terça-feira, 10 de julho de 2012
Vem aí o horário eleitoral (que não é nada gratuito) - Eugênio Bucci
Em agosto, quando as eleições municipais esquentarem um pouco mais, entrará no ar o famoso horário eleitoral “gratuito”. Que não é gratuito coisa nenhuma. Muita gente paga por ele, a começar de nós mesmos: eu, você e os demais cidadãos. Isso mesmo. Você paga - e não paga pouco.
Funciona assim: primeiro, as emissoras exibem a propaganda política - os programas partidários ou o horário eleitoral - e, depois, na hora de pagar o Imposto de Renda recebem uma compensação fiscal em troca dos minutos que cederam aos partidos políticos. Ou seja: o Fisco deixa de arrecadar tributos. O Estado paga a encomenda. Indiretamente, é a sociedade quem paga a conta.
Funciona assim: primeiro, as emissoras exibem a propaganda política - os programas partidários ou o horário eleitoral - e, depois, na hora de pagar o Imposto de Renda recebem uma compensação fiscal em troca dos minutos que cederam aos partidos políticos. Ou seja: o Fisco deixa de arrecadar tributos. O Estado paga a encomenda. Indiretamente, é a sociedade quem paga a conta.
E de quanto é a dolorosa? Tomemos como base o ano de 2010, quando tivemos eleições presidenciais. Naquele ano, a compensação fiscal dada às emissoras pela transmissão da propaganda eleitoral impôs aos cofres públicos um corte de R$ 850 milhões. Foi a própria Receita Federal que fez a estimativa, conforme noticiou oficialmente a Agência Câmara, logo em 17 de agosto de 2010. É curioso. Falam em aprovar no Brasil o financiamento público das campanhas políticas. Mas, quando olhamos para esses R$ 850 milhões, não há outra conclusão possível: uma parte - parte expressiva, muito expressiva - do financiamento das campanhas eleitorais já é pública. E cara.
Vamos repetir esse número. São R$ 850 milhões num ano só. Você acha muito? Acha que é uma remuneração razoável pelo tempo de todas as emissoras do Brasil? Para as próprias emissoras, a conta não bate. Elas afirmam que, na prática, os cifrões que deixam de recolher ao Fisco ficam bem abaixo do que ganhariam se o horário fosse vendido normalmente. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), embora afirme respeitar o horário eleitoral como um canal de esclarecimento para o eleitorado, não esconde que, para as empresas de radiodifusão, as campanhas eleitorais são financeiramente um péssimo negócio - e ainda por cima espantam a audiência. Pela lei, as rádios e TVs poderiam recuperar até 80% do valor de tabela dos minutos que cederam. No mundo real, porém, elas recuperam menos e arcam, também elas, com parte do prejuízo.
Até aqui, portanto, nós pagamos uma fatia da fatura, e as emissoras pagam outra. Só que a cobrança não termina aqui. Ela continua, com juros e correções especulativas, no nebuloso mundo das agressões e dos conchavos entre os caciques da política pátria. Eles também são chamados a assumir despesas. Eles também desembolsam seus patrimônios - constituídos de outras moedas.
Os caciques são diferentes em tudo, a não ser numa certeza, que compartilham sem a menor cerimônia: para eles, tempo não é apenas dinheiro - tempo é poder. O tempo de propaganda eleitoral na TV e no rádio é sinônimo de votos (essa moeda valiosa), e votos empilhados são um sinônimo indiscutível de poder. Estamos num país em que os agentes políticos acreditam que todo o poder emana do horário eleitoral (que não é gratuito, como você está vendo). Por um minuto a mais de televisão, os chefes partidários são capazes de dar tudo, de empenhar tudo. Aliam-se a belzebu, penhoram a reputação (essa moeda depreciada), rifam a biografia. E que fique bem claro: não é o caso de um ou de outro caudilho, de uma ou outra “pasionaria” - é o caso de todos eles (e elas), mesmo dos que (ou das que) se lamuriam, mas no fim das contas se acomodam.
Nunca antes na história deste país se atribuiu tanto poder à imagem. Nunca tantos pagaram tão caro por tão inflacionados closes de televisão. Se na guerra os generais contam tanques e ogivas, na política brasileira contam segundos, décimos de segundo. As alianças não têm sentido ideológico nenhum, é tolice choramingar. Elas têm sentido publicitário. É o que basta. Os ideólogos foram escanteados pelos marqueteiros, para sempre, e os marqueteiros custam os olhos da cara e os zarolhos da coroa.
Alguns se perguntam, incrédulos, se a televisão vale tudo isso. Outros elucubram sobre o grau de influência da internet sobre a formação da vontade do eleitor. À toa. Na cabeça dos caciques, a TV é o tabuleiro (picadeiro?) da política. E é isso mesmo. A TV é o centro, de um jeito ou de outro. As redes sociais ecoam o que a televisão pauta. Funcionam como linha acessória. Por enquanto, ao menos por enquanto. O campo de batalha é a TV, com suas ilusões e seus fetiches traiçoeiros. Como esse de parecer que, nela, a imagem nos chega de graça, como a chuva no Cerrado -como o sorriso dos demagogos.
R. Época
09/07/2012
João Pereira Coutinho - Flores de obsessão
A obra-prima de Woody Allen não se resume a um filme ou dois; ela é retocada ao ritmo de um por ano
WOODY Allen tem 47 filmes no currículo. E quando lhe perguntam se existe um único que ele compare aos melhores de Ingmar Bergman, Woody é modesto: nem um.
A frase sempre me pareceu excessiva: "Crimes e Pecados" (1990) está ao nível de "Morangos Silvestres" (1957). E "Zelig" (1983) não tem paralelo como comédia nos últimos 30 anos. O problema de Woody não é falta de obra-prima. É falta de obra-prima recorrente. Depois de "Crimes e Pecados", há coisas boas aqui e ali. E algumas joias antigas, como "Manhattan" (1979) ou "Hannah e Suas Irmãs" (1986).
Mas Bergman, admito, era capaz de fazer cinco filmes seguidos que mudavam a cultura de uma época. Quem começa com "Mônica e o Desejo" (1952) e termina o festim com os referidos "Morangos" sabe que não minto.
Por isso assisti a "Para Roma com Amor" sem expectativas homéricas. Os cínicos dirão que Woody Allen deixou de dirigir filmes. É hoje guia turístico que vai para onde lhe pagam: Londres, Barcelona, Paris. Quem sabe o Rio.
O próprio alimenta o mito: tempos atrás, de passagem por Portugal, perguntaram-lhe quando filmaria ele em Lisboa. Woody foi honesto: "E você consegue o dinheiro?"
Certo. Sem dinheiro, não há obra. Mas "Para Roma" não é mera encomenda italiana. É, como sempre acontece, um pretexto para revisitar os temas que são caros ao "autor" (e uso a palavra com o seu significado clássico).
O próprio Woody, aliás, assume essa condição metacrítica no filme. Por exemplo, quando os personagens contemplam as ruínas romanas e confessam sofrer de "Melancolia de Ozymandias".
Trata-se de uma referência erudita ao poema de Percy Shelley (1792-1822) sobre a estátua de Ozymandias, "rei dos reis", e testemunho material da inutilidade da existência quando a morte é certa.
Shelley escrevey "Ozymandias" em 1818, mas o poema deixou de lhe pertencer em 1980 quando foi apropriado por Woody "himself", em seu incompreendido "Stardust Memories - Memórias" (1980). É a primeira vez que um personagem seu é diagnosticado com a doença.
O cinema de Woody Allen é feito de evocações eruditas que se repetem de filme para filme. A tribo é a mesma: Shelley, Yeats, Rilke, sobretudo as linhas finais de "O Torso Arcaico de Apolo", presente neste filme pela boca pedante da personagem de Ellen Page (e presente em "A Outra", com força dramática decisiva).
Mas não são apenas as evocações eruditas que se repetem. Todo o resto retorna, a começar pelo amor romântico, pelos equívocos do amor romântico, pela tensão constante entre a razão e a emoção -a perpétua batalha em que a última vence temporariamente o confronto.
São incontáveis os filmes de Woody Allen em que os personagens (masculinos) se jogam pela janela amorosa, mesmo que o salto seja efêmero e suicidário. O ator Jesse Eisenberg representa em "Para Roma" o mártir sentimental da história. Eisenberg nasceu em 1983.
Mas, antes de ele nascer, muitos outros já tinham pulado pela mesma janela. A começar pelo próprio Woody Allen, como Alvy (em "Annie Hall") ou Isaac (em "Manhattan").
Não temos cura. E, para um longo cliente da psicanálise, nem o divã nos salva: haverá paciente que tenha dedicado à terapia tantas linhas de irrisão? "Se você encontrar Freud, peça-lhe o meu dinheiro de volta", diz ele à mulher psiquiatra (Judy Davis).
Finalmente, o melhor do filme: a história do cantor de ópera que só funciona no chuveiro. E que é levado para os palcos italianos com o chuveiro atrás.
É preciso ter passado décadas nas páginas da "New Yorker", a casa de S.J. Perelman ou Robert Benchley, para escrever uma gag dessas. Uma gag comparável ao casal que só conseguia transar em espaços públicos (em "Tudo o que Você queria Saber sobre Sexo"). Ou ao ator que estava fora do foco na vida real (em "Desconstruindo Harry").
Sim, são 47 filmes. Um ou dois não fazem má figura quando Bergman está por perto. Mas a obra-prima de Woody Allen não se resume a um filme ou dois. Na verdade, ela ainda está a ser retocada, ao ritmo de um filme por ano.
Um dia, quando olharmos para o conjunto, veremos que a repetição também é uma arte. E que os gênios são, como dizia Nelson Rodrigues, flores de obsessão.
jpcoutinho@folha.com.br
Folha de S.Paulo
10/07/2012
‘Chulé de Apolo’, ‘Flor-de-lis’
Um livro cataloga os apelidos dos escritores brasileiros
Carlos Drummond de Andrade é o “Urso polar”, Clarice Lispector é a “Flor-de-lis”, Mário de Andrade é a “Boneca de piche” e Dalton Trevisan, como é mais notório, é o “Vampiro de Curitiba”.
Claudio Cezar Henriques, professor da Uerj, está lançando um livro que entrega um lado pitoresco da intelectualidade pátria. É o “Dicionário de apelidos dos escritores da literatura brasileira”. A edição, em capa dura, é da curitibana Appris.
Cada apelido é acompanhado com verbete explicativo. Augusto Frederico Schmidt é o “Gordinho sinistro” porque desde o início da carreira tinha obsessão pela morte. Consta também quem deu o apelido. O do “gordinho” foi dado pela crítica Cecília Prado.
Claudio Cezar acha que apelidos podem ser uma boa maneira de se estudar a sociedade brasileira. “Se observarmos os apelidos de escritoras, veremos revelada a forma como nossa sociedade trata as mulheres. Praticamente todos os apelidos femininos são de reverência e endeusamento”, diz.
Os apelidos de Ledo Ivo e Oswald de Andrade saíram de um bate-boca entre eles. “Você é o ‘Calcanhar de Aquiles do Modernismo’. Oswald: “Você é o ‘Chulé de Apolo da geração de 45’”.
APELIDOS PARA UBALDO, FERREIRA GULLAR E OUTROS
Anjo disfarçado: Mário Quintana
Bandeirante de livro: Monteiro Lobato
Coitado orangotango: Caldas Barbosa
Balzac brasileiro: Laurido Rabelo
Dândi carioca: João do Rio
Doutor tristeza: Augusto dos Anjos
Gedeão do modernismo: Menotti del Picchia
Gogol brasileiro: Lima Barreto
Guarda-noturno da literatura: Osório Duque-Estrada
Hemingway da Bahia: João Ubaldo
Rasputim da linha justa: Jorge Amado
Ratazana ao molho pardo: Cassiano Ricardo
Noivo da morte: Álvares de Azevedo
Periquito: Ferreira Gullar
Claudio Cezar Henriques, professor da Uerj, está lançando um livro que entrega um lado pitoresco da intelectualidade pátria. É o “Dicionário de apelidos dos escritores da literatura brasileira”. A edição, em capa dura, é da curitibana Appris.
Cada apelido é acompanhado com verbete explicativo. Augusto Frederico Schmidt é o “Gordinho sinistro” porque desde o início da carreira tinha obsessão pela morte. Consta também quem deu o apelido. O do “gordinho” foi dado pela crítica Cecília Prado.
Claudio Cezar acha que apelidos podem ser uma boa maneira de se estudar a sociedade brasileira. “Se observarmos os apelidos de escritoras, veremos revelada a forma como nossa sociedade trata as mulheres. Praticamente todos os apelidos femininos são de reverência e endeusamento”, diz.
Os apelidos de Ledo Ivo e Oswald de Andrade saíram de um bate-boca entre eles. “Você é o ‘Calcanhar de Aquiles do Modernismo’. Oswald: “Você é o ‘Chulé de Apolo da geração de 45’”.
APELIDOS PARA UBALDO, FERREIRA GULLAR E OUTROS
Anjo disfarçado: Mário Quintana
Bandeirante de livro: Monteiro Lobato
Coitado orangotango: Caldas Barbosa
Balzac brasileiro: Laurido Rabelo
Dândi carioca: João do Rio
Doutor tristeza: Augusto dos Anjos
Gedeão do modernismo: Menotti del Picchia
Gogol brasileiro: Lima Barreto
Guarda-noturno da literatura: Osório Duque-Estrada
Hemingway da Bahia: João Ubaldo
Rasputim da linha justa: Jorge Amado
Ratazana ao molho pardo: Cassiano Ricardo
Noivo da morte: Álvares de Azevedo
Periquito: Ferreira Gullar
CL. Gente Boa
O Globo
10/07/2012
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