme "12 homens e uma sentença". Em "Picnic" temos aqueles peitos incríveis de Kim Novak. Agora aqui é "para" em vez de "pára". Como posso parar? As maluquices proliferam ao redor, só tenho uma cabeça. Ou talvez só tenha quatro, como diz Mautner.