Nara Leão faria 70 anos hoje. Cantora, que descobriu e revelou muitos artistas, ganha homenagem em site criado pela filha e deve ter musical remontado em breve Ana Clara BrantO ano era 1966. O Brasil vivia uma ditadura militar e vários artistas começaram a desafiar o sistema vigente. A então musa da Bossa Nova, Nara Leão, foi uma das vozes que se levantaram contra os militares e acabou sendo retaliada pelo corajoso ato. Em sua defesa, ganhou estes versos do poeta Carlos Drummond de Andrade: “Meu honrado marechal dirigente da nação, venho fazer-lhe um apelo: não prenda Nara Leão (...) A menina disse coisas de causar estremeção? Pois a voz de uma garota abala a Revolução? Narinha quis separar o civil do capitão? (…) Será que ela tem na fala, mais do que charme, canhão? Ou pensam que, pelo nome, em vez de Nara, é leão?”A atitude da artista mostra que o jeito de menina frágil e delicada era só aparência. A cantora capixaba abre hoje o clube dos artistas que em 2012 completam 70 anos de vida. Praticamente nenhum evento, tributo ou lançamento marcam as comemorações, e para não deixar a data ficar em branco, a filha mais velha da artista, Isabel Diegues, acaba de criar um site (www.naraleao.com.br) em homenagem à mãe. “ Em 19 de janeiro de 2012, minha mãe faria 70 anos. E esse é o meu presente: compartilhar sua obra para que todos possam se deliciar, ouvir e pesquisar à vontade”, declarou Isabel em sua página no Facebook.O endereço na internet traz uma cronologia da vida e da carreira de Nara, galeria de fotos, vídeos e áudios. As caixas com as coletâneas de seus discos lançadas em 2002 e 2005 são raridades nas lojas e um dos presentes que ela deve ganhar em breve é a reestreia do musical Nara, que volta em março aos palcos em São Paulo. Uma das grandes homenagens que a cantora ganhou ocorreu há cinco anos. O estilista mineiro Ronaldo Fraga criou uma coleção inspirada em Nara Leão e encantou a São Paulo Fashion Week. “É um desfile que até hoje as pessoas comentam. Foi realmente lindo e emocionante. Cresci escutando essa MPB de ouro da qual Nara fazia parte. Na época, teve até quem me questionasse a escolha do tema. O que mais me chamava a atenção nela era como criador e criatura eram a mesma coisa. Ética e estética se misturavam. O meu grande estímulo foi que Nara tinha uma cara da moda e do nosso tempo, ela experimentou e criou estilos. Tinha uma personalidade admirável”, declara Fraga.O estilista acrescenta que hoje pode parecer normal a trajetória da cantora, mas ela ousou e conseguiu passear por vários estilos como ninguém. “Muito do que as cantoras contemporâneas fazem, Nara já tinha feito. Ela começou na bossa nova, depois gravou Roberto Carlos, músicas nordestinas. Levou o morro carioca para dentro da casa dela. Fora a sua generosidade. Ela descobriu e revelou muita gente. Nara Leão é eternamente moderna”, destaca.O desfile, que teve performance ao vivo de Fernanda Takai, acabou rendendo frutos. A vocalista do Pato Fu revisitou o repertório de Nara Leão em seu primeiro disco solo, Onde brilhem os olhos seus, lançado em 2007. Entre as canções gravadas estão Debaixo dos caracóis dos seus cabelos (Roberto e Erasmo Carlos), Diz que fui por aí (Zé Keti/Hortênsio Rocha) e Lindonéia (Caetano Veloso/Gilberto Gil). O projeto teve grande repercussão entre o público e a crítica.MemóriaEla se tornou a musa da bossa novaNascida em Vitória, Nara Lofego Leão era a segunda filha do casamento entre dr. Jairo Leão, advogado, e Altina Lofego Leão, professora. Sua irmã mais velha é a jornalista Danuza Leão. Desde menina, ela se interessou pela música, e, aos 12 anos, ganhou do pai o seu primeiro violão e passou a fazer aulas com o músico Patrício Teixeira, no Rio de Janeiro, para onde se mudou quando tinha apenas 1 ano de vida. A bossa nova nasceu em reuniões no apartamento dos pais da cantora, em Copacabana. Foi durante esses encontros que ela conheceu seu primeiro namorado, o compositor Ronaldo Bôscoli. Além de musa desse movimento musical, Nara ficou conhecida como a intérprete de A banda. Mas foi também a responsável por trazer ao centro da MPB compositores como Cartola, Zé Keti e Nelson Cavaquinho, e lançar canções de nomes como o próprio Chico Buarque, Baden Powell, Carlos Lyra e Edu Lobo.Nara foi casada com o cineasta Cacá Diegues, com quem teve dois filhos: Isabel e Francisco. A cantora morreu no dia 7 de junho de 1989, aos 47 anos, vítima de um câncer cerebral.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Eternamente moderna - Ana Clara Brant
Havel, cebolas e cenouras - DEMÉTRIO MAGNOLI
Fez ontem um mês que morreu Vaclav Havel. No dia seguinte ao enterro, 80 mil manifestantes reunidos em Moscou interromperam por um minuto o protesto contra Vladimir Putin para homenageá-lo em silêncio. Eles perceberam que o mundo ficou mais pobre sem Havel. O intelectual, dramaturgo e dissidente checo ensinou, ao longo de uma vida, que o contrário do comunismo não é o capitalismo, mas a verdade.Havel não era um dramaturgo excepcional, nem um ensaísta genial. Contra o cenário fulgurante da vida literária, artística e filosófica da Europa Central, suas peças e seus textos parecem, com apenas uma exceção notável, experimentos secundários. "A obra mais importante de Havel é sua própria vida", disse o romancista Milan Kundera. E, no entanto, ele fez mais diferença que qualquer outro.A dissidência comunista nasceu junto com a consolidação do poder bolchevique na Rússia. Antes de Hannah Arendt iluminar os paralelos entre o comunismo e o nazismo (Origens do Totalitarismo, 1951), figuras como Victor Serge (É meia-noite no século, 1939), Arthur Koestler (O Zero e o Infinito, 1940) e George Orwell (A Revolução dos Bichos, 1945) cortaram o corpo apodrecido do sistema soviético com o bisturi da literatura e escancararam a natureza do totalitarismo. Havel inspirou-se nesses predecessores para formular o seu diagnóstico: o mal manifestava-se como linguagem - e, justamente por isso, contaminava a sociedade inteira.O Poder dos Sem-Poder, de 1978, é o grande voo ensaístico de Havel. Escrito logo após um encontro furtivo com o dissidente polonês Adam Michnik, o texto desvendou o segredo do poder comunista tardio. O terror stalinista, com seu cortejo indescritível de opressão e brutalidade, era coisa do passado. No lugar dele se instalara um sistema "pós-totalitário", expressão que não pretendia conotar a superação do totalitarismo, mas uma acomodação essencial das engrenagens de controle da sociedade. O fundamento do sistema residia na mentira ritualizada.Por que o administrador da quitanda pendura na vitrine, junto com as cebolas e as cenouras, um cartaz com os dizeres "trabalhadores do mundo, uni-vos!"?, indagou Havel. Ele não estava "genuinamente entusiasmado com a ideia da unidade dos trabalhadores do mundo". O cartaz fora "enviado da sede da empresa ao verdureiro, junto com as cebolas e cenouras". O homem expunha-o porque "agia assim há anos", "todos fazem o mesmo" e "tais coisas devem ser feitas para que tudo corra bem na vida". O pós-totalitarismo comunista operava com base no hábito, na imitação, no medo e num interesse pessoal mesquinho. A doutrina que anunciara a libertação de toda a humanidade se conservava no poder pelo estímulo organizado das inclinações humanas à subserviência, à hipocrisia e à covardia. O poder comunista pereceria quando as pessoas sem poder simplesmente se recusassem a desempenhar os papéis deploráveis que lhes haviam sido designados.Na superfície, não parece existir nenhum traço comum entre Havel e o polonês Leszek Kolakowski. O checo nunca foi comunista; o polonês ingressou no partido na juventude, destacando-se como brilhante promessa. Por motivos políticos, as portas da universidade fecharam-se ao checo; pelas mesmas razões, abriram-se de par em par ao polonês, que cursou filosofia e, em 1950, ganhou uma viagem à "pátria do socialismo". A visita teve consequências inesperadas, pois aquela fresta para a "desolação material e espiritual" da URSS quebrou sua fidelidade ideológica, convertendo-o em dissidente. Mesmo nessa condição, porém, um abismo o separava de Havel: o polonês entregou-se à crítica da filosofia marxista da História, transitando numa esfera teórica distante dos interesses intelectuais do checo.Entretanto, um fio profundo une Kolakowski a Havel. De volta à Polônia, Kolakowski publicou um ensaio devastador que contestava o núcleo do pensamento marxista. A História não é previsível, escreveu, delineando um raciocínio que o conduziria à conclusão de que o stalinismo não representava uma aberração do comunismo, mas a sua plena realização. O dogma da previsibilidade da História é a fonte da noção de que os destinos da sociedade devem ser depositados no partido. Tal noção, por sua vez, esculpe a linguagem política da mentira, privando a sociedade de valores genuínos e esvaziando a vida pública de qualquer sentido cívico.A Revolução de Veludo, de 1989, transferiu um relutante Havel dos bastidores do Teatro Lanterna Mágica para o Castelo de Praga. No cargo quase simbólico de presidente da Checoslováquia, ele convidou Frank Zappa para tocar no concerto "Adeus ao Exército Soviético", última performance pública do músico. Também evitou que a separação entre a República Checa e a Eslováquia degenerasse nos horrores do conflito étnico. Há três anos, como ato político derradeiro, Havel inspirou a Declaração de Praga, que classifica o comunismo, ao lado do nazismo, como causa dos mais terríveis crimes do século 20. O documento solicita que o 23 de agosto, data da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, seja transformado em dia de memória das vítimas dos dois totalitarismos paralelos.Dias atrás, a blogueira cubana Yoani Sánchez divulgou um apelo em vídeo à presidente Dilma Rousseff. Yoani foi convidada para a estreia do documentário Conexão Cuba-Honduras, do cineasta Dado Galvão, na Bahia, em fevereiro, mas o governo cubano continua a negar-lhe uma autorização de viagem. Ela não pode viajar porque, como ensinou Havel, escolheu "viver na verdade", recusando-se a seguir o roteiro escrito pelo pós-totalitarismo. Todos nós podemos erguer um brinde em memória do dissidente checo. Dilma tem a oportunidade de homenageá-lo com um gesto especial: intercedendo em favor de Yoani. Nossa presidente fará uso desse privilégio ou preferirá celebrar uma mentira emoldurada por cebolas e cenouras?
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Hélio Schwartsman - Estupro no ar
SÃO PAULO - Se houve, de fato, estupro no "BBB 12", eu não sei. O que sei é que está em curso uma pequena revolução cultural, que redefine o conceito de liberdade sexual e vem exigindo mudanças na legislação.
No caso brasileiro, elas vieram em 2009, quando todo o capítulo do Código Penal que trata dos chamados atos libidinosos foi reescrito. Expressões anacrônicas como "mulher honesta" e "virgem" desapareceram sem deixar saudades. Homens e mulheres foram igualados em termos de direitos e responsabilidades, e a noção-chave de "manifestação da vontade" fez sua tardia estreia nas leis que regulamentam o sexo.
Tais mudanças eram mais do que necessárias, mas seria um erro acreditar que agora já está tudo resolvido. A julgar pelos precedentes em outros países, a introdução da ideia de consentimento como precondição para a relação sexual -que está apenas esboçada na legislação brasileira, mas já é a regra em vários Estados norte-americanos-, nos coloca diante de outro tipo de dificuldade.
Com efeito, quando o estupro era definido apenas em termos de violência física (a mulher que não reagisse à agressão não podia nem mesmo reclamar a posição de vítima) era relativamente fácil encontrar hematomas e fissuras que confirmassem a história. Depois que o critério passa a ser o consentimento, escancararam-se as portas para a indefinição.
Em que condições a aquiescência pode ser presumida? Como proceder quando surge uma guerra de versões? A própria semântica deixa de ser território seguro, pois há situações em que um "não" significa "sim" e outras em que o "sim" deve ser interpretado como um "não".
A barafunda é tamanha que já há juristas norte-americanos que defendem que cada relação sexual seja precedida de negociações contratuais que explicitem os respectivos consentimentos e os limites da brincadeira. Embora prudente, tal prática sacrificaria algo do romantismo.
helio@uol.com.br
No caso brasileiro, elas vieram em 2009, quando todo o capítulo do Código Penal que trata dos chamados atos libidinosos foi reescrito. Expressões anacrônicas como "mulher honesta" e "virgem" desapareceram sem deixar saudades. Homens e mulheres foram igualados em termos de direitos e responsabilidades, e a noção-chave de "manifestação da vontade" fez sua tardia estreia nas leis que regulamentam o sexo.
Tais mudanças eram mais do que necessárias, mas seria um erro acreditar que agora já está tudo resolvido. A julgar pelos precedentes em outros países, a introdução da ideia de consentimento como precondição para a relação sexual -que está apenas esboçada na legislação brasileira, mas já é a regra em vários Estados norte-americanos-, nos coloca diante de outro tipo de dificuldade.
Com efeito, quando o estupro era definido apenas em termos de violência física (a mulher que não reagisse à agressão não podia nem mesmo reclamar a posição de vítima) era relativamente fácil encontrar hematomas e fissuras que confirmassem a história. Depois que o critério passa a ser o consentimento, escancararam-se as portas para a indefinição.
Em que condições a aquiescência pode ser presumida? Como proceder quando surge uma guerra de versões? A própria semântica deixa de ser território seguro, pois há situações em que um "não" significa "sim" e outras em que o "sim" deve ser interpretado como um "não".
A barafunda é tamanha que já há juristas norte-americanos que defendem que cada relação sexual seja precedida de negociações contratuais que explicitem os respectivos consentimentos e os limites da brincadeira. Embora prudente, tal prática sacrificaria algo do romantismo.
helio@uol.com.br
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Dilma vai às compras - LUIS FERNANDO VERISSIMO
Dilma deu um tapa na mesa.
– Não é possível. Até o iogurte está ruim!
Não era a primeira vez que a presidente explodia assim, no café da manhã. Ou era um mamão papaia passado. Ou era um croissant farelento. Ou a manteiga rançosa. Agora, o iogurte. Como era possível? Até o iogurte estragado!
– Joguem no lixo – ordenou Dilma.
E perguntou:
– Quem é o responsável pelo meu café da manhã?
Chamaram o responsável pelo café da manhã.
– Olhe aqui, meu amigo – disse Dilma. – Eu já aguentei demais. Durante um ano, aguentei abacaxi fora de época. Pão duro. Ovo sem gosto. Bacon gordo. Aguentei tudo, sempre imaginando que no dia seguinte iria melhorar. Mas não melhorou.
E hoje chegou ao cúmulo. O iogurte estava estragado. Iogurte já é leite estragado, se estragar mais fica intragável. É o estragado do estragado. E hoje conseguiram me dar até iogurte estragado.
– É que, é que...
– É que o quê? Fale, homem!
– É que não sou eu que faço as compras, dona Dilma.
– Quem é, então?
– É um grupo.
– Um grupo?!
Era um grupo. Ou, como eles preferiam se chamar, uma aliança. Todas as manhãs, várias pessoas embarcavam em carros oficiais no Planalto e iam às compras. Cada uma levava a sua lista de compras. E cada uma tinha seu fornecedor favorito. O caso do mamão papaia era típico.
Não compravam o mamão papaia mais bonito e melhor. Não interessava a qualidade do mamão papaia, interessava que o dono da fruteira era do mesmo partido, além de primo, de um membro do grupo – que não aceitava outro mamão papaia na mesa da presidente a não ser o do seu primo. E assim acontecia com o croissant, com o pão e a manteiga, com os ovos, com o bacon...
– E o iogurte? Por que o iogurte ficou ruim de repente?
A explicação era que o iogurte mudara, por assim dizer, de patrocinador. Passara a ser importado de uma cidadezinha no interior de Minas, onde o afilhado de um dos membros da aliança era candidato à prefeitura e precisava de apoio. A viagem do interior de Minas a Brasília era longa, o iogurte não vinha bem acondicionado, era natural que estragasse...
Dilma deu outro tapa na mesa. Aquilo tinha que acabar.
– Vou eu mesmo fazer as compras!
– Mandou desfazer a tal aliança e no outro dia foi vista num supermercado enchendo o carrinho com produtos para o seu café da manhã, escolhidos com muito cuidado. Demorou-se no exame do mamão papaia, cheirando-o e apalpando-o até ficar satisfeita de que era o que queria.
Comentou com quem a acompanhava que aquilo lhe dera uma ideia para a escolha – pessoal, sem ouvir palpite de ninguém – dos seus novos ministros, quando fizesse a reforma.
– Você vai cheirá-los e apalpá-los até ficar satisfeita?
– Metaforicamente, sim.
– Não é possível. Até o iogurte está ruim!
Não era a primeira vez que a presidente explodia assim, no café da manhã. Ou era um mamão papaia passado. Ou era um croissant farelento. Ou a manteiga rançosa. Agora, o iogurte. Como era possível? Até o iogurte estragado!
– Joguem no lixo – ordenou Dilma.
E perguntou:
– Quem é o responsável pelo meu café da manhã?
Chamaram o responsável pelo café da manhã.
– Olhe aqui, meu amigo – disse Dilma. – Eu já aguentei demais. Durante um ano, aguentei abacaxi fora de época. Pão duro. Ovo sem gosto. Bacon gordo. Aguentei tudo, sempre imaginando que no dia seguinte iria melhorar. Mas não melhorou.
E hoje chegou ao cúmulo. O iogurte estava estragado. Iogurte já é leite estragado, se estragar mais fica intragável. É o estragado do estragado. E hoje conseguiram me dar até iogurte estragado.
– É que, é que...
– É que o quê? Fale, homem!
– É que não sou eu que faço as compras, dona Dilma.
– Quem é, então?
– É um grupo.
– Um grupo?!
Era um grupo. Ou, como eles preferiam se chamar, uma aliança. Todas as manhãs, várias pessoas embarcavam em carros oficiais no Planalto e iam às compras. Cada uma levava a sua lista de compras. E cada uma tinha seu fornecedor favorito. O caso do mamão papaia era típico.
Não compravam o mamão papaia mais bonito e melhor. Não interessava a qualidade do mamão papaia, interessava que o dono da fruteira era do mesmo partido, além de primo, de um membro do grupo – que não aceitava outro mamão papaia na mesa da presidente a não ser o do seu primo. E assim acontecia com o croissant, com o pão e a manteiga, com os ovos, com o bacon...
– E o iogurte? Por que o iogurte ficou ruim de repente?
A explicação era que o iogurte mudara, por assim dizer, de patrocinador. Passara a ser importado de uma cidadezinha no interior de Minas, onde o afilhado de um dos membros da aliança era candidato à prefeitura e precisava de apoio. A viagem do interior de Minas a Brasília era longa, o iogurte não vinha bem acondicionado, era natural que estragasse...
Dilma deu outro tapa na mesa. Aquilo tinha que acabar.
– Vou eu mesmo fazer as compras!
– Mandou desfazer a tal aliança e no outro dia foi vista num supermercado enchendo o carrinho com produtos para o seu café da manhã, escolhidos com muito cuidado. Demorou-se no exame do mamão papaia, cheirando-o e apalpando-o até ficar satisfeita de que era o que queria.
Comentou com quem a acompanhava que aquilo lhe dera uma ideia para a escolha – pessoal, sem ouvir palpite de ninguém – dos seus novos ministros, quando fizesse a reforma.
– Você vai cheirá-los e apalpá-los até ficar satisfeita?
– Metaforicamente, sim.
Caetano Veloso - Gente
Quem entende de música no mundo sabe que ela (Elis) é uma das maiores que já houve
Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalad para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.
Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.
Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada notacantada (o modo como ela instintivamente cuidava daafinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava par meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitadopor desafios mais altos.
Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.
Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.
O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantos a explosão de musicianship que eu vi na TV.
Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo com essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.
Ouvi Elis pela primeira vez vendo-a na televisão. Foi em Salvador — e nós, os baianos que chegaram ao eixão na esteira da estreia de Bethânia no Opinião, já tínhamos um esboço de visão da música popular numa perspectiva brasileira. Tive reação semelhante à que muitos tiveram: finalmente uma cantora moderna, em pleno domínio de seus recursos aparecia na cena profissional — e já embalad para alcançar massas de ouvintes. Era indubitavelmente um largo passo dado. Éramos todos, Elis e nós, esforços de criação dentro do universo exigente que foi o imediato pós-bossa nova.
Sempre conto que, na minha imaginação, Bethânia, Gal, Gil e eu faríamos algo marcante. Dos quatro, Gal e eu éramos os mais radicalmente joãogilbertianos. E eu talvez mais do que Gal. Bethânia tinha um temperamento e um talento que a levavam para além das marcas estilísticas do supercool de João. Gil, por ser o que mais era capaz de apreender os acordes e as levadas de violão do mestre, sentia-se livre para cruzar a fronteira. Gal desejava entrar cada vez mais fundo no mundo desdramatizado da bossa pura. Eu, que me julgava um observador útil, capaz apenas de contribuir com acompanhamento crítico e conversas teóricas (o que não me impedia de fazer umas musiquinhas), tinha João como paradigma e, por isso, interessava-me pelo desvelamento do ser da canção como forma. Assim, o canto e violão dele se opunham, dentro de mim, ao samba-jazz dos grupos instrumentais (ou voco-instrumentais) que se desenvolveram no Beco das Garrafas. Elis, cantando na TV, num videotape dos que chegavam de avião às províncias (ainda não havia televisão em rede), era a realização brilhante do estilo que me parecia oposto ao de João.
Mas a evidência de competência, talento e desenvoltura era mais forte do que meus esquemas críticos. O fato bruto de que alguém estivesse dominando divisões complicadas das frases rítmicas e exibindo com espontânea segurança o entendimento de cada notacantada (o modo como ela instintivamente cuidava daafinação) era em si mesmo um acontecimento na cena brasileira, um acontecimento que me obrigava a pôr tudo em novo patamar. Bem, tudo o que eu imaginava par meus três amigos era algo que tivesse esse poder — mas por outras vias, a partir de outros elementos, sempre nascidos da atenção a João. Assim, vi uma tensão natural entre nosso projeto e o acontecimento Elis. Tive quase um sentimento de ciúme. Sobretudo me senti com maiores responsabilidades e excitadopor desafios mais altos.
Nada disso nunca se desmentiu. Depois de Elis, teríamos que fazer algo mais radical. Bethânia esteve sempre fora da questão, já que ela tinha um estilo assombrosamente desenvolvido e totalmente independente da estética da bossa nova. Mas ela mal tinha se decidido pela música: havia sonhado em ser atriz, escrevia e fazia joias de metal. Sua voz e sua intensidade pessoal é que a puxaram para o canto, através do interesse despertado em quem a ouvia. O modo extrovertido, o tom expressionista, que contrastava com a sobriedade da bossa nova, tudo isso ela tinha em comum com Elis. Mas eram figuras opostas. Pôr as duas em comparação, dentro da cabeça, era como contrapor Sarah Vaughan a Edith Piaf. Mas o que acontecia era que, com Elis, eu era levado a pensar assim, em termos mundiais, considerando figuras nascentes de nossa canção com divas do grande mundo.
Bem, o ambiente de criação de música popular no Brasil estava se diversificando. Era a época de Edu — e Nara tinha aberto o leque do repertório, saindo das salas sofisticadas e indo ao morro e ao sertão. Mas, fosse Edu, Nara ou nós, todos parecíamos treinados em ambientes de teatro, cineclubes e diretórios acadêmicos. Elis era uma menina que gostava de Ângela Maria e se tornara um fenômeno infantojuvenil em Porto Alegre. A evidência de seu talento chamou a atenção de produtores que sonharam em fazer dela uma nova versão de Celly Campello, o que resultou em quatro LPs que, depois do estouro de “Arrastão”, foram banidos de sua discografia oficial — não tão diferente assim do que aconteceu com o 78 RPM de João, gravado no início dos anos 50. Seja como for, Elis vinha do mundo da música comercial, enquanto Nara , Edu e nós vínhamos dos ambientes intelectualizados.
O Beco das Garrafas e Armando Pittigliani compuseram a Elis genial que, logo formatada por Solano Ribeiro, veio a ser aquela espantos a explosão de musicianship que eu vi na TV.
Todos os encontros e desencontros que tive com Elis tiveram esse histórico como pano de fundo. Rogério, seu irmão, me deu de presente os quatro LPs pré-“Arrastão”, numa época em que eu, deslumbrado pelo prazer que dava assistir aos shows dessa cantora que nunca estava fora de sintonia com a música, via mais de uma vez seus espetáculos. Desde que voltei de Londres (coincidindo, em parte, com o período em que ela mostrou sua versão do cool), eu via Elis cantar exclusivamente para me sentir bem. Ela influenciou gerações de cantores, lançou multidões de autores, briguei com a “Veja” por causa do modo com essa revista publicou a notícia da sua morte (briga que nunca mais achei jeito de desfazer), e hoje a gente sabe que Björk a admira, que quem entende de música no mundo sabe que ela é uma das maiores que já houve. Ela me escreveu um bilhete pedindo perdão pelo que fez com “Gente”. E saúdo sua memória com um amor muito pessoal, particular e cheio de conteúdos peculiares.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
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