Mostrando postagens com marcador Jornal do Commercio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jornal do Commercio. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de outubro de 2011

Ecce-homo - Alberto Dines

Eis o homem, teria dito Pôncio Pilatos ao indicar à turba o nazareno Jesus Cristo antes da sentença final. A mesma expressão foi usada pelo ateu Friedrich Nietzsche ao apresentar a sua autobiografia literária. Entre a última terça-feira (quando o STF aceitou a denúncia contra o ex-ministro Orlando Silva) e a quinta-feira (quando a presidente Dilma Roussef indicou o seu substituto), o país do futebol pôs-se à caça do homem (ou mulher) capaz de resgatar a sua credibilidade perante a plateia esportiva planetária.

O homem é Aldo Rabelo. Seus dados pessoais, políticos, psicológicos, patrimoniais, suas manias e devoções foram instantaneamente divulgadas. Faltaram nuances: nosso convívio com a arte biográfica é recente, nos contentamos com pouco, preferimos o anedótico. A pandemia da corrupção nos empurra para o estreito curso do pêndulo ficha-limpa/ficha-suja, o resto perde-se no mar das irrelevâncias.

Enquanto foi ministro das Relações Institucionais, Aldo Rabelo infernizou a vida do então chefe da Casa Civil, José Dirceu. Eleito para a presidência da Câmara, manobrou intensamente para evitar que o mensalão respingasse no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas não despendeu a menor dose de energia para salvar o mandato do adversário Dirceu. Em compensação salvou da degola todos os parlamentares envolvidos no escândalo, inclusive os acusados de flagrantes quebras de decoro. Exceto Roberto Jefferson, o denunciador.

O que menos conta é o sujeito, o que está sub-judice neste momento é o nosso sistema republicano feudalista, não apenas antidemocrático mas grosseiramente ineficaz e degradador. Entregar aos partidos aliados ministérios inteiros, de porteira-fechada, como acontece há nove anos com o PCdoB e a pasta do desporto é uma acintosa aberração funcional. Aldo Rabelo pode jurar que punirá todos os responsáveis pelos desvios de recursos, nepotismo, prevaricação e favorecimentos, porém por mais frio, implacável e pragmático que seja jamais irá além das mudanças cosméticas.

A administração do Estado moderno é técnica, um ministério relativamente novo, com um acervo de vivências restrito, rodeado e infiltrado por insaciáveis interesses econômicos e eleitorais, se deseja alcançar um mínimo de competência não pode ficar prisioneiro de um monólito doutrinário. Mesmo porque nem o PCdoB nem qualquer outra agremiação política brasileira – excetuado o PSOL – podem ostentar uma homogeneidade ideológica. Em nosso horizonte político só existem projetos de poder. E estes são a ruína de nossas instituições.

Aldo Rabelo pretende acabar com a ligação direta entre as ONG e o governo federal transferindo o relacionamento para a esfera estadual e municipal. Isso não impedirá que Estados e municípios da base aliada se beneficiem abusivamente. Mais distantes dos grandes centros ficarão imunes à fiscalização e livres para continuar operando no mesmo paradigma da Era Orlando Silva.

O sistema de ministérios-bunkers, autárquicos, sequestra poderes do Estado equitativo e isonômico, impede-o de pensar federativamente e barra a imperiosa e inadiável reestruturação administrativa. Os ministérios-currais jamais admitirão uma diminuição no seu número mesmo com o aumento das sinergias e das áreas de atuação.

O saneamento empreendido pela presidente Dilma corre o risco de tornar-se ilusório se não for devidamente amparado por avanços estruturais consistentes.

Retirado do seu nicho espiritual, messiânico, Ecce-Homo é uma busca de nomes e pessoas. Neste momento o mundo está sedento de ideias.
Enviar por e-mailBlogThis!Compartilhar no TwitterCompartilhar no FacebookCompartilhar no orkut

domingo, 10 de abril de 2011

Aquele abraço - Alberto Dines


Significava real, régio, com o tempo passou a designar algo sem dono, público. Dom João VI destinou a enorme campina para servir de pastagem e, a partir do final do século 19, saiu a boiada e entraram canhões, cavalaria e aviões nas suas escolas e quartéis militares. Num deles, durante o regime militar, foi encarcerado o cantor Gilberto Gil que lembrou o episódio com uma famosa canção, Alô, alô, Realengo, aquele abraço. O massacre nesta quinta numa boa escola pública do pacato bairro carioca coloca o Brasil na sangrenta rota dos serial-killings em colégios e universidades. E nos empurra para a mesma perplexidade que atormenta a sociedade americana, também a francesa, alemã, finlandesa e chinesa onde os seus maníacos logo a adotaram. Ao lado do luto, a revolta, no fundo a dilacerante angústia: qual o mecanismo que produziu esta aberração? Que diabólica combinação intoxicou a mente de Wellington de Oliveira e o levou a organizar e cometer as execuções com tanta frieza? Apertou o gatilho 60 vezes, tinha critérios definidos, fez opções no tocante ao sexo das vítimas e ao ponto onde queria atingi-las (a maioria meninas, baleadas principalmente na cabeça e os meninos, em pontos menos letais).

O assassino completou o primeiro grau, escrevia corretamente (sua carta não contém erros graves), estava desempregado por opção, a casa onde morava era sua. O quadro habitual de miséria não se associa a esta transgressão, a perturbação da mãe biológica, sim. Seu comportamento antissocial já chamara a atenção, ao que consta iniciou um tratamento logo interrompido. A doença mental não difere das demais, deve ser tratada sem preconceitos. Confundida com loucura faz dos enfermos párias ou monstros como Wellington. Tinha amor aos bichos, mas não possuía amigos. Seu confidente e testemunha era um computador que destruiu na véspera, antes de iniciar a faina. O seu diálogo com o mundo fazia-se através da web. Usava uma longa barba, mas raspou-a antes do banho de sangue. O uso da rede o ensinou a recortar e colar fragmentos de crenças e dogmas, certo de que com estes retalhos construiria uma unidade. Costurou até agora, 13 mortalhas. Não foi o único, nem é caso raro. A carta que imprimiu e deixou na escola onde estudou e transformou em cadafalso é um retrato falado da sua mente. Reproduz uma mentalidade pseudo-espiritual que combina aleatoriamente misticismos e ritos variados numa profana caricatura de religiões e sacralidade. Wellington de Oliveira encarna o clamoroso fiasco das confissões religiosas para a melhoria da humanidade. Encarna também o redundante fracasso dos governos no controle das armas de fogo. Nos EUA morrem baleados cerca de 12 mil cidadãos por ano. Aqui, é um genocídio: 50 mil.

O Rio não merece os dois horrores deste ano: dilúvio na região serrana e o massacre no Realengo. O menino que no meio da matança saiu correndo para chamar a polícia, o sargento que acertou o criminoso antes que continuasse atirar, o pronto atendimento das vítimas, os médicos voluntários, a legião de doadores de sangue, a consternação coletiva, a solidariedade, a agilidade da sua mídia, são indícios de uma comunidade disposta a levantar-se. Para ela, aquele abraço.