sábado, 29 de setembro de 2012

Ruy Castro - Prazeres na "nuvem"

RIO DE JANEIRO - CDs, DVDs, câmeras digitais, telefones fixos, controle remoto e até PCs de mesa com teclado, mouse e disco rígido -pelo que li há dias no "Globo", tudo isso tende a ser história nos próximos anos. Por história, entenda-se o grande lixão a que se destinam os cadáveres da eletrônica. Parece que, na próxima década, só os maiores de 30 anos ainda terão uma vaga lembrança de para que serviam esses equipamentos, aos quais ficamos hoje atracados o dia inteiro.

A ideia é a de que as mídias físicas, palpáveis, irão literalmente para o espaço. Tudo estará na chamada "nuvem" -que, até agora, ninguém conseguiu me explicar onde fica, como funciona e se fecha quando chove. O acesso aos conteúdos se dará por smartphones, downloads ou com o usuário plantando bananeira contra a parede e se concentrando.

A "nuvem" é infinita e conterá tudo que puder ser exibido, alugado, vendido, emprestado ou copiado, e isso dispensará as cidades de manter museus, galerias, cinemas, bibliotecas, livrarias, sebos, arquivos públicos etc. Quer dizer, os acervos destes continuarão existindo, mas "na nuvem", sem despesas com funcionários, material de limpeza ou energia elétrica.

Cá entre nós, não estou com a menor pressa de aderir à "nuvem". Ainda gosto de manusear, apalpar, acariciar. Hoje, por exemplo, minha coleção de LPs, em edições raras, originais, lindíssimas, é a melhor que já tive (vitrolas e agulhas não faltam -estou estocado). O mesmo quanto às coleções de CDs e DVDs que acumulei -só espero que não interrompam logo a fabricação dos aparelhos para tocá-los. E continuo a frequentar sebos, bibliotecas e arquivos -gosto até do cheiro de mofo.

Meu consolo é que, um dia, quando tudo isso tiver acabado e só estiver disponível na "nuvem", eu também estarei nas proximidades -em alguma nuvem.

FOLHA D. S.PAULO

29/09/2012

O Ocidente deve se abster de publicar filmes ou charges que sensibilizem o mundo islâmico?

Carlos Eduardo Lins da Silva

NÃO

Quem vai definir quais são os limites?

É moralmente defensável a tese de que ninguém deve ofender ou ridicularizar símbolos considerados sagrados por outra pessoa.

Blasfêmia contra imagens, objetos ou personagens que representam religiões pode causar indignação ou dor, independentemente das possíveis consequências advindas delas.

Em princípio, todos os seres humanos devem ser tratados com respeito pelos demais.

Mas não é justificável que se exija de todos considerar sagrado o que outros assim julgam. O direito à liberdade de expressão também é um valor que pode ser defendido do ponto de vista moral.

Quem abusa dele e provoca danos a indivíduos ou comunidades pode ser processado na forma da lei e punido, quando considerado culpado. Mas muito mais complicado é arguir que Estados ou igrejas tenham poder para impedir que alguém expresse opiniões (ou as ouça ou assista) porque um contingente de devotos se sente ferido por elas.

Se assim for, e se essa condição se estender a todas as denominações religiosas (por que seria admissível que algumas gozassem de tal privilégio e outras não?), a vastidão de temas proibidos seria enorme.
David Koresh, que morreu em 1993 com 82 de seus discípulos da seita Ramo Davidiano, no Texas, mereceria esse tipo de proteção?

E o reverendo Jim Jones, que em 1978 comandou o suicídio em massa de 918 adeptos de seu Templo dos Povos, na Guiana?

A bandeira nacional é sagrada para muitos. Nos Estados Unidos, já se tentou proibir que ela fosse insultada; o regime militar brasileiro punia quem, a seu juízo, a injuriasse, por exemplo, enrolando-se nela num show. Isso seria defensável sob o argumento de que o sagrado não pode ser ofendido?

A Igreja Católica tem o direito de condenar ao inferno a alma de Jean-Luc Godard por se sentir incomodada com o filme "Eu Vos Saúdo, Maria", que considerou blasfemo. Mas o Estado não tem o direito de proibir sua exibição, embora o brasileiro o tenha feito brevemente em 1985.

Quem decide o que é blasfêmia contra quem? Quem tem o poder de resolver o que a sociedade pode ou não assistir? Quem separa o que é maluquice do que é sério? Quem define o que pode ser objeto de humor e o que não pode? Quem classifica o que é engraçado e o que é chulo?

Quando qualquer pessoa pode colocar em redes de comunicação mensagens acessíveis a milhões de outras, é possível ou desejável impor limites prévios para impedir que alguns grupos sociais sofram com o que é divulgado nessas redes?

Se "A Inocências dos Muçulmanos" não tivesse servido de pretexto para nenhum incidente ou morte, ele poderia ter ficado indefinidamente no YouTube, como provavelmente estão agora centenas de outros produtos similares ou muito piores?

Quem vai checar tudo nas redes para identificar o que pode, a seu critério, irritar xiitas, pentescostais, judeus ortodoxos, ateus, nacionalistas, e proibir sua divulgação? Ou só o que causar protestos será proibido?

É muito mais complicado hoje do que até 30 anos atrás prevenir a disseminação de conteúdo infame. É difícil imaginar, por exemplo, que rede de TV como BBC ou CBS colocasse no ar um filme de má qualidade e degradante como este.

Jornalistas profissionais construíram ao longo de décadas um acervo de conceitos, práticas e princípios que diminui a possibilidade de ocorrência de episódios como este. Nas mídias sociais, esta cultura ainda não existe, e talvez nunca exista, devido à infinidade de emissores.

Tentar combater essa dificuldade com censura estatal ou eclesial a tudo que possa sensibilizar uma comunidade religiosa não é solução para o problema e criará muitos outros, mais graves, para a sociedade, em prejuízo especialmente de minorias e despoderados.

CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA, 59, jornalista, é editor da revista "Política Externa" e autor de "Correspondente Internacional" (Contexto). Foi secretário de redação e ombudsman da Folha


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Mateus Soares de Azevedo


SIM


Quando o objetivo é só chamar a atenção


Não era incomum encontrar, até recentemente, declarações de renomados arabistas sobre a desinformação quase total do público ocidental acerca do islã. O britânico William Stoddart é um deles. Em um livro de 1976, escreveu que o islã era o mundo desconhecido. De lá para cá, muita água correu debaixo da ponte, mas o islã segue desconhecido.

Tendo estudado o assunto por duas décadas, sou levado a concordar com o diagnóstico. Eu acrescentaria que se antes o desconhecimento podia ser considerado inocente, derivado de mera falta de informação, a ignorância de nossos dias não pode.

Ela resulta menos da simples falta de informação do que de opiniões interessadas, truncadas e parciais. Resulta também, às vezes, de material provocativo e irresponsável.

Esse me parece ser o caso do "filme" "Inocência dos Muçulmanos" e das caricaturas do "Pasquim do Carlinhos" francês ("Charlie Hebdô"). O intuito é causar o maior escândalo e turbulência possíveis, atraindo assim atenção para este ou aquele autor ou publicação, além de alguns trocados na conta bancária dos envolvidos.

Qual a contribuição real que este gênero de insulto à religião, seus símbolos e figuras traz para a compreensão do problema?

Uma coisa é criticar de maneira objetiva este ou aquele aspecto do mundo islâmico, ou de outro universo religioso, outra bem diferente é denegrir ou escandalizar gratuitamente com propósitos interessados. Desde quando insulto aos referenciais tradicionais, de qualquer povo que seja, é liberdade de imprensa?

Frequentemente se esquece que não se está lidando com um time de futebol ou uma escola de samba -nenhum demérito aqui-, mas de uma das grandes civilizações da humanidade. Com um conjunto de princípios e valores em torno do qual gira, já por 1.500 anos, a vida e a morte de 1,6 bilhão de seres humanos.

Ao longo de sua milenária existência, o islã trouxe aportes relevantes para a própria civilização ocidental, em praticamente todos os campos de atividade humana. Na filosofia, teologia, espiritualidade, matemática, astronomia, medicina, navegação, arquitetura etc.

E essa civilização emergiu, praticamente do nada, fulminantemente, por assim dizer, graças às visões e inspirações recebidas por um indivíduo chamado Maomé. Ora, surpreende que alguns muçulmanos, que devem tudo o que são e têm ao que o profeta lhes ensinou, se revoltem?

Se, no Ocidente, as antigas sabedorias e as espiritualidades tradicionais não são mais consideradas, se muitos renegam seu patrimônio cristão tradicional, isso não vale para a maioria da humanidade contemporânea. Na Índia, com seus 1,2 bilhão de habitantes, a esmagadora maioria continua praticando a tradição de seus ancestrais. No Extremo Oriente, o mesmo se dá com budistas, taoístas e confucionistas.

Outro aspecto da questão: a "fúria" não envolve a maioria da população islâmica em 50 países.

É uma minoria, manipulável por grupos extremistas, que reage de forma fanática. A maioria não aprova as "liberdades" tomadas com seu profeta, mas não crê que incendiar automóveis ou linchar embaixadores seja uma boa resposta. Ao passo que manifestações pela Primavera Árabe movimentaram dezenas ou centenas de milhares, as contra o filme não mobilizaram mais que centenas de pessoas. Isso certamente diz algo sobre o problema.

Finalmente, não sejamos hipócritas. Nenhum governo ou veículo de imprensa ocidental permite que tudo e qualquer coisa seja publicado. A editora da revista francesa que exibiu fotografias da duquesa de Cambridge -nem os tabloides britânicos o fizeram- foi ameaçada de morte. Só os muçulmanos são fanáticos?

A ideologia da "liberdade de expressão absoluta" me parece uma "religião" política. É uma forma de idolatria, como o culto de um ídolo, um "bezerro de ouro".

MATEUS SOARES DE AZEVEDO, 53, mestre em história das religiões pela USP, é autor de "Homens de um Livro Só: o Fundamentalismo no Islã, no Cristianismo e no Pensamento Moderno" (Record), entre outros

FOLHA DE S.PAULO
29/09/2012

Ficção e realidade - SÉRGIO TELLES

Coleman Silk, um professor universitário norte-americano, constatando que dois alunos faltam sistematicamente a suas aulas a ponto de jamais tê-los visto, pergunta à classe quem são aqueles spooks (fantasmas) que nunca apareciam. Como os dois alunos eram negros, a irônica e descompromissada pergunta do professor foi entendida pelos ativistas do campus como uma manifestação de racismo por parte do professor, pois a palavra spook tem um outro significado fortemente ofensivo para os afrodescendentes. O simples incidente letivo é transformado num evento político, destruindo a vida pessoal e profissional do professor.

A história prossegue, adquirindo tinturas de tragédia grega. O professor tinha um segredo desconhecido por todos que termina por ser revelado. Filho de negros, ele se fizera passar por judeu e branco, pois assim o permitia a cor de sua pele. Então, o que parecia ser uma acusação injusta e despropositada, fruto de radicalismos políticos, transforma-se na punição do destino a um filho que renegou os pais e sua origem e assumiu uma identidade falsa. Em linhas gerais, essa é a trama de A Marca Humana (The Human Stain), de Philip Roth (Companhia das Letras).

Importantes críticos e resenhadores norte-americanos pensaram que Coleman Silk, o personagem de Roth, teria sido inspirado na vida de Anatole Broyard, respeitado jornalista literário e figura de relevo no mundo intelectual nova-iorquino nos anos 60 e 70, que tinha uma história semelhante, era um negro que se fazia passar por branco.

Tais dados foram publicados pela Wikipedia no verbete sobre o livro. Roth solicitou a correção da informação, declarando que construíra seu personagem baseado em episódios da vida de um amigo, Melvin Tumin, que fora professor de direito em Princeton por 30 anos. A Wikipedia não aceitou a explicação de Roth, alegando que o fato de ser o autor não lhe dava a última palavra sobre o assunto e que ele deveria procurar depoimentos de terceiros que o apoiassem. Inconformado, Roth escreveu no último dia 7 uma carta aberta ao New York Times, falando sobre o assunto.

À primeira vista, poderia parecer que não importa se a crítica atribui tal ou qual origem para os personagens fictícios de uma obra, e não se entende por que Roth se preocupa tanto com o assunto. De fato, para o leitor comum, não interessa saber se o personagem Coleman Silk foi baseado na vida de Tumin ou Broyard. Sua apreciação do romance não depende disso e sim do talento com o qual Roth construiu seu personagem. Mas ao se especular sobre as fontes de um romance, entram em cena importantes questões literárias sobre o ato da escrita, o poder do autor sobre sua obra, os processos da criação e a relação entre realidade e ficção.

Em sua longa carta, Roth diz que não poderia ter-se inspirado em Broyard, pois só o conhecia superficialmente, o que não acontecia com Tumin, de quem era íntimo. Esse é um argumento pouco convincente, que só se sustentaria se estivesse escrevendo uma biografia, na qual é imprescindível a pesquisa dos dados históricos reais, objetivos. Na ficção, o que vale é a verossimilhança, não a verdade fática. Frequentemente os personagens nascem de uma colagem de características de vários modelos reais, a que o escritor acrescenta elementos a partir de sua imaginação, dando-lhe a feição final.

Parece-me que a Wikipedia está correta em contestar a soberana autoridade que Roth arroga para si como autor ao falar de seu livro. O autor não pode controlar a leitura de sua obra, estabelecer o que dela pode se depreender, o que deve ser entendido. O texto jamais será fiel aos limites por ele fixados, dirá sempre mais ou menos do que seu criador pretendia, pois para produzi-lo lançou mão de recursos conscientes e inconscientes. Isso significa que o próprio autor não tem domínio absoluto sobre o que escreve, pode expressar inadvertidamente elementos que só serão detectados por um terceiro (criptomnésias, apropriações involuntárias de histórias, trechos, estilos de outros escritores, etc.), como costuma ocorrer com os conteúdos inconscientes no discurso - os atos falhos e lapsos são percebidos pelo outro, não por quem os comete.

É evidente que o autor sabe das fontes conscientes que o inspiraram. O problema é que ele vai reconhecê-las ou não publicamente em função de um complicado contexto, pois está em jogo o que talvez seja o elemento mais delicado da criação literária - a complexa mistura de elementos da realidade com a imaginação criativa do escritor, fusão da qual resulta algo único e novo, um texto original.

O escritor é um saqueador de histórias. Mas, ao contrário do paparazzo ou do colunista de fofocas de celebridades, não tem como objetivo precípuo a exposição da privacidade alheia, não faz da indiscrição maldosa sua meta. Na banalidade ou estranheza das histórias que recolhe, ele consegue divisar um filão secreto - o veio sagrado da vida, do sinuoso movimento do tempo, das forças maiores que se abatem sobre a fragilidade do homem, e a partir daí cria uma peça que dá testemunho do inefável acontecimento da existência.

Sobre o fato aparentemente estranho, de que Melvin Tumin e Anatole Broyard compartilhassem uma história tão inusitada, é fácil de entender. Naquela ocasião, não eram os únicos a se encontrarem nessa difícil posição. Durante a 2.ª Guerra Mundial, as forças armadas norte-americanas mantinham uma rígida divisão racial e muitos negros de pele clara alistaram-se como brancos, usufruindo regalias negadas a soldados negros. No final da guerra, não quiseram retomar a condição social inferior à qual a segregação os relegava e mantiveram a falsa identidade. Calcula-se que cerca de 150 mil homens fizeram tal escolha, rompendo de forma completa com o passado e a família, iniciando vida nova numa condição que seguramente lhes cobrava um insuportável custo emocional. Esse fato bem revela a amplitude do problema e a rigidez do racismo norte-americano no período anterior à luta pelos direitos civis.

Quanto à carta de Roth, a Wikipedia incorporou no verbete sua argumentação, juntamente com os comentários da filha de Broyard sobre a mesma, contestando a afirmação que Roth faz de nunca ter ido à casa de seu pai, pois se lembra de tê-lo visto ali, quando criança. Mesmo assim, reconhece-lhe o direito, enquanto autor, de ocultar suas fontes, se, por razões particulares, assim o preferir.


ESTADÃO

29/09/2012

sábado, 25 de agosto de 2012

Coletânea mostra pesadelos e obsessões de Philip K. Dick

"Realidades Adaptadas" traz histórias que foram transpostas para o cinema

BRAULIO TAVARES
ESPECIAL PARA A FOLHA


O editor David Hartwell disse uma vez que qualquer livro de Philip K. Dick pode servir de porta de entrada para sua obra, porque Dick está inteiro em cada um dos seus livros, com a sua maneira única de escrever e a sua visão peculiar da realidade. Dick (1928-1982) foi um escritor obcecado por meia dúzia de temas filosóficos, políticos, científicos.

Se começasse a escrever qualquer história, fosse uma história sobre colônias espaciais, sobre donas de casa regando o jardim ou sobre soldados em guerra, cedo ou tarde estaria falando sobre líderes messiânicos, perda de identidade, a distinção entre homem e máquina.

Isso também se observa nos seus contos curtos, que decolam das situações iniciais mais improváveis mas acabam sempre sobrevoando o mesmo território.

A editora Aleph reuniu em um volume as histórias curtas de Dick que foram adaptadas para o cinema.
Ficam de fora os romances adaptados, como, por exemplo, "Do Androids Dream of Electric Sheep?" (1968), que resultou em "Blade Runner" (1982), e "A Scanner Darkly" (1977), adaptado como "O Homem Duplo" (2006).

Um dos temas preferidos do autor era o da possibilidade de calcular as probabilidades de ocorrência de diferentes variantes do futuro. Seus precogs, mutantes com essa capacidade, aparecem aqui em "O Relatório Minoritário" e "Segunda Variedade".

São precursores dos romances de William Gibson e seus heróis capazes de observar uma quantidade espantosa de dados e indicar tendências, sem saber, no entanto como o fazem.

LABIRINTO

Em "O Pagamento", Dick antecipa os videogames onde o jogador reúne objetos cuja função só será descoberta nos momentos de perigo.

Elementos da Guerra Fria estão presentes em "Equipe de Ajuste" (uma metáfora das manipulações dos governos) e "Segunda Variedade" (em que russos e androides são equiparados).
Stanislaw Lem, o autor de "Solaris", disse que, ao contrário de outros autores, Dick não se comporta como um guia que conduz o leitor dentro do romance; ele parece estar igualmente perdido no labirinto. Suas histórias têm um começo espantoso e um final desconcertante.

É como se o ato de escrevê-las fosse abrindo janelas em sua mente e revelando outras cenas, outras situações.

Cada história sua é o pesadelo de um sujeito que se vê diante de coisas impossíveis e precisa inventar uma explicação do Universo que inclua ele próprio e aquele fato.

BRAULIO TAVARES é escritor e compositor. Publica no blog Mundo Fantasmo (mundofantasmo.blogspot.com)

REALIDADES ADAPTADAS
AUTOR Philip K. Dick
EDITORA Aleph
TRADUÇÃO Ludimila Hashimoto
QUANTO R$ 48 (304 págs.)
AVALIAÇÃO bom




FOLHA DE S.PAULO
25/08/2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Mídia, a opinião pública e o controle de armas

Após o tiroteio que deixou 12 mortos em um cinema de Aurora, no estado americano do Colorado, em 20 de julho, alguns jornalistas distorceram a opinião pública para prever que o massacre não terá impacto no debate sobre a prevenção da violência por armas, afirma Matt Gertz em artigo no Media Matters [23/7/12]. A realidade é outra, diz ele, com pesquisas indicando apoio público para uma gama de restrições mais fortes, incluindo a volta da proibição de armas de ataque de curto alcance – o que poderia ter evitado a compra legal de pelo menos uma das armas do atirador.
Chris Cillizza, do Washington Post, deu início ao debate com um artigo publicado na manhã seguinte à tragédia, com o título: “Por que o tiroteio de Aurora provavelmente não irá mudar o debate sobre o controle de armas”. “O tiroteio fará pouco para mudar o sentimento público em relação ao controle de armas. Em 1990, quase oito em dez americanos disseram que as leis referentes à venda de armas deveriam ser mais rígidas, enquanto apenas 10% disseram que elas poderiam ser menos rígidas ou mantidas do jeito que são. Em 2010, estes números mudaram rapidamente para 54% preferindo leis menos rígidas ou sem mudanças e 44% acreditando que as leis deveriam ser mais rígidas”, escreveu.
Na semana passada, a alegação de que os americanos não apoiam leis mais duras referentes a armas era recorrente nos talk shows matutinos. Números semelhantes aos apresentados por Cillizza foram divulgados pelos apresentadores do Face the Nation, da CBS, e também do Fox News Sunday. Outros jornalistas usaram análises de eleições passadas para sugerir que o público condenaria membros do Congresso que apoiam o controle de armas. Os analistas políticos Bob Shrum, Evan Bayh e Steve Schmidt chegaram a afirmar nos programasMeet the Press, da NBC, e Fox News Sunday que a perda de assentos democratas no Congresso durante as eleições intermediárias de 1994 ocorreu devido ao apoio à legislação de controle de armas na administração anterior.
O editor colaborador da revista American Prospect, Paul Waldman, desconstruiu esta alegação, afirmando que o endosso da Associação Nacional de Rifles representou apenas dois pontos percentuais favorecendo os rivais republicanos e nada para os democratas, e que apenas 12 concorrentes do Partido Republicano venceram as eleições naquele ano por uma margem de quatro pontos ou menos. Como os republicanos ficaram com 54 assentos, parece claro que a questão das armas, sozinha, não foi a causa do menor número de assentos.
No artigo no Post, Cillizza ignora, ainda, que o tiroteiro na Universidade Virginia Tech, em 2007, gerou, pela primeira vez em décadas, a aprovação de leis de prevenção à violência por armas. Dias depois do ataque, democratas do Congresso e a Associação Nacional de Rifles estavam trabalhando juntos em uma legislação para fortalecer o sistema nacional para evitar que pessoas mentalmente doentes comprassem armas. A proposta foi efetivamente transformada em lei em janeiro de 2008. Segundo uma pesquisa de 2011, 89% dos entrevistados apoiam esta lei.
A favor de leis mais rígidas
Se o Congresso não se mobilizar por esta nova tragédia para aprovar leis de prevenção à violência por armas, não será porque os americanos se opõem a tais medidas. Na verdade, outras pesquisas indicam que eles apoiam a aprovação de uma série de novas leis de vendas de armas, mais firmes.
O apetite do público por leis mais fortes inclui o apoio de mais de três em cinco pessoas para restabelecer a proibição nacional sobre armas de curto alcance, que expirou em 2004. Uma das armas usadas pelo atirador do cinema em Aurora era um rifle estilo AR-15 semiautomático, que, se houvesse a lei, não poderia ter sido comprado. Membros da Câmara e do Senado pediram para que a lei voltasse a valer, após o tiroteio – o que é apoiado por 62% dos americanos, incluindo 61% de independentes e 49% de republicanos, segundo uma pesquisa da revista Time de junho de 2011.
Pesquisas recentes indicam que muitas outras leis a favor da prevenção da violência por armas têm apoio público: 86% apoiam que seja necessário que compradores de armas passem por uma análise criminal; 69% apoiam limitar o número de armas que uma pessoa possa comprar em um determinado período de tempo; 66% querem que proprietários registrem suas armas; 88% querem que os que estão na lista de supostos terroristas sejam proibidos de comprar armas.

31/07/2012 na edição 705
Tradução: Larriza Thurler (edição de Leticia Nunes)
Observatório da Imprensa

Luis Fernando VERISSIMO - Celebração

Caiu muita coisa do céu no espetáculo de inauguração da olimpíada de Londres: as argolas olímpicas incandescentes, várias Mary Poppins – e a rainha, de paraquedas. Está certo, não era a rainha e sim um fac-símile razoável, mas Elizabeth se prestou a participar da encenação e só cedeu seu papel a um dublê na hora do salto, apesar da insistência do príncipe Charles para que ela mesmo se atirasse.

De qualquer jeito foi admirável ver a rainha incluída numa seleção de ícones britânicos – Shakespeare, Beatles, 007 – feita sem distinção entre o pop e o solene. Tudo que era solidamente inglês se integrava no espetáculo, fosse a rainha ou o Mr. Bean.

Imagino que a primeira decisão de quem organiza uma festa como a da inauguração da olimpíada ou de evento similar como uma Copa do Mundo deva ser entre celebrar o país que faz a festa ou o chamado espírito olímpico, de congraçamento entre os povos acima de fronteiras e identidades nacionais, etc., etc.

Os ingleses decidiram ser ingleses ao ponto de ostentação. Nada de espírito olímpico, o festejado, e bem festejado, foi o espírito nacional. Mas não foi uma celebração acrítica. Mostraram a revolução industrial que começou na Inglaterra e mudou o mundo e ao mesmo tempo – com aquelas espantosas chaminés brotando do chão para espalhar a fuligem por campos outrora verdes e pastorais – as consequências das sombrias usinas satânicas, as dark satanic mills do poema de William Blake, na vida das pessoas.

E não deixou de haver política na apresentação. Não havia muita razão para aquele longo segmento dedicado ao serviço nacional de saúde, o plano de assistência médica universal posto em prática pelos trabalhistas que nenhum governo conservador ousou tocar, a não ser como um recado para o atual governo conservador. Como medida de austeridade para enfrentar a crise o governo Cameron está cortando benefícios sociais com um entusiasmo inédito desde os tempos da sra. Thatcher e sua machadinha impiedosa.

O show das enfermeiras dançantes e das crianças bem tratadas foi para lembrar que o National Health Service é uma instituição inglesa tão digna de ser celebrada quanto as outras – e quem se atrever a mudá-la terá que se entender com a Mary Poppins.
ZERO HORA
ESTADÃO
O GLOBO
02/08/2012 

O oráculo americano

O oráculo americano

DE SÃO PAULO


O escritor, ensaísta, roteirista e dramaturgo norte-americano Eugene Luther Gore Vidal morreu na madrugada de ontem, em casa, em Los Angeles (EUA), aos 86. Ele estava com pneumonia.

Autor de 25 romances, dois livros de memórias, oito peças de teatro e centenas de ensaios, Vidal alimentou com gosto a persona do intelectual público, midiático e ávido pela controvérsia.

Como escritor, dedicou-se sobretudo aos romances históricos e de costumes. No cinema, colaborou com roteiros de filmes como "Ben Hur" (1959). Mas foi no papel de ensaísta político que o autor construiu seu prestígio.

"Gore é um homem sem inconsciente", dizia o escritor italiano Italo Calvino, sobre a lucidez do intelectual.

São dele as mais perspicazes observações sobre o declínio do império americano, que Gore Vidal dizia "estar apodrecendo em ritmo fúnebre", sobretudo pela afeição ao militarismo.

Liderou críticas à política internacional norte-americana no período das guerras do Vietnã e do Iraque. Classificou o ex-presidente George W. Bush como "o homem mais estúpido dos Estados Unidos". Também criticou o tratamento dispensado por Israel aos palestinos.

Após o 11 de Setembro, acusou o governo dos EUA de levar os ataques "para dentro de casa", com diplomacia que considerava equivocada.
 
MONTAIGNE

Pela destreza com que aprofundava temas políticos e refletia sobre as transformações da sociedade no pós-guerra, foi chamado de "uma versão americana de Montaigne". Fazia jus à comparação escrevendo com propriedade, humor e finas provocações intelectuais.

De origem aristocrática e neto do senador Thomas P. Gore (1870-1949) -para quem lia na infância, dada a cegueira do avô-, candidatou-se duas vezes ao Congresso. Derrotado, voltou à trincheira da reflexão política.

"Vidal é um dos raros seres civilizados que restam no nosso mundo", sentenciou Paulo Francis, em artigo publicado na Folha em setembro de 1980.

Também se destacou pela militância sexual. Com o livro "A Cidade e o Pilar", de 1948, causou furor por narrar um romance entre dois homens.

Já em "Palimpsesto", contou ter se relacionado com mais de mil homens e mulheres até os 25 anos.
Mas, com o ex-executivo Howard Austen, morto em 2003, Gore Vidal manteve um relacionamento de 55 anos. O segredo da longevidade da relação, segundo ele, era nunca terem dormido juntos.
Doente, fez a última aparição em 2009, quando ganhou o National Book Awards.

Análise ensaios

Versátil, Gore Vidal passa à história como bom ensaísta


Premiado, escritor se via como sucessor de Edmund Wilson
 
MARIO CESAR CARVALHO
DE SÃO PAULO


Gore Vidal (1935-2012) foi escritor, dramaturgo, roteirista de cinema, político e jornalista, mas deve passar para a histórica como ensaísta.

É a parte menos perecível de sua obra, segundo a crítica americana.

Sua obsessão era interpretar o império americano, principalmente numa época em que a ideia de nação caminhava para o ofuscamento, de acordo com o escritor.

Não foi à toa que Vidal ganhou o National Book Awards, um dos principais prêmios norte-americanos, por "United States Essays 1952-1992", uma coletânea de 1.300 páginas e 140 textos jamais editada no Brasil.

A Segunda Guerra Mundial, da qual participara no Pacífico Sul, dera a Vidal o tema de seu primeiro romance ("Williwaw", 1946) e a chave para a sua interpretação dos Estados Unidos.

Em 2006, no ensaio "American Empire", ele sintetizou o que achava dos EUA: "Truman e amigos aprenderam e nunca esqueceram uma importante lição: é por meio da guerra e da militarização que nos tornamos prósperos com pleno emprego".

Harry Truman (1884-1972) foi presidente logo após a Segunda Guerra (1945-1953) e forjou a Guerra Fria -a divisão do mundo entre dois impérios: os EUA (capitalista) e a União Soviética (comunista)-, impulsionada por gastos militares crescentes.

Ele achava que Franklin Roosevelt (1882-1945), presidente entre 1933 e 1945, tinha provocado os japoneses a atacar Pearl Harbor com o objetivo de criar uma guerra e impulsionar a economia, como diz no documentário "Why We Fight" (Por que Nós Lutamos), de 2005. Com o ataque, em 1941, os EUA passam a investir pesadamente em armas e tornam-se dependentes dessa indústria para crescer.
Vidal dizia que nascia ali a nova perversão da democracia americana: cobrar muitos impostos dos civis e muito pouco das corporações.

Essa visão belicosa da história tem raízes familiares. O pai de Vidal era professor de aeronáutica da Academia de West Pont, a mais prestigiosa dos EUA, e o próprio escritor estudara engenharia aeronáutica na Universidade Harvard, em 1943.

Vidal não fazia segredo que fora em Harvard que havia forjado a sua visão da história. "Eu trabalho com ideias que formei em Harvard anos atrás. Eu não tenho uma ideia real desde que entrei nisso", disse, com um misto de sinceridade chocante e autopromoção calculada.

Nos ensaios, Vidal se via como um continuador de Edmund Wilson (1895-1972), um dos maiores ensaístas norte-americanos.

Era uma maneira nada sutil de se incluir entre os maiorais.

Atraso e feijoada despertaram ira do autor no Brasil
 
DE SÃO PAULO


Em março de 1987, Gore Vidal desembarcou no Brasil a convite da editora Companhia das Letras, da Unicamp e da Folha.

O escritor veio da Itália com seu companheiro, Howard Austen.
Para aceitar o convite, ele exigiu passagens de primeira classe, estadias em hotéis de luxo e festas de recepção.

Os incidentes ocorridos durante a visita de Vidal são narrados em dois divertidos textos que o editor Luiz Schwarcz publicou no blog da Companhia.

As confusões (e a ira do autor) começaram já no aeroporto, quando problemas de conexão no Rio atrasaram o desembarque em São Paulo em algumas horas.

Pouco depois, na entrevista coletiva no hotel Ca' D' Oro, Vidal irritou os jornalistas com seu costumeiro estilo mordaz. "Eu vim aqui como emissário secreto do FMI", ironizou à época.
Ele deu palestra na Folha no dia 23. Depois do evento, o então repórter do jornal Nelson Ascher enfureceu Vidal ao defini-lo como "o mestre das gags prontas".

Vidal também teve problemas com a culinária. Depois de experimentar uma feijoada pela primeira vez, numa recepção feita em um sítio, o escritor passou um bom tempo no banheiro.

Análise romances


Obra semeia dúvidas férteis sobre a história de um império
 
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA


A série que Gore Vidal produziu sob o título de "Narrativas do Império" é um desafio radical e inteligente aos lugares-comuns que marcam as referências à história dos EUA.
Ela é composta por sete volumes que cobrem a vida política e social do nascimento da nação até o fim do chamado "século americano", o 20.

Infelizmente, não alcançou o período posterior aos atentados de 11 de setembro de 2001 e à crise do "subprime", com suas consequências, quando se vivencia o declínio relativo do "império".

Em todos os livros ("Burr", "Lincoln", "1876", "Império", "Hollywood", "Washington, DC" e "A Era Dourada"), sobressaem seu ceticismo e senso crítico agudo -ambos fora da curva de entendimento que os próprios americanos têm de si mesmos.

Além de colocar em questão, saudavelmente, as presunções de grandeza e correção política da vida nacional americana, eles trazem ao leitor de qualquer nacionalidade um problema essencial da história: é possível recuperar a verdade do que ocorreu no passado e, caso não seja, como Vidal indicava, como escolher versões da história "mais verdadeiras"?

O que se depreende dessa leitura é que Vidal optou por releituras dos fatos que ampliassem ao máximo perguntas sobre o que é estabelecido como oficial, com o objetivo de despertar consciência.

Embora não tenha sido um historiador (foi basicamente um autodidata), Vidal fez muita pesquisa para escrever seus romances históricos e se engajou em combates com os profissionais da área em defesa de várias de suas muito controvertidas teses, como a de que o presidente Abraham Lincoln sofria de sífilis.

Apesar da disposição para o embate sobre a acuidade de seus relatos históricos (para qualquer tipo de embate, de fato), Vidal provavelmente pouco se importava com ela: o que lhe interessava era desafiar certezas estéreis e semear dúvidas férteis.
 
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é editor da revista "Política Externa" e autor de "Correspondente Internacional"

Análise vida pública

Porta-voz da autocrítica americana, intelectual deplorava intervencionismo
 
ALEXANDRE VIDAL PORTO
ESPECIAL PARA A FOLHA


Gore Vidal tinha tudo para ser presidente dos Estados Unidos: ambição, carisma e contatos.
Desde criança, interessava-se por história e, durante a adolescência, lia regularmente para o avô cego que cumpria mandato como senador do Partido Democrata.

Suas leituras favoritas eram a Constituição americana e a Declaração dos Direitos dos Cidadãos.
Nessas leituras, Vidal travou contato com a descrição de uma América modelar, fundada em princípios ideais de igualdade e justiça social.

Aos 17 anos, em 1942, alistou-se no exército. Aos 20, iniciou uma precoce e bem recebida carreira literária.

No entanto, na publicação de seu terceiro livro, "A Cidade e O Pilar" (1948), deu-se conta de que a América idealizada que aprendera com o avô não existiria para ele e jamais lhe pertenceria.
"A Cidade e O Pilar" conta a história de Jim Willard e sua descoberta e autoaceitação como homossexual.

O livro lhe deu fama, mas estigmatizou-o e causou seu banimento dos suplementos literários de jornais como o New York Times, onde foi barrado durante anos. Mais que isso, a identificação de Gore Vidal como homossexual inviabilizou as possibilidades de sua carreira política.

Ele se candidatou a deputado por Nova York em 1960 e a senador pela Califórnia em 1982, mas não se elegeu.

A América de oportunidades iguais para todos não existia para um homossexual como ele. Haveria, portanto, de contruí-las. Passou a vida comportando-se como se tivesse um papel presidencial a desempenhar na formação de seu país.

Tornou-se o intelectual público, com opiniões sobre todos os temas da agenda política e social americana e as expressava com elegância, inteligência e argúcia. Tornou-se uma espécie de porta-voz da autocrítca nacional.

Assumiu as funções de cronista do que identificava como o processo de degradação americana. Enxergava os EUA conduzidos por presidentes ineptos e com uma população politicamente ignorante e desinteressada. Antes de morrer, previa que ainda se instalaria uma ditadura militar no país.
Ao "Paris Review" declarou que "esperava viver suficiente para ver uma democracia sexual na América".

Criticou todos os presidentes americanos sob os quais viveu, especialmente os republicanos Ronald Reagan e George W. Bush, que detestava.

Deplorava o intervencionismo americano e afirmou à revista "Vanity Fair" que os ataques de 11 de setembro eram consequência da política externa imperialista dos EUA no Oriente Médio.
Ainda assim, é possível dizer que Vidal amava os EUA profundamente e que dedicou a vida a apontar caminhos para sua restauração.

Ele minimizava a importância da homossexualidade em sua vida. Uma de suas frases mais citadas é: "não existem pessoas homossexuais, apenas atos homossexuais".

Ainda assim viveu com seu companheiro Howard Austen por décadas e, no primeiro volume de suas memórias, "Palimpsesto", afirma que jamais amou ninguém como a Jimmy Trimble, seu colega de escola com quem teve um envolvimento romântico e a quem dedicou "A Cidade e O Pilar", ao lado de quem, aliás, passará a eternidade, enterrado no cemitério de Rock Creek, em Washington.
 
ALEXANDRE VIDAL PORTO, 47, é mestre em direito por Harvard, diplomata e autor de "Matias na Cidade" (Record)
FOLHA DE S.PAULO
02/08/2012