Ela era bonita, mas também tinha curiosidade intelectual – Oi. – Oi. – Desculpe. É que nós vimos você sentada aqui sozinha... – Estou esperando meu namorado. – Eu posso falar com você até ele chegar? – Falar? – É. Só conversar. Não é paquera, juro. – Bom... – Eu estou naquela mesa ali, com aquela turma. Nós estávamos tentando decidir se você é modelo ou atriz. Metade aposta que você é modelo, metade aposta que você é atriz. – Não sou nem uma coisa nem outra. – É só bonita. – Só bonita, não. Eu trabalho. Num escritório de advocacia. – Ah, é advogada? – Não. Faço trabalho administrativo. – Veja você. Quando a gente vê uma mulher extremamente bonita, como é o seu caso, logo conclui que ela deve viver de explorar sua beleza. Que se não fizer isso está desperdiçando sua beleza. Ou sonegando sua beleza do público. O que não deixa de ser uma forma de preconceito. A mulher pode ser bonita sem fins lucrativos. Pode ser bonita de graça. – Você, como apostou? – Hein? – Você: apostou que eu era atriz ou modelo? – Pois você não vai acreditar. Fui o único que destoei dos dois lados. Disse: aquela ali é uma intelectual. – Não sou não. – Certo. Não digo uma escritora, uma pesquisadora, uma estudante de antropologia social... Mas há algo de... de... espiritual na sua beleza. Pensei: ela pode não abrir um livro... – Gosto de livro de vampiro. – Pois então. Ela pode só ler livro de vampiro e ao mesmo tempo ter uma mente superior. Notei isso de longe. Vim aqui com a missão de descobrir se você é modelo ou atriz e vi que eu é que tinha razão. – Você ganhou a aposta. – É... Não vou precisar pagar o chope... Se eles acreditarem em mim, claro. – Como, se eles acreditarem? – Podem não acreditar. Achar que eu estou inventando para ganhar a aposta. Que você não tem nada de espiritual. E nenhuma curiosidade intelectual. – Como eu posso ajudar? – Vamos fazer o seguinte. Hoje, às 10h, tem uma entrevista com a Marilena Chauí na TV Cultura. Eu posso, lá da outra mesa, lembrar você da entrevista e você faz um sinal de oquei. Oquei? – Combinado. Ele volta para a mesa da turma e diz: – Está no papo. – O quê?! – Dez horas no apartamento dela. – Você está brincando... – Eu não apostei que conseguia? E para ela, na outra mesa: – Dez horas! Não esquece! – E ela faz um sinal de oquei.
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domingo, 22 de janeiro de 2012
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O exemplo - LUIS FERNANDO VERISSIMO
Da série Ironias da História. A Alemanha comanda a reação europeia à crise monetária porque é a economia mais estável da região e a que melhor conserva esta estabilidade, e assim tem a autoridade moral para exigir austeridade dos outros. Vários analistas econômicos já estão começando a duvidar que austeridade, cortes em investimentos dos governos e desmonte dos sistemas de bem estar social sejam a saída da crise, com medo de que o remédio é que acabe matando o paciente. Mas todas as dúvidas esbarram na resolução da frau Merkel e na sua certeza de que nesta hora todos devem ser um pouco alemães, custe o que custar.
Não é a primeira vez que a Alemanha dita, ou tenta ditar, os destinos da Europa, nem a primeira vez que se apresenta como um modelo a ser imitado, ou seguido, por todo o mundo. Pode-se mesmo dizer que a história da Europa nos últimos dois séculos foi a história da sua acomodação em torno da Alemanha e suas pretensões políticas, econômicas e geográficas – uma acomodação nem sempre possível e que em duas ocasiões acabou em guerras mundiais. Depois da sua aventura nazista o modelo alemão passou a ser não o da arregimentação totalitária, da suposta superioridade racial e da inconformidade com suas fronteiras, mas de eficiência e de recuperação industrial, e da frugalidade dos seus cidadãos, que agora seria exemplo para todos.
As multidões que enchem as ruas da Grécia, da Espanha e etc, protestando contra uma austeridade que castiga quem tem menos culpa pela crise, talvez tenham levado alguns analistas a reverem sua ortodoxia, mas não comoverão os alemães, que têm tido a última palavra nas medidas para evitar a degringolada final.
Ironicamente, depois de invadir meia Europa durante as duas grandes guerras e ser rechaçada, a Alemanha finalmente consegue transformar os europeus em súditos, pelo menos do seu reich econômico. E sem disparar um tiro.
Não é a primeira vez que a Alemanha dita, ou tenta ditar, os destinos da Europa, nem a primeira vez que se apresenta como um modelo a ser imitado, ou seguido, por todo o mundo. Pode-se mesmo dizer que a história da Europa nos últimos dois séculos foi a história da sua acomodação em torno da Alemanha e suas pretensões políticas, econômicas e geográficas – uma acomodação nem sempre possível e que em duas ocasiões acabou em guerras mundiais. Depois da sua aventura nazista o modelo alemão passou a ser não o da arregimentação totalitária, da suposta superioridade racial e da inconformidade com suas fronteiras, mas de eficiência e de recuperação industrial, e da frugalidade dos seus cidadãos, que agora seria exemplo para todos.
As multidões que enchem as ruas da Grécia, da Espanha e etc, protestando contra uma austeridade que castiga quem tem menos culpa pela crise, talvez tenham levado alguns analistas a reverem sua ortodoxia, mas não comoverão os alemães, que têm tido a última palavra nas medidas para evitar a degringolada final.
Ironicamente, depois de invadir meia Europa durante as duas grandes guerras e ser rechaçada, a Alemanha finalmente consegue transformar os europeus em súditos, pelo menos do seu reich econômico. E sem disparar um tiro.
domingo, 18 de setembro de 2011
VERÍSSIMO - Com ou sem gás
– Com ou sem gás?
– Pois é. Decisões, decisões... Com gás. Não, sem. Com.
– O senhor quer couvert?
– Não precisa. Ou então traga, sim. Mas só pão.
– Não quer manteiga? Talvez umas azeitonas?
– Isso. Azeitonas.
– Verdes ou pretas?
– Ah, pode escolher? Verdes. Não, pretas. Verdes. Não importa. Traga as duas.
– O senhor precisa se definir.
– Eu sei, eu sei. É que nem sempre é fácil...
– E a manteiga. Vai querer?
– Hmm. Deixa ver. Você precisa da resposta agora?
– Sim, senhor.
– Manteiga, manteiga... Não. Manteiga não. Ou sim.
– Sim ou não?
– Calma. As escolhas não podem ser assim, definitivas, meu caro. Por exemplo: você quer ser enterrado ou cremado?
– Ainda não pensei nisso.
– Pois é. Eu penso nisso a toda hora. E ainda não cheguei a uma conclusão. Você acredita em vida depois da morte?
– Acredito.
– Eu não sei se acredito. Acredita em Deus?
– Acredito.
– Não tem nenhuma dúvida a respeito?
– Não.
– Eu não sei se acredito ou não.
– Olhe, o prato do dia hoje é filé de peixe a dorê com batatas.
– Pode vir.
– As batatas podem ser fritas ou cozidas.
– Hmm. Certo. Eu quero fritas. Não, cozidas. Fritas!
– Molho remolado ou bechamel?
– O que?
– Com o peixe. Molho remolado ou bechamel?
– Ai meu Deus. Deixa eu pensar.
– Remolado ou bechamel?!
– Espera um pouquinho.
– REMOLADO OU BECHAMEL?!
– Você está me pressionando.
– O senhor precisa se decidir, cavalheiro.
– Eu sei. Pensa que eu não sei?
– Remolado ou bechamel?
– Assim não dá. Querem que a gente tenha opiniões definitivas. Como se tudo pudesse ser decidido assim, na hora. Pena de morte, sim ou não? Pagode, sim ou não? Liberação da maconha, sim ou não? Remolado ou bechamel? Mineral com gás ou sem gás é apenas o começo. Depois querem que eu me posicione a respeito de tudo. Pois não lhes darei essa satisfação. Não quero água mineral nem com gás nem sem gás. Vou tomar vinho!
– Tinto ou branco? – Tinto. Branco. Tinto. Não, branco.
– Seco ou frutado? – Suspende o almoço!
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