quinta-feira, 5 de maio de 2011

RICARDO MELO - Licença para matar

SÃO PAULO - Não será do dia para a noite que se terá acesso ao que realmente ocorreu no esconderijo do terrorista Osama bin Laden. Mas até a imprensa americana, que desde a Guerra do Golfo trocou o jornalismo pela "embedagem" ao governo, desconfiou do anúncio hollywoodiano da Casa Branca, versão democrata das "armas de destruição em massa" da era Bush.
Os lances épicos da violenta troca de tiros, da mulher usada como escudo, da resistência feroz deram lugar a um enredo bem mais prosaico. Provavelmente houve uma execução, e ponto. Tal descrição não comporta nenhum juízo de valor.
Bin Laden e quem se engaja no terrorismo e no fanatismo religioso têm consciência que o risco de morrer faz parte do (mau) negócio. O prontuário de crimes do chefe da Al Qaeda apontava para este final.
Mas incomoda, para dizer o menos, aceitar como natural a baboseira de Obama e dos europeus, para os quais a "justiça foi feita".
Como assim? Os EUA invadem um país, fuzilam um inimigo sem julgamento, jogam o corpo do sujeito no mar e estamos conversados. Tudo isso depois de se valerem de "técnicas coercitivas de interrogatório", eufemismo para tortura com afogamentos. E ainda vem a ONU, candidamente, dizer que "é preciso investigar" se o direito internacional foi desrespeitado.
A lógica política da operação Geronimo é a mesma que preside a intervenção seletiva nos conflitos na África e no Oriente Médio. Gaddafi, o ex-amigo, agora é inimigo, então chumbo nele e na família. Já na Síria não é bem assim, tampouco no Iêmen e na Arábia Saudita -azar de quem nasceu rebelde por ali. Mais uma vez, os EUA tratam o planeta como quintal, e usam a ONU de plateia para as "rambolices".
Que Obama, um político comum, comemore o ganho de popularidade às vésperas da batalha pela reeleição, é compreensível. Já o resto do mundo dito civilizado assistir a tudo com tamanha complacência apenas sinaliza o que está por vir.

O Obama e a Pippa - LUIS FERNANDO VERISSIMO

Obama pegou Osama. Numa única semana o Baraca respondeu aos críticos da direita que o acusavam de não ter nascido nos Estados Unidos, apresentando sua certidão de nascimento, e aos que o chamavam de frouxo no combate ao terrorismo, localizando e mandando matar o Bin Laden, que Bush tinha deixado escapar quando ele foi encurralado em Bora Bora. É verdade que quem não acreditava no Obama continua não acreditando. (Piada que corre: a certidão de nascimento não convenceu, agora querem ver a placenta). Na sua cobertura da morte de Bin Laden a rede Fox News quase não mencionou o presidente, preferindo destacar os méritos do governo Bush na sua perseguição. Mas as próximas pesquisas de opinião devem mostrar uma melhora na avaliação do Obama. Agora só falta a economia reagir ou a Michelle engravidar e a reeleição está garantida.
Casamento. Gente, e a Pippa? Todo o mundo prestando atenção na cauda da Kate e na fantasia de general de opereta do William e a verdadeira atração da festa era a irmã mais moça da noiva, Philippa, chamada Pippa. Ela só não foi mais importante do que a cauda porque a cauda tinha mensagem. Com a Inglaterra sofrendo sob as medidas de inédita austeridade impostas pelo governo conservador, a cauda foi encurtada um pouco para não parecer um acinte, mas não tanto que perdesse a imponência. Uma cauda longuíssima como a que Diana arrastou no seu casamento, em tempos melhores, destoaria dos sacrifícios que a nação é obrigada a fazer. Como estava, estava de bom tamanho. De bom tamanho também estava a Pippa, menos bonita do que a irmã mas mais interessante, e mais, como direi, rechonchuda. Grande palavra que, como se sabe, não quer dizer gorda e sim saliente nos lugares certos. O príncipe Phillip está meio apagadão. Não é verdade que tenha acordado no meio da cerimônia e perguntado quem era o louco que estava se casando. Já a rainha parece cada vez mais encantada com seus próprios chapéus. Pode-se imaginar que seu prazer de reinar hoje se resume no prazer de usar chapéus. O que explicaria sua relutância em renunciar em favor do Charles. Como renunciar aos chapéus? E Charles continua sendo a inutilidade mais cara do mundo.

Inevitável. (Da série Poesia numa Hora Dessas?!)
Assim tem sido através dos tempos
e em qualquer era:
o imprevisto sempre acontece
quando menos se espera.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Detector espacial de partículas tentará localizar matéria escura e antimatéria

Le Monde
Stéphane Foucart

  • Nova simulação por supercomputador mostra que a colisão de duas estrelas de nêutrons produz naturalmente estruturas magnéticas que impulsionam rajadas de partículas associadas com explosões de raios gama (GRBs) de curta duração Nova simulação por supercomputador mostra que a colisão de duas estrelas de nêutrons produz naturalmente estruturas magnéticas que impulsionam rajadas de partículas associadas com explosões de raios gama (GRBs) de curta duração
Para os físicos, o mundo é um quebra-cabeça. O jogo pode parecer simples, mas a maioria das peças está faltando. Na esperança de encontrar três delas – matéria escura, antimatéria e matéria estranha -, a comunidade científica elaborou um instrumento inédito: um detector de partículas orbital. Chamado de Alpha Magnetic Spectrometer (AMS) e concebido sob a direção de Samuel Ting (Massachusetts Institute of Technology, CERN), que recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1976, esse monstro de quase 7 toneladas, do tamanho de um pequeno ônibus, seria lançado na sexta-feira (29), a bordo da nave Endeavour, a partir do Centro Espacial Kennedy (Flórida, EUA). Em seguida ele será acoplado à Estação Espacial Internacional (ISS), onde deverá permanecer por cerca de dez anos em serviço.
“O objetivo é detectar a radiação cómica, esse fluxo de partículas que bombardeia continuamente a Terra”, explica Sylvie Rosier-Lees, pesquisadora no Laboratório de Física das Partículas de Annecy-le-Vieux (CNRS, Universidade de Saboia) e responsável pela colaboração francesa no AMS. “Como esses raios cósmicos são destruídos assim que entram na atmosfera, é preciso se posicionar acima, ou seja, no espaço.”
Essa radiação cósmica, cuja existência é conhecida há cerca de um século, é composta por pouco menos de 90% de prótons, cerca de 10% de núcleos de hélio, e o resto de núcleos pesados (ferro, berílio, etc.), mas também de alguns antiprótons e, talvez, outras estranhezas em um número muito pequeno. “A análise dos dados requer uma datação precisa, até o nível do microssegundo, da passagem das partículas através do detector”, explica Claude Zurbach, pesquisador no Laboratório Universo e Partículas de Montpellier (CNRS, Universidade Montpellier 2), encarregado da concepção de parte da instrumentação do AMS.
Antes de se chocar com o cimo da atmosfera terrestre, as partículas que formam a radiação cósmica são produzidas e aceleradas no coração de galáxias muito ativas, ou mesmo dentro da nossa – a Via Láctea -, nos restos de supernovas ou nas nebulosas de pulsar. Um dos primeiros objetivos do AMS é saber mais sobre a física que governa o funcionamento desses objetos estelares que, por mais estranhos que pareçam, são na verdade formados de matéria ordinária.
Mas isso não é tudo. “Ao buscar componentes muito raros da radiação cósmica, pode-se esperar alcançar uma física não convencional”, diz Rosier-Lees. Em especial, a grande sensibilidade do detector deverá lhe permitir “ver” – supondo que eles se encontrem lá – núcleos de anti-hélio no fluxo de partículas que ele receberá.
“O AMS deverá ser capaz de detectar uma única partícula de antimatéria perdida em um fluxo de um bilhão de partículas de matéria”, diz Laurent Derome, pesquisador no Laboratório de Física Subatômica e de Cosmologia de Grenoble (CNRS, Universidade Joseph-Fourier, Instituto Politécnico de Grenoble), associado ao projeto. Há interesse em buscar a passagem fugaz de núcleos de anti-hélio porque este, embora exista em estado nativo no Universo, não pode ser produzido por colisões de partículas de matéria. “A detecção de um núcleo de anti-hélio seria uma grande descoberta”, acredita Derome. “Isso indicaria que podem existir domínios de antimatéria, zonas onde esta prevaleceu sobre a matéria”.
A existência dessa antimatéria, “simétrica” àquela que nos cerca, é uma dessas questões que obcecam os físicos, porque ela leva a outra questão: a de saber por que existe alguma coisa no lugar de nada. “A priori, uma vez que as leis da física são simétricas, pode-se pensar que depois do Big Bang toda a matéria deveria ter se aniquilado em contato com a antimatéria criando luz”, explica Laurent Derome. “Então não teria restado nada”. Ora, o Universo existe: então, há um problema, ao qual os cerca de 500 cientistas da colaboração AMS, que reúne 16 países, podem esperar começar a responder.
O detector orbital buscará um indício de formas de matéria mais exótica ainda. Ele buscará na radiação cósmica a assinatura de certas partículas muito pesadas e com pouca carga elétrica, cuja existência é prevista por certas teorias: os strangelets. Para entender a estranheza dessa matéria, é preciso saber: que aquela que nos cerca é formada de átomos, eles mesmos constituídos de núcleos que formam a maior parte da massa; que esses núcleos são feitos de um agregado de nêutrons e prótons; e que esses mesmos prótons e nêutrons são constituídos de quarks “up” e “down”.
Esses dois pequenos fragmentos elementares compõem todos os núcleos de átomos de todas as moléculas de tudo aquilo que nos cerca. Mas os físicos sabem que outros quarks existem: em especial o quark “estranho”, conhecido por só formar partículas instáveis - que só existem por durações ínfimas de tempo, antes de se desintegrarem sob outras formas. A existência desses strangelets poderia assinalar a existência – prevista por certos teóricos – das chamadas estrelas “estranhas”, de uma densidade extrema, compostas de uma sopa de quarks como esses...
Também se aproveitará o AMS para procurar ver a assinatura da famosa matéria escura – aquela, invisível, cuja natureza os físicos desconhecem, mas cujo efeito gravitacional eles acreditam perceber na matéria ordinária. Os teóricos também preveem que o choque de duas partículas dessa enigmática matéria produza partículas providas de certas gamas de energia. Se estas forem detectadas, isso “poderá permitir que se tenha uma ideia da distribuição dessa matéria escura em nossa galáxia”, resume Rosier-Lees.
Tradução: Lana Lim

ELIO GASPARI - Obama fez o gol que Carter tomou

Teria sido melhor para os EUA e para Bin Laden se ele tivesse morrido numa caverna de Tora Bora


OS DOIS HOMENS mais procurados nos últimos cem anos foram Osama Bin Laden e Adolf Eichmann. O gerente dos campos de extermínio nazistas foi achado na Argentina por um cego, e o chefe da Al Qaeda escondia-se no Paquistão numa fortaleza que só um cego não via.
Convertendo o cenário para o Brasil, Bin Laden vivia em Resende, na serra fluminense, a 500 metros da Academia Militar das Agulhas Negras. Sua casa era oito vezes maior que as propriedades da vizinhança e estava cercada por um muro de 4 metros de altura. Afora essa excentricidade, um vizinho mais curioso poderia ter percebido que ela não produzia lixo. Se procurasse identificar o morador, saberia que a propriedade não tinha telefone nem cabo de internet.
É preciso muita boa vontade para se acreditar que Bin Laden não dispunha de algum tipo de proteção do poderoso aparelho de segurança paquistanês. Tanto para ele como para o governo americano, teria sido muito melhor se tivesse morrido numa caverna de Tora Bora.
O terrorista preservaria a aura de ascetismo, e os americanos ficariam livres da embaraçosa exposição dos militares paquistaneses como um aliado corrupto e traiçoeiro.
Eles formam uma casta equipada com algumas dezenas de bombas atômicas.
Serão necessárias algumas semanas para que se saiba exatamente como os quatro helicópteros americanos chegaram a Abbottabad e o que sucedeu dentro da casa.
A cabeça do terrorista valia US$ 27 milhões em prêmios. Em menos de 48 horas, derreteram-se as histórias segundo as quais Bin Laden estava armado e usou as mulheres como escudos. Houve tiroteio com guarda-costas? O governo americano levou meses para reconhecer que Che Guevara foi executado por militares bolivianos com o beneplácito da CIA. De qualquer forma, jogando-se o corpo de Bin Laden no mar, queimou-se o arquivo.
Como 24% dos americanos acreditam que Obama é um muçulmano enrustido e 7% acham que Elvis Presley está vivo, será natural que milhões de pessoas vejam nessa história mais uma lorota do Grande Satã.
A operação que matou "Gerônimo" entrará para a galeria da audácia militar. Vai-se saber como operava o agente que campanava a propriedade em Abbottabad e registrou a chegada do Suzuki branco do pombo-correio.
(No início dos anos 90, um agente da CIA vigiou um sujeito em Cartum, no Sudão. Ele só veio a saber que era o terrorista Carlos, o "Chacal", quando capturaram-no.)
Obama presidiu com absoluto sucesso uma operação que, em ponto bem menor, assemelha-se ao desastre que marcou a humilhação do poderio americano. Em 1979, a milícia iraniana ocupou a Embaixada dos Estados Unidos em Teerã e aprisionou seus 52 funcionários. Um ano depois, o presidente Jimmy Carter autorizou uma ambiciosa operação militar. Seis helicópteros deveriam baixar nos jardins da embaixada e um comando libertaria os reféns.
Deu tudo errado. Pegaram até tempestade de areia, um helicóptero explodiu e a tropa regressou, para glória do aiatolá Khomeini. Meses depois, Carter perdeu a reeleição para Ronald Reagan e o Partido Democrata ralou 12 anos de amargura. O que deu errado para Carter deu certo para Obama.

RUY CASTRO - Mallarmé reescrito

RIO DE JANEIRO - Pronto. Já não se pode nem atacar uma fortaleza nas breubas do Paquistão, à uma da madrugada e sob o maior sigilo -tanto sigilo que nem o país que abriga a fortaleza podia ficar sabendo. Pois, com todos esses cuidados, não faltou alguém insone e sem o que fazer, tuitando noite afora, e que, ao ouvir helicópteros àquela hora imprópria, transmitiu para o mundo o que estava havendo.
No passado, a história sempre aconteceu aos olhos de testemunhas anônimas e distraídas, que mal percebiam o que estava se passando. E, se percebessem, não faria diferença porque, pelo menos antes do telégrafo, meados do século 19, não tinham para quem contar ou suas mensagens levavam semanas para chegar ao destino. E, quando chegavam, a situação na origem da informação já teria mudado de novo e não correspondia mais àquela realidade.
Mas isso acabou. A história perdeu a inocência. Não importa o que aconteça -nem onde, quando ou como-, sempre haverá alguém para registrar aquilo de alguma forma, em "tempo real", alta definição e, não demora, 3D, podendo ser captado por milhões. O poeta Mallarmé dizia que tudo existe para acabar num livro. Se vivo hoje, diria que tudo acontece para acabar numa telinha de três polegadas.
O tuiteiro poderia ter chegado à janela de sua casa em Abbottabad, apontado o celular para o céu, filmado a chegada dos helicópteros e transmitido tudo aquilo, com som e imagem, para seus colegas tuiteiros da madrugada. Se não o fez, foi porque não calhou.
Mas pode-se prever que, daqui em diante, jovens tuiteiros ficarão de olho nas nuvens e maquininha na mão, torcendo para que algo aconteça e os torne famosos.
A casa onde Bin Laden se escondia chamou atenção porque não tinha telefone nem internet. Pois é, existe coisa mais suspeita, alguém não ter telefone ou internet?

O fator humano - MERVAL PEREIRA

O seminário promovido pela Unesco para comemorar o Dia Internacional da Liberdade de Imprensa teve uma intensa programação baseada nas novas mídias, mas, ao final de vários debates, inclusive o do qual fui mediador, ficou a sensação de que é impossível abrir-se mão da mídia tradicional como uma fonte fundamental para a divulgação de informações, assim como da capacidade de seus profissionais para apurar e checar notícias, dentro de padrões técnicos e éticos largamente testados pelos anos, o que dá credibilidade às notícias divulgadas.

O painel do qual participei tratava da integração das diversas mídias para fazer com que as empresas de mídia tradicional continuem sendo atores centrais na produção de informações nesse novo mundo tecnológico.

Por isso destaquei uma informação publicada recentemente pelo jornalista Tom Rosestiel, um dos teóricos mais importantes do jornalismo, no “Washington Post”, segundo a qual, entre os 20 blogs mais acessados dos Estados Unidos, nada menos que 18 fazem parte da mídia tradicional ou estão ligados a ela de alguma maneira.

Mas, como ressaltou Katherine Zaleski, produtora executiva para novos produtos digitais do mesmo “Washington Post”, que está comandando o processo de integração na nova redação do jornal, a capacidade de apuração proporcionada pelas novas mídias, colocando o relato de diversos novos atores à disposição do público, não permite mais que os jornais se portem como na guerra do Iraque, quando assumiram como verdadeiras as versões oficiais, e só anos depois refizeram seus relatos revelando que não havia armas de destruição em massa em poder do ditador Saddam Hussein e as manipulações que o governo Bush usou para justificar a invasão daquele país. Por isso o noticiário sobre a morte de Bin Laden está sendo tão detalhado e tão crítico.

Em outro painel, em que ativistas de diversos grupos da mídia digital mostravam suas atuações através da divulgação de filmes no YouTube ou informações contra governos autoritários através de internet, Twitter ou de meios de relacionamento social como o Facebook, um jornalista africano chamou atenção para o fato de que, por melhores que sejam suas motivações, os ativistas não estavam fazendo jornalismo.

Gregory Shvedov, editor do blog “Caucasian Knot”, da Rússia, admitiu que seu trabalho fosse político, mas defendeu a existência de um jornalismo ativista. Outros participantes admitiram que, com o correr dos anos, estão mais empenhados em checar as informações antes de divulgá-las, mesmo porque vários governo autoritários forjavam denúncias falsas para depois acusar os ativistas.

Larri Kilman, diretor da Associação Mundial de Jornais (WAN/IFRA) mostrou com números que a questão dos jornais não é de falta de audiência, mas de modelo de negócios que está se deteriorando. Segundo ele, os jornais ainda atingem 37% da população adulta do mundo, cerca de 1,7 bilhão de pessoas diariamente, comparado com apenas 25% da população mundial que tem acesso à internet.

Combinados os jornais impressos com suas versões online, nunca os jornais tiveram tanta audiência quanto hoje. Ele ressaltou, porém, que é caro manter um time de repórteres nos jornais, e a democracia será afetada sem eles.

A questão é que os jornais estão perdendo para as mídias digitais verba de publicidade, que em certos países já ultrapassa a dos impressos.

Os jornais estão tentando buscar alternativas a essa perda, e muitos já estariam conseguindo novos caminhos. Por isso, também alguns, como o “The New York Times”, começaram a cobrar pelo acesso a suas edições digitais.

Mas quem melhor se colocou na discussão entre as novas mídias e a tradicional foi o jornalista Bob Woodward, famoso pela reportagem no “Washington Post”, junto com Carl Bernstein, que derrubou o presidente Nixon no que ficou conhecido como o escândalo de Watergate.

Ele começou sua palestra discordando do resumo feito para a apresentação do seminário, que dizia: “os novos instrumentos da mídia digital mudaram fundamentalmente a natureza da reportagem e o sentido da transparência”. Woodward declarou-se em discordância “firme” com essa afirmação. Para ele, os novos meios apenas suplementaram de maneira significativa a maneira de fazer jornalismo.

Ele também discordou da afirmação de que os cidadãos agora têm acesso instantâneo às fontes que os repórteres usaram nas suas reportagens. Para Woodward, que disse que adora a internet, há de fato mais dados para a apuração, mas nada mudou fundamentalmente na maneira como um bom jornalista trabalha.

Ele se referiu às notícias baseadas no Wikileaks que o “The New York Times” publicou, dizendo que o fazia porque “os telegramas contam a história crua de como os governos tomam suas decisões que custam ao país pesadamente em vidas e dinheiro”.

Embora admita que publicar telegramas do Wikileaks acrescente informação para o leitor, Woodward diz que a versão dos embaixadores dificilmente chega à Casa Branca, que tem seus próprios meios de investigar e produzir relatórios. Na definição de Bob Woodward, não vivemos uma revolução no jornalismo, que ainda depende das revelações de fontes humanas, que viveram os acontecimentos diretamente e relatam suas histórias aos bons jornalistas.

Mas é preciso também saber pesar as informações e descontar as fraquezas humanas na hora dos relatos, adverte. Ele contou uma história definitiva sobre a tendência de as pessoas refazerem suas versões de maneira a ficarem em situação melhor.

Disse Woodward que ele e sua mulher estavam certa vez em um seminário sobre envelhecimento (ele tem 78 anos e diz que se interessa muito pelo assunto) e deram para os assistentes questionários sobre hábitos de vida.

Na contagem final de pontos, a pessoa saberia quantos anos de vida teria. Na sua frente estava Henry Kissinger, que ficou curioso sobre o seu resultado. Constatou então que Kissinger refez o questionário, alterando respostas, até que o resultado desse a ele mais anos de vida que o primeiro, segundo o qual já teria morrido devido a seus hábitos sedentários e ingestão de carne vermelha.

“As pessoas vivem refazendo suas versões sobre os fatos”, advertiu Bob Woodward.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Rapidez digital e tradição jornalística

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 3/5/2011

O Twitter foi o grande "vencedor" na cobertura da mídia sobre a morte de Osama bin Laden. A notícia vazou pela rede social (mesmo sem confirmação) no domingo (1/5) e chegou ao público antes das publicações da mídia tradicional. No dia seguinte, outro ponto para o Twitter: já havia sido publicado em quase todo mundo que a primeira nota no microblog veio do paquistanês Sohaib Athar, um consultor de informática de 33 anos, que informou voo anormal de helicóptero, seguido de explosão, em Abbottabad (Paquistão), conforme a notícia publicada no Último Segundo no mesmo dia. O técnico paquistanês, entretanto, não sabia que se tratava da morte de Osama bin Laden.

Mas informar antes (e sem confirmação) não quer dizer informar melhor. A informação do paquistanês foi inconsciente. E o "vazamento" da informação da morte de Bin Laden não passaria de mais uma nota curta do Twitter, se não tivesse sido antes capturada por um repórter do New York Times. Em outras palavras, a notícia vazou para as mãos de um repórter especializado em mídia digital: este foi o grande diferencial na cobertura de mídia daquela noite, e que favoreceu o jornal de Nova York.

Naquele momento, o New York Times tinha o homem certo, na hora certa: um jornalista viciado em Twitter... Um sujeito que reclama quando "perde" 20 minutos fora do microblog. O periódico nova-iorquino, então, com essa vantagem nas mãos, fez uma ágil e excelente cobertura do evento, sem esquecer em nenhum momento o papel fundamental que o Twitter teve no tenso desenrolar da cobertura da mídia sobre a morte do terrorista.

O anúncio oficial

No dia primeiro de maio, às 10h49, horário do leste dos Estados Unidos, o Huffington Post noticiou a morte de Bin Laden. The New York Times postou sua notícia ("Como o anúncio de Bin Laden Vazou" – "How The Osama Bin Laden Announcement Leaked Out") um pouco mais tarde, às 11h28, mas o fez de forma muito mais completa, estabelecendo a cronologia inicial dos primeiros momentos da cobertura, incluindo aí as informações que vieram pela rede social, desde os primeiros tweets entre membros da comunicação social do governo americano até a cobertura nacional das grandes redes de TV americanas. Vejamos mais de perto a evolução dos acontecimentos, segundo a ordem temporal do New York Times:

** "O anúncio curto veio logo depois das 21h45, de Dan Pfeiffer, o diretor de Comunicações da Casa Branca. ‘POTUS (codinome do presidente dos Estados Unidos) vai falar à nação hoje à noite as 10h30, hora local’, ele escreveu no Twitter, compartilhando a mesma mensagem transmitida à equipe de imprensa da Casa Branca;

** "De acordo com Brian Williams, o âncora do NBC Nightly News, alguns jornalistas receberam e-mails com apenas três palavras: ‘Go to work’ (Vá trabalhar);

** "Âncoras e editores de jornais não sabiam com certeza que o presidente estaria comunicando a nação a morte do homem mais odiado na América. Mas repórteres de Washington intuíram rapidamente que poderia ser sobre Osama bin Laden;

** "A especulação não foi ao ar imediatamente, mas às 10h25 surgiu uma nota no Twitter que trazia bastante confiabilidade: fora postada por Keith Urbahn, ex-chefe de pessoal do ex-secretário de Defesa do governo Bush, Donald Rumsfeld, e dizia: ‘Fui informado por pessoa de reputação que eles mataram Osama bin Laden’. Logo depois, Urbahn acrescentou: ‘Não sei se é verdade, mas vamos rezar para que seja’. O ex-funcionário de Rumsfeld informou, mas não confirmou a notícia. É importante que isso fique claro, aqui;

** "‘Dentro de minutos’, continuou Brian Stelter, o autor da matéria, ‘fontes anônimas do Pentágono e da Casa Branca começaram a contar aos repórteres a mesma informação. ABC, CBS e NBC interromperam a programação pelo país quase ao mesmo tempo, às 10h45.’ O presidente Obama anunciou, então, oficialmente, a morte do odiado inimigo para toda a nação."

Falsa oposição

A esta altura dos acontecimentos, já podíamos ver, nas redes pagas CNN e BBC, aglomerações de populares comemorando o fato (em frente à Casa Branca) com um minicarnaval de bandeiras, hinos e outras manifestações de satisfação do povo americano. Tudo havia sido confirmado: o inimigo público número 1 dos Estados Unidos estava realmente morto.

Certa vez, o jornalista brasileiro Ruy Castro afirmou que "o Twitter não pode produzir conteúdo como faz um periódico convencional. Não pode aprofundar temas, fazer investigações e pesquisas, produzir editoriais ou publicar artigos mais longos, tantas e tantas vezes necessários". Foi uma observação relevante e que agora mostra seu valor. Pois se o Twitter saiu na frente na informação da morte de Bin Laden, o New York Times, além de localizar o tweet original, que trouxe credibilidade à então especulação sobre a morte do terrorista, apresentou uma cobertura que, por razões óbvias, não pode ser feita no Twitter. Ele não foi pensado para isso.

Não se trata de estabelecer uma falsa oposição maniqueísta nova mídia vs. imprensa tradicional. O próprio Stelter (que é repórter de TV e mídia digital do New York Times) faz intenso uso do microblog. Foi lá que ele localizou o tweet original de Keith Urbahn. Seu trabalho, combinando a rapidez do Twitter com a capacidade de aprofundamento do jornal, deixou bem claro a nova gênese da formação e divulgação da notícia no mundo contemporâneo. E a cobertura do New York Times provou que há espaço bastante para a convivência entre a mídia digital imediata e extensa e a cobertura aprofundada e intensa dos jornais tradicionais.