segunda-feira, 10 de outubro de 2011

LUIZ FELIPE PONDÉ - A ética de Eva

Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade


Você acha que seria ético uma mulher usar da beleza pra conseguir o que quer na vida? E uma mulher usar seu belo corpo pra dar uma má notícia pro marido, como no comercial da lingerie Hope?
Esse comercial fala do poder feminino sobre o desejo do homem por ela e não sobre ela ser objeto indefeso do homem.

Aliás, desde o jardim do Éden. Apesar de Deus ter dito a Adão "não pode comer a maçã!", Adão não resistiu a Eva: "Come meu amor, come!". E Adão caiu de boca. O velho poder feminino.

Você pode ser uma daquelas pessoas que não entendem nada de mulher e dizer "isso é um absurdo!", mas o fato é que usar a beleza como instrumento de vida é um dado natural da experiência humana, e não necessariamente um ato canalha ou de submissão.

A beleza é como a cerveja: um "gesto" do corpo entre a devassidão e a moderação.

Antes de tudo, a palavra "ética" é hoje tão banal quanto "energia". Todo mundo tem um entendimento "pessoal" do que seria ética. Quando você escutar alguém começar com "a questão da ética", fuja. Só vem blá-blá-blá.

Na filosofia, não há consenso sobre o que é ético. Para alguns britânicos, como Hume, Oakeshott ou os darwinistas, a ética é uma disciplina que estuda hábitos de pensamento, de afeto e de comportamento, estabilizados numa comunidade (num sentido mais restrito) ou na humanidade (no sentido mais amplo), que se revelam hegemônicos e bem-sucedidos em garantir uma certa ordem e um certo sucesso no convívio comum ao longo do tempo.

Estamos aqui a anos-luz de distância da mania de "perfeição ética" de gente como Kant ou Singer (o cara que acha que bicho é gente).

Analisemos a ideia de mulheres (caso mais comum) usarem da beleza física pra conseguir coisas na vida, à luz dessa ética do hábito.

Devemos separar o uso abusivo da beleza do uso ético da mesma.

Uma mulher bonita X se veste com uma saia curta para uma entrevista, entra numa sala com outras pessoas e se senta de pernas abertas. Isso é abusivo. Uma mulher bonita Y se veste com uma saia menos curta do que a mulher X, mas que ainda assim revela, escondendo, sua beleza, entra numa sala com outras pessoas e se senta de modo discreto. Isso é ético.

Neste nosso "experimento", a mulher Y age de modo ético. Espera-se que mulheres bonitas revelem sua beleza (o mundo respira melhor onde há mulheres bonitas e a beleza é um gradiente, não um "ponto isolado no espaço"), mas essa revelação é pautada pela expectativa de que ela não esfregue sua beleza na cara de pessoas estranhas; na cara do marido, ela pode esfregá-la.

A ética aqui é antes de tudo o bom senso de que quem tem beleza pra revelar pode ser discreta; por extensão, quem tem beleza pra revelar e não é discreta é porque é "feia" por dentro.

A sutil relação entre ser bela e ser discreta compõe o campo dos hábitos morais desejáveis nas mulheres bonitas. Pode usar a beleza, mas com moderação, assim como o álcool.

O caso dos homens é um pouco diferente, não porque neles a beleza não conte, mas porque as mulheres erotizam facilmente o intelecto masculino, enquanto que homens dificilmente erotizam a inteligência feminina. Pouco adianta as meninas ficarem bravas com isso.

Se o entrevistador for um homem, provavelmente ele levará primeiro em conta a beleza das duas em detrimento das mais feinhas. Mas a vulgar sempre poderá perder a vaga no caso de o entrevistador ser também ele alguém de bom senso.

Todo mundo prefere gente bonita à sua volta. O ambiente de trabalho fica muito melhor quando tem mulher bonita, cheirosa e bem vestida por perto.

Mas isso não deve ser o critério último da decisão. Entre duas capazes, uma bonita e outra mais feinha, entretanto, a bonita leva.

Claro que a raiva contra argumentos como esse nasce dos chatinhos.
É a falta do "recurso" contingente (a beleza até hoje é em grande parte obra do acaso, ainda que cada vez mais passe a ser, em parte, obra da grana) que causa o rancor. Temo que uma hora dessas inventem uma cota de feinhas para as faculdades, as empresas e a publicidade.
Ou que proíbam as mulheres de ficarem de calcinha em casa.

ponde.folha@uol.com.br

Mercado virtual de cobaias humanas barateia pesquisa

Plataforma permite que cientistas comprem trabalho de internautas interessados
Criado pela Amazon, o Mechanical Turk também ajuda os cientistas a variar o universo das pesquisas


HÉLIO SCHWARTSMAN
ARTICULISTA DA FOLHA

Cada vez mais popular entre psicólogos, o serviço Mechanical Turk, da Amazon, permite recrutar centenas de cobaias humanas e submetê-las a alguns tipos de experimento em menos de 48 horas. Melhor ainda, tudo isso a custo muito baixo, para não dizer irrisório mesmo.

Um dos grandes problemas de pesquisas em psicologia é conseguir cobaias humanas em número suficiente.

Os estudos frequentemente exigem que o sujeito recrutado desempenhe tarefas bastante aborrecidas, como preencher longos questionários e resolver testes bobos, pelas quais os cientistas nunca podem pagar bem, dada a carência crônica de verbas.

O resultado é que, desde os anos 1950, psicólogos se utilizavam principalmente de alunos de graduação, os únicos ao alcance que topavam trabalhar por créditos ou remuneração simbólica.
Isso introduziu um viés fundamental em boa parte de nosso conhecimento acumulado. Muitas das conclusões tiradas para jovens adultos de classe média de fato valem para todo o gênero humano, mas nem todas.

O Mechanical Turk está mudando isso. Criado em 2005, é um mercado online que permite a qualquer um comprar trabalho humano pagando poucos centavos de dólar por tarefa.

Inicialmente, a ferramenta foi concebida para resolver dificuldades da própria Amazon, como eliminar páginas duplicadas, mas logo foi aberta a todos.

Os serviços requisitados variam bastante, mas sempre envolvem coisas que computadores são incapazes de fazer, como responder a pesquisas de opinião, procurar por erros em páginas da internet, palpitar sobre títulos.

O requerente descreve a tarefa que deseja ver realizada, revela o tempo estimado para completá-la e o valor da remuneração, tipicamente, entre 2 centavos e 50 centavos de dólar.
Uma pesquisa que envolva centenas de indivíduos (número alto em psicologia) pode sair por poucas dezenas de dólares. A Amazon fica com 10% do valor.

A pergunta que não quer calar é: quem trabalha por tão pouco? E a resposta é: mais de 100 mil pessoas de cem países que completam mais de 10 mil tarefas por dia.

Pesquisadores se puseram a esquadrinhar o próprio Mechanical Turk e fizeram descobertas interessantes. Embora muitos "trabalhadores" (61,4%) usem o serviço para complementar sua renda, as motivações principais são se divertir (40,7%) e matar o tempo (32,3%).

O melhor para os psicólogos, porém, foi verificar que os usuários são mais diversos que a população da internet e que o universitário típico, como mostrou estudo de Michael Buhrmester.

Surpreendente foi descobrir que o valor da remuneração, embora afete a velocidade com que se conseguem trabalhadores, não influi na qualidade das respostas, que é considerada boa, equivalendo ao padrão psicométrico de pesquisas aceitas para publicação.


TURCO MECÂNICO NOME É REFERÊNCIA A FRAUDE
O nome Mechanical Turk (turco mecânico) é referência a uma célebre fraude do século 18, em que o inventor Wolfgang von Kempelen alegava ter construído um autômato para jogar xadrez.
Na verdade, tratava-se de uma elaborada ilusão, que permitia a um grande mestre esconder-se e, sem ser visto, operar a máquina.

RUY CASTRO - Esperando Garcia

RIO DE JANEIRO - Tom Jobim e Dolores Duran acabaram de compor a canção que se tornaria "Por Causa de Você" ("Ah, você está vendo só/ Do jeito que eu fiquei/ E que tudo ficou..."). Tom gostou do resultado. Tanto que se virou para a parceira e perguntou: "Você já imaginou, Dolores, o Sinatra cantando essa nossa música?". A cética Dolores achou graça: "Tom, o Sinatra só vai cantar essa nossa música quando o homem pisar na Lua".

Naquele ano, 1957, o homem pisar na Lua ainda era visto pelo vulgo como a coisa mais remota do mundo -mais até do que o dia em que as galinhas criassem dentes. Na verdade, galinhas com dentes eram comuns em mafuás da roça ou dos subúrbios, ao lado de atrações como vacas de cinco pernas e Konga, a Mulher-Gorila. Já o homem pisar na Lua, só em filme de Hollywood.

Pois aconteceu que Frank Sinatra cantou -e gravou- "Por Causa de Você", com letra em inglês de Ray Gilbert e o título de "Don't Ever Go Away", no dia 11 de fevereiro de 1969, por volta de 10 da noite. Exatamente cinco meses, nove dias e algumas horas antes de Neil Armstrong descer da Apolo 11 e dar aquele primeiro passeio pela Lua. Afinal, não era tão impossível assim.

Há pouco, a corregedora do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), ministra Eliana Calmon, disse que só conseguirá inspecionar a Justiça de São Paulo "no dia em que o sargento Garcia prender o Zorro". Referia-se a uma famosa série da TV americana, rodada pela Disney em 1957, e em que, de fato, o Zorro sempre escapava no último rolo.

Mas isto foi naquele tempo. Hoje, nada impede que a Disney, cada vez mais chegada a ousadias que nunca teriam ocorrido ao velho Walt, produza um remake da série. Em que o sargento Garcia não apenas prenderá o Zorro, como fará uma faxina em regra na Justiça de São Paulo, digo, da Califórnia.

Política e costumes - DENIS LERRER ROSENFIELD

O grau de liberdade de um país se mede pela liberdade de seus costumes, pelas escolhas que cada cidadão faz do que estima ser melhor para si, sabendo reconhecer no outro um portador dos mesmos direitos. A sociedade brasileira tem tornado um valor seu a liberdade dos costumes, alterando velhos hábitos e mesmo legislações restritivas à liberdade de escolha. Recentemente, contudo, surge uma onda, patrocinada por agentes governamentais, do politicamente correto que procura reverter essa tendência, fazendo-o em nome de uma posição aparentemente "progressista". O retrocesso está mudando de nome.

Há setores do governo, que têm uma visão definitivamente autoritária das relações políticas, invadindo, sem nenhum pudor, a esfera do privado, daquilo que é próprio de cada um. O poder passa a ser exercido sob a forma de controle da vida individual, em que, por princípio, nada se coloca fora do seu alcance. A liberdade de escolha - e, por extensão, de iniciativa -, econômica, de imprensa, de publicidade, é fortemente atingida. Engana-se quem pensa que se trata de ações apenas pontuais. Em cada caso específico se revela toda uma concepção de mundo, das relações pessoais e, mais particularmente, dos costumes.

A última em série - mas, infelizmente, não a última de um processo que parece interminável - está na tentativa da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República de enquadrar a novela Fina Estampa, da Globo. O motivo, aparentemente anódino, diz respeito a um personagem que na trama humilha e bate na mulher. Segundo o enredo, a personagem agredida é aconselhada por amigas a prestar queixa do marido, porém não o faz porque diz amá-lo. Trata-se, na verdade, de um retrato do que ocorre com muitos casais pelo País afora, sem que intervenha aqui nenhum juízo de valor. Cabe, isso sim, ao telespectador elaborar o seu.

Mas a secretária sugere em ofício enviado à TV Globo que esta mude seu enredo. Segundo ela, a mulher agredida deveria procurar a Rede de Atendimento à Mulher, ligando para o telefone 180. Sugere ainda que o agressor seja não só punido, mas encaminhado aos centros de reabilitação da Lei Maria da Penha. Aqui, a secretária já está se tornando especialista em dramaturgia. A "lei" do politicamente correto deveria, então, passar a reger a elaboração das novelas e - por que não? - do cinema também.

O assunto é especialmente grave porque implica interferência governamental direta na liberdade de expressão, ainda que feita sob a forma de "sugestão". Sugestão de ministra não é conselho de uma cidadã qualquer, mas de uma agente estatal. Trata-se de uma recomendação oficial. Num primeiro momento, estamos diante de um fato menor, mas o problema é que a moda pode pegar. Logo, num segundo momento, qualquer agente público estaria no direito de se tornar um dramaturgo oficial.

Retomando o genial Stanislaw Ponte Preta, estamos diante de outro episódio do festival de besteiras que assola o país. O problema é que esse festival se apresenta como politicamente correto, estabelecendo normas de como deveriam ser os costumes e de como a liberdade de escolha deveria ser cerceada.

No festival em curso temos várias peças dignas de menção. Uma delas é sobre advertências, que deveriam estar inscritas em roupas íntimas de homens e mulheres, quanto aos perigos do câncer de próstata e de mama. Trata-se de uma invasão do domínio daquilo que é mais próprio de cada um, de sua vida íntima. Imaginem uma situação amorosa em que o homem olha o sutiã da companheira e lhe pergunta se tem feito mamografia. Ela, surpresa, olhando a cueca, retruca se ele fez exame de próstata. No auge da relação amorosa, o câncer, a morte, introduz-se numa relação de Eros, de vida. Não há clima que resista!

O clima, evidentemente, se esvai, dando lugar a uma conversa sobre os perigos de uma doença que pode ser mortal. Tânatos, a pulsão de morte, toma o lugar de Eros, pulsão de vida. E isso é feito pelo Estado, que diz proteger a vida contra a morte! A vida privada deveria, acima de tudo, ser preservada de intervenções estatais, por mais politicamente corretas que sejam. Eis o perigo maior. O Estado torna-se agente de Tânatos.

O festival não tem fim. A reincidente Secretaria de Políticas para Mulheres também vem tentando tirar do ar um comercial de lingerie com a modelo Gisele Bündchen por esta se insinuar, no uso de seus atributos femininos, num pedido ao marido. Nada de muito particular no fato, não fosse a "polícia" do politicamente correto procurando ditar o que deve ou não ser veiculado numa propaganda televisiva.

Seja dito de passagem que o anunciante da tal lingerie agradece, compadecido, a iniciativa governamental, pois a publicidade alcançada foi muito maior do que a prevista, seja ou não tirada a propaganda do ar. Jamais esse comercial teria atingido tal grau de publicização não fosse a interferência estatal.

O assunto encontra-se atualmente no Conar, órgão autônomo de regulação da publicidade, para análise de sua adequação ou não ao seu Código de Ética. Espera-se que essa entidade tenha o bom senso de rechaçar a interferência naquilo mesmo que é o fundamento da ética: a liberdade de escolha, livre das amarras governamentais.

O assunto é da maior gravidade, apesar de seu aspecto francamente cômico. Um agente estatal tem a pretensão de passar a decidir o que deve ou não ser veiculado na publicidade, interferindo em sua própria mensagem e criatividade. O mais preocupante, contudo, é que ele se crê imbuído da "crença correta" do que devem ser os costumes humanos. O governo arroga-se em instrumento de uma espécie de dever-ser moral que teria como função passar a ditar as normas dos comportamentos politicamente corretos.

Indignados e desacreditados - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

Por que o movimento dos "indignados", que ganhou notoriedade na Espanha, se espalhou para o Chile e agora ocupa Wall Street (EUA), não comoveu multidões no Brasil? Desde julho, quando o jornal espanhol El País fez essa pergunta, parece haver mais indignação com a falta de resposta do que, propriamente, com a corrupção da política nacional.

Tentativas de mobilização das massas não foram muito além de um trending topic ou outro nas redes sociais. Quando chegaram às ruas, não saíram dos bairros mais afluentes, tampouco tiveram sustentação ao longo do tempo. Nos termos de seus idealizadores, cansaram logo.

As explicações aventadas variam da mitológica cordialidade nacional ao efeito lavador de cérebros da propaganda governamental. A despeito de exemplos como os dos "caras-pintadas" e das "diretas já", os argumentos rapidamente se voltam contra o objeto da mobilização: o brasileiro - que seria, antes de tudo, um apático. Vale a pena, então, comparar o que ele pensa com o que pensam outros povos mais indignados.

A começar pelas semelhanças e diferenças na opinião pública de Brasil e Chile, onde o Ibope fez pesquisas com metodologias idênticas. O Índice de Confiança nas Instituições varia de 0 a 100. Quanto maior, mais confiante a população naquela instituição. Na média, o índice chileno pende bem mais para o lado da desconfiança do que o brasileiro: 46 a 55.

Semelhanças positivas - bombeiros: (Chile) 92 a 86 (Brasil); polícia: (Chile) 60 a 55 (Brasil); Forças Armadas: (Chile) 56 a 72 (Brasil); organizações da sociedade civil: (Chile) 60 a 59 (Brasil).

Semelhanças negativas - partidos políticos: (Chile) 17 a 28 (Brasil); Congresso Nacional: (Chile) 23 a 35 (Brasil); sistema público de saúde: (Chile) 40 a 41 (Brasil); sindicatos: (Chile) 47 a 44 (Brasil).

Semelhanças neutras - governo municipal: (Chile) 50 a 47 (Brasil); eleições: (Chile) 49 a 52 (Brasil).

Diferenças: presidente da República: (Chile) 27 a 60 (Brasil); Governo federal: (Chile) 36 a 52 (Brasil); Justiça: (Chile) 30 a 49 (Brasil); igrejas: (Chile) 44 a 72 (Brasil); meios de comunicação: (Chile) 51 a 65 (Brasil); empresas: (Chile) 49 a 59 (Brasil).

Nos EUA, o Instituto Gallup com metodologia diferente chegou a conclusões semelhantes. Como no Chile e no Brasil, nenhuma instituição é mais desacreditada entre os norte-americanos do que o Congresso. E apenas como no Chile, a Presidência da República está em processo de descrédito - desde a posse de George W. Bush, com leve, mas fugaz recuperação da confiança no começo do governo de Barack Obama.

Uma hipótese surge das pesquisas: quando a população se desencanta com seu governante e não enxerga representatividade no Congresso nem nos partidos nem nos sindicatos nem na mídia para expressar sua indignação, deságua sua insatisfação em protestos de rua. Não por coincidência, o chileno Sebastián Piñera é o governante mais mal avaliado das Américas, e o espanhol José Luis Zapatero está na lanterna na Europa.

E o que Obama, Piñera e Zapatero têm em comum, que presidentes com melhores índices de avaliação, como Dilma Rousseff (Brasil), Dmitry Medvedev (Rússia) e Cristina Kirchner (Argentina), não têm? Sérios problemas na economia de seus países.

sábado, 1 de outubro de 2011

ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR - É proibido criticar

O "NME" faz um tipo de jornalismo e tem uma relação com artistas impensáveis no Brasil atual



Por uma boa causa, quebrei uma escrita de mais de dez anos: comprei o "New Musical Express", o semanário londrino que pauta 100% da imprensa musical do planeta. Fui atraído pela capa, sobre os 20 anos do álbum "Nevermind", do Nirvana. Mas o que encontrei foi muito além disso. Uma publicação vibrante, bem escrita, quente e, acima de tudo, apaixonada.
Bandas de meninos de 19 anos são apresentadas como a salvação da Terra. Álbuns de artistas iniciantes tanto podem ser elevados às alturas mais extremas, quanto eviscerados por uma crítica negativa.
Eu não comprava mais o "NME" por teimosia. Por julgá-lo uma fábrica de "hypes". Por achar melhor pensar com minha própria cabeça do que simplesmente seguir o que o semanário chancela.
Mas vejo que vacilei. O "NME" faz um tipo de jornalismo, e tem uma relação com artistas, impensáveis no Brasil atual.
A tensão criativa que ele tão bem expressa não encontra eco por aqui. Pelo menos não no dito cenário independente de São Paulo, que acabo acompanhando mais de perto.
Em terras bandeirantes, praticamente não há mais distinção entre jornalistas e músicos. É todo mundo meio blogueiro, meio "tuiteiro", meio crítico, meio artista. É todo mundo muito amigo, tudo é muito fofo, tudo é muito "amor" (aos mais velhos e aos off-line, explico que "amor" vem sendo usado como sinônimo de "ótimo").
Em qualquer jornal, revista ou site, em qualquer blog ou conta do twitter, você vai ler exatamente os mesmos elogios para o rap feito sob medida para jornalistas branquinhos de Criolo, para a bossa velha de Romulo Fróes, para o sambinha sem "cojones" de Thiago Pethit.
Para complicar esse quadro de complacência, quase toda a cena de música independente no Brasil está de costas para o público. Não precisa dele. Abrigou-se sob um guarda-chuva estatal ou paraestatal.
Novos artistas (e muitos nem tão novos assim), praticamente só tocam em dois tipo de casa: Sescs ou no Studio SP, na rua Augusta.
Os Sescs, regiamente mantidos por um imposto compulsório, têm uma peculiaridade: pagam cachês altos, muito acima do mercado, e cobram ingressos baratos (isso quando cobram alguma coisa).
E o Studio SP, uma potência que não para de crescer (tem agora um irmão recém-inaugurado, o Studio RJ), opera numa interface entre o mundo artístico e o político-partidário que eu prefiro não conhecer.
Cria-se assim o seguinte quadro.
A crítica não perturba. Todos, "críticos" e músicos, rezam pelo mesmo catecismo consensual.
Os artistas não precisam nem querem crescer. Estão satisfeitos com o esquema dos Sescs, que lhes paga mais do que merecem. E não precisam correr atrás de público. Por si, os shows baratos e os festivais gratuitos, bancados por governos, já atraem o pessoal.
Aponte um músico ou banda que tenha surgido desse mundo indie estatal, de Sescs, Studio SP, verbas da Petrobras, do MinC, de secretarias de Cultura, um único artista desses que seja maior hoje do que há cinco anos. Não existe.
Pode-se fazer uma crítica política a esses indies estatais, ao seu adesismo lulista e seu aparelhamento de editais e verbas públicas para a cultura.
Mas minha crítica é mais simples, tem a ver com estética e mercado. Qual a real inovação trazida por Criolo, Fróes, Pethit e congêneres? E até quando esses indies sambistas -e as bandas do tal circuito "fora do eixo"- vão ficar pendurados em Sescs, festivais gratuitos e dinheiro do governo? Se o lulismo desaparecer um dia, a música brasileira se extingue também?
Sei que não sou o cara ideal para dizer essas coisas. Porque tenho 48 anos e porque nunca morri de amores pela MPB. Este texto pode ser descartado como ressentimento de um coroa que não entende a harmonia brasileira do século 21, ou ranço de um incapaz de captar a beleza de nossa música.
Mas acabei escrevendo esta coluna porque a leitura do "NME" me estimulou.
Lembrou-me que, em algum lugar do mundo, existem músicos que buscam de verdade aumentar sua base de fãs, porque precisam deles para sobreviver. E existe um jornalismo musical que vibra e incensa, mas que também incomoda. Vou assinar o "NME".

cby2k@uol.com.br

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Barretão critica Fernando Meirelles e Walter Salles Jr.

AMANDA QUEIRÓS
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA

Em seminário realizado nesta quarta (28) sobre os rumos do audiovisual brasileiro, durante o 44º Festival de Brasília, o produtor de cinema Luiz Carlos Barreto, o Barretão, criticou cineastas individualistas e citou os nomes de Fernando Meirelles ("Cidade de Deus") e Walter Salles Jr. ("Central do Brasil") como exemplos.

"Cinema é um processo coletivo. Sempre foi. Alguns cineastas pensam que podem se construir sozinhos", afirmou.

Segundo ele, Meirelles e Salles são "pessoas que se alienaram e nunca colocaram seu prestígio em favor do cinema brasileiro, mas somente em favor de suas carreiras".

Em sua fala, Barreto defendeu a união dos artistas na briga por políticas mais sólidas para o setor do cinema e do audiovisual.

Ele também propôs que o governo federal siga o exemplo do modelo já executado no setor da agricultura e divida o Ministério da Cultura em dois: o Ministério das Indústricas Culturais (voltado para a produção mais comercial) e o Ministério do Desenvolvimento Cultural (preocupado com o fomento de trabalhos mais autorais e com menos apelo de venda).

SEM DIRCEU

A mesa da qual Barreto participou deveria contar com a presença do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. No entanto, o atraso em um voo impediu que ele chegasse a tempo.

A participação de Dirceu durante o seminário vinha provocando controvérsia nos corredores do Festival de Brasília. O questionamento se dava pela falta de um envolvimento direto dele com o tema.

O coordenador-geral do Festival de Brasília, Nilson Rodrigues, defendeu o convite. "Ele participou ativamente do processo de discussão sobre a criação da Ancine, do projeto da Ancinav e da militância recente pela aprovação do PL 116 ", afirmou.


"Cinema brasileiro não pode olhar só para dentro", diz Meirelles

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AMANDA QUEIRÓS
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA

O cineasta Fernanda Meirelles ("Cidade de Deus") respondeu às críticas feitas pelo produtor Luiz Carlos Barreto --que disse que o cineasta tem atitude individualista nesta quarta (28), durante o 44º Festival de Brasília.

Barretão critica Fernando Meirelles e Walter Salles Jr.

Por e-mail, Meirelles disse não se envolver com questões políticas do cinema brasileiro. "Como eu trabalho na área de criação, deixo para as minhas sócias esta parte do trabalho", escreveu.

Para ele, sua contribuição ao cinema está mais voltada para o mercado externo do que para o interno.

"Em todos os meus trabalhos sempre faço questão de incluir talentos brasileiros e me esforço muito para abrir novas trilhas de coproduções brasileiras. Aos poucos estes laços criados vão fazendo o Brasil parecer um lugar confiável para parcerias. Ou seja, tenho um outro foco, muito diferente do trabalho do Barreto, ele tem razão sobre isso, mas acho importante encontrar outros balcões de financiamento para nossos filmes e pavimentar esta estrada nos ligando a outras cinematografias. Mais do que nunca, o cinema brasileiro não pode ficar olhando só para dentro."

Leia abaixo a íntegra da resposta de Fernando Meirelles ao produtor Barretão:

"Tenho o maior respeito pelo Barretão e estou certo que esta frase foi tirada do contexto. Não me envolvo muito em questões políticas do cinema brasileiro, se foi a isto que o Luis Carlos se referiu, ele está correto. Como eu trabalho na área de criação deixo para as minhas sócias, produtoras da O2 Filmes, esta parte do trabalho. A O2 não tem 1/10 do número de títulos produzidos pela LC mas já fizemos quase 20 longas em 12 anos de atuação no cinema, a maioria deles lançando roteiristas, montadores, diretores, técnicos e atores, uma turma que hoje está na ponta do mercado. Mas sem pensar na O2, acho que minha contribuição ao nosso cinema está mais voltada para o mercado externo do que para o interno. Em todos os meus trabalhos sempre faço questão de incluir talentos brasileiros: Atores, fotógrafos, montadores, finalizadores, mixadores, músicos, coloristas etc. Me esforço muito para abrir novas trilhas de co-produções brasileiras como fiz com Canadá, Japão, Austria, Portugal, Reino Unido ou França. Fechar estes complicados acordos internacionais cria uma espécie de jurisprudência que facilita muito a vida de quem vem depois. Ha uma "tecnologia" para se buscar financiamento externo e estou sempre pronto e tenho mostrado o caminho das pedras para colegas. Aos poucos estes laços criados vão fazendo o Brasil parecer um lugar confiável para parcerias e co-produções. Ou seja, tenho um outro foco, muito diferente do trabalho do Barreto, ele tem razão sobre isso, mas acho importante encontrar outros balcões de financiamento para nossos filmes e pavimentar esta estrada nos ligando a outras cinematografias. Mais do que nunca, o cinema brasileiro não pode ficar olhando só para dentro."

A repórter AMANDA QUEIRÓS viajou a convite do festival