domingo, 20 de maio de 2012

Eliane Cantanhêde - Daqui a 50 anos

BRASÍLIA - Sabe-se tudo de Getúlio Vargas, mas ele continua sendo um desafio, 82 anos depois de ter chegado ao poder e 58 após a sua morte.

Personagem político mais biografado da história brasileira, ele não para de ser objeto de lançamentos, num grau crescente e desafiante de sofisticação e de detalhes.

Para citar três: "Os tempos de Getúlio Vargas", de José Carlos Mello, editora Topbooks, "Getúlio", de Lira Neto, Companhia das Letras, e "A Esfinge dos Pampas", de Richard Bourne, Geração Editorial.

Isso remete à força simbólica da imagem da primeira mulher presidente com os antecessores pós-1985 para a instalação da Comissão da Verdade e o início da Lei de Acesso à Informação. Momento histórico.

Sarney foi o abre-alas inesperado e atrapalhou-se na economia, mas deixou a redemocratização fluir.
Collor foi uma perplexidade, um episódio que a história ainda não mastigou e digeriu. Boi de piranha?
Itamar e Fernando Henrique patrocinaram o Real e FHC quebrou monopólios e tabus. Mudou o país.
Lula fez uma revolução social e tornou-se quase um novo Getúlio na adoração popular.

Dilma mantém a dinâmica do processo, tentando ser a síntese de tudo isso, mas fazendo correções.
Toda essa história, de 27 anos, é ainda sentida mais por corações, bolsos e corporativismos do que pela razão, pela realidade e pelo todo.

Talvez só daqui a 50 anos, visto sob perspectiva e por quem está por nascer, esse círculo virtuoso e seus percalços possam ser avaliados, escritos e vistos como eles são. (Lira Neto nasceu em 1963, nove anos após a morte de Getúlio.)

Será a hora, então, de ajustar uma balança desequilibrada entre a percepção de hoje sobre FHC e Lula. O melhor livro aliás, não será sobre um ou outro, mas o que retratar a realidade: FHC, Lula e Dilma fazem parte de um mesmo processo e, portanto, são capítulos da mesma obra.

elianec@uol.com.br
Folha de S.Paulo

A Charge nossa de cada dia - Pater

A ganância dos bancos - SACHA CALMON‏

Concedo que há muito preconceito no Brasil. A palavra diz tudo: pré-conceito. Antes de haver racionalidade conceitual, por uma marca emocional ou outra, por pura idiossincrasia, surge o preconceito. Há preconceito quanto a judeus (todo tipo de estereótipo vem a calhar). Vem de longe, dos jesuítas e da cultura católica. Há preconceito contra pobres, maçons, pretos, nordestinos, suburbanos, gays, mulheres, islamitas, e por aí vai. No campo econômico duas classes são malditas: usineiros e banqueiros. Nesses se pode baixar
o pau sem dó nem piedade. Nem por isso, com racionalidade, é vedado falar contra eles. É claro que a formação dos juros secundários depende de múltiplos fatores, entre eles o custo da capitação, os riscos, os depósitos compulsórios ordenados pelo Banco Central (BC), os financiamentos forçados, os índices de inadimplência, as despesas operacionais, etc.
 
Entretanto, o spread, ou a diferença entre o que o banco paga para ficar com o seu dinheiro rendendo (os depósitos são lastros gratuitos) e o que o ele cobra de quem lhe pede emprestado, é no Brasil, simplesmente, o mais elevado do mundo. Como o risco Brasil é nenhum e o governo paga regiamente os bancos para rolar a sua elevada dívida pública, Dilma desafiou-os a provar duas coisas: a primeira, explicar por que os juros bancários brasileiros (o mix todo) são os maiores do mundo; a segunda, declarar qual porcentual dentro do spread corresponde à margem de lucro previamente estabelecida.
 
Até agora a Federação Brasileira de bancos (Febraban)
não se pronunciou, dizendo apenas que qualquer governo pode levar cavalos até a beira do rio, mas não pode obrigá-los a beber água. Eu, sinceramente, não entendi a metáfora. Cheguei a pensar que em vez de cavalos talvez mulas ficassem melhor na frase. A defesa dos bancos tem sido feita por economistas tipo Maílson da Nóbrega e outros, por encomenda. Mas lógica e demonstrativos não aparecem. O máximo que dizem é tratarse de assunto complexo, à moda do conselheiro
Acácio, o senhor falante das coisas óbvias e redundantes, ditas com pompa e circunstância.
 
Agora com a taxa Selic baixando, descobrimos que não são apenas os bancos e financeiras que adoram juros. Os agentes econômicos do varejo também. Sempre ganharam com as prestações, daí a resposta irritante de o preço à vista ser o mesmo que o das “quatro prestações sem juros”.
 
Ninguém quer saber de concorrência nem de aumento da produtividade. O negócio é botar a margem de lucro lá em cima e fatiá-la em prestações. Como o brasileiro, como diz o outro, é um país grande e bobo, não queremos saber se a coisa vale ou não, desde que as prestações caibam nos bolsilhos. Noutras palavras, nos deixamos furtar, em vez de gritar “pega ladrão!”
 
Estão a pipocar na imprensa artigos e teses dizendo que os preços vão subir porque as prestações serão menores, comprovando o que estou a dizer. É o país das contradições. É a 6ª economia do mundo, mas é subdesenvolvido em tudo. Nossos preços estão inflacionados pela ganância dos juros, custos trabalhistas e tributação irracional. E todo mundo tem culpa no cartório: os bancos, os comerciantes, os sindicatos, o governo e nós mesmos, os tolos compradores.
 
Quanto aos banqueiros, Cláudio Gradilone nos deu conta (Isto é dinheiro de 21/3) do depoimento de Greg Smith ao jornal The New York Times, como ex-executivo do Goldman Sachs: “Já não pensamos mais em como atender nossos clientes, mas sim em como tirar o máximo de dinheiro deles o mais depressa possível.” Não se pode dizer que Greg Smith e seus juízos estão restritos a Wall Street ou à cidade londrina. Para lá da desregulamentação do setor e da podridão ética que levaram os bancos a gerar as grandes crises dos créditos
subprime, raiz dos problemas por que passam todos os países, o banqueiro é usurário e sem escrúpulos, no geral.
 
Sob a desculpa “do risco sistêmico”, receberam ajudas polpudas dos governos nacionais nos EUA e na Europa. Agora deixaram nas mãos do povo pagar as dívidas nacionais com recessão e desemprego nos países centrais. No Brasil recusam-se a reduzir as margens de lucros, “em nome dos acionistas”.
 
Sem medo de errar, são os principais responsáveis pela “cultura” dos altos preços praticados no Brasil. Somos um país de agiotas e de cidadãos de segunda classe, “fantoches” no dizer de Greg Smith. O modelo baseado no consumo massivo chegou ao fim. Agora é assim: mais crédito, mais inflação, mais juros! “Stop and go”. Não iremos a lugar nenhum. É como andar na esteira, não importa a velocidade.

Melhores momentos do Twitter

Tem jornalista pensando que seguir a notícia significa abrir uma conta no Twitter.

By @miller_ricardo

A Charge nossa de cada dia - Benett

O que move a História - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

Os pais de Adolph Hitler teriam sido aconselhados a levar o menino para uma consulta com um médico que estava revolucionando o tratamento de distúrbios mentais, em Viena. Mas decidiram que o que o Adolphinho fazia com insetos era normal para a idade dele e não procuraram o Dr. Freud. O resultado foi o que se viu.

Karl Kraus escreveu que a Viena do começo do século 20 era o campo de provas da destruição do mundo. A derrocada do império Austro-Húngaro foi o fim de um certo mundo, mas acho que Kraus quis dizer mais do que isto. Para ele, as revoluções do pensamento postas em movimento na Viena da sua época trariam o fim do longo dia do humanismo europeu que durara desde a Renascença, e o novo século restauraria a idade das trevas.

O encontro que não houve entre o intelectual judeu que radicalizou o estudo da consciência e o homem que quis eliminar as duas coisas, o judeu e a consciência, da História simboliza este prenúncio, ou esta intuição de Kraus, sobre o século. Seria fatalmente o século do desencontro entre as duas formas de modernidade, a que liberava o pensamento pela investigação científica e a que o aprisionava pelo mito do estado científico.

A questão é até onde coisas vagas como o clima intelectual de uma cidade, ou clínicas como a maluquice de alguém, influenciam a História, ou até que ponto uma boa terapia pediátrica teria evitado o Holocausto. A História teria sido diferente sem Hitler, ou com um Hitler no poder mas tratado por Freud? A ideia do nazismo como uma anomalia patológica, como coisa de loucos, é uma ficção conveniente que absolve boa parte da direita cristã europeia da sua cumplicidade.

Mas a ideia de um determinismo neutro, independente de qualquer escolha moral, também é assustadora. Precisamos de vilões mais do que de heróis, de culpados muito mais do que de inocentes. Nem que seja só para preservar o autorrespeito da espécie.

O materialismo histórico rejeita a ideia de sujeitos regendo a História e marxistas ortodoxos reagem a qualquer sugestão de que as ideias justas venham de um discernimento moral inato. Assim a História como um relato de mocinhos providenciais em guerra com bandidos doentes sobra para a literatura, ou essa categoria de ficção sentimental que é a História convencional.

Pois gostamos de pensar que é a iniciativa humana que move a História, e que o seu objetivo, mesmo que tarde, seja moral e justo, e que ela tenha uma cara e uma biografia. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

PAULO SANT’ANA - Sindicato dos ladrões

Os ladrões estão em toda parte. Por todos os locais, surgem os ladrões para nos roubar. A polícia não consegue conter os ladrões, eles são em maior número que os policiais. Por isso estou pedindo que se regulamente a profissão de ladrão, assim como é regulamentada a profissão de advogado e a de médico. Os ladrões vão ter de pagar contribuição previdenciária. Ladrão que pertencer a uma quadrilha terá a sua carteira de trabalho assinada pelo chefe da organização criminosa. Ladrão que atuar sozinho, sem participar de quadrilha, terá seu registro no Ministério do Trabalho e descontará a contribuição previdenciária como autônomo. Os ladrões terão direito a fundo de garantia e aposentadoria. Também poderão se hospitalizar mediante seguro de saúde. Será instituído o Dia Nacional do Ladrão, quando se escolherá um dos clubes mais tradicionais da fina sociedade de cada cidade para a realização de uma solenidade alusiva à data dos meliantes. Não será permitida a discriminação dos ladrões comuns em relação aos ladrões de colarinho branco. Não há diferença entre eles, são a mesma coisa, vivem às custas do povo. E, em última análise, eles se incorporaram tão profundamente ao meio social, que são também povo. Que fique claro que na minha proposta os ladrões (e todos os tipos de assaltantes) terão amplos direitos políticos: poderão se eleger vereadores, deputados e senadores, o que, afinal, como se tem visto, não mudará em nada. Os ladrões terão de formar uma fila de prioridade de atendimento nas agências bancárias, assim como as gestantes e os idosos, não podendo assaltar as agências antes de serem atendidos. Os ladrões poderão se sindicalizar e os sindicatos cuidarão de distribuí-los por todo o país, para que não haja a tentação de eles todos quererem residir em Brasília. Há uma vantagem, entre muitas, de se regulamentar a profissão de ladrão: quando o ladrão nos atacar nas ruas ou dentro de nossas próprias casas, ele nos mostrará a carteira de trabalho assinada e nós imediata e espontaneamente entregaremos a ele todos os nossos pertences, acabando, assim, com a ação violenta nos roubos. Quanto aos ladrões corruptos, isto é, os agentes públicos que ganham propina dos fornecedores e demais licitantes, será criado um imposto de 10% sobre as propinas arrecadadas, que será destinado ao atendimento de saúde no país, o que sem dúvida acabará com essa vergonha nacional dos doentes sem médicos, sem hospitais e sem medicamentos. Finalmente, acabará o uso da frase que mais os brasileiros pronunciam em todas as circunstâncias: “Isto é um roubo!”. Esta frase será substituída pelos brasileiros e ficará assim: “Isto é uma profissão regulamentada!”. Finalmente, serão criadas escolas para aprendizes de ladrão. E serão criadas universidades que formarão os bacharéis em roubo. Claro que não faltarão catedráticos para nelas lecionarem.