Pesquisadores
anunciam descoberta de partícula compatível com as características do bóson de
Higgs. Procurada havia mais de 50 anos, a estrutura subatômica é responsável
pela formação da matéria
Max
Milliano Melo
Brasília
– Ele já recebeu vários apelidos: a partícula
de Deus, o anjo da criação ou o tijolo do universo. Todos os nomes – detestados
pelos cientistas – são para descrever uma intrigante partícula subatômica que,
há quase cinco décadas, vem desafiando pesquisadores, o bóson de Higgs.
Originada no big bang, evento que resultou no surgimento do universo, a
estrutura seria responsável por dar massa à matéria (daí os apelidos), mas nunca
teve sua existência experimentalmente comprovada. Cientistas do Centro Europeu
de Estudos Nucleares (Cern, na sigla em francês) anunciaram ontem que podem ter
finalmente encontrado a tão esquiva partícula. Em um anúncio que contou com a
presença do próprio Higgs, os cientistas disseram ter encontrado uma partícula
que provavelmente é o bóson de Higgs. Apesar da cautela, especialistas ouvidos
pelo Estado de Minas garantem que é improvável tratar-se de outra estrutura que
não a buscada há mais de 50 anosOs resultados
anunciados, baseados em observações de 2010 a 2012, são de uma estrutura
inédita. “Sabemos que deve ser um bóson e é o mais pesado já encontrado”,
anunciou Joe Incandela, o porta-voz do experimento CMS – um dos dois que, de
maneira independente, tentam encontrar a partícula. “As implicações são muito
importantes e é precisamente por essa razão que devemos ser extremamente
diligentes em todos os nossos estudos.”O tom de cautela
reside no fato de que, embora seja bastante difícil que a partícula não seja a
tão procurada, a sua descoberta será um dos anúncios mais importantes da ciência
nos últimos séculos. Superacelerador A
descoberta só foi possível graças ao maior, mais complexo e um dos mais caros
equipamentos científicos já projetados pelo homem, o Grande Colisor de Ádrons
(LHC, na sigla em inglês), um gigante enterrado entre a França e a Suíça. O
equipamento, conhecido popularmente como acelerador de partículas, lança feixes
de prótons ou íons em direções opostas, em um pequeno túnel circular. Quando se
chocam, as partículas liberam estruturas básicas de sua composição, que são
detectadas pelo equipamento. O grande desafio que duas equipes independentes –
Atlas e CMS – tiveram que vencer foi detectar exatamente a partícula-chave, uma
tarefa mais difícil do que encontrar um rosto amigo dentro de um estádio com
mais de 100 mil pessoas, conforme declarou o Cern.Caso a partícula
encontrada seja mesmo o bóson de Higgs, o Modelo Padrão de Partículas, teoria
que norteia os estudos da física, estará confirmado, já que todas as 31 demais
estruturas previstas no modelo já foram localizadas e observadas, sendo o bóson
a última peça do quebra-cabeça da organização da matéria. Se se tratar de uma
partícula não prevista no modelo vigente, os pesquisadores precisarão repensar
toda a forma como acreditam ser estruturada a matéria. A existência do
bóson de Higgs foi proposta em 1964 pelo físico britânico Peter Ware Higgs.
Segundo o modelo, existiria uma partícula subatômica – menor que o átomo – que
interagiria com as demais partículas existentes no universo. O resultado dessa
interação poderia ser novas partículas com massa, como é o caso da matéria; ou
sem massa, como ocorre com a luz. “Fazendo uma
analogia, é como se as partículas do universo estivessem dispostas em um
self-service. O bóson de Higgs é uma pessoa que enche diversos pratos com
variações na quantidade e disposição dos mesmos ingredientes disponíveis ali”,
explica o pesquisador do Instituto de Física da Universidade de Brasília Eduardo
do Couto e Silva.Em no máximo 12
meses, os pesquisadores deverão ter a resposta definitiva para a nova pergunta
que se abriu ontem. Seria mesmo e estrutura encontrada o bóson de Higgs? “Cada
tipo de partícula tem uma espécie de CPF, que é o número quântico que a difere
das demais. Os pesquisadores se dedicarão agora a analisar a estrutura
encontrada para confirmar se ela é mesmo a partícula de Higgs”, explica o físico
da UnB. “Embora seja possível, é muitíssimo improvável que não seja a
partícula.” O pesquisador do
Cern Rogerio Rosenfeld, que participa do estudo revolucionário, explica que,
embora os pesquisadores pretendam se aprofundar na questão, a partícula
detectada tem as características exatas previstas para a estrutura.“O LHC
funcionará até o fim do ano e deverá acumular pelo menos o dobro de dados que
tem agora, permitindo uma analise mais detalhada”, completa.Estratégia
comercialA origem do apelido
não se deve a um pesquisador, mas a uma editora de livros. Quando o vencedor do
Nobel de Física de 1988, Leon Lederman, terminou de escrever, em 1993, um livro
sobre o assunto, o nomeou como The Goddamn particle (algo como maldita
partícula) devido à dificuldade que os cientistas enfrentam para localizá-la.
Mas o editor achou o termo pouco impactante e sugeriu The God particle (A
partícula de Deus), termo do qual os cientistas nunca mais conseguiram se
livrar.Nobel
à vistaAlém de toda a
expectativa gerada pela demora na sua detecção, a função do bóson de Higgs, de
dar ou não matéria às estruturas do universo, torna a sua comprovação ainda mais
importante. “Pesquisas realizadas no Cern em 1989 resultaram na descoberta dop
bóson Z e fizeram com que os pesquisadores da organização vencessem o prêmio
Nobel de Física. A descoberta de ontem, se confirmada, será algo ainda maior e
mais importante, e provavelmente resultará em um Nobel para o centro”, opina
Eduardo do Couto e Silva, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de
Brasília.A opinião do
pesquisador brasileiro é a mesma do famoso físico norte-americano Stephen
Hawking. “Esse é um resultado importante e deveria dar a Peter Higgs o Prêmio
Nobel”, comentou ontem o pesquisador, em entrevista ao canal britânico BBC News.
O físico, que chegou a apostar com um colega que a partícula não seria
encontrada, comemorou os resultados, considerados por ele “revolucionários”.
“Mas, de certa forma, é uma pena porque os grandes avanços na física nascem de
experiências que deram resultados que não esperávamos. Por isso é que apostei
com Gordon Kane, da Universidade de Michigan, que a partícula de Higgs não seria
encontrada. Parece que acabei de perder US$ 100”, completou. (MMM)PALAVRA DE ESPECIALISTA » Triunfo
esplendoroso
Frank Wilczek
cientista dos EUA, vencedor do Nobel de Física em
2004
A declaração do Centro Europeu de
Estudos Nucleares de uma possível vitória na busca pela partícula de Higgs é um
triunfo de muitas formas esplendoroso. Caso se confirme (a existência do bóson),
concluiremos a confirmação do Modelo Padrão da Física Fundamental, trazendo uma
perspectiva nova e esplêndida da supersimetria e desmentindo teorias rivais.
Mais, fundamentalmente, reafirmará nossa fé científica de que a natureza
funciona de acordo com leis precisas, ainda humanamente compreensíveis e, o mais
importante, recompensa o nosso compromisso moral de testar nossas convicções de
forma rigorosa.
PERSONAGEM DA NOTíCIA » Volta
triunfante
peter higgs,
físico britânico
O físico britânico Peter Higgs
teve uma epifania genial em 1964 ao postular a existência de uma partícula
subatômica que se assemelha a uma espécie de cola onde as partículas ficariam
mais ou menos presas. A ideia resultou em um artigo científico, rejeitado pela
revista Physics Letters, na época editada pelo Centro Europeu de Estudos
Nucleares, organização que o recebeu ontem com aplausos para o esperado anúncio.
“Eu nunca imaginei que isso aconteceria comigo em vida”, disse, em um vídeo, o
tímido inglês de 83 anos que leva uma vida pacata na cidade de Edimburgo, onde
lecionou por muitos anos. Depois da rejeição inicial do Cern, uma segunda versão
mais elaborada do documento foi publicada nos EUA. “Ele é um homem com modos
muito suaves e educados, mas que se torna difícil se você disser algo errado no
campo da física”, disse à AFP Alan Walker, que se aposentou depois de trabalhar
com Higgs. Nascido em 29 de maio de 1929 em Newcastle, norte da Inglaterra,
Higgs tem um doutorado pelo King’s College de Londres, vários títulos honorários
e prêmios, e vem sendo citado como um possível candidato ao Prêmio Nobel. Ateu,
Higgs também não gosta da alcunha para esse bóson, a partícula de
Deus.
Estado de
Minas
05/07/2012